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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 24.06.19

O melhor segredo da Roménia

 

É um palácio? Um mausoléu? Um mosteiro? Uma miragem? Uma lenda? Um bolo de noiva? Não! O melhor segredo da Roménia não é nenhuma destas coisas, mas tem algo a ver com todas elas. Curiosos? Já vão perceber porquê.

 

Indo de Târgoviște para Sibiu, e antes de nos fazermos àquela que é uma das mais famosas estradas europeias – a Transfăgărășan, uma estrada de montanha com mais de 90 quilómetros de curvas e contracurvas sucessivas que liga a Valáquia à Transilvânia – decidimos fazer uma paragem (breve, achávamos nós) em Curtea de Argeş, uma pequena cidade sobre a qual eu tinha lido, durante as minhas pesquisas, qualquer coisa vaga como ter uma catedral que merecia ser visitada. Ficava em caminho e dava jeito para esticarmos um pouco as pernas depois de mais de 100 quilómetros dentro do carro, mas as expectativas eram relativamente baixas.

Curtea de Argeş - escultura Neagoe Basarab.JPGEscultura em homenagem ao príncipe Neagoe Basarab

Curtea de Argeş.jpgCatedral Arquidiocesana e Necrópole Real de Curtea de Argeş

 

A primeira boa surpresa foi o facto de a cidade ser bem agradável. Ao contrário de Târgoviște, que é plana, seca e quente (e um bocado menos interessante do que seria de esperar), Curtea de Argeş está situada já nas montanhas e é uma cidadezinha despretensiosa mas cheia de charme, e muito verde. O complexo formado pela Catedral e pelo Mosteiro situa-se dentro de um parque ajardinado e está por isso rodeado de grandes árvores, recatadamente protegido dos olhares de quem passa na estrada. Só depois de passado o portão de metal é que começámos a ter um vislumbre de cúpulas brancas por trás dos abetos e tílias, mas ainda tivemos de percorrer mais uns metros da alameda até conseguirmos ver a Catedral por inteiro. E aí, o espanto foi geral.

Curtea de Argeş - Catedral (1).JPGCurtea de Argeş - Catedral (2).JPG

É difícil descrever um edifício tão invulgar e tão surpreendentemente belo – para mim, um dos edifícios religiosos mais bonitos que visitei até hoje. Primeiro é o impacto da cor. Completamente construído em pedra calcária branca, alguns elementos que o adornam foram pintados em cores também muito claras, do cinzento ao azul pálido, do creme ao dourado quase mate (fez-me lembrar um bolo de casamento, daqueles com vários andares…). Depois, é a sua própria forma. Evoca claramente as igrejas ortodoxas e as suas torres típicas, como seria de esperar. Mas tem uma tal diversidade de volumes, ora rectos, ora arredondados, e uma tão grande profusão de elementos decorativos intrincados, arabescos, cordões, medalhões, frisos, pináculos, e sei lá mais o quê, que remete para os estilos mourisco e bizantino. Pode haver quem ache excessiva esta mistura, a mim encantam-me estas “convivências” meio delirantes e que ainda assim conseguem produzir obras que são um festim para os olhos.

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A história deste monumento é antiga e cheia de acontecimentos. Mandada construir pelo príncipe Neagoe Basarab em inícios do séc. XVI, a igreja tornou-se desde logo um importante ícone da religião ortodoxa no sul da Roménia, e foi estabelecida como mausoléu do dito príncipe e seus descendentes. Nos séculos que se seguiram foi danificada por fogos e terramotos, e alvo de ataques perpetrados por invasores húngaros e turcos, tendo sido apenas parcialmente restaurada no séc. XVII pelos príncipes Matei Basarab e Șerban Cantacuzino, e em inícios do séc. XIX pelo bispo Joseph. Mas foi o rei Carol I que promoveu a maior e mais recente remodelação da catedral, e aquela que lhe deu o aspecto actual.

Curtea de Argeş - Catedral (10).JPGCurtea de Argeş - Catedral (3).JPG

Carol I foi o primeiro rei da Roménia. Nascido Príncipe Karl Eitel Friedrich Zephyrinus Ludwig de Hohenzollern-Sigmaringen, na Alemanha, foi convidado a presidir aos destinos dos Principados Unidos da Roménia em 1866, numa tentativa por parte dos políticos romenos de pôr um fim ao caos que grassava no país. Apesar de em termos funcionais ser independente, o principado encontrava-se legalmente sob o domínio dos Otomanos, que controlavam na altura grande parte dos territórios da Europa oriental, e era por isso obrigado a pagar-lhes impostos. No rescaldo da sua bem-sucedida participação na guerra que opôs russos e turcos e ficou conhecida como Guerra da Independência (1877-1878), Carol – que tinha adoptado logo desde o início a versão romena do seu nome – conseguiu que o Tratado de Berlim reconhecesse a independência total da Roménia, e foi coroado rei em 1881.

