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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Ter | 19.03.19

Dois dias em Bucareste - dia 2

 

Em Bucareste ainda se sentem as marcas de um prolongado período de regime político fechado – desorganização, edifícios degradados, um certo ambiente de desinteresse e “deixa andar” – mas já se notam muitos dos "vícios" de uma cidade europeia cosmopolita: grandes edifícios, grandes avenidas, muito trânsito, muito comércio, gente apressada… E tudo isto a par com um riquíssimo e variado património arquitectónico.

 

Bucareste - Palácio do Parlamento (1)

O segundo dia começa com a visita ao Palácio do Parlamento, ao qual também chamam “Casa Poporului” (Casa do Povo). As visitas são guiadas e demoram cerca de uma hora, e há sempre tanta gente, tantos grupos, que é preciso marcar com antecedência – e de preferência na véspera – para não se correr o risco de não visitar aquele que é o ex libris da cidade. Nós pedimos na recepção do hotel para nos fazerem a marcação pelo telefone, e até pudemos escolher a hora porque na altura ainda havia bastantes vagas. Importante: na altura de levantar os bilhetes é preciso apresentar o passaporte ou cartão do cidadão, como prova da nossa identidade. Também importante: a entrada dos visitantes fica no lado direito do edifício, e não é fácil dar com ela; é preciso andar um bom bocado a pé junto à vedação (porque o perímetro é mesmo muuuuito extenso) até lá chegar.

Bucareste - Palácio do Parlamento (2)

É um edifício colossal, e nunca um adjectivo foi tão apropriado como neste caso. À sua volta não há praticamente nada excepto verde, e não tendo termo de comparação, quando o vemos de longe não parece tão monumental quanto na realidade é. Mas os números dizem tudo: ocupa uma área de 64.800 metros quadrados; tem 84 metros de altura acima do solo… e 92 abaixo dele; são 12 pisos com 1.100 divisões (e não estamos a falar de divisões pequeninas…), mais 4 níveis e um bunker antinuclear no subsolo; na sua construção foram utilizadas – só para dar alguns exemplos – 3.500 toneladas de cristais, 1 milhão de metros cúbicos de mármore, 220.000 metros quadrados de carpetes, 900.000 metros cúbicos de madeiras, 3.500 metros quadrados de peles e 700.000 toneladas de aço e bronze; é o maior edifício parlamentar e o segundo maior edifício administrativo do mundo (o maior é o Pentágono); tem mais 2% de volume que a pirâmide de Quéops; e consome mais energia do que uma cidade com 250.000 habitantes. Impressionante, não é? Mas há mais…

Bucareste - Palácio do Parlamento (3)

A história deste Palácio tem sido atribulada. Começou a ser construído em 1983 quando os destinos da Roménia eram comandados pelos caprichos do ditador Nicolae Ceaușescu, e destinava-se a abrigar as instalações presidenciais, o Supremo Tribunal e o Comité Central do Partido Comunista Romeno. O processo de construção envolveu 700 especialistas em arquitectura e design, liderados por uma jovem arquitecta de 28 anos chamada Anca Petrescu, e nele trabalharam cerca de 20.000 operários em três turnos contínuos. Ainda hoje não se sabe exactamente quantas pessoas morreram em acidentes de trabalho durante a sua construção, mas sabe-se que foram muitas. Previa-se a sua conclusão em 1990, mas os trabalhos foram interrompidos após a revolução de 1989 – a vontade de terminar este projecto era pouca, pois o edifício era visto como o símbolo de um ditador que não tinha hesitado em fazer a população passar dificuldades enquanto dava largas à sua sede de grandeza e extravagância, no que era secundado pelas elites do regime. O Palácio acabou por só ser terminado em 2006, e o seu valor de construção estima-se em 6 mil milhões de euros. É também, obviamente, um dos edifícios com a manutenção mais cara do mundo.

Bucareste - Palácio do Parlamento (15)

Das 1.100 divisões do complexo, apenas pouco mais de 400 são actualmente usadas. É aqui que estão alojados a Câmara dos Deputados e o Senado, e uma das alas está ocupada pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea. Uma parte do Palácio é utilizada como Centro de Conferências – e esta é de facto a parte maioritariamente visitável do edifício. Todos os materiais usados na construção e embelezamento do Palácio são de origem romena, com excepção das portas da sala Nicolae Balcescu, que foram uma oferta do também ditador (do Zaire) Mobutu Sese Seko.

