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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Ter | 26.04.22

Um pedaço do Douro

 

Nos seus 325 km em terras portuguesas, não faltam ao Douro motivos para o visitar com regularidade. As paisagens que ele oferece são sempre soberbas, e mesmo que já tenha passado várias vezes pelo mesmo lugar, ele nunca se mostra igual aos meus olhos.

 

Há uma estrada que acompanha grande parte do percurso do rio Douro: a N222. O seu troço entre Peso da Régua e o Pinhão foi considerado, através de fórmula matemática desenvolvida por uma conhecida empresa de rent-a-car, a melhor estrada do mundo para conduzir. Mas a N222 não pode nem deve ser resumida a estes icónicos 20 km. Há muito mais estrada – menos perfeita e com mais curvas, é certo, mas que corre entre panoramas igualmente inesquecíveis sobre o rio e desvenda alguns segredos ainda bem guardados. E é por estes caminhos que agora vamos passear.

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Dia 1

 

Este nosso encontro com o rio começa à distância, mas em grande. No local onde o Paiva desagua no Douro e confluem três distritos (Porto, Aveiro e Viseu), há uma ilha a que chamam dos Amores. O nome vem de uma lenda que envolve um camponês e uma fidalga, um amor contrariado, um assassínio e um afogamento – tragédia portuguesa do melhor, como não podia deixar de ser. A História é mais prosaica e chama-lhe ilha do Castelo, pois nela existem vestígios de uma torre medieval e outros ainda mais antigos, com vários milhares de anos. O melhor local para abraçar toda esta paisagem é o Miradouro de Catapeixe – que não fica na N222 mas sim na sua irmã N224, um curto desvio mais do que justificado pelas vistas que dele alcançamos: as curvas do Douro e o seu encontro com o Paiva, as arribas verdejantes riscadas pelos socalcos e pontilhadas pelo branco das casas, uma embarcação de cruzeiro ancorada e outra que se desloca em passeio, e a pequena ilha que é o centro das atenções. Nem o céu a ameaçar chuva rouba beleza a esta visão em cinemascope.

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Tomamos a N222 e percorremos uns bons quilómetros até que encontramos o desvio para Mourilhe e a seguir a indicação para o Parque de Lazer do Ribeiro de Sampaio. Aviso-vos já de que não estão preparados para o que nos espera. Ao lado da estrada, entre as árvores, um parque de merendas com mesas e bancos de madeira. Seguimos o som da água a cair. O ribeiro passa sobre um maciço granítico e despenha-se na forma de uma cascata abundante, para depois se acalmar subitamente e se transformar num espelho de água que vai fundir-se com o Douro mais à frente.

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Do outro lado da estrada há um percurso pedestre que acompanha o ribeiro encosta acima, entre grandes pedras cobertas de musgo e de humidade, árvores de todas as espécies, algumas altíssimas, fetos e folhas secas caídas no trilho de terra batida, e a água a correr em ziguezague e aos saltinhos sobre as rochas.

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Alguém pendurou um baloiço rudimentar na orla do ribeiro, que em época de calor será certamente menos caudaloso. O verde é a cor dominante, e nem as ruínas dos antigos moinhos escapam à cor. É a natureza em estado quase selvagem, e só os corrimãos de metal colocados nalguns pontos mais propensos a escorregadelas mostram que já houve ali intervenção humana. Mais acima, outra queda de água mais vistosa, cruzada por uma ponte feita de troncos de madeira. Encantador é o adjectivo mínimo que encontro para descrever este percurso, e mesmo assim não lhe faz justiça.

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Apesar da vontade de ficar por ali, por esta altura já serão horas de pensar em comer. Subimos até ao Parque de Campismo e Caravanismo de Mourilhe, situado num outeiro com vistas privilegiadas sobre o Douro. Recente e moderno, tem espaços definidos para tendas e para autocaravanas, e os bungalows são paralelepípedos castanhos encarrapitados irregularmente sobre o terreno, como se fossem troncos ali largados por acaso. Ao lado da piscina, um edifício baixo abriga o restaurante Escritório, também ele com um ambiente clean e discreto. O acolhimento é eficiente e muitíssimo simpático, e a comida não podia ser melhor. Se houver trutas, é a escolha certa – foram as melhores que comi até hoje, servidas com esmagada de batata e legumes.

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O destino final de hoje é Cinfães. Situada a 400 metros de altura e já nas franjas da serra de Montemuro, a vila é arejada, tranquila, e funde harmoniosamente o antigo e o novo sem que se notem grandes arroubos de mau gosto. Tem 3400 almas, mas pontos de interesse não faltam e pede para ser descoberta com vagar.

