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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Ter | 18.08.20

Diário de uma viagem à Islândia I

A viagem e a capital

 

Na era pré-internet o mundo das viagens era diferente. Escolhíamos os destinos por aquilo que víamos nos livros e revistas, pela publicidade das agências de viagem, pelos documentários televisivos ou pelos relatos dos amigos. O mundo era grande e tudo parecia distante, não íamos para lado nenhum sem mapas e possivelmente um guia de viagem. Havia menos informação e na maioria das vezes só víamos aquilo que já era conhecido, os lugares mais turísticos, que eram sempre supostamente os mais bonitos – se algum local não estava muito divulgado, então era porque não tinha beleza ou interesse suficiente, portanto não valeria a pena visitá-lo.

 

O mundo encolheu com a internet e depois mais ainda com as redes sociais, mas paradoxalmente acabou por ficar maior. A facilidade de comunicação dotou-nos de um manancial de informações e ferramentas que hoje em dia são uma enorme ajuda para quem viaja e nos permitem decidir com maior segurança até onde podemos ir e escolher o que queremos ver e fazer.

 

Vem isto a propósito da minha mais recente viagem. Não me lembro exactamente de quando nem da razão pela qual a Islândia passou a fazer parte da minha lista principal de destinos a conhecer. Sei que foi em tempos um país pelo qual eu não nutria interesse especial, tinha a ideia de que seria cinzento, frio e monótono. O que é que me fez mudar de ideias? Provavelmente algum artigo ou fotografia que vi na net, ou talvez nalguma revista, ou ambas as coisas. O que sei de certeza é que já há mais de dez anos andava a fazer planos para visitar a Islândia, mas a ocasião certa ainda não se tinha proporcionado. Estranhamente, como muito do que acontece na minha vida, apesar dos constrangimentos foi agora que pude concretizá-los. O que me mostrou (uma vez mais) que há oportunidades que surgem nas alturas mais improváveis.

 

É claro que foram essencialmente a net e ferramentas online foram os recursos usados para planear esta viagem. Para saber o que iria visitar foram muito úteis outros blogues, sobretudo o 365 Dias no Mundo, o The Wise Travellers, e o Me Across the World, além do website oficial do Turismo da Islândia e, obviamente atendendo às circunstâncias actuais, o site oficial sobre as condicionantes das estadias no país por causa da covid-19. O roteiro foi decidido com a ajuda do Google Maps e do Furkot. Os voos e o carro foram reservados em plataformas online, as estadias também. Tal como expliquei no post anterior, optámos por ir já com tudo reservado. Apesar de termos feito as marcações com pouco mais de uma semana de antecedência, isso permitiu-nos pelo menos ter mais algumas hipóteses de escolha do que quando já andássemos em viagem.

 

Foram ao todo 13 dias, incluindo os das viagens de avião, em que explorámos alguns dos locais mais icónicos da Islândia, e também outros recantos menos turísticos. Não todos, claro, não é possível conhecer tudo em tão pouco tempo. Mas o que vi encheu-me as medidas.

1 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Dia 1

 

O primeiro dia da viagem estendeu-se na realidade por dois, porque saímos de Lisboa a seguir ao almoço e só chegámos a Keflavík já perto da meia-noite, e o facto de nessa noite termos dormido poucas horas e praticamente ter havido sempre claridade no céu fez com que tudo parecesse um continuum.

 

No entanto, a sensação de estranheza começou logo no aeroporto. Nos últimos anos sempre a abarrotar, com mares de gente nos balcões de check-in e na área de passagem pela segurança, desta vez foi tudo tranquilo, rápido, como se deslizássemos constantemente numa passadeira rolante. Apesar de mais movimentado do que esperávamos, algumas das lojas estavam fechadas, às escuras, e só a zona das refeições parecia mais composta e semelhante àquilo a que estamos habituados – talvez também porque é o único sítio onde as máscaras faciais são postas de lado e o lugar se parece menos com um hospital.

 

A vantagem do pouco movimento aéreo é que os voos agora saem a horas. Fomos pela Lufthansa, com escala em Munique, não quisemos arriscar uma escala em Londres por causa das restrições que o Reino Unido ainda impõe a quem vai de Portugal – se houvesse algum problema e o limite de horas de escala permitido fosse ultrapassado, teríamos de ficar de quarentena, e nos tempos que correm não convém arriscar muito. Ir para a Islândia sabendo que seríamos testados à entrada já era risco suficiente, mas um risco reduzido porque não tínhamos razões para achar que podíamos estar infectados.