Bucareste - Palácio do Parlamento (10) Hall 3 de Setembro

No hall de entrada a que foi dado o nome de “3 de Setembro”, existe uma escadaria simétrica inspirada no Palácio de Inverno de São Petersburgo, inteiramente feita de mármore, e que foi refeita por três vezes (porque Ceaușescu não gostou das duas primeiras versões).

Bucareste - Palácio do Parlamento (16) Hall 3 de SetembroBucareste - Palácio do Parlamento (12) corredor

Bucareste - Palácio do Parlamento (13) corredor

 

A sala da União, sem dúvida uma das mais bonitas, tem um maravilhoso tecto/telhado de vidro, enquanto a sala da Câmara dos Direitos Humanos está decorada com painéis de carvalho e tem o segundo maior e mais pesado lustre do Palácio: pesa 2 toneladas, e para possibilitar a sua reparação foi construída uma câmara de acesso por cima do tecto da sala. Este é no entanto apenas um dos mais de 2.800 lustres que estão distribuídos pelo edifício. O maior pesa 5 toneladas e está na sala inicialmente destinada ao teatro, que agora é uma sala de conferências.

Bucareste - Palácio do Parlamento (8) Sala da União

 

Bucareste - Palácio do Parlamento (7) Sala da União

Bucareste - Palácio do Parlamento (9) sala dos Direitos Humanos

Bucareste - Palácio do Parlamento (11) sala de conferências (antigo teatro)

As visitas terminam sempre na sala Alexandru Ioan Cuza, que é uma das maiores salas do edifício (2.040 metros quadrados) e a que tem o tecto mais alto (20 metros). E é a última porque dá acesso à varanda principal do Palácio, de onde se pode observar toda a zona da cidade que foi propositadamente remodelada em simultâneo com a construção do Palácio. Era daqui que o ditador tencionava dirigir-se às multidões que viriam assistir aos seus discursos, mas quis o destino que nunca tivesse essa oportunidade. A primeira figura notável que a utilizou para aparecer em público foi… Michael Jackson.

Bucareste - Palácio do Parlamento (6) Sala Alexandru Ioan Cuza

 

Bucareste - Palácio do Parlamento (5) Sala Alexandru Ioan Cuza

 

Bucareste - Palácio do Parlamento (4) varanda

Bucareste - Avenida Unirii (1)

Em frente ao Palácio estende-se a Avenida Unirii – cujo nome anterior foi Avenida da Vitória Socialista. Em romeno, avenida diz-se “bulevardul”, palavra que evoca a francesa “boulevard”. Provavelmente, isto dever-se-á mais ao facto de serem ambas línguas latinas – a língua romena está gramaticalmente muito mais próxima do latim do que qualquer uma das outras – mas também é verdade que entre fins do séc. XIX e inícios do século passado a influência francesa era extremamente notória nesta capital: todos os romenos cultos falavam francês e a cultura de Bucareste estava de tal forma marcada pela francesa que a cidade era conhecida como “pequena Paris”. As provas dessa influência ainda são hoje bem visíveis na arquitectura e, obviamente, nas amplas avenidas da cidade. No entanto, a Avenida Unirii é uma herança bem mais recente, e embora a sua construção e os seus 3,5 km de comprimento tenham sido idealizados como contraponto aos Campos Elísios parisienses, ela deriva do mesmo espírito megalómano que deu origem ao Palácio que lhe é sobranceiro.

Bucareste - Avenida Unirii (2)

Bucareste - Avenida Unirii (3)

Para construir o Palácio e o conjunto desta avenida com os edifícios que a rodeiam (e que agora alojam vários Ministérios) foi causada uma alteração irreparável na paisagem da cidade, que afectou uma área de 60 hectares – um quarto da zona histórica – e obrigou ao despejo e realojamento sumário de cerca de 44.000 pessoas. Muitos edifícios importantes e até igrejas centenárias foram demolidos, e o desastre só foi ligeiramente mitigado porque Eugen Iordachescu, um engenheiro civil, concebeu um processo que permitiu deslocar oito igrejas para até 300 metros de distância do seu local original, ficando assim completamente escondidas por trás dos novos e mais altos edifícios. O maior bloco que teve de ser movido pesava 9.000 toneladas e fazia parte do complexo do Mosteiro de Antim, que data do séc. XVIII e inclui uma igreja belíssima.

