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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Croácia - diário de viagem XIV - Dubrovnik ou os telhados de uma cidade única

 

Grande parte do encanto da cidade antiga de Dubrovnik deve-se à simplicidade e funcionalidade do seu conjunto edificado. As residências aristocráticas e a maioria dos edifícios públicos são impressivos pela perspectiva que oferecem e não pelo seu tamanho, e por isso a cidade é extremamente coesa do ponto de vista arquitectónico. Uma das suas particularidades mais marcantes são precisamente os telhados, aspecto estilístico sempre importante na caracterização das estruturas históricas.

 

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Durante três meses em 1991, aquando da guerra entre croatas e sérvios que só terminou com a independência da Croácia, choveram rockets sobre os telhados de Dubrovnik. Morreram dezenas de pessoas durante estes confrontos e dois terços dos edifícios foram danificados: 382 estruturas residenciais e 29 edifícios públicos, o que representa cerca de 86% da área da cidade antiga. Os interiores e telhados de sete palácios barrocos foram consumidos pelo fogo.

 

Os danos mais graves e mais sentidos – sem contar com as mortes, obviamente – foram os dos telhados antigos: foram directamente atingidos 438 telhados e indirectamente 314. Um verdadeiro atentado criminoso a uma cidade que já era na altura Património Mundial e que carecia de qualquer importância estratégica no contexto da guerra que se desenrolava, considerado ultrajante até mesmo por parte da população sérvia.

 

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Quando a guerra terminou, em 1992, e se iniciou o processo da restauração de Dubrovnik, a recuperação dos seus telhados foi obviamente uma das maiores preocupações. Sendo o respeito pela autenticidade um dos princípios básicos da restauração de estruturas históricas, a equipa responsável pela tarefa tentou tanto quanto possível encontrar telhas feitas com materiais e por processos semelhantes às originais – em tempos feitas manualmente com a forma de uma coxa humana – mas a tarefa não se revelou fácil, pois a fábrica mais próxima que ainda produzia peças semelhantes às dos telhados de Dubrovnik situa-se em França.

 

Longe que já vão esses anos e com a cidade já completamente – e bem! – recuperada da sua fase negra mais recente, ver Dubrovnik acima do nível dos seus telhados é uma experiência obrigatória, e era esse o plano para o nosso último dia completo na cidade.

 

Zlatan, o nosso hospedeiro, já nos tinha avisado na véspera que se aproximava chuva, e a verdade é que acordámos ao som de um forte aguaceiro que se prolongou por toda a manhã. Não tivemos outra alternativa senão aproveitar o tempo para descansar e preparar um belíssimo brunch com tudo o que ainda tínhamos no frigorífico do apartamento, mas assim que a chuva acalmou saímos imediatamente. O céu continuava cinzento, mas felizmente as nuvens acabaram por ir para outras paragens e a tarde ficou excelente para passear.

 

Desta vez resolvemos ir conhecer melhor as partes norte e este da cidade antiga. Ao fundo da Stradun, mesmo ao lado da Torre do Relógio, há um arco que nos leva à rua de acesso ao Mosteiro Dominicano. Só vendo de longe o volume deste Mosteiro é que conseguimos ter uma ideia das suas verdadeiras dimensões. Iniciado no séc. XIV, com um claustro que mistura o gótico e o renascentista e uma torre sineira com elementos românicos e barrocos, esta construção é um exemplo acabado da harmoniosa mescla de estilos arquitectónicos frequente na Dalmácia – onde, de resto, a moderação e a simplicidade que permitem a convivência pacífica das diferenças não se reduz à arquitectura, estando presente em várias outras áreas sócio-culturais.

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A Porta de Ploče é a entrada principal na cidade antiga pelo leste e tem a característica curiosa de ser constituída por duas secções, uma interior e outra exterior, unidas por uma ponte, local que oferece uma das vistas mais amplas (e talvez mais fotografadas) sobre a marina de Dubrovnik. Sobre a primeira secção da Porta, como não podia deixar de ser, uma imagem do omnipresente São Brás. A secção exterior está encastrada na Fortaleza de Revelin, construída no séc. XV como protecção adicional contra a ameaça da invasão otomana. Alvo de vários reforços ao longo dos séculos seguintes, acabou por se tornar a fortaleza mais robusta da cidade e eventualmente o centro administrativo da República de Ragusa. O enorme terraço de pedra no topo de Revelin é actualmente palco para vários eventos nos festivais de Verão de Dubrovnik.

 

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Há duas formas de ver Dubrovnik do alto. Uma, a mais habitual, é percorrer a pé todo o perímetro da cidade antiga sobre as muralhas (cerca de dois quilómetros). A outra, menos romântica e mais rápida mas igualmente interessante, é subir até ao Forte Imperial, implantado bem alto na encosta que protege a cidade pelo seu lado nordeste. Embora seja obviamente possível ir até lá de carro (ou mesmo a pé, mas a subida não é pêra doce…), nós escolhemos ir de outra forma: de teleférico (http://www.dubrovnikcablecar.com/). Em actividade desde 1969, as cabines suspensas levam-nos em menos de quatro minutos desde a estação inferior, situada junto do parque de estacionamento mais próximo da Porta de Ploče, até 405 metros acima do nível do mar, depositando-nos num fantástico miradouro com dois níveis de onde podemos avistar uma área de 60 quilómetros em redor.

 

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Ver a cidade de um ponto de vista tão elevado é uma experiência fascinante. Faz lembrar um puzzle de duas cores, o cru acinzentado da pedra coroado pelo laranja dos telhados, as “peças” muito bem encaixadinhas e só separadas pelas linhas das ruelas. Esta mancha bicolor contrasta com o fundo azul do Adriático, onde apenas se destaca o verde-escuro da ilha de Lokrum e aqui e ali o branco que marca a esteira de algum barco. Deste miradouro temos realmente uma perspectiva privilegiada sobre Dubrovnik e os seus arredores: para a esquerda vemos facilmente toda a costa até Čavtat e as montanhas que definem o extremo sudeste da Croácia, enquanto para a direita os nossos olhos se perdem na mole de edifícios que formam a parte nova de Dubrovnik e nas inúmeras ilhas que se vão fundindo gradualmente com o horizonte.

 

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De regresso ao chão e com o estômago já a reclamar comida, aproveitámos a localização simpática e estratégica da pizzaria Tabasco, numa espécie de jardim ao fundo das escadas que descem da estação do teleférico para a Ulica Iza Grada. Depois, com o apetite já satisfeito, ainda demos mais uma volta pelas ruas da cidade antiga, para nos despedirmos finalmente dela tal como a tínhamos conhecido: sob o céu nocturno, mas sempre luminosa.

 

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Mapa interactivo da cidade antiga de Dubrovnik:

https://www.dubrovnikcity.com/dubrovnik/old_town.htm

 

 

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