 

O avião ia quase cheio, todos de máscara como é obrigatório. Já não servem refeições quentes a bordo, apenas bebidas, sanduíches e uns snacks. Em Munique o aeroporto estava ainda mais sossegado, em parte porque chegámos ao final da tarde, que se tornou noite durante a nossa escala de quatro horas. Poucas lojas e restaurantes, a maioria fechados e sem nada de jeito para comer; têm no entanto umas áreas adequadas para quem quer descansar, com espreguiçadeiras e poltronas mais confortáveis que os bancos normais, e bem apetrechadas de tomadas para carregar telemóveis e computadores. Há também umas pequenas cabinas, tipo casulo e pagas electronicamente, onde é possível dormir ou trabalhar em total isolamento.

3 Diário Islândia - aeroporto Munique

2 Diário Islândia - aeroporto Munique

Mais três horas e meia de voo, que pareceram intermináveis por causa do cansaço acumulado, com o céu a clarear em vez de continuar escuro, e finalmente aterrámos na Islândia. Tal como em Munique, sair do avião foi um processo demorado. Acabaram-se as confusões e atropelamentos no corredor, com toda a gente de pé ao mesmo tempo a tentar passar à frente para sair. Agora a saída faz-se por filas, da frente para a retaguarda, e de acordo com as indicações dadas através dos altifalantes. Confesso que prefiro assim.

4 Diário Islândia - no avião para Reiquiavique

5 Diário Islândia - aeroporto Keflavík

Entre a longa e lenta fila para o teste à covid-19 (zaragatoa na garganta e numa narina) e os trâmites habituais para levantar o carro alugado, passaram mais de duas horas até que conseguíssemos estar finalmente a caminho de Reiquiavique. A estrada do aeroporto de Keflavík para a capital é praticamente uma longuíssima recta com quase cinco dezenas de quilómetros de asfalto limitado por rails metálicos. Às duas da manhã o céu mostrava-se azul-claro e luminoso acima das nuvens cinzentas, achatadas e esticadas como se alguém se tivesse entretido a puxá-las pelas pontas. Nem árvores, nem casas, apenas a planície a estender-se até uma fila de montanhas que mal se adivinhava ao longe, uma fita de mar do lado esquerdo a confundir-se com as nuvens, e as luzes da cidade lá muito ao fundo à nossa frente. Uma paisagem surreal que me manteve de olhos bem abertos, a tentar absorver tudo, até chegarmos ao hotel em Reiquiavique.

6 Diário Islândia - estrada para Reiquiavique

 

Para evitar os habituais problemas de estacionamento nas cidades, tínhamos escolhido um hotel fora do centro e com estacionamento próprio. O Hotel Cabin é simples e não fica num local particularmente charmoso, mas é de fácil acesso, confortável o suficiente, e tem um bom pequeno-almoço. Não podíamos sair hotel até recebermos os resultados dos testes, mas como precisávamos mesmo de dormir isso não constituiu propriamente um problema. Levantámo-nos apenas para ir comer, já bastante tarde, e aproveitámos para descansar até à hora em que recebemos as SMS a confirmar que os testes tinham sido negativos, quando passava um pouco do meio-dia.

7 Diário Islândia - Hotel Cabin - pequeno-almoço

 

Aos domingos o estacionamento no centro de Reiquiavique é gratuito, por isso deixámos o carro num parque perto do porto e seguimos a pé à descoberta da cidade.

 

Reiquiavique fica na costa sudoeste da Islândia e é a capital mais setentrional do mundo. Pequena e tranquila – a cidade propriamente dita tem apenas cerca de 130 mil habitantes – está cheia de contrastes, com uma área periférica de edifícios incaracterísticos e um centro onde casas de arquitectura tradicional convivem com algumas obras arquitectónicas arrojadas.