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O centro histórico, pequeno e compacto, rodeia o coração da vila: a Igreja Matriz, dedicada a S. João Baptista. Construída no séc. XVIII sobre o local onde já existia uma capela (com fundações que alguns investigadores dizem serem dez séculos mais antigas), exemplifica o estilo barroco presente em tantos dos nossos edifícios religiosos: alvenaria pintada de branco com os vários volumes debruados com pilastras de granito, uma fachada ornamentada com óculos, janelas e frisos e decorada com motivos ondulados também em pedra granítica. A torre sineira está no centro, coroada com a tradicional varanda de balaústres e uma pequena cúpula, e abundam os habituais pináculos de bola ou “tipo cebola” e as cruzes latinas.

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Ao lado da igreja fica o Jardim Serpa Pinto – árvores bem alinhadas, relva, flores e um laguinho. Alexandre Serpa Pinto foi militar e um dos nossos mais famosos exploradores em África. Terá provavelmente nascido em Vimieiro (que pertence ao concelho de Marco de Canavezes), mas a sua família vivia desde finais do século XVIII na região de Cinfães. Esta ligação umbilical traduz-se na vila em várias homenagens à sua figura, desde o busto colocado no jardim a nome de rua, de escola e de museu.

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O Museu Serpa Pinto fica também ao pé do jardim. É um edifício simples (que já foi posto da GNR, cadeia e pólo de serviços da Câmara Municipal), pintado de amarelo, mas que não passa despercebido por ter no exterior, à frente da fachada principal, várias esculturas modernas. São duas as colecções que o museu expõe permanentemente: uma é constituída por parte do espólio de Serpa Pinto, e a outra por peças encontradas nas escavações arqueológicas que têm sido feitas nas terras do município.

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Nas ruas em volta do jardim e ao longo das encostas – passear em Cinfães é um sobe-e-desce quase constante – há edifícios curiosos que parecem um patchwork arquitectónico. Uns têm telhados bastante inclinados, outros têm partes revestidas a ardósia em escama, um parece uma casinha sobre outra, outro tem um telhado semi-hexagonal com estátuas no topo, e outro uma varanda saliente, fechada e envidraçada, que se apoia em esquadros de ferro forjado. Aqui não há monotonia na construção e o passeio tem de ser feito de nariz no ar, porque são estes detalhes que dão alma às casas. Também não passa despercebido o Portão da Quinta de Fervença, um grande pórtico barroco, em granito, com um brasão exuberante. Em tempos esteve junto à igreja, mas a construção da estrada obrigou a que fosse deslocado

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Uns degraus levam-nos a mais um largo com árvores, um pequeno anfiteatro e repuxos que sobrem do chão. É o Largo da Fonte dos Amores, local onde ocorrem alguns dos eventos culturais da vila. A água projectada sobe a alturas variadas, cada repuxo com a sua cadência própria, numa espécie de dança borbulhante, iluminada pelas luzes que se acendem no solo ao cair da noite. Quanto à fonte que dá o nome ao largo, é uma bica tímida que cai da parede de pedra a um canto, meio disfarçada por baixo das escadas que levam à rua superior.

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É precisamente por esta calçada que vamos chegar à Tasquinha do Amado, uma das “mecas” gastronómicas da vila e da região. O restaurante é pequeno e acolhedor, com muita madeira e uma decoração onde se misturam placas de matrículas e sinais de cidades estrangeiras, candeeiros com design contemporâneo, relógios de parede, o capote de uma confraria e mais uma parafernália de outros objectos. A carne arouquesa é a rainha do menu, declinada em diversos tipos de confecção, mas há também petiscos de várias outras espécies, bons vinhos, e até opções para quem for vegetariano. O mais importante é que tudo é bom, por isso percebe-se que muitas vezes seja difícil encontrar mesa em cima da hora. A somar a isto, a simpatia dos donos Miguel (filho do Amado que deu o nome à casa) e Inês (a chef) também ajuda à popularidade do restaurante. Altamente recomendável para terminar o dia em beleza.

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Dia 2

 

A poucos quilómetros de Cinfães, o rio Bestança desagua no Douro, naquele que é também um dos locais mais icónicos do percurso deste grande rio em Portugal. E é por isso que começamos o dia da melhor maneira, com o olhar inundado por esta paisagem maravilhosa, naquele que é o spot de excelência para observar, com os socalcos vinhateiros aos nossos pés, o encontro dos dois rios: o Miradouro de Teixeirô. Do lado esquerdo, ao fundo, os arcos de pedra da ponte ferroviária da Pala destacam-se contra o verde profundo das arribas. Do lado direito, o Bestança faz concorrência ao Douro, que apenas se distingue por ser ligeiramente mais largo e pela pequena ponte metálica branca que une as suas duas margens. Mordomia a que o Bestança ali não tem direito: para o atravessar há que voltar à N222 e seguir até Pias.

