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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 12.12.16

As ruínas da Mina de S. Domingos

 

Gosto de ruínas*. Há nelas qualquer coisa que ao mesmo tempo me comove e me fascina. No fundo, elas são o espelho de nós próprios, os humanos: da nossa sociedade, do nosso declínio físico, da nossa memória. Nas ruínas, há beleza e decadência, atracção e angústia. As ruínas emocionam-me.

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As ruínas da Mina de S. Domingos são um dos meus locais favoritos em Portugal. É um sítio tão bonito, tão fora deste mundo que fico espantada quando alguém me diz que não conhece (ou até que nem sabe da sua existência). É verdade que eu mesma só ouvi falar delas e as visitei quando já era adulta. Mas isso foi na era pré-internet e pré-mil-e-um-canais-de-televisão-e-mil-e-uma-revistas-portuguesas-de-tudo-e-mais-alguma-coisa. Hoje, no séc. XXI, na era da informação, é difícil perceber como tanto do nosso riquíssimo património cultural e paisagístico continua semi-desconhecido.

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Mina de S. Domingos é uma localidade situada 17 km a leste de Mértola, numa das mais bonitas zonas do nosso Baixo Alentejo. A aldeia merece só por si uma visita, sobretudo pela lindíssima praia fluvial – mas disso falarei um dia destes. Embora na aldeia existam algumas ruínas de estruturas, nomeadamente das oficinas ferroviárias, e uma enorme cratera cheia de água (a corta) carregada de minérios, exposta entre camadas de rocha colorida, além de um Centro de Documentação e da exposição permanente na Casa do Mineiro, o local mais interessante encontra-se cerca de 3 km a sul, na Achada do Gamo. Existe uma estrada de terra batida que nos leva até lá, mas a sinalização não é famosa e não é fácil dar com o acesso logo à primeira, por isso na dúvida o mais seguro é perguntar o caminho a alguém que por ali ande.

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A exploração mineira do depósito pirítico de São Domingos remonta ao primeiro milénio a.C e desde essa altura ocorreu em vários períodos ao longo do tempo. A última fase teve início em 1854 e durou até 1966, período durante o qual a empresa britânica Mason & Barry extraiu do local mais de 20 milhões de toneladas de minério. Ali foram instaladas uma das primeiras linhas férreas do país (ligando a mina ao Pomarão, onde se fazia o escoamento do minério por via fluvial pelo Guadiana) e a primeira central eléctrica do Alentejo. Após a falência da Mason & Barry em 1968, o património edificado que restou