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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qui | 14.04.22

Bolonha: torres, arcadas, e muito charme

 

Uma da tarde, 34°C de temperatura do ar – ou, como diria Eça, um “calor de ananases”. Sentei-me na esplanada ainda quase deserta do Cesarina para aquele que iria ser o meu último almoço em Bolonha. Sob a protecção de um enorme chapéu-de-sol e com as árvores do complexo das Sete Igrejas de Santo Stefano a darem uma certa impressão de frescura, soube-me bem descansar enquanto esperava que me servissem um risoto de espargos. À minha frente alongava-se a Praça de Santo Stefano – que na verdade não é propriamente uma praça mas antes um espaço triangular, aberto na Via com o mesmo nome para acomodar vários palácios e as igrejas. Copo de vinho branco da Toscana na mão, dediquei-me ao tão italiano dolce far niente, no meu caso a simples arte de observar calmamente os edifícios de tons alaranjados, batidos pelo sol inclemente, as pessoas que iam e vinham, sacos de compras na mão ou máquinas fotográficas à tiracolo, muitas vezes de olhos postos num smartphone, e um ou outro ciclista de passagem. O risoto chegou e estava divinal, e depois veio também um tortino di cioccolato com cuore fondente, que tentei fazer render porque, a bem da verdade, estava com uma certa relutância em sair dali, e mais ainda de ir embora de Bolonha – a cidade como que me enfeitiçou.

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O meu primeiro almoço em Bolonha tinha sido algo diferente, mas também sossegado. Cheguei à Estação Central vinda de Florença, depois de uma curta viagem de 38 minutos no Frecciarossa, o topo de gama dos comboios de alta velocidade italianos (que pode chegar aos 300 km/hora). Ainda era cedo para dar entrada no alojamento e não me apetecia andar pela cidade de mala atrás, por isso atravessei o Parco della Montagnola, lugar fresco, cheio de árvores altas e vazio de confusões, e parei para almoçar. O parque tem um espaço nitidamente dedicado à população estudantil mais alternativa, com mesas e cadeiras de todas as espécies e feitios espalhadas entre as árvores, ao lado de uma osteria e um barzito, e de um pequeno recinto pavimentado onde decorria na altura uma aula de ioga. Entre um hambúrguer e um café pingado, deixei-me ficar por ali durante mais de uma hora, naquilo que foi para mim uma espécie de reset depois de alguns dias na agitação de Florença.

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Esta minha visita a Bolonha foi um acidente de percurso – e é a prova de que há acidentes felizes. Na história das minhas viagens existe uma boa mão cheia de lugares que se atravessaram no meu caminho sem que fosse propriamente essa a minha intenção, e dos quais acabei por ficar cativa. Bolonha foi uma das mais recentes adições a essa lista. Quando preparei a minha viagem de duas semanas pela Toscana, era suposto o voo de regresso a Portugal ser a partir de Bolonha, e por isso decidi reservar uns dias para conhecer um pouco da cidade. Como não era um destino que fizesse parte dos meus interesses principais, não fiz o “trabalho de casa” e não pesquisei praticamente nada antecipadamente. Cheguei sem saber o que esperar ou o que iria ver, portanto a surpresa foi completa (e boa!). E ser surpreendida é uma das melhores emoções que posso sentir em viagem.

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A cidade das torres

 

A idade dos lugares não se pode aferir pela nossa, que somos meros acidentes de percurso na história da Terra. Ainda assim, Bolonha é uma cidade velha, mesmo pelos padrões de povoamento da Europa. Inserida numa região habitada desde inícios do século IX a.C., foi aqui que os Etruscos fundaram o que se supõe ter sido uma estrutura urbana complexa a que deram o nome de Felsina, no século VII a.C. Sucessivamente ocupada ao longo do tempo por Gauleses, Romanos e várias tribos bárbaras, passou a fazer parte do reino de Itália em finais do século IX. Mas foi a fundação da Universidade em 1088 (o que faz dela a Universidade mais antiga do mundo em funcionamento contínuo) que deu impulso ao período de maior desenvolvimento da cidade, e ao aparecimento daquelas que são as suas duas características mais marcantes em termos arquitectónicos: as arcadas e as torres.