Bucareste - Mânăstirea Antim (2)Bucareste - Mânăstirea Antim (1)

 

Para passar a tarde, nada melhor do que um passeio pelo Grădina Cișmigiu, outro dos lugares icónicos de Bucareste. O mais central dos jardins públicos de Bucareste – e também o mais apreciado pelos locais – é um amplo jardim romântico em estilo inglês com extensos relvados, inúmeras árvores (mais de 30.000), flores exóticas (trazidas dos jardins de Viena), fontes, monumentos e um lago onde é possível passear de barco quando o tempo está ameno e patinar no gelo durante o Inverno. Foi concebido inicialmente em 1845 por Carl Friedrich Meyer, um jovem arquitecto paisagista austríaco anteriormente responsável pelos Jardins Imperiais de Viena que conseguiu transformar um enorme terreno pantanoso num local aprazível e intemporal, um verdadeiro oásis no meio do calor de Verão e do trânsito das grandes avenidas de Bucareste. Abriu ao público em 1860 e mais tarde, em 1910, o também austríaco Friedrich Rebhun redesenhou-o com a forma com que se mantém até hoje. Os 17 hectares deste jardim estão divididos em várias áreas e nele encontramos de tudo um pouco: cafés e restaurantes com esplanadas, parques infantis, zonas temáticas – como o Jardim Romano, ou o Memorial dedicado às tropas francesas mortas na Roménia durante a 1ª Grande Guerra –, cascatas e belos recantos meio escondidos, uma área para os jogadores de xadrez, outra para passear cães, e até mesmo pavões.

Bucareste - Jardins Cismigiu (1)

 

Bucareste - Jardins Cismigiu (8)

 

Bucareste - Jardins Cismigiu (2)

 

Bucareste - Jardins Cismigiu (4)

 

Bucareste - Jardins Cismigiu (5)

 

Bucareste - Jardins Cismigiu (6)

O nome do jardim deriva da palavra turca “Ceşme”, que significa “fonte”, e Cișmigiu era o nome dado ao funcionário principal que cuidava das fontes públicas, e que construiu para si próprio uma casa perto deste jardim, onde se encontrava uma das fontes principais da cidade. O nome pegou, e mantém-se até aos nossos dias.

Bucareste - Jardins Cismigiu (7)

Se o tempo estiver bom, aceitem a minha sugestão: descansem as pernas dos muitos quilómetros percorridos nestes dois dias enquanto tomam uma bebida fresca na esplanada do “Terasa Gradina Cismigiu”, com vista sobre o lago. Pode haver outras maneiras de terminar bem uma visita a Bucareste, mas esta será certamente uma das mais relaxantes.

Bucareste - Terasa Gradina Cismigiu (2)

Bucareste - Terasa Gradina Cismigiu

 

 

Informações práticas

 

1 - Como ir do aeroporto para o centro de Bucareste:

 

Transportes públicos

 

Autocarro Expresso 780 – liga o aeroporto à estação de comboio Gara de Nord (onde há correspondência com as linhas M1 e M4) todos os dias entre as 5.15 e as 23.10.

Autocarro Expresso 783 – liga o aeroporto ao centro da cidade (Piata Unirii), de dia e de noite. Durante o dia parte a cada 15 ou 20 minutos, durante a noite apenas de 40 em 40 minutos.

- O percurso de qualquer um destes autocarros demora habitualmente 45-50 minutos (mais, se for hora de ponta).

- Os bilhetes são cartões magnéticos, e o mais habitualmente usado pelos turistas é um cartão azul com o nome de Multiplu. Actualmente, o cartão custa 1,6 lei e cada viagem tem o preço de 3,5 lei. Pode ser carregado com um mínimo de duas e um máximo de dez viagens; não é recarregável, mas pode ser usado por várias pessoas simultaneamente. Não é possível comprar bilhetes dentro do autocarro, pelo que há que comprar o cartão antecipadamente, na máquina automática ou na bilheteira que se encontra junto à paragem de autocarros.

- A paragem dos autocarros fica no piso térreo do aeroporto, junto à entrada das Chegadas Domésticas (para quem está nas Chegadas Internacionais é preciso descer, seguir os sinais que levam às Chegadas Domésticas e depois sair do edifício).

 

Táxi ou carro alugado

 

Uma viagem de táxi ou carro alugado do aeroporto para a cidade é rápida, confortável q.b., e não fica muito cara (35-45 lei, que correspondem a 8-10€, aos preços actuais), por isso torna-se uma opção menos cansativa do que o transporte público. Na altura em que estive em Bucareste havia alguns problemas com motoristas de táxi que se colocavam junto à porta das Chegadas tentando angariar clientes (por um preço bem mais elevado do que o normal) de forma muito insistente e até incomodativa, e que não tinham pejo em mentir (dizendo que o táxi que tínhamos pedido pelo sistema automático normal não ia chegar). Por sorte, tinha lido sobre o assunto e não me deixei “enredar” no esquema, pelo que acabou por correr tudo bem. De qualquer forma, parece que as autoridades resolveram o problema entretanto, pelo menos em parte, e tanto quanto sei actualemente isso já não sucede. De qualquer forma, não convém aceitar quaisquer ofertas de taxistas que se aproximem a oferecer os seus serviços ou queiram negociar as tarifas; se a viagem for num táxi amarelo, convém verificar que o condutor pôs o taxímetro a trabalhar antes de arrancar.

