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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qui | 16.05.19

Um cheirinho a sul de França - III - Camarga

 

Tenho agora uma confissão a fazer. O motivo principal que me levou a fazer esta viagem pelo sul de França foi conhecer uma região que já há muitos anos povoava o meu imaginário: a Camarga. De facto, completamente por culpa do livro de que já vos falei aqui e de um filme romântico-lamechas que vi na minha adolescência, a Camarga era mais um dos destinos que estavam na minha wishlist mas até agora ainda não tinha visitado.

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Para quem se calhar nunca ouviu falar dela, saibam que a Camarga é uma região com características muito especiais situada no delta do rio Ródano, a sul da cidade de Arles e estendendo-se até ao Mediterrâneo. É uma região fértil e muito cultivada, protegida do mar por um longuíssimo dique construído para o efeito (la digue à la mer) e circundando várias lagoas, e onde também são criados cavalos e touros. É ainda (e sobretudo, actualmente) conhecida por abrigar a maior população de flamingos da Europa.

 

Foi a explorar esta região que dedicámos este terceiro dia da viagem, o mais curto em número de quilómetros percorridos de carro mas mais comprido nos percorridos a pé. Preparem-se para ficarem apaixonados só de verem as fotografias…

 

Dia 3

Arles → Parque Ornitológico de Pont de Gau (Camarga) → Saintes-Maries-de-la-Mer → Aigues-Mortes → Le Grau-du-Roi → Arles (Total: 127 km)

Meia hora é suficiente para ir de Arles a uma das jóias da Camarga, que dá pelo nome de Parque Ornitológico de Pont de Gau. Embora seja possível encontrar “passarada” em toda a região, é nos 60 hectares do Parque Ornitológico que existe a maior concentração de aves por metro quadrado (acho eu, a julgar pela amostra…), e muito especialmente de flamingos. Este parque tem duas lagoas, em volta das quais se desenvolvem dois percursos pedestres devidamente marcados e fáceis de percorrer (completamente planos, tal como toda a Camarga), num total de 7 km.

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O primeiro, com cerca de 2,5 km, é o mais espectacular e mais percorrido, pois é na primeira lagoa que está habitualmente instalada a grande maioria das aves, incluindo a enorme colónia de flamingos, que nalguns pontos convivem pacificamente com uns quantos castores. Além disso, para quem vai com crianças – e é um sítio maravilhoso para visitar com os mais pequenos – torna-se menos cansativo, e é completamente acessível a pessoas com mobilidade reduzida. O percurso maior é mais calmo mas igualmente bonito, embora se vejam muito menos animais, e está dotado de vários abrigos e torres para observação de aves e da extensa e plana paisagem circundante. Além dos flamingos, conseguimos ver facilmente garças, milhafres, guinchos, pernilongos, pernas-verdes e alfaiates, além de patos e cisnes. Têm até um casal de cegonhas, aves que são pouco habituais por estas bandas (ao contrário do nosso país, onde se vêem cada vez mais). O Parque Ornitológico possui ainda um centro de acolhimento e tratamento para aves selvagens feridas que cuida de uma média de 600 aves por ano, cerca de 40% das quais são devolvidas à liberdade após estarem curadas. Para verem todo o Parque com calma, preparem umas boas duas horas. Não se esqueçam do protector solar e do chapéu, se estiver sol aberto. Têm um pequeno snack-bar e uma zona para piqueniques. Como a saída é completamente independente da entrada, podem ficar lá o tempo todo que quiserem, mesmo depois de a bilheteira fechar.

E já chega de conversa, que as fotografias falam por si…

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Saintes-Maries-de-la-Mer, a apenas 5 km do Parque Ornitológico, é outro ponto de visita obrigatória na Camarga. É uma vila de praia muito turística, ampla em extensão mas sem edifícios altos, que mantém um arzinho provinciano e despretensioso extremamente convidativo. Não sei como será no Verão, mas nesta altura do ano gostei do ambiente. As praias são extensas, embora sem grande graça (para mim, pelo menos), e existe um comprido passeio pedonal ao longo da vila e das praias que se prolonga por todo o comprimento do dique.