 

Até 1914, quando morreu, e entre muitas outras iniciativas destinadas a unificar a Roménia e a modernizar e melhorar a economia do país, Carol I dedicou particular atenção à construção e reconstrução de estruturas e edifícios, vários dos quais foram, e são ainda hoje, verdadeiros marcos arquitectónicos. Para renovar a catedral de Curtea de Argeş convidou os arquitectos francês Andre Lecomte du Nouy e romeno Nicolae Gabrielescu, e também vários pintores (para os murais interiores) franceses e romenos. Esta preocupação com a catedral não foi, obviamente, desprovida de interesse pessoal: prolongando a tradição secular, é aqui que foram enterrados Carol I e a sua mulher Elisabeta e Ferdinando I e a sua mulher Maria*. É por isso mesmo que, mais do que edifício religioso, a catedral é hoje em dia essencialmente um mausoléu.

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Em contraste com os tons neutros do exterior, o interior é uma orgia de cores e teve o condão de me pôr boquiaberta mais uma vez. O dourado é rei e senhor do lugar, e ofusca todas as outras cores: está presente nas paredes, nos tectos, nos lustres, nas colunas, nas madeiras, nas cruzes, e até em pormenores do piso, todo composto com pequenos mosaicos. Não há nem um pedacinho do interior que não esteja decorado. E às cores aliam-se as formas. O arredondado das cúpulas e dos arcos, as colunas em espiral, os arabescos dos frisos, as flores e folhas estilizadas nos motivos pintados… é difícil fixar o olhar, tantos são os pormenores que chamam a atenção.

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Curtea de Argeş - interior da Catedral (1).JPGCurtea de Argeş - interior da Catedral (2).JPG

Curtea de Argeş - interior da Catedral (8).JPGCurtea de Argeş - interior da Catedral (10).JPG

Curtea de Argeş - interior da Catedral (5).JPGCurtea de Argeş - interior da Catedral (9).JPG

Além da igreja, há mais motivos para ficar por ali um bom bocado. Todo o parque do complexo é um espaço bonito e bem cuidado, cheio de bons aromas e pormenores originais. Ao fundo de outra alameda encontra-se o edifício do mosteiro, construído na altura da renovação da catedral. Feito de tijolo, tem como particularidade interessante o facto de a torre da sua Igreja Episcopal só ter sido acabada depois de colocado no local o sino, uma relíquia trazida propositadamente do mosteiro de Cozia.

Curtea de Argeş - parque do Mosteiro (2).JPGCurtea de Argeş - parque do Mosteiro (1).JPG

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Curtea de Argeş - parque do Mosteiro (5).JPGCurtea de Argeş - parque do Mosteiro (4).JPGCurtea de Argeş - parque do Mosteiro (6).JPG

Curtea de Argeş - Mosteiro.JPGCurtea de Argeş - Igreja Episcopal do Mosteiro.JPGCurtea de Argeş - Igreja Episcopal do Mosteiro (Torre).JPG

Curtea de Argeş - Igreja Episcopal do Mosteiro (interior).jpg

 

E por fim, a lenda. Ou lendas, melhor dizendo, pois existem duas, ambas associadas à mesma figura, um certo mestre-de-obras arménio de nome Manole – e o nome parece ser a única coisa verdadeira nestas histórias. Uma das versões conta que todo o trabalho feito por Manole e os seus ajudantes durante o dia ruía misteriosamente durante a noite, e parecia impossível acabar a obra. Sonhou o mestre uma certa noite que a única maneira de resolver o problema seria com um sacrifício humano, pelo que decidiram dar crédito a mitos antigos e sacrificar a primeira mulher que vissem nesse dia, emparedando-a viva. Para azar de Manole, a primeira mulher que apareceu na obra foi a sua (versões mais “fortes” dizem que estava grávida e ia levar o almoço ao marido), e o mestre-de-obras não teve outro remédio senão abdicar dela em prol de um bem maior – a construção da catedral.

A outra lenda conta que depois de terminada a construção da catedral, o príncipe (Neagoe Basarab numas versões, Radu Negru noutras) quis garantir que mais nenhum edifício idêntico fosse alguma vez construído, e decidiu encerrar Manole e os seus homens no sótão da igreja. Na tentativa de escaparem àquela prisão, os homens construíram asas de madeira para se evadirem voando, mas nenhum foi bem sucedido e todos eles caíram e morreram. No lugar onde morreram foi construída uma fonte a que chamaram, adequadamente, a Fonte de Manole – e que actualmente se encontra no Parque a que também deram o nome do mestre-de-obras, do outro lado da estrada que dá acesso ao complexo do mosteiro.

 

Ame-se ou odeie-se, a Catedral de Curtea de Argeş é um ícone nacional da Roménia, testemunho da história do país e de que a arte e as influências culturais ultrapassam as fronteiras delimitadas pela religião quando se trata de criar obras arquitectónicas cuja beleza permanece inquestionável através dos séculos.

 

* Carol II também foi enterrado na Catedral do Mosteiro, mas os seus restos mortais foram recentemente transladados para a nova Catedral Arquidiocesana e Necrópole Real, construída perto da entrada do complexo, e onde também repousam Miguel I (o último rei da Roménia, que foi forçado a abdicar em fins de 1947) e a sua mulher Ana.

 

Nota: a catedral e todo o complexo do mosteiro são de visita gratuita mas, tal como sucede em vários outros locais (na Roménia e não só), é necessário pagar para poder tirar fotografias.

 

 

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Um roteiro na Roménia

10 razões para visitar a Roménia

Nos passos de Vlad Dracul

Dois dias em Bucareste

 

 

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