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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 06.11.20

O sabor do Gerês em Montalegre

 

Em Montalegre, encontramos um outro Gerês. Mais agreste, dominado pelo granito que cobre a serra e está omnipresente na paisagem. Mais selvagem, onde os lobos e os garranos correm livres, as vacas pastam à vontade, e existem aves que não se vêem no resto do país. Mais tradicional, com práticas ligadas à agricultura e à criação de gado que se mantêm quase inalteradas desde tempos de que já não há memória – um Gerês umbilicalmente ligado à terra, onde os animais são mais do que as pessoas.

1 Montalegre

 

Entramos neste Gerês por Fafião, que se orgulha de ser aldeia de lobos. É uma representação deste animal uivando à lua, em metal sobre pedra, que nos saúda na estrada um pouco antes de chegarmos. Depois vamos ao encontro do Fojo dos Lobos e dos grandes afloramentos graníticos que se destacam nas encostas da serrania, entre os pinheiros e as oliveiras. Fojos são antigas armadilhas de granito para os lobos, que hoje são espécie protegida mas foram durante anos alvo de perseguição pelas populações serranas. O Fojo dos Lobos de Fafião é o maior e um dos mais bem preservados da Península Ibérica, e crê-se que data do séc. XVIII. É uma estrutura em granito cujas paredes, com um pouco mais de 2 metros de altura e 64 de comprimento, convergem para uma cova de planta circular. Os caçadores perseguiam o lobo de modo a que o animal se dirigisse para a cova, onde caía e de onde não tinha forma de fugir, acabando por ser abatido. Os tempos mudam, e este e outros fojos da região cumprem agora apenas uma função histórica e educativa, alertando para a necessidade que existe de preservar esta espécie em risco de desaparecimento, e para a importância de manter o equilíbrio endémico natural.

2 Fafião

3 Fojo dos Lobos de Fafião

Na recente visita que fiz ao Gerês, este foi o local escolhido para nos oferecerem um fantástico lanche ao ar livre onde não faltou nenhum dos petiscos típicos da região, tudo acompanhado de bom pão e bom vinho. Uma das mais-valias gastronómicas da região barrosã, onde Montalegre está inserida, são os seus produtos de fumeiro, com especial destaque para o presunto (que por estes lados é deliciosamente pouco curado), a típica alheira (que além da carne de porco leva também carnes de aves e de coelho), e o original chouriço de abóbora, em que a carne e as gorduras são misturadas com abóbora porqueira, a variedade local.

4 Fafião

5 Fafião

 

Do Fojo do Lobo sobe-se, por um trilho pedestre, até ao relativamente recente e espectacular Miradouro de Fafião. É também possível chegar lá de carro, em estrada de terra batida, mas o percurso a pé tem outro encanto e, apesar de íngreme, não é difícil. Tem ainda a vantagem de ajudar a fazer a digestão, e de caminho podemos verificar se não andamos a comer demasiado passando (ou tentando passar) pela Frincha dos Magros, uma abertura estreita entre dois penedos onde só cabe quem for “elegante”. O Miradouro de Fafião é um magnífico projecto que nos oferece vistas impressionantes sobre o Gerês na região de Cabril. Situado sobre um enorme bloco de granito, está ligado a outro rochedo por uma engenhosa e robusta ponte de ferro, e é um daqueles locais de visita obrigatória – para os valentes que não têm vertigens.

6 Fafião

7 Miradouro de Fafião

Apesar de pequena, a aldeia de Fafião é dinâmica e tem muitas iniciativas, desde a Festa do Porco e do Fumeiro, em Janeiro, até ao Festival Aldeia de Lobos em Junho e as Festas em honra de S. Tiago, que se realizam em Julho. O motor principal destas e outras iniciativas é a Associação Vezeira, cujo objectivo principal é a preservação dos costumes e tradições comunitários da aldeia, integrando-os em projectos de desenvolvimento que apontam para o futuro. É também esta Associação que dinamiza o pólo do Ecomuseu do Barroso – Vezeira e a Serra, inaugurado em 2015.

 

Para dormir em Fafião podemos contar desde Julho deste ano com o Hostel Retiro do Gerês, um espaço simples, moderno e bem decorado, com um ambiente muito acolhedor. O Retiro do Gerês foi projectado para se harmonizar com a aldeia e o ambiente onde está inserido, numa perspectiva de sustentabilidade. Os elementos decorativos são naturais e está dotado de painéis solares. Além dos quartos e dormitórios, tem uma pequena mercearia com produtos locais, uma taberna onde são servidos petiscos e bebidas, e um restaurante com um menu à base de pratos tradicionais do Barroso, para os quais propõem uma adequada selecção de vinhos. Tudo excelente, a somar à simpatia de quem lá trabalha.