8 Diário Islândia - Reiquiavique

 

O monumento mais conhecido é a Hallgrímskirkja, que significa “igreja de Hallgrímur”. Hallgrímur Pétursson foi um religioso e poeta islandês do século XVII que escreveu o Passíusálmar (“Hinos da Paixão”), um conjunto de 50 poemas sobre a Paixão de Cristo que constitui uma das obras mais importantes da literatura islandesa. O edifício foi encomendado pela Igreja Evangélica Luterana da Islândia ao arquitecto Guðjón Samúelsson, que se inspirou em elementos da paisagem do país (como as formações rochosas de Svartifoss, os vulcões e os glaciares) para a desenhar. Visível de praticamente qualquer ponto da cidade (e até 20 quilómetros de distância), com a forma da fachada a fazer lembrar um space shuttle pronto para partir rumo à estratosfera (tal como outros seus contemporâneos, Samúelsson estava muito à frente, pois concebeu o projecto em finais dos anos 30 do século passado, muito antes de terem criado o space shuttle), a igreja é um gigante de concreto que impressiona pela envergadura. Tal como o exterior, o interior é simples e de linhas escorreitas – paredes brancas, vidros transparentes e uma quase ausência de elementos decorativos fazem com que a nave da Hallgrímskirkja seja um dos locais de culto mais despojados em que já entrei. A nota agradavelmente dissonante vai para o lindíssimo órgão de tubos, que é accionado electronicamente a partir de uma consola de madeira minimalista situada atrás dos bancos.

9 Diário Islândia - Reiquiavique

10 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

11 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

12 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

13 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

 

Os quarteirões à volta da igreja parecem desenhados a régua e esquadro. As ruas são estreitas, algumas pedonais; predominam os prédios baixos e pouco volumosos e as casas mais tradicionais, várias com jardinzinhos bem cuidados e cheios de detalhes deliciosos; há murais e pinturas no asfalto ou nos passeios; há lojas de todas as espécies, cafés com esplanada, letreiros coloridos e com ar artesanal em vez de néones. Excepto num ou noutro ponto, o movimento de pessoas é reduzido, e o de carros quase inexistente. Poderíamos estar numa qualquer vila de província em vez de na maior cidade islandesa. A rua mais icónica de Reiquiavique é Laugavegur, a artéria por onde pulsa a energia anímica da cidade, e onde se misturam lojas e galerias, restaurantes e bares, cafés e residências.

14 Diário Islândia - Reiquiavique - Laugavegur

16 Diário Islândia - Reiquiavique

15 Diário Islândia - Reiquiavique

17 Diário Islândia - Reiquiavique

22 Diário Islândia - Reiquiavique

23 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Outro edifício também moderno e também maciçamente de betão é o da Ráðhús, a Câmara Municipal. Ergue-se num dos extremos do Tjörnin, o lago que ocupa o coração de Reiquiavique, muito perto do edifício de pedra escura do Parlamento e da Catedral. A Ráðhús está parcialmente construída sobre a água e tem uma ponte pedonal a ligá-la a uma das margens, num recanto de lazer onde instalaram, bem a propósito, a escultura a que dão o nome de Monumento ao Burocrata Desconhecido: metade bloco de pedra informe, metade parte inferior de um corpo com uma mala de diplomata na mão, demonstra bem o sentido de humor dos islandeses.

25 Diário Islândia - Reiquiavique

24 Diário Islândia - Reiquiavique

26 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Percorrer o perímetro do lago foi uma das coisas que mais me agradou em Reiquiavique. Apesar de não ser uma zona verde exuberante, convida ao relaxamento e à contemplação. O percurso tem muitos bancos de jardim, várias esculturas, e no Verão fica cheio de flores. No lago há cisnes, patos, gaivotas e guinchos, que fazem as delícias dos miúdos e estão tão habituados a que lhes dêem de comer que vêm ter connosco assim que paramos junto à margem. As ruas a oeste do lago são uma zona nobre da cidade, com casas grandes e bonitas que mostram um estilo escandinavo mais rebuscado, rodeadas de arbustos, relva e árvores.

27 Diário Islândia - Reiquiavique

28 Diário Islândia - Reiquiavique

29 Diário Islândia - Reiquiavique

31 Diário Islândia - Reiquiavique

30 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Entre as mais de duas dezenas de museus que é possível visitar em Reiquiavique e arredores, escolhemos o Museu Nacional da Islândia (Þjóðminjasafn Íslands). É um museu muito antigo – foi fundado em 1863 – cuja colecção de milhares de objectos e fotografias nos conta a história da Islândia desde a chegada dos primeiros colonos à ilha. A exposição está distribuída de forma dinâmica em dois pisos e concebida como uma viagem ao longo do tempo, desde o século IX aos nossos dias. O Museu Nacional da Islândia é também responsável pela manutenção e actividade de várias construções históricas em todo o país, algumas dos quais visitámos durante a viagem.