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Os historiadores crêem que nos séculos XII e XIII tenham sido construídas em Bolonha qualquer coisa como entre 80 e 100 torres. Porquê? Não se sabe ao certo. Presume-se que algumas terão funcionado como símbolo de riqueza e estatuto das famílias mais abastadas, e também como estruturas de defesa. As mais pequenas serviriam também de habitação. Certo é que este frenesim de construção em altura não se limitava a Bolonha. San Gimignano, 150 km a sul e em plena Toscana, foi outra das cidades medievais atacadas pela “febre” das torres: chegaram a ser 72, algumas ultrapassando os 50 metros de altura.

 

Em Bolonha, a loucura das torres acabou mais tarde por passar, e depois do século XIII estas gigantes começaram a desaparecer, fosse por serem demolidas, por colapsarem, ou por serem adaptadas a outas finalidades. Aos dias de hoje chegaram 22, a que se somam quatro torreões que faziam parte das muralhas do século XII, além de muitos vestígios remanescentes das casas-torre – que eram mais baixas, tinham mais aberturas, e cujas paredes eram menos espessas.

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As mais famosas são as duas torres que compõem o símbolo da cidade: a Torre Asinelli e a Torre Garisenda. A primeira é a mais alta de todas as torres de Bolonha: 92 metros, que quase me provocaram um torcicolo quando a olhei a partir do outro lado da Piazza onde estão situadas. A Garisenda é mais modesta, nos seus meros 48 metros de altura, mas bate a vizinha em graus de inclinação. São dois colossos de pedra castanho-avermelhada que se vêem de muitos pontos do centro da cidade, erectos como flechas, sobressaindo numa praça de dimensões modestas mas com um movimento tremendo, onde confluem pessoas e veículos de todas as espécies, constantemente. É possível subir à Torre Asinelli, mas confesso que deixei a tarefa para uma próxima visita. O calor e o cansaço de quase duas semanas de viagem, com muitos quilómetros feitos a pé, de carro e de comboio, esgotaram-me a coragem que é preciso ter para subir os 498 degraus que levam ao topo. Atrás das torres, o verde das cúpulas renascentistas da Basílica dos Santos Bartolomeu e Caetano parece querer competir com elas, mas sem grande sucesso.

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Fugi do sol da Piazza di Porta Ravegnana metendo por uma rua estreitinha e sombria cujo nome me chamou a atenção: Via de’ Giudei. Tenho um certo fascínio por judiarias, por serem geralmente bairros com características peculiares, uma espécie de mundo à parte dentro das localidades onde existiram. O traçado do gueto judeu de Bolonha, estabelecido no século XVI, permanece bem identificável na actualidade, definido por becos e ruelas que se entrelaçam no núcleo medieval da cidade. Também aqui existe uma torre, na entrada do Vicolo Mandria. É a Torre Uguzzoni, mas a sua altura respeitável passa praticamente despercebida neste bairro em que o céu não é mais do que uma nesga azul fininha lá no alto, as varandas se misturam com semi-arcadas, e a pedra alterna com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de 15 famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de 11 – mais do que as existentes em Roma. Foi nesta altura que um decreto papal ordenou a criação do gueto, definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutras partes da cidade, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de ignorar as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Uma das entradas era precisamente na Via de’ Giudei, outra no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni, e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria. Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitava todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. Mas não pensem que o nome da rua era devido a qualquer motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

 

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A cidade das arcadas

 

Em vez de desvantagem, a minha ignorância e total ausência de curiosidade prévia sobre Bolonha acabaram por ser uma bênção. Quando finalmente me decidi a sair do ar condicionado do alojamento para o calor da minha primeira tarde na cidade, as ruas que me levavam à Piazza Maggiore desvendaram aos poucos a maior surpresa que me estava reservada: as arcadas. Rua após rua, o piso térreo de cada edifício recua para dar lugar a um passeio coberto, com a fachada dos pisos superiores assente sobre pilares com materiais e formatos diversos. Elas são, na verdade, o elemento arquitectónico mais característico de Bolonha e responsáveis por grande parte do seu encanto. Só no centro histórico existem qualquer coisa como 38 km de arcadas, que se somam aos 53 km das que se encontram fora de portas. É a cidade com mais arcadas em todo o mundo e as suas são, desde 2021, património cultural da UNESCO.