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A zona comercial da vila, cheia de lojinhas e restaurantes, organiza-se em volta da igreja, construída entre os sécs. IX e XII para desempenhar a dupla função de local de culto religioso e de fortaleza contra os ataques de piratas. Simples tanto no interior como no exterior, é no entanto imponente e visível até 10 km em redor. Dedicada a Nossa Senhora do Mar, no séc. XV foram descobertos no seu interior os supostos corpos das duas santas que dão o nome à localidade, Maria Jacobina e Maria Salomé (a tia de Jesus e a mãe de alguns dos seus discípulos, respectivamente), que terão fugido da Palestina numa barca e aportado àquele lugar, pelo que esta igreja é também um santuário. Como se isso não bastasse, as referidas santas terão chegado ali acompanhadas de Santa Sara, a padroeira do povo cigano, por isso esta igreja aparentemente insuspeita é um lugar de peregrinação muito frequentado durante todo o ano, e especialmente em Maio, Outubro e Dezembro.

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Saintes-Maries tem ainda uma terceira vertente: as corridas de touros que se realizam na sua arena junto ao mar. Não as corridas tradicionais que nós conhecemos, mas sim a corrida camarguesa, um tipo de desporto em que os touros não são picados nem mortos. De facto, nestas corridas o objectivo dos participantes é tentarem retirar do touro os vários “atributos” que o animal ostenta nos cornos ou no cachaço, e para esse efeito apenas podem contar com um pequeno utensílio semelhante a um pente (a que chamam gancho) e com a sua própria agilidade – obviamente para não serem apanhados pelo touro, coisa que nem sempre conseguem. Os heróis destas corridas são na realidade os touros, sempre de raça camarguesa, e a prová-lo estão os títulos atribuídos em cada época destas corridas tanto aos homens (os “cocardiers”) como aos animais, e as esculturas especificamente dedicadas aos touros que revelam a sua excelência ao longo dos anos.

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Um dos produtos explorados na Camarga é o sal, e é junto a uma das maiores salinas actualmente em operação que se ergue a vila muralhada de Aigues-Mortes. Antigo porto mediterrâneo, a localidade está hoje situada a mais de 5 km do mar, devido ao avanço progressivo das terras, continuando no entanto ligada a ele pelo “canal du Rhône à Sète”, que termina em Grau-du-Roi. As muralhas que circundam o centro histórico têm 1650 metros de comprimento e permanecem em excelente estado de conservação. São visitáveis – se chegarem a horas “decentes”, o que não foi o nosso caso – tal como também é possível visitar as enormes salinas que se estendem para sul da vila. No interior das muralhas as ruas parecem ter sido desenhadas a esquadria, e numa pequena praça cheia de esplanadas ergue-se a estátua do rei Louis IX (mais conhecido por São Luís), que daqui partiu para as sétima e oitava Cruzadas. Na igreja de Notre Dame des Sablons, mesmo ao lado, ainda assistimos ao animado final da exibição de um coro gospel, e depois terminámos a visita com gelados e gaufres numa esplanada junto à Torre de Constância.

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A última paragem do dia antes do regresso a Arles foi na localidade costeira de Grau-du-Roi, e foi relativamente breve. Antiga comunidade de pescadores, cresceu em importância e tamanho (por se ter tornado zona balnear) mas não em graça. Tem muito comércio, edifícios de apartamentos, uma marina, uma praça de touros, e até mesmo um Seaquarium, mas nada que nos criasse verdadeiramente vontade de nos demorarmos por ali.

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Tal como desabafei convosco no meu primeiro post sobre esta viagem, a desilusão maior que tive nesta região que já há tantos anos queria conhecer foi não ter conseguido ver cavalos em liberdade (já não falo em selvagens, que esses certamente desapareceram há muito…). Fora isso, a Camarga não me desapontou, e gostava até de ter tido tempo para explorar outras localidades e fazer uma caminhada sobre o dique – uma “empreitada” de fôlego. Mas o dia seguinte estava reservado para outras paragens e é sempre bom deixar qualquer coisa por ver, para ter motivos para voltar.

 

Podem descarregar aqui um livrinho muito bem concebido pela entidade gestora do Parque natural regional da Camarga sobre as aves que encontramos neste parque e onde é possível observá-las, além de outras informações úteis.

 

Onde comemos: 

La Pequelette - 19 Avenue Gilbert Leroy, 13460 Saintes-Maries-de-la-Mer, France

 

 

Fiquem por aí para conhecerem o que visitámos no dia seguinte da viagem →

O que vimos no dia 2 da viagem

 

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