Os táxis são “chamados” através de umas máquinas amarelas colocadas nas Chegadas, perto da saída; a máquina emite um bilhete com os detalhes do táxi (tem um número que identifica o veículo), e que depois deverá ser entregue ao motorista. Passando as portas de saída, há que esperar no passeio do lado esquerdo, que é o lado de onde virá o táxi. Geralmente demoram poucos minutos a chegar. Nota importante: é preciso ter moeda local (lei) suficiente, pois não aceitam cartões nem euros.

Em alternativa, já é possível usar os serviços da Uber ou da Taxify, que geralmente recolhem os passageiros no estacionamento do primeiro piso, fora do edifício do terminal. Nestes casos geralmente será necessário pagar também o bilhete do estacionamento. Há ainda duas aplicações (para smartphone) através das quais é possível chamar um táxi local: Clever Taxi e Star Taxi. Nestes casos, tal como num táxi normal, será necessário indicar o destino directamente ao condutor e no final pagar em dinheiro.

Ainda outra alternativa pode ser o aluguer de um transfer em carro privado, num dos vários sites online onde é possível reservar este serviço com antecedência. Pode valer a pena fazer uma simulação e comparar o preço, embora habitualmente seja mais caro do que um táxi e só compense eventualmente se o grupo que viaja for grande e/ou tiver muita bagagem.

Se não tiver trocado euros por lei antes de viajar, evite as casas de câmbio do aeroporto, que oferecem taxas menos favoráveis do que é possível conseguir nas da cidade. Nas instalações do aeroporto há ATMs de bancos locais onde é possível levantar dinheiro. Se tiver mesmo de usar os serviços de uma casa de câmbio, troque apenas o mínimo indispensável para pagar o táxi e pouco mais.

 

2 - Transportes na cidade:

 

A rede de metro é razoável e não é cara, sendo por isso a melhor forma de deslocação quando as distâncias são maiores ou o cansaço já não permite andar a pé. Existem quatro linhas, e todas as estações de metro são subterrâneas e estão assinaladas no exterior por um quadrado branco com um M. O metro de bucareste funciona entre as 5h e as 23h. É possível comprar bilhetes com 2 viagens e com 10 viagens. Como é normal, há que validar o bilhete ao entrar na estação.

Os autocarros e eléctricos têm uma rede complicada e não são de fácil utilização para quem é estrangeiro e não conhece a língua romena. Além disso, o trânsito em Bucareste é algo caótico e lento, mais ainda nas horas de ponta, e os veículos demoram por vezes bastante a chegar, pelo que não são uma boa opção.

Tal como na viagem de e para o aeroporto, os táxis e carros alugados também são uma hipótese a considerar, sobretudo a horas mais tardias e para locais não servidos pela rede do metropolitano. Mais uma vez, o mais prático será fazer uso de uma aplicação no smartphone para chamar um veículo.

 

3 - Comer:

 

Como em qualquer grande cidade europeia, Bucareste tem comida para todos os gostos, desde fast food a restaurantes típicos ou gourmet. Também não faltam cafés e esplanadas, e de uma maneira geral os preços não são elevados – pelo menos em comparação com os nossos. Claro que quanto mais turístico o local escolhido, mais alta será a factura, que também neste aspecto Bucareste não destoa das outras capitais. A cozinha tradicional romena combina influências de todas as regiões que rodeiam o país, da austro-húngara à balcânica, passando pela turca e pela ucraniana. Há queijo e enchidos, sopas à base de vegetais e carne – aconselho as sopas de tomate –, salsichas (muito temperadas) e pequenos rolos de carne picada (de várias qualidades) grelhada, feijões, couves e outros legumes estufados ou guisados como acompanhamento, muita carne (porco e cordeiro, sobretudo) e algum peixe (especialmente truta). O prato nacional é o sarmale, carne picada de porco e arroz enrolados em folhas finas de couve e estufados, e o acompanhamento mais tradicional é mămăligă, uma polenta (farinha de milho cozida) feita à moda romena. As sobremesas não são particularmente imaginativas, mas aconselho as tartes com recheio de maçã. A cerveja e o café são bons.

culinária romena - mamaliga

 

culinária romena - sopa de tomate

 

culinária romena

 

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Dois dias em Bucareste