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Mas qual é afinal a razão para esta abundância de arcadas? Falta de imaginação dos arquitectos? Mania cultural? Desenganem-se: o motivo começou por ser de ordem prática (como quase sempre são os motivos para tantos aspectos culturais que encontramos pelo mundo fora) e para o perceber temos de recuar um milénio. Em meados do século XI, Bolonha expandia-se a uma velocidade sem precedentes, tanto pela fama da sua Universidade, que atraía pessoas de todo o mundo, como pela chegada de cada vez mais camponeses em busca de outras condições de vida. Para alojar tanta gente, os habitantes começaram a ampliar as suas casas ao nível do piso superior, prolongando-as sobre a rua – como forma de conseguirem um aumento de espaço sem terem de pagar mais impostos – e apoiando estas estruturas sobre pilares de madeira. Nasceram assim as primeiras arcadas. Com o tempo, os bolonheses aperceberam-se de que elas lhes traziam outras mais-valias: abrigavam os passeantes tanto da chuva como do sol (e eu tive a prova de que tornam bem mais confortável a visita à cidade em dias de muito calor), afastavam os pisos térreos da sujidade das ruas, e favoreciam o comércio e os ofícios, que se desenvolviam muitas vezes no piso inferior das habitações. O sucesso destas arcadas levou a que em 1288 uma decisão municipal estabelecesse que não só as estruturas já existentes teriam de ser mantidas, como também cada edifício construído no futuro seria obrigado a ter a sua própria arcada. No século XVI, uma nova lei proibiu que fossem construídas em madeira, e a partir dessa altura passaram a ostentar colunas feitas de pedra ou tijolo.

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Hoje em dia, sobrevivem na cidade arcadas das mais variadas espécies: pórticos de madeira acrescentados, de origem medieval; beccadelli (semi-arcadas que não estão assentes em colunas) que se projectam das fachadas; arcadas góticas e renascentistas integradas nos edifícios; arcadas com dimensões monumentais, como os 10 metros de altura da arcada da Arquidiocese, ou os 666 arcos (o número diabólico foi propositado) que compõem o portico de quase quatro quilómetros que liga a Porta Saragozza ao santuário da Madonna di San Luca; e arcadas estilizadas ou minimalistas nos edifícios mais modernos. Algumas têm tectos elaborados, outras têm colunas com capitéis ornamentados, e noutras é o piso que nos chama a atenção. Na sua grande maioria são simples, por vezes estão grafitadas ou têm a tinta a pelar. E há ruas que vale a pena percorrer de uma ponta à outra só para observar a diversidade das suas arcadas: a Via Marsala, a Via Zamboni e a Via Farini são só alguns exemplos. Se outros motivos não houvesse, as arcadas de Bolonha já seriam razão mais que suficiente para visitar a cidade.

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A cidade descontraída

 

O meu primeiro dia terminou no centro nevrálgico de Bolonha, onde o Palazzo d’Accursio acolhe a sede do município. O céu ainda estava claro, mas as sombras já enchiam a Piazza di Nettuno e acendiam-se as primeiras luzes da cidade. Havia grupos de pessoas sentadas nas escadarias quase planas da Biblioteca Salaborsa ou à volta da fonte que dá nome à praça. Famílias em passeio cruzavam-se com bicicletas conduzidas com calma, na passagem sob o Palazzo Re Enzo o vaivém de gente era constante, e as esplanadas estavam cheias. Na Piazza Maggiore alinhavam-se filas e filas de cadeiras frente a um ecrã gigante, e grandes cartazes anunciavam uma programação de filmes italianos, tão extensa quanto apelativa. Na Via d’Azeglio, montras de lojas sucediam-se umas às outras, e atravessadas sobre a rua brilhavam em néon palavras da canção “Futura” de Lucio Dalla. Um dos cognomes de Bolonha é “la Rossa” – a Vermelha – e deve-se à cor do tijolo-burro, material predominante na construção dos edifícios do centro histórico. Sob o sol diurno, este vermelho declina-se em 350 nuances diferentes até ao amarelo. Ao lusco-fusco, ele torna-se mais intenso, profundo, raiando as tonalidades de um bom vinho tinto. Esta é a hora que mais favorece a cidade, e a iluminação urbana não agressiva acentua a tranquilidade do ambiente de final do dia.

