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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 06.01.20

Divagações sobre um ano de viagens (e desafios, inspirações e projectos)

 

Início de mais um ano. Época de balanços, de repensar perspectivas e definir novos projectos. De 2019 posso dizer que, no mínimo, foi um ano ao mesmo tempo desafiante e inspirador. Um ano de decisões, de novas experiências e de crescimento pessoal. As mudanças vão acontecendo lentamente, e mesmo quando trazem algumas desvantagens acabam por se revelar mais positivas do que negativas – porque são mudanças na direcção certa, porque me obrigam a reavaliar o sentido que quero dar à minha vida, e porque lhe dão um sabor de novidade.

Plantação de chá Gorreana, São Miguel.JPG

 

Constatação primeira: a minha apetência por viajar não diminuiu.

Um dos meus escritores de viagens preferidos é o polémico Paul Theroux. Embora não aprecie a forma demasiado severa e crítica como por vezes olha para o mundo e para os outros (acho-o um bocado rabugento, por vezes até embirrante), adoro a maneira como escreve sobre as suas viagens, a sua escrita fluida em que tudo se encadeia na perfeição, a facilidade com que nos transmite as suas ideias mesmo quando não o faz de forma directa – e na verdade até concordo com muitos dos seus pontos de vista. No prefácio do seu livro “The Tao of Travel: Enlightenments from Lives on the Road” (em Portugal deram-lhe o título “A Arte da Viagem”, que eu acho pouco feliz e enganador, primeiro porque se confunde com o livro de Alain de Botton que tem o mesmo título, e segundo porque é uma tradução redutora do termo “tao”) Theroux escreveu:

O desejo de viajar parece-me caracteristicamente humano: o desejo de estar em movimento, satisfazer a curiosidade ou sossegar o medo, mudar as circunstâncias da vida, ser um estranho, fazer um amigo, desfrutar de uma paisagem exótica, arriscar o desconhecido.”

E isto é para mim completamente verdade. Além das várias razões pelas quais gosto de viajar, existe aquele sentimento de que há sempre algo diferente para ver ou fazer, de liberdade para escolher como passar as próximas horas ou dias, de excitação por não saber o que vai acontecer a seguir. Em viagem todos os meus sentidos estão mais despertos e sinto-me mais viva.

Apesar de por vezes estar cansada quando regresso – são sempre muitos quilómetros palmilhados a pé, e ocasionalmente noites com poucas horas de sono – a minha vontade de viajar nunca esmorece.

Fervenza de Bermui.JPG

 

Constatação segunda: todas as viagens escondem boas surpresas.

O filósofo Martin Buber disse que “todas as viagens têm destinos secretos que o viajante desconhece”, e este é um dos maiores prazeres que tenho quando viajo: há sempre alguma surpresa à minha espera. E em 2019 houve muitas, em todos os lugares que visitei.

Comecei o ano em Bruxelas, uma viagem decidida em cima da hora. À primeira vista, a cidade é cinzenta e meio desenxabida, sem aquela monumentalidade que entra pelos olhos adentro que possuem outras cidades europeias. Mas o que lhe falta em grandiosidade é compensado pela diversidade da sua arquitectura – sobretudo residencial – que só aparentemente é monótona. Para minha surpresa e meu enorme contentamento, a cidade está pejadinha de edifícios Arte Nova e Art Déco entre outros, mais abundantes e alguns igualmente felizes, no estilo modernista bruxelense.

Impressões de Bruxelas

 

Ainda em Janeiro, estive na mina de Queiriga e nas Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, com passagem no regresso por Linhares e pela Serra da Estrela. Uma das surpresas desta viagem foi Fonte Arcada, de que nunca tinha ouvido falar até começar a planear este fim-de-semana. Não sei se foi a forma como o sol do final da tarde se reflectia na pedra das casas ou a vista que nos oferecem os seus miradouros, mas gostei especialmente desta aldeia. Continua para mim um mistério esta atracção imediata que sinto por certos lugares. É um pouco como acontece em relação a certas pessoas, mas enquanto com as pessoas isso resulta da interacção e também muito da reciprocidade, os lugares estão simplesmente ali, maioritariamente estáticos – a atracção é unidireccional, e por isso basicamente mais intuitiva.