8 Hostel Retiro do Gerês

9 Hostel Retiro do Gerês

10 Hostel Retiro do Gerês

 

Além da pedra, a água é outro elemento de que nunca há falta no Gerês, mesmo nas épocas em que a chuva anda mais escassa. O Cávado é o limite natural de grande parte do Parque nesta região, e o seu longo e vigoroso curso está represado por várias barragens, das quais a menos visitada é a da Paradela – talvez por estar mais longe, já praticamente inserida no maciço rochoso da serra, em zona agreste, pouco povoada e de acesso sinuoso. É na orla do planalto da Mourela, a mais de 800 metros de altitude e sobranceira à margem oeste desta barragem, que encontramos a aldeia de Outeiro. As casas de pedra onde vivem os seus cerca de 150 habitantes distribuem-se desafogadamente por um sobe-e-desce de ruas estreitas e estão na sua maioria bem cuidadas. Algumas têm ar de serem recentes, ou pelo menos de terem sido alvo de obras que lhes deram um aspecto mais moderno, mais “composto”, sem aquela organização irregular das pedras que se nota nas que são visivelmente mais antigas. A aldeia está rodeada de campos de cultivo e de pasto, uma espécie de anfiteatro verde que amplia o som metálico dos chocalhos dos animais. Sardinheiras de cor fúcsia espreitam entre os ferros das varandas e espalham-se pelos degraus das escadas, notas vivas de cor às quais se juntam pneus com pinturas garridas pendurados ao lado das portas. E há espigueiros, quase todos de ar vetusto, um deles o mais invulgar e bonito que vi até hoje, adornado com gravações em relevo no granito manchado por musgos e líquenes.

16 Outeiro

15 Outeiro

17 Outeiro

Como é usual no nosso país, localização remota não significa falta de lugar onde comer ou dormir bem, e a aldeia de Outeiro não é excepção. Também de abertura recente, o Albelo do Gerês é ao mesmo tempo restaurante e alojamento local, e tem como característica particular a fantástica vista que nos oferece sobre a albufeira da Paradela. Os sete quartos duplos que disponibilizam aos hóspedes são simples e luminosos. E quanto à comida, a dificuldade é escolher, porque é tudo bom. Aqui é obrigatório provar o chouriço de abóbora de que já vos falei, e também os redenhos – que descobri serem os torresmos de saudosa memória que a minha mãe costumava preparar de vez em quando. Depois podemos escolher entre os habituais cabrito ou cozido, o frango na púcara, o pernil assado com castanhas, o polvo à lagareiro ou o bacalhau, e como sobremesa as tradicionais rabanadas, o leite-creme, o pudim de ovos, ou um semifrio de limão ou de morango. Tudo de preferência regado com bom vinho, melhor ainda se for um Mont’Alegre, uma marca de vinhos de montanha produzidos em altitudes acima dos 650 metros e envelhecidos nesta região.

21  Albelo do Gerês

 

Na parte mais oriental da Serra do Gerês, a cerca de 1200 metros de altitude, estende-se o Planalto da Mourela. Nesta área rica em diversidade faunística e florística, e cuja suavidade contrasta fortemente com a rudeza dos píncaros rochosos da serra, a paisagem natural alterna de forma harmoniosa com a que já foi modificada pelo homem, e que se agrega em volta das poucas aldeias ali existentes. Um projecto que tem como finalidade a “Gestão Sustentável dos Matos/Urzais do Planalto da Mourela”, por via da divulgação e preservação das práticas agrícolas e de criação de gado tradicionais, foi implementado em 2009 e continua a ser desenvolvido com sucesso – os incêndios florestais na área diminuíram em 80%, e o projecto recebeu em 2016 o prémio da União Europeia para o Património Cultural / Europa Nostra. Na sua vertente de apoio ao turismo na região, este projecto definiu cinco trilhos de caminhada, diversificados e com níveis graduais de dificuldade (um deles pode mesmo ser percorrido por pessoas com mobilidade condicionada), e foi instalado numa antiga Casa de Serviços Florestais um Centro de Interpretação do Planalto da Mourela, onde nos são dados a conhecer os aspectos mais marcantes do meio ambiente e da vida na região.

23 Planalto da Mourela

24 Planalto da Mourela

25 Centro de Interpretação Planalto da Mourela


Este Centro de Interpretação fica pouco antes de entrarmos em Pitões das Júnias, e depois da visita partimos à descoberta daquela que é uma das minhas aldeias preferidas. Percorremos com calma as ruas calcetadas, atentando nas casas recuperadas, muitas delas com a sua horta ao lado, e nos detalhes que captam a atenção. Cruzamo-nos na estrada com as vacas que regressam do pasto – sozinhas, que não precisam de quem as guie no caminho já tantas vezes percorrido. Depois entramos na Taberna Terra Celta, em frente à casa onde se aloja a Junta de Freguesia (cuja presidente tem uma simpatia e um conhecimento sobre o local verdadeiramente admiráveis), e somos acolhidos pelos sorrisos da Margarida e do marido, e pela decoração ecléctica, divertida e cheia de pormenores originais da Taberna. Neste ambiente folclórico e ao mesmo tempo intimista apetece ficar durante muito tempo, a petiscar ou simplesmente a tomar uma bebida.

 

32 Pitões das Júnias

33 Taberna Celta

A caminho das atracções maiores de Pitões das Júnias, paramos ao pé do cemitério e da sua capela para termos uma perspectiva mais abrangente de toda a aldeia. Os picos cinzentos da serrania compõem um cenário dramático, à frente do qual se destaca o vermelho-queimado dos telhados, entremeado com as cores anémicas da pedra de que é feito o casario. Não há como não ficar encantada com este lugar…

38 Pitões das Júnias

Descemos finalmente até ao local mais mágico de toda esta região: o Mosteiro de Santa Maria das Júnias. Os carros só conseguem cobrir uma pequena parte do caminho, o resto faz-se a pé – e ainda bem, porque o silêncio é um dos grandes atributos deste lugar tão especial, tão em comunhão com a natureza. Quando chegamos ao Mosteiro, a sensação é de que recuámos séculos no tempo. Esta é uma das construções religiosas mais cativantes do nosso país, em grande parte pela sua localização, no fundo de um vale escondido e verdejante onde nem sequer falta um carvalho-roble milenar. O facto de ter uma área considerável em ruínas em nada diminui o seu charme – aliás, o efeito acaba por ser o inverso. Embora as suas origens sejam algo nebulosas, terá sido construído na primeira metade do século XII, ainda antes da fundação do nosso país. Mosteiro pobre, dedicado a Santa Maria e inicialmente beneditino, passou mais tarde a integrar a Ordem de Cister. A igreja é o único edifício que ainda se encontra totalmente de pé. Tem pórticos laterais românicos encimados por cruzes de Malta vazadas, mas na torre da fachada há elementos setecentistas. Dos claustros restam três arcadas, e nas ruínas mantém-se altaneiramente erguida a grande chaminé piramidal do que foi em tempos a cozinha, onde ainda se consegue perceber o sistema de condutas por onde era canalizada a água recolhida do exterior.

39 Carvalho-roble Santa Maria das Júnias

40 Santa Maria das Júnias

Nas traseiras do edifício corre o ribeiro de Campesinho, que atravessamos sobre uma curta ponte de madeira. Passamos ao lado de um moinho de raiz medieval e subimos por um carreiro entre a erva alta. Daqui avista-se o exterior da capela-mor da igreja, meio escondida pelas árvores, a sua janela gótica a contrastar com o verde dominante. Lá em baixo o ribeiro corre sossegado, embora audível. O lugar é idílico, transmite paz e apela à contemplação. Há atmosferas que é difícil descrever em palavras, é preciso ir lá, estar lá, senti-las… Não é só pela beleza que possuem, o efeito vai muito para lá disso. Este é um local que me afecta profundamente, e percebo sem esforço a razão pela qual uma dúzia de monges, há tantos séculos, escolheram viver aqui.

47 Santa Maria das Júnias

48 Santa Maria das Júnias

49 Santa Maria das Júnias

50 Santa Maria das Júnias

 

O regresso do Mosteiro é menos pacífico do que a ida, uma vez que é sempre a subir, por isso faz-se com calma. Mas o passeio ainda está longe de terminar. Há que descer novamente, agora por uma longa escadaria de madeira, até à cascata, que fica num local magnífico: o carvalhal do Beredo, um dos bosques autóctones mais antigos e bem preservados do país. No passado, a ligação entre as freguesias do concelho fazia-se por um trilho que atravessa este carvalhal, e que agora é percorrido pelos amantes da natureza e de caminhadas. O carvalho-negral é a espécie mais comum nesta jóia arborícola portuguesa, mas também por aqui há olmos, castanheiros, áceres e freixos, aveleiras e abrunheiros, e sanguinhos que atingem alturas excepcionais. Neste habitat de importância ecológica incomensurável a fauna é igualmente variada, e não é de estranhar que se encontrem com frequência dejectos que fazem prova da passagem de algum lobo, facilmente identificáveis por terem pêlos, pois são o único animal que ingere também a pele das suas vítimas.

51 escadas cascata Pitões das Júnias

52 Carvalhal de Beredo

53 Carvalhal de Beredo

54 dejectos de lobo

A água da cascata de Pitões das Júnias é a do ribeiro de Campesinho, o mesmo que passa por trás do Mosteiro, e que a dada altura cai abruptamente entre rochedos verticais, precipitando-se numa pequena lagoa 30 metros mais abaixo. O Campesinho vai depois desaguar na Ribeira do Beredo, em cujo vale se estende o admirável carvalhal de que falei acima e de que magnitude é bem visível a partir do miradouro da cascata. Por coincidência, em nenhuma das várias vezes que aqui estive tive a sorte de ver esta cascata com muita água, provavelmente porque as minhas visitas nunca coincidiram com épocas de chuva ou de degelo. Se eu precisasse de motivos para regressar a esta terra, este seria apenas mais um.

55 cascata Pitões das Júnias

 

Não se ficam por aqui os encantos da região de Montalegre, que extravasam em muito a área ocupada pelo Parque. Fica a promessa de aqui revelar mais alguns um dia destes.

 

Leiam também: O sabor do Gerês em Terras de Bouro

 

***

 

Esta recente visita ao Gerês foi feita no âmbito das Jornadas Gastronómicas Gerês-Xurês a convite do Turismo do Porto e Norte de Portugal, ao qual agradeço, e por intermédio da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses.

 

Outras informações:

 

Ecomuseu do Barroso – Vezeira e a Serra

Rua da Sarramada, n.º8, 5470-017 Fafião, Portugal

+351 276 009 140

associacaovezeira@gmail.com

www.ecomuseu.org

 

Hostel Retiro do Gerês

Largo da Sobreira do Chão, nº 1, 5470-017 Fafião, Portugal

+351 966 406 084 ou +351 253 013 821

geral@retirodogeres.pt

https://retirodogeres.pt/

 

Associação dos Produtores de Fumeiro da Terra Fria Barrosã

Posto de Turismo, Praça do Município, 5470-214 Montalegre, Portugal

+351 966 960 887 ou +351 276 510 200

fumeirobarroso@gmail.com

www.fumeirodemontalegre.pt

 

Fumeiro Rosa Moura

Medeiros, 5470 Montalegre, Portugal

+351 276 547 196

 

Germano Surreira (produtor de fumeiro artesanal)

Montalegre, Portugal

+351 914 231 660

germanosurreira@gmail.com

https://www.facebook.com/surreira.germanojose

 

Casa Albelo do Gerês

Rua das Lajes, 17, 5470-332 Outeiro, Portugal

+351 939 665 753 ou +351 933 189 409

casaalbelodogeres@gmail.com

https://www.facebook.com/casaalbelodogeres/

https://www.instagram.com/casaalbelodogeres/

 

FG Wines (Mont’Alegre Vinhos)

Rua Vítor Branco, Mercado Municipal, Loja 3, 5470-245 Montalegre, Portugal

+351 938 231 101

franciscogoncalves@fgwines.pt

https://www.fgwines.pt/

 

Centro de Interpretação Planalto da Mourela

Pitões das Júnias, Portugal

cipmourela@gmail.com

Facebook: Centro de Interpretação Planalto da Mourela

 

Ecomuseu de Barroso - Corte do Boi

Rua do Forno, 5470-370 Pitões das Júnias, Portugal

+351 929 137 014

ecomuseupitoes@gmail.com

www.ecomuseu.org

 

Taberna Terra Celta

  1. dos Caldeireiros 2, 5470-370 Pitões das Júnias, Portugal

+351 929 137 014

tabernaterraceltapitoes@gmail.pt

Facebook: Taberna Terra Celta

 

Casa Santa Catarina

Rua da Mijareta, n.º 906, 5470-226 Montalegre, Portugal

+351 964 303 379

santacatarina906@gmail.com

Facebook: Casa de Santa Catarina

 

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O sabor do Gerês em Montalegre

 

2 comentários

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    anacb

    10.11.20

    Pois que a ideia era mesmo despertar o apetite. Para a comida e para o resto
    Obrigada pela visita!
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