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Bolonha tem uma atmosfera informal e relaxante. Essencialmente plana, é uma cidade perfeita para percorrer a pé ou de bicicleta – e há muito quem tire vantagem deste meio de transporte económico e amigo do ambiente. Com uma população de cerca de 85 mil estudantes, cativados pela fama do seu ensino universitário (que lhe granjeou outro dos seus cognomes, “la Dotta”), a riqueza histórica convive paredes-meias com o vanguardismo e a cultura alternativa. Há imensos museus e galerias de arte, e os palácios são com frequência usados para eventos culturais ou exposições. A Universidade e instituições afins espalham-se por toda a cidade, mas o seu núcleo central é a Via Zamboni, onde também se encontra a Biblioteca Universitária, aberta ao público desde 1756.

 

 

A cidade que tem fé

 

O número de edifícios religiosos no centro de Bolonha ultrapassa as duas dezenas. Alguns passam meio despercebidos, encaixados que estão entre casas de habitação e lojas, em ruas estreitas onde as arcadas muitas vezes não me deixavam perceber se o portal mais arrebicado que via do outro lado da rua era a entrada de um edifício notável ou apenas mais uma porta antiga. Outros são identificados com mais facilidade, como a Catedral Metropolitana de São Pedro, com origens no século X mas de aspecto claramente barroco, a bela Basílica de San Giacomo Maggiore, um casamento bem-sucedido entre os estilos românico, gótico e renascentista, ou o conjunto das Sete Igrejas de Santo Stefano, uma amálgama de templos construídos em épocas diferentes e que parecem nada ter em comum a não ser o tijolo de que são feitos.

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Curiosamente, a maior e mais importante de todas as igrejas de Bolonha tem um exterior pouco apelativo e inacabado, e à primeira vista não parece ser nada de especial. A Basílica de São Petrónio, o padroeiro da cidade, fica na Piazza Maggiore, e esse é um dos motivos pelos quais desperta a atenção. O outro é o facto de ter a sua metade inferior revestida em mármore branco e rosa, enquanto a superior deixa à mostra o tijolo escuro da estrutura, num contraste pouco agradável aos olhos. A largura da fachada principal também não dá qualquer indicação da magnitude do edifício, que é na verdade a 15ª maior igreja católica do mundo, e a quarta maior de Itália. Mas quando decidi visitá-la desconhecia estes pormenores, e por isso entrei sem grandes expectativas.

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A primeira surpresa foi perceber a dimensão real desta igreja, tanto em comprimento como em altura. As abóbadas das três naves como que flutuam 45 metros acima do solo, suportadas por colunas que, pela grossura, mais parecem imbondeiros, e a sua cor clara dá a sensação de que são ainda mais altas. O mobiliário escasso e o piso de mármore brilhante, que replica as cores vermelho-rosado e cru das colunas, aumentam o efeito de uniformidade e amplidão. Depois veio a segunda surpresa: o contraste entre esta sobriedade e a profusão decorativa das 22 capelas abertas nas laterais da igreja, decoradas por pintores e escultores de renome, algumas de forma bastante peculiar. A mais fascinante de todas é a Capela dos Magos, que data de inícios do século XV e mantém quase intactas as magníficas pinturas que cobrem completamente as paredes e o tecto – uma delas é uma representação invulgar do céu e do inferno criada por Giovanni da Modena, que buscou inspiração na Divina Comédia de Dante. Os vitrais das janelas sofreram pesados danos ao longo dos séculos, mas foram primorosamente recuperados e as suas cores vivas brilham e iluminam o interior. Outras capelas são bastante mais simples, e várias estão a ser restauradas. Há uma dedicada a Santo António (que em Itália é sempre de Pádua e nunca de Lisboa) e mostra o santo não com o menino nos braços, mas sim segurando uma flor numa das mãos e um livro na outra. As paredes pintadas e os vitrais com figuras de santos fazem dela uma das capelas mais chamativas de toda a igreja. A capela de São Petrónio é uma orgia barroca, e as de Santiago, São Pedro Mártir e Santo Abúndio também estão decoradas com vitrais soberbos.