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O que até calha bem, porque Pias é local de visita obrigatória neste roteiro. Aldeia com pouco mais de cem habitantes permanentes, já foi em tempos muito mais importante e próspera, e o testemunho maior deste facto é precisamente a sua ponte, cujas origens remontam à Idade Média (embora a actual versão seja de inícios do século XX). Espalhadas pela encosta íngreme, entre vinhas e arvoredo, misturam-se casas senhoriais e outras mais humildes.

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No fundo do vale apertado corre o Bestança, que nasce a 12 quilómetros de distância e mil e qualquer coisa metros mais acima, na serra de Montemuro. A sua relevância é inversamente proporcional ao curto percurso: é um dos rios com melhor qualidade ambiental da Europa e está integrado na Rede Natura 2000. Nas margens há uma enorme variedade de espécies arbóreas – carvalhos, salgueiros, amieiros e castanheiros, entre muitas outras – e o peixe mais comum das suas águas é (claro!) a truta.

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Ao pé da ponte foi construído em 2018 o Parque de Lazer de Pias, que facilita o acesso ao rio e disponibiliza as infra-estruturas de apoio necessárias a quem visita a localidade. Há espaço de estacionamento e parque de merendas, um bar com esplanada (e um baloiço para as fotos…) e sanitários.

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O Bestança aqui é bastante estreito, escorre entre tufos de fetos, cenouras-bravas, dedaleiras, embudes e trevos-cervinos, e tão depressa corre e salta sobre grandes pedras como sossega e fica quieto, em jeito de espelho de água plácido. Na margem oposta à do Parque de Lazer ainda se vêem moinhos, um dos quais – o Moinho das Regadas – continua em funcionamento.

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É também em Pias que existe o Centro de Interpretação do Vale do Bestança, espaço expositivo e de informação para quem visita esta zona. Devido às limitações actuais, funciona essencialmente por marcação.

 

Centro de Interpretação do Vale do Bestança

https://cm-cinfaes.pt/municipio-cat/item/817-centro-de-interpretacao-do-vale-do-bestanca

Rua do Outeiro, Escola, Pias, Cinfães

Horário: 3ª a sábado 9h-13h e 14h-17h; domingo 9h-13h

Contactos: telefone 255 560 560  email turismo@cm-cinfaes.pt

 

Passamos sobre a Ponte de Pias, que faz parte da N222, e um pouco mais à frente encontramos o desvio para Boassas. Além de ser a aldeia onde a família Serpa Pinto construiu o seu solar – que é conhecido como Casa do Fundo da Rua e inclui uma capela – Boassas foi uma das participantes do concurso “A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, que o Secretariado de Propaganda de Portugal organizou em 1938 e visava enaltecer a ideia de um país e de um povo rural, brando e conformado, o modelo ideal preconizado pelo regime salazarista. Deste concurso acabaria por sair vencedora a aldeia de Monsanto, que ainda hoje continua sem se descolar do título que lhe foi atribuído nessa altura. Quanto a Boassas, o concurso apenas teve a vantagem de deixar para a posteridade algum património documental sobre a vida na aldeia nessa época. Oitenta anos depois, notam-se diferenças óbvias: a população é mais reduzida e menos jovem, algumas casas mantêm a traça mas outras estão já completamente descaracterizadas, e apenas a vista sobre o Douro permanece, embora também ela com alterações na paisagem. Ainda assim, a aldeia mantém um certo encanto, e vale a pena perdermo-nos em passeio pelas suas ruas estreitas e ondulantes.

 

Um passeio que tem o Douro como mote não pode terminar sem nos aproximarmos dele, e por isso voltamos à N222 para descer até ao Porto Antigo. Acompanhando o Bestança, este é mais um dos troços desta estrada que surpreende pela belíssima vista que nos oferece – e não é de admirar que o silêncio se instale no carro, porque o cérebro está demasiado ocupado a tentar guardar tudo na memória, e as palavras só atrapalham. Chegamos por fim ao cais, onde talvez até esteja atracado um dos barcos que passeiam os turistas pelo Douro. Ainda por influência da Barragem do Carrapatelo, que fica a escassos quilómetros de distância, e porque este é precisamente o lugar onde o Bestança se une ao Douro, o rio mais parece um lago, e as colinas que espreitam umas por trás das outras fazem lembrar ilhotas tropicais, cobertas de árvores e semeadas de casas meio escondidas entre a vegetação.

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(Este artigo foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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