 

Aproveitámos para lanchar no café do museu e a seguir, com o sol já a mostrar vontade de afastar as nuvens, decidimos ir até à zona do porto. No caminho, uma casa de madeira no número 10 da Aðalstræti chamou a nossa atenção: construída em 1762, é a casa mais antiga da cidade que ainda se encontra de pé.

36 Diário Islândia - Reiquiavique - Aðalstræti 10

 

A face norte da península em que Reiquiavique está localizada forma uma baía ampla, e num dos seus extremos desenvolve-se o porto da cidade. Se nos alhearmos da paisagem marítima (o que para mim não é fácil porque adoro água), o local tem pouco de apelativo. Mas foi esta a zona que decidiram transformar em local de animação para os visitantes estrangeiros, com os antigos barracões de cores vibrantes convertidos em restaurantes e lojas de serviços turísticos, e também, sobretudo nesta altura em que o turismo está muito abaixo do nível normal, para os habitantes da cidade, que pareciam estar ali reunidos para festejar alguma data – ou talvez apenas o aparecimento do sol. A música bombava, havia diversões para as crianças, e várias carrinhas de street food estavam ao rubro com filas de clientes para atender.

37 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

39 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

38 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

O porto foi igualmente o local escolhido para construir o Harpa, outra das coqueluches arquitectónicas de Reiquiavique. Pensado como parte integrante de um complexo grandioso (e dispendioso) que teve de ser reduzido devido à crise financeira de 2008, foi formalmente inaugurado em 2011 para funcionar como centro de conferências e sala de concertos. Desenhado pelo artista islandês Ólafur Elíasson e pelo gabinete dinamarquês Henning Larsen Architects, a maior originalidade deste edifício futurista são os mais de 700 painéis de vidro da sua fachada: concebidos por um geometrista, cada painel tem um formato diferente dos outros, e todos estão equipados com luzes LED que oferecem espectáculos coloridos nas longas e escuras noites de Inverno, numa clara alusão às auroras boreais. Algo que infelizmente não tive oportunidade de ver.

40 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

41 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

42 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

43 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

 

Do Harpa seguimos ao longo da Sæbraut (a marginal) até ao Sólfar, que se traduz como “viajante do sol”. Esta escultura em aço de Jón Gunnar Árnason foi erigida para celebrar o 200º aniversário de Reiquiavique como cidade. O escultor, que morreu poucos meses antes da inauguração da sua obra em Agosto de 1989, definiu-a como um barco onírico e uma ode ao sol e divulgou publicamente que a sua inspiração lhe advinha de uma experiência esotérica. Como qualquer obra artística modernista, presta-se a interpretações variadas e mais ou menos polémicas. A mim, por exemplo, faz-me lembrar mais um escorpião do que um barco viking…

44 Diário Islândia - Reiquiavique - Sólfar

 

Continuámos a explorar a comprida avenida marginal, agora de carro. Em Laugarnestangi 65, tão dissimulada pela vegetação que não damos por ela se não formos lá de propósito, encontramos uma das excentricidades de Reiquiavique. A casa do realizador de cinema islandês Hrafn Gunnlaugsson é tão controversa como o seu dono. Nos caminhos de acesso, somos “saudados” (ou talvez vigiados…) por figuras estranhas feitas com materiais de vários tipos: metal em diversas formas e estados de oxidação, pedaços de madeira, cordas, tecidos, objectos aleatórios usados para compor personagens com o seu quê de assustador. Mais à frente, destacando-se em contraluz no pano de fundo brilhante formado pelo mar e pelo céu, uma cruz cravejada de grandes pregos, ao lado de um banco de jardim metálico e um armário de madeira com a tinta a descascar (que eu não me importava de levar para casa), ambos com ar de descuidadamente ali largados há algum tempo. Peças compostas por elementos ferrugentos espreitam de todos os lados, por entre as plantas que crescem ao deus-dará.

