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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 23.03.20

Sozinha não significa solitária

 

Conheço várias pessoas que me dizem que nesta altura já estão fartas de estar em casa – e muitas mais há, a julgar pela afluência de gente que decidiu, um pouco por todo o país, ir ontem passear para as marginais. Estranhamente, estas pessoas que conheço, na sua maioria, não vivem sozinhas. Ou seja, ao contrário de mim, têm em casa outra ou outras pessoas com quem interagir. Pela lógica, esperar-se-ia o inverso, mas a verdade é que os humanos têm muito pouco de lógico.

 

Já eu, talvez pela força do hábito de muito tempo a viver sozinha, até agora não senti qualquer desconforto por ter de estar em casa. Da janela do escritório vejo as pessoas que continuam a passear lá em baixo, na ciclovia – muito menos do que o habitual – e penso que também eu devia de vez em quando ir fazer uma caminhada; mas a vontade de deixar o conforto do meu espaço não é nenhuma, e bastam-me as ocasionais (duas até agora) idas ao supermercado para comprar pão, fruta e mais algumas coisas de que vou necessitando. Aqui as avenidas e os passeios são largos, e quando me cruzo com alguém é notório o afastamento propositado de parte a parte – de repente, parece que todos nos tornámos pestilentos.

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Inversamente, em viagem continuo a preferir estar acompanhada. Se leram o meu post das divagações sobre 2019 sabem que só no ano passado é que viajei completamente sozinha pela primeira vez, e na verdade até apreciei bastante a experiência. Ainda assim, apesar de gostar de estar sozinha em casa, gosto mais de viajar com companhia (pelo menos por enquanto). E também neste aspecto conheço quem seja o oposto: pessoas que são verdadeiros animais sociais mas preferem viajar sozinhas. É mais uma idiossincrasia da espécie humana.

 

Sempre houve exploradores e aventureiros basicamente solitários. Mulheres pioneiras como Amelia Earhart, Freya Stark ou Gertrude Bell, ou homens destemidos como Richard Francis Burton, William Montgomery McGovern ou, mais recentemente, Henry Worsley. Com as novas tecnologias, viajar sozinho hoje em dia já não implica o arrojo de outros tempos, mas ainda assim há sempre uma certa dose de vulnerabilidade numa viagem a solo, já para não falar na ausência de um suporte emocional quer para as decisões do dia-a-dia, quer nalguma situação mais complicada. Independentemente das facilidades modernas de comunicação (que ainda não abrangem todo o globo, note-se), estamos por nossa conta e somos a nossa única companhia constante – é preciso ter uma autoconfiança robusta para nos aventurarmos no desconhecido, mesmo que o desconhecido seja uma cidade moderna no país vizinho.

 

Estar sozinha em casa não significa forçosamente ser solitária. Tenho uma série de ferramentas à minha disposição para contactar com outras pessoas, até mesmo com várias ao mesmo tempo. Solitude e solidão são duas coisas diferentes: é possível estar só sem sentir solidão, tal como é possível senti-la no meio de muita gente. Em viagem passa-se o mesmo. Ao viajar sozinha posso conhecer outras pessoas e conversar com elas, posso apreciar a minha própria companhia, posso até ter uma melhor percepção do que vejo, pois não tenho o crivo ou a distracção proporcionada pelo outro. Posso até sentir-me mais acompanhada do que se estiver a viajar com alguém que não vê as mesmas coisas do que eu, ou não as percepciona com a mesma sensibilidade. Tal como aprecio estar sozinha em casa, valerá bem a pena habituar-me a viajar a solo.

 

Depois do desafio relativo (entre mais alguns) que foi viajar sozinha no ano passado, 2020 começou e continua com outros desafios. Tinha planeado iniciar este ano um projecto pessoal que me levaria a passar vários fins-de-semana em viagem no nosso país. Infelizmente, o impensável sucedeu em Fevereiro: a morte da minha mãe. Não sendo um choque completo, ainda assim foi demasiado rápido – felizmente para ela. Para mim foi como se eu também morresse um bocadinho. A tristeza, o luto, tiram-me a vontade de me mexer, de avançar, de fazer qualquer coisa que não seja o absolutamente essencial. Talvez por isso eu olhe para a grave situação actual com menos paixão do que deveria, talvez por isso este confinamento forçado me custe menos, porque vem ao encontro da minha própria necessidade de clausura interior, de inércia para novos objectivos, de ficar algum tempo num casulo.

 

Sem poder viajar e sem oportunidade (nem mesmo grande vontade) de começar projectos, ainda assim quero tentar fazer algo de positivo. Depois das sugestões variadas para viajar sem sair de casa que vos deixei no último post, vou deixar aqui um desafio: quando tudo isto passar, quando acalmar a epidemia e pudermos regressar à nossa vida mais ou menos normal, vamos apostar em conhecer melhor o nosso país e incentivar a economia local. E com isto não digo ir àqueles locais mais turísticos e já sobejamente divulgados, não porque não o mereçam mas porque serão aqueles a que o turismo internacional regressará mais fácil e rapidamente. Falo do Portugal mais anónimo, mais esquecido, mais profundo, aquelas vilas e aldeias desconhecidas, algumas delas desertificadas mas conservando muito da sua genuinidade e beleza, outras com projectos de recuperação interessantes em curso, outras ainda apenas tal e qual como sempre estiveram.

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É para isto que me proponho agora contribuir também: continuar a levar-vos a #viajarsemsairdecasa, desta vez por lugares que certamente muitos de vocês não conhecem, alguns deles mesmo de que nunca ouviram falar. Para despertar o bichinho da curiosidade que vive dentro de cada um de vocês, e com sorte obrigar-vos a acrescentar mais alguns nomes à lista dos sítios que querem visitar.

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Já agora, um pedido: ideias e sugestões para engrossar a minha lista de lugares a conhecer, têm? Ou qual é a vossa aldeia ou vila preferida, e porquê? Digam de vossa justiça.

No Grupo da página no Facebook publico todos os dias mais ideias para #viajarsemsairdecasa.