Roteiro de fim-de-semana_ das Terras do Demo à Serra da Estrela

 

Em Fevereiro passei na Galiza um fim-de-semana fora de série do princípio ao fim, desde as Fragas do Eume ao Mosteiro de Monfero, passando pelas cascatas de Naraío e Bermui, tudo ultrapassou as minhas expectativas. As Fragas do Eume são um Parque Natural enorme e praticamente desabitado com uma das florestas ribeirinhas melhor conservadas e mais virgens da Europa, que inclui uma variedade de árvores, fetos e líquenes, e onde passeamos entre inúmeros matizes de verde, aliados aos castanhos das folhas que invadem o chão, ao lado de um rio caudaloso e de ribeiros que escorrem em cascata pelas encostas, em cujas margens encontramos moinhos de água em ruínas e mosteiros românicos. Sinceramente, não estava preparada para tanta beleza e se ainda não conhecem, nem sabem o que estão a perder.

Na Galiza.png

 

No final de Março florescem as cerejeiras no vale do Jerte, perto de Plasencia, e a paisagem fica inundada de branco. O vale e as suas aldeias têm uma beleza muito própria, mas as maiores surpresas que tive vieram em forma de água, como tantas vezes me acontece: as “marmitas” escavadas pelos dois ribeiros ribeiros que se unem em Los Pilones, na Garganta de los Infiernos, e a Cascata del Caozo na Garganta Bonal. A outra boa surpresa deste fim-de-semana ficou por conta da localidade de Hervás e da sua formidável e bem preservada judiaria medieval, com ruelas estreitas e imbricadas e casas de traça e construção ainda tradicional.

O vale das cerejeiras em flor

 

Este ano vivi uma espécie de história de amor com a cidade de Aveiro, que visitei três vezes. A primeira foi em Abril, quando fui percorrer os passadiços da ria. De caminho aproveitei para matar saudades de outros lugares de que gosto especialmente, como a praia da Tocha, que tem vindo a perder alguns dos seus palheiros mais genuínos mas não o encanto, e o Farol da Barra, o maior e mais majestático de todos os faróis portugueses.

Farol da Barra

 

No final de Abril o destino foi o sudeste de França, numa viagem que me levou de Toulouse a Arles, parando em vários pontos ao longo do Canal du Midi, na Camarga e na Provença. São cinco os posts que escrevi sobre esta viagem, um por cada dia (o roteiro completo, com links para os vários posts, está aqui ), em que as maiores surpresas foram o Seuil de Naurouze (no Canal du Midi) um local tipo “no meio de nenhures” absolutamente maravilhoso pela tranquilidade e carácter bucólico, e Fontaine-de-Vaucluse (Provença), onde na nascente subterrânea do rio Sorgue as águas parecem surgir do nada, saindo aos borbotões por baixo altíssima escarpa rochosa que rodeia o vale.

Um cheirinho a sul de França - roteiro.jpg

 

Em Julho viajei até à Rússia. São Petersburgo surpreende pelos inúmeros canais, pela harmonia da arquitectura e pela riqueza que ostenta, Moscovo pela enormidade e megalomania das suas construções. Sobre estas duas cidades há muito para dizer e em breve falarei delas com mais pormenor, mas entretanto já aqui deixei algumas impressões e conselhos sobre esta viagem.

Alguns conselhos para quem vai viajar para a Rússia.jpg

 

Voltei a Aveiro no fim de Julho para assistir ao Festival dos Canais, um evento cultural e artístico anual cheio de animação e aproveitei para ir finalmente conhecer a Barrinha de Esmoriz e o seu passadiço, lugar tranquilo e excelente para observar uma grande variedade de pássaros e aves marinhas.

Cores de Aveiro.jpg

 

Outra boa surpresa deste ano foi Allariz, a vila galega onde estive em Setembro a pretexto do seu Festival dos Jardins, mas de que gostei sobretudo pela animação e oferta cultural. No regresso parei em Ourense, onde é imprescindível visitar a Catedral e o seu fabuloso Pórtico do Paraíso, um conjunto de esculturas do século XIII que me encantou pela sua policromia.

Allariz, jardins e muito mais.jpg

 

Outubro foi o mês em que quase não estive em casa. O primeiro destino foi Ponte de Lima, que também tem durante o Verão um festival internacional de jardins e tem, aberto todo o ano, o tão ou mais bonito Jardim do Arnado, que eu ainda não conhecia e estava maravilhosamente vestido com as flamejantes cores do Outono – para mim a estação mais bonita do ano para viajar no norte do nosso país.