45 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

46 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

Não há um nome oficial para esta casa. Por vezes é referida como “casa reciclada”, outras como “ninho do corvo”. Aqui, “corvo” é adequado tanto por ser a tradução de “Hrafn”, o nome do proprietário, como pela figura da ave, feita de varetas de metal, empoleirada no topo da casa. Numa entrevista, Hrafn fez notar que os corvos gostam de coleccionar coisas, pelo que o seu nome pode ser uma justificação para o seu hábito de ir acrescentando “tralha” à casa. Quando a comprou, prestes a ser demolida, a ideia inicial foi usá-la como local para construir as decorações para os seus filmes, mas acabou por se mudar definitivamente para lá passados uns anos, e desde essa altura tem vindo a transformá-la constantemente. Há máscaras tribais e escotilhas de barcos, símbolos em metal e halteres, escadas, torneiras e um casaco velho pendurado num cabide, quadros, corações e a palavra “amor” desenhados em cores primárias – tudo aparentemente empilhado ao acaso, mas na verdade cada elemento com a sua simbologia e propósito específicos. Consta que o cineasta se presta simpaticamente a mostrar os seus domínios a quem por ali aparece, mas não vimos nem ouvimos vivalma, e apenas um carro amarelo-vivo, de modelo recente, fazia presumir que a casa ainda é habitada.

47 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

50 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

 

Escassos cem metros mais ao lado, a arte é outra. Uma construção baixa com aspecto de pavilhão industrial aloja o museu Sigurjón Ólafsson, onde estão expostas obras e memorabilia deste escultor islandês falecido em 1984. O museu estava fechado – apesar do sol alto e brilhante, já íamos a caminho das sete da tarde – mas no exterior pudemos apreciar, espalhadas sobre a relva verde desta zona de lazer a que dão o nome de Laugarnes, várias das obras de maior envergadura do escultor.

 

O último ponto de interesse que tínhamos planeado ver ficava muito perto do nosso hotel. Entre a Sæbraut e a Borgartún está exposto um pedaço do Muro de Berlim. Oferecido à cidade de Reiquiavique pelo German Art Centre Neu West Berlin em 2015, este segmento grafitado pelo artista alemão Jakob Watner tem, em ambas as faces, representações estilizadas e muito coloridas dos moais da Ilha de Páscoa (que é, por coincidência, outro dos meus destinos de sonho).

53 Diário Islândia - Reiquiavique - pedaço do Muro de Berlim

Mas há uma história por trás da oferta deste pedaço do Muro e da sua localização. Em 1986 realizou-se precisamente em Reiquiavique um encontro entre os Chefes de Estado das duas principais nações envolvidas na Guerra Fria: o presidente americano Ronald Reagan e o líder da União Soviética (e impulsionador da perestroika) Mikhail Gorbatchev. A reunião teve lugar na Höfði, a casa onde viveu o poeta Einar Benediktsson e que passou mais tarde a ser usada pelo município para acolher eventos formais, e considera-se esta conferência dos dois líderes como o início do fim da Guerra Fria, que levou à queda do Muro de Berlim em 1989. É, por isso mesmo, simbólico que este segmento do Muro tenha sido colocado muito perto da Höfði, tal como foi simbólica a sua oferta, feita pela Alemanha a Reiquiavique no dia em que se assinalaram os 25 anos da reunificação alemã.

54 Diário Islândia - Reiquiavique - Höfði

A Höfði foi também o local onde em 1905 foi recebida na Islândia a primeira mensagem telegráfica sem fios, ligando o país ao mundo exterior por telecomunicação.

 

55 Diário Islândia - Reiquiavique

E foi com esta paisagem da baía de Reiquiavique e das ilhotas e montanhas que a rodeiam que decidimos terminar o nosso passeio pela cidade. No dia seguinte tínhamos uma longa viagem de carro pela frente e havia ainda muito para preparar. Antes de regressar ao hotel passámos num supermercado da cadeia Nettó, uma das mais populares no país, para nos abastecermos sumariamente de comida – e nos assustarmos com os preços. Por muito psicologicamente preparada que estivesse para o elevado custo de vida na Islândia, é difícil conceber que uma salada fria de massa com frango possa custar cinco euros, um wrap seis, ou uma caixinha de tomates cherry custe três euros. E estes nem foram os preços mais escandalosos que encontrámos durante a viagem…

 

Muito ficou por ver em Reiquiavique, mas na verdade a motivação maior para esta viagem à Islândia não era (obviamente!) visitar a capital. Não porque não mereça, mas porque há muito para conhecer no país e tínhamos decidido visitar algumas zonas mais remotas, o que nos iria consumir vários dias.

 

E, como costumo dizer, é sempre bom ficar com motivos para voltar.

 

Dia 2 da viagem: Na península de Snæfellsnes →

 

O roteiro e várias informações práticas sobre a Islândia estão aqui: Coleccionar paisagens surreais na Islândia

 

 

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Diário de uma viagem à Islândia - Reiquiavique.jpg

 

 

 

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