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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 27.05.19

Um cheirinho a sul de França - IV - Provença

 

Provença. Basta pensar no nome para soltar a imaginação, sentir o cheiro da alfazema, sonhar com casas de pedra e vasos de flores em ruas inclinadas e sinuosas, relembrar os quadros de Van Gogh ou Cézanne. E há mais, muito mais. Um dia é pouco para ver tudo o que merece ser visto nesta região, mas é certamente melhor do que nada.

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Dia 4

Arles → Les Baux-de-Provence → Saint-Rémy-de-Provence → L’Isle-sur-la-Sorgue → Fontaine-de-Vaucluse → Gordes → Abadia de Sénanque → Avinhão → Arles (Total: 175 km)

Começámos o nosso périplo provençal por uma das localidades mais famosas da região – como bem o atesta a grande quantidade de carros que já ocupavam todos os parques de estacionamento mais perto da entrada quando lá chegámos (apesar dos preços exorbitantes dos lugares onde se pode estacionar por estas bandas). E porque é que este pormenor é importante? Pela simples razão de que a aldeia de Les Baux-de-Provence fica no cimo de um maciço rochoso – “bau” significa escarpa ou falésia – e quanto mais longe se estaciona, mais há que subir. Mais carros significa também mais visitantes, e isto porque Les Baux é exclusivamente turística: não tem habitantes permanentes desde pelo menos o fim da 2ª Guerra Mundial, encontrando-se sob a tutela do Ministério da Cultura francês. Como curiosidade, a (na altura) cidade de Les Baux foi oferecida no séc. XVII como marquesado à família Grimaldi, pelo que o actual Marquês dos Baux é Alberto do Mónaco.

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Les Baux são pedras sobre pedra. Ruas, casas, monumentos… A pedra é a senhora do lugar, declinada em tons de ocre e cinza, apenas quebrada ocasionalmente pelo ferro forjado e pelos verdes das árvores. Perto da entrada acumulam-se as lojinhas do costume, os cafés e restaurantes, mas à medida que vamos subindo esses sinais da civilização moderna quase desaparecem. No cimo de tudo ergue-se o castelo, rodeado por um planalto extenso de onde se avista o vale de Entreconque, com as suas vinhas e oliveiras.

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Além do Castelo, a actualmente grande atracção de Les Baux encontra-se fora do perímetro da localidade, junto à estrada tortuosa que atravessa os montes na direcção de Saint-Rémy. Chama-se Carrières de Lumières e é uma caverna onde são exibidas projecções artísticas multimédia, sendo que a deste ano é dedicada a Van Gogh (certamente muito dentro do género da que foi exibida em Lisboa o ano passado). A fila para entrar era assustadora e estava instalada a confusão no estacionamento e na estrada, o que fez desaparecer qualquer vontade de ficar por ali.

 

Depois de uma breve paragem em Saint-Rémy de Provence (que optámos por não explorar) para café e gasolina, chegámos à primeira boa surpresa do dia: L’Isle-sur-la-Sorgue. É incrível o poder que a água tem de dar um cunho pessoal a cada lugar. A vila é atravessada, como se torna óbvio a partir do nome, pelo rio Sorgue, que aqui se divide e forma várias ilhotas, e tem qualquer coisa como onze pontes a ligá-las, além de uma série de moinhos de água usados ao longo do tempo para vários fins.

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As esplanadas sucedem-se umas às outras nas margens do rio, as casas têm cores pastel ou ocre, com pormenores deliciosos nas fachadas, e o ambiente geral é muito relaxante – pelo menos nesta altura do ano. L’Isle-sur-la-Sorgue é sobretudo famosa pelo seu mercado de antiguidades e velharias, que se realiza aos domingos durante todo o ano e é um dos melhores da Europa.

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A menos de dez quilómetros de distância, Fontaine-de-Vaucluse é também atravessada pelo Sorgue – aliás, é aqui que ele nasce. Mas já lá vamos… Primeiro entrámos na igreja de Notre Dame et Saint Véran, simples e austera tanto no exterior como no interior, construída no séc. XI sobre as ruínas de um templo pagão e abrigando na sua cripta o túmulo de Saint Véran. Depois tivemos um primeiro encontro com o rio, passámos sob um túnel e encontrámo-nos num belíssimo parque onde nem sequer falta uma ilhota romântica.

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Na margem oposta, subimos por uma rua cheia de lojas e restaurantes até ao Moinho de Papel. A fabricação manual de papel foi uma actividade próspera na localidade até meados do século passado, e a oficina Vallis Clausa (https://www.moulin-vallisclausa.com) reconstitui precisamente um desses moinhos onde se fabricava papel chiffon de grande qualidade segundo técnicas artesanais oriundas do séc. XV. Estão em exibição máquinas tipográficas e litográficas antigas e outros objectos e ferramentas usados no processo, há uma enorme loja onde encontramos toda a espécie de artigos em papel, a maioria ali fabricados, e ainda uma vintena de espaços com peças de materiais diversos concebidas por artesãos locais.

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Seguindo algumas centenas de metros pela alameda arborizada junto ao rio chegamos finalmente à nascente do Sorgue de Vaucluse. E que nascente! A água surge por baixo da altíssima falésia erodida pelo vento que fecha o vale, um lago tranquilo e muito azul que vai engrossando progressivamente com a água que jorra, cheia de força, de vários pontos da parede rochosa, até formar um rio estreito mas caudaloso e cheio de rápidos. O débito total médio desta nascente é de 630 milhões de metros cúbicos por ano, o que faz dela a maior da Europa e uma das mais importantes a nível mundial. Consta que as águas são calmas no Verão e no Inverno, reservando o seu bulício para as outras duas estações do ano. O que sei dizer-vos é que o lugar, aquela conjugação de água cristalina, falésia rude e margens verdejantes formam um conjunto natural que é verdadeiramente maravilhoso.