Parque do Arnado, Ponte de Lina

 

Depois revisitei São Miguel, numa estadia de quase uma semana. Um dos dias mais preenchidos e gratificantes que ali passei deu o mote para um post, e foi também o dia em que tive a felicidade de conhecer essa maravilha da natureza que dá pelo nome de Lagoa do Congro, um enorme espelho de água parada rodeado de floresta exuberante, um lugar incrível cuja beleza e ambiente têm de ser sentidos, pois não é possível descrevê-los com justiça.

Um dia errante em São Miguel.jpg

 

Pouco mais de 24 horas depois do regresso já estava a caminho de Budapeste. Foram cinco dias para descobrir esta cidade de aparência clássica mas com uma alma muito moderna, apesar das cicatrizes deixadas por guerras e regimes ditatoriais. Surpreenderam-me sobretudo os bons museus e os parques, lindíssimos nesta altura do ano (cortesia do Outono), e muito especialmente o Parque da Cidade (Városliget) e o seu castelo de Vajdahunyad, uma construção híbrida inspirada em várias outras edificações mas cujo resultado final é atraente e está bem integrado no parque.

Városliget, Budapeste

 

Novembro trouxe-me a oportunidade de conhecer a bela aldeia portuguesa que dá pelo nome de Juízo, num fim-de-semana memorável passado em companhia de outros bloggers associados da ABVP.

Juízo, uma aldeia que tem histórias.jpg

 

A última viagem de 2019 foi novamente a Aveiro, desta vez para assistir às inspiradoras palestras dos convidados do NG Exodus Aveiro Fest. O primeiro domingo de Dezembro oscilou entre a chuva e o sol, mas ainda assim tive a sorte de poder passar algum tempo no delicioso Parque do Infante Dom Pedro, o meu local preferido na cidade – e foi precisamente este o tema do meu último post de 2019.

O meu local favorito em Aveiro.jpg

 

É certo que nem sempre as surpresas são assim tão boas; por vezes alguns lugares ficam aquém do que esperava, não me cativam, não sinto aquele “clique” de satisfação quando os visito. Mas são felizmente casos raros, as surpresas agradáveis ultrapassam de longe as menos positivas.

 

Constatação terceira: viajar sozinha tem um lado confortável.

Por incrível que pareça, até este ano nunca tinha viajado realmente sozinha. Já tinha acontecido planear uma ou outra viagem só para mim, mas depois acabou sempre por aparecer alguém a querer fazer-me companhia, ou alterei os meus planos para acompanhar outra pessoa a um qualquer outro destino. Este ano foi diferente, algumas destas viagens foram a solo e se por um lado senti muitas vezes a falta de alguém com quem partilhar uma refeição, trocar ideias ou que me ajudasse com o trajecto enquanto conduzo, por outro senti uma liberdade enorme por poder decidir horários e percursos de acordo com o meu próprio ritmo. Sozinha viajo mais devagar e descanso mais, sobretudo quando tenho de fazer muitos quilómetros de carro, porque sei que vou ter de estar mais concentrada no percurso e precisar de mais energia para chegar ao meu destino sem percalços.

Viagens são uma óptima maneira de testar amizades e amores. Viajar com companhia tanto pode duplicar a satisfação que se tira de uma viagem como transformar essa experiência numa maçada ou, pior ainda, num quase pesadelo. Tenho tido a sorte de viajar com pessoas com quem me entendo muito bem, e as viagens são ocasiões excelentes para aprofundar os laços que nos unem, mas também podem por vezes revelar o nosso lado mais negro, sobretudo quando o cansaço nos faz perder a paciência ou surgem percalços difíceis de resolver.

 

Constatação quarta: a melhor maneira de realizar um sonho é transformá-lo num plano.

A minha wishlist de lugares que quero conhecer não tem fim. Há aqueles que fazem parte dela desde que me lembro, e há os que vou acrescentando à medida que descubro que existem ou me despertam o interesse. Ao longo dos anos tenho vindo a ampliar o meu leque de “apetites” de viagem. Quando comecei a viajar não tinha qualquer interesse por aldeias ou ruínas, por exemplo, achava que Espanha era maioritariamente árida e monótona e as minhas maiores prioridades eram destinos de praia. Hoje em dia procuro sobretudo locais pouco conhecidos e o contacto com a natureza, embora continue a gostar das cidades e da sua oferta cultural.

Pouco a pouco tenho vindo a concretizar alguns desses sonhos mais antigos. São Petersburgo e a Camarga são os dois que visitei este ano, no ano passado foi Menorca, em anos anteriores a Martinica, o Egipto, a Costa Rica e a Croácia – isto só para falar de alguns. Em tempos achei que talvez nunca passassem de sonhos, pelos motivos de sempre: falta de dinheiro, falta de tempo, cansaço… Depois consegui realizar um, a seguir outro; um belo dia percebi que podia começar a planear eu própria as minhas viagens e foi como se tivesse aberto a caverna de Ali Babá. Continuo a ter os mesmos constrangimentos de tempo, dinheiro ou saúde, mas agora já não fico simplesmente à espera de que estejam milagrosamente reunidas as condições ideais para ir a qualquer lugar. Agora tenho objectivos, não só sonhos, e planeio como os atingir. Foi quando mudei o ângulo da minha perspectiva que comecei a perceber que mesmo que demore algum tempo, tudo é possível – a condição sine qua non é realmente querer.

Rússia - São Petersburgo - Matriosca.JPG

 

Constatação quinta: quero continuar a escrever.

Viver nunca foi fácil (por vezes nem sequer sobreviver) e se hoje temos mais comodidades, continuamos a ter de lutar bastante por isso. Falo de uma maneira geral, obviamente. Olho à minha volta e para o outro lado do mundo, percebo que há tanta coisa que está tão mal e eu pouco posso fazer para o alterar… e além disso, como todos nós, ainda convivo no meu dia-a-dia com casos de injustiça, de infelicidade extrema, de prepotência, de egoísmo exacerbado, de instabilidade emocional, enfim, situações que tornam os dias mais cinzentos e roubam a alegria. Vivemos num mundo tão bonito e parece que estamos apostados em estragar tudo.

Ibn Battuta, um viajante muçulmano do século XIV que nasceu em Tânger, disse que “viajar deixa-te sem palavras, e depois torna-te num contador de histórias”. Viajar, conhecer outras pessoas e culturas, ver como o nosso planeta é tão formidável apesar de tanto o maltratarmos ajuda-me a ter alguma esperança no futuro e a manter a minha sanidade mental. Sei que não sou a única com este sentimento. Escrever sobre as minhas viagens é não só uma forma de as reviver, mas sobretudo parte da vontade que tenho em inspirar e ajudar quem sente o mesmo que eu. Nem sempre consigo que as minhas palavras façam justiça à realidade, o léxico disponível torna-se frequentemente incapaz de transmitir todas as gradações da emoção que certos lugares despertam em mim. Mas tento, e vou continuar a tentar.

Para 2020 tenho um outro projecto de escrita, que também envolve viagens mas se afasta um pouco do espírito de um blogue. Vou conseguir levá-lo para a frente? Estou confiante que sim; contar-vos-ei novidades se e quando as houver.

Rússia - São Petersburgo - cirílico.JPG

 

Constatação sexta: não tenho a pretensão de conhecer o mundo inteiro.

Não sou uma viajante profissional nem tampouco uma aventureira. Não viajo habitualmente de mochila às costas, mas também não fico em hotéis de luxo. Sou uma pessoa normal, com um emprego normal e o número de dias de férias normal, que faz viagens normais ao alcance de qualquer um. Talvez daqui por uns anos possa passar mais tempo a viajar, para já tento rentabilizar ao máximo o tempo livre de que disponho. Não quero conhecer o planeta de uma ponta à outra. Há destinos que não me aguçam a curiosidade, pelo menos nesta altura da minha vida, e aqueles para onde quero viajar chegam e sobram para me manter bem ocupada. Não viajo para contabilizar países ou cidades visitadas, muito menos para bater algum record. Na verdade, até nem viajo muito. Viajo para descobrir novos lugares para me apaixonar – por eles, pelas pessoas, pela vida, e por mim.

 

Não aceito quaisquer fórmulas absolutas para viver. Nenhum código pré-concebido pode prever tudo o que pode acontecer na vida de uma pessoa. À medida que vivemos, crescemos e as nossas crenças mudam. Têm de mudar. Por isso creio que devemos viver com esta constante descoberta. Devemos estar abertos a esta aventura com uma consciência alargada da vida. Devemos ancorar toda a nossa existência na nossa vontade de explorar e experimentar.”

― Martin Buber                    

 

Fragas do Eume.JPG