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A Basílica de São Petrónio tem ainda uma outra grande atracção. E neste caso, “grande” é adjectivo duplamente adequado. Concebido pelo astrónomo Giovanni Cassini, foi criado em 1656 um relógio de sol, cujo meridiano tem 66,8 metros de comprimento (a seiscentésima parte da circunferência da Terra). Esta longa linha está incrustada no piso da nave esquerda e marca a passagem do tempo, coordenada com o raio de sol que entra por um orifício colocado na abóbada, 27 metros acima do chão. É o maior relógio de sol do mundo.

 

 

A cidade dos canais

 

Quando pensamos em cidades com canais, Bolonha nem sequer entra na lista. No entanto, apesar de serem quase invisíveis (a água corre principalmente em condutas subterrâneas ou entre as traseiras de edifícios), a cidade tem vários – e este deve ter sido o único “segredo” da cidade que eu já conhecia, apenas porque o alojamento que tinha reservado tem o nome de La finestra sul canale. Infelizmente, o quarto que me atribuíram, embora fosse excelente, não tinha vista para o canal mas sim para a Via Alessandrini, que é muito menos estimulante. Para ver o Canal do Reno precisei de descer a rua até chegar a um gradeamento “enfeitado” com umas boas dezenas de cadeados (a mania também chegou aqui). Como bónus, quando à noite regressei ao alojamento fui brindada com um pequeno filme projectado, em jeito de sombra chinesa, na parede de uma das casas, rente à água. O filme tinha como título “O Moleiro” e evocava uma das antigas actividades comerciais mais beneficiadas pela construção, a partir do século XII, de um total de 60 km de canais que unem Bolonha aos rios Reno e Savena.

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O sistema de oclusas e canais que foi criado e desenvolvido desde essa altura permitia direccionar para a cidade água suficiente para accionar moinhos concebidos para auxiliarem vários tipos de actividades: moagem de grãos, fiações, curtumes, britagem – em suma, todas aquelas nas quais a energia gerada pela força das águas significava uma maior velocidade de produção. Os canais eram também usados para o transporte de pessoas e mercadorias, e a criação de lavadouros e balneários públicos contribuiu para melhorar as condições sanitárias de Bolonha. Hoje, a face mais visível deste sistema é o Canale Navile, que começa no Parco del Cavaticcio, onde se situava em meados do século XVI o porto de Bolonha. Ao lado do parque continua de pé o edifício da Salara, antigo armazém do sal, que aloja actualmente o Cassero, o centro LGBT de Bolonha. O Navile desaparece sob a cidade e só volta a ser visto mais para norte, depois da linha férrea, seguindo a partir daí em campo aberto durante cerca de 30 km até Malalbergo. Navegado até 1948, actualmente é apenas usado para irrigação. A oeste da cidade, junto ao cemitério de Certosa, emerge um outro canal, que termina no Reno poucos quilómetros mais à frente.

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***

Deixei Bolonha muito cedo, ainda os cafés mal tinham aberto, na manhã de um dia que já se anunciava quente como os anteriores. Refiz o caminho de volta até à Centrale, o terminal ferroviário que me tinha visto chegar dias antes. A hora matutina mostrou-me a cidade a uma luz diferente, como diferente era também o meu estado de espírito. Tinha chegado cansada e vagamente alheia, sem expectativas; parti com vontade de ficar, rendida a esta cidade tão singular quanto despretensiosa, e cheia de bons motivos que me hão-de fazer regressar.

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