 

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A Gordes chegámos já à tardinha e a primeira imagem que tivemos desta aldeia, vindo pela estrada de Cavaillon, foi a de um amontoado de casas de pedra, meio banhadas pelo sol, meio à sombra, encarrapitadas num promontório rochoso e coroadas com um edifício semelhante a um castelo. Alcunhada nos folhetos turísticos de “pérola do Lubéron” (muito gosta esta gente de arranjar nomes pirosos para publicitar certos lugares…), Gordes está a 340 metros de altitude e é um miradouro privilegiado sobre a planície e o vale do Calavon. Habitada desde o séc. XI, verdadeira fortaleza protegida por muralhas e pela sua própria localização mas com uma história conturbada, tornou-se nos anos 50 do século passado um poiso para artistas de renome e ganhou estatuto cultural e sofisticação. O castelo está recuperado, as casas também, as ruas estão limpas, as lojas expõem cuidadosamente os seus produtos. Os muros são de “pedra seca” (construídos sem argamassa de qualquer tipo) e as ladeiras foram calcetadas segundo a técnica tradicional (e são muito propensas a grandes escorregadelas…). É tudo certinho e bonito – talvez demasiado, quanto a mim, pois a localidade torna-se algo insípida, mas haverá certamente outros motivos de interesse que não tivemos tempo para ver.

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Por estes lados a alfazema, um dos produtos mais característicos da Provença, só começa a florir lá para Junho. Não fosse assim, teríamos encontrado a Abadia de Sénanque rodeada por um mar de roxo, como aparece em tudo quanto é foto e postal. Nesta altura apenas se vêem tufos de verde no solo. Como em França fecha tudo muito cedo, sobretudo fora da época alta do turismo, já não foi possível visitar o interior da Abadia. Tivemos de nos contentar com o exterior (nós e os vários grupos de pessoas que iam chegando entretanto), que ainda assim é interessante o suficiente para merecer a deslocação. Uma das laterais da Abadia está em obras para reforço da estrutura, que ameaça ruir, e no acesso ao complexo um painel apela aos donativos para fazerem face ao custo avultado da recuperação em curso.

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Quando chegámos a Avinhão o dia estava no fim. Aproveitámos a última claridade para um breve passeio até à Place du Palais, onde se encontram os dois principais monumentos da cidade: a Catedral e o Palácio dos Papas. No caminho passámos pela Basílica de S. Pedro de Avinhão, uma bonita igreja em estilo gótico flamejante provençal com uma fachada que parece feita de renda, meio escondida na praça que tem o mesmo nome.

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Depois, ao virar de uma esquina, demos com uma das laterais do Palácio, uma parede vertiginosa rasgada por janelas altas e estreitas e apoiada por um enorme e maciço arcobotante – uma pequena amostra do que nos aguardava mais à frente, e que me deixou positivamente boquiaberta. O Palácio dos Papas é qualquer coisa de verdadeiramente impressionante, uma enorme massa de pedra ocre que parece mais uma fortaleza do que um palácio – tem doze torres, e nem sequer faltam as ameias – e só vagamente aligeirada por alguns elementos góticos de adorno. São cerca de 15 mil metros quadrados de superfície, resultantes da união de dois edifícios, um já existente desde o séc. XIII e o outro criado no séc. XIV, concebidos pelos maiores arquitectos franceses. Uma obra fantástica que realmente me surpreendeu, pois não estava de todo à espera de algo tão grandioso. Não admira por isso que seja um dos monumentos mais visitados de França, com cerca de 650 mil visitantes anuais.

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Ao lado do Palácio, a Catedral de Notre-Dame des Doms concorre com ele em altura – mas apenas nisso. Com origens no séc. XII (um exemplo do estilo românico provençal) sofreu vários desaires ao longo do séculos e consequentes reconstruções, e uma parte do que hoje vemos foi (re)construído já no séc. XIX. A sua característica particular mais chamativa é sem dúvida a imponente estátua da Virgem Maria colocada no cimo da torre sineira, uma peça feita em chumbo e revestida a ouro que pesa “apenas” 4 toneladas e meia.

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A nossa breve visita a Avinhão terminou na Place de l’Horloge, o coração da cidade, onde está instalado o edifício da Câmara e onde acabámos por jantar. E falando de comida, a cozinha provençal é muito rica e variada – sendo uma região mediterrânica, os pratos típicos têm muitos produtos em comum com a nossa cozinha – mas actualmente parece haver nos restaurantes uma apetência exagerada por colocarem natas em tudo, o que francamente acaba por enjoar e prejudicar as verdadeiras receitas originais. Foi o que aconteceu com uns mexilhões e umas conquilhas que comemos em Saintes-Maries de la Mer (bem saborosos, mas que teriam ficado ainda melhores se o molho não tivesse natas) e novamente no nosso jantar em Avinhão, em que a tarte e sobretudo a omelete, feitas com muitos legumes à maneira da Provença, teriam dispensado perfeitamente a presença (em demasiada quantidade) das ditas natas.

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Onde comemos:

Les Terrasses - Chemin de la Fontaine, 84800 Fontaine-de-Vaucluse, France

Le Forum - 20 Place de l'Horloge, 84000 Avignon, France

 

 

Fiquem por aí para conhecerem o que visitámos no dia seguinte da viagem →

← O que vimos no dia 3 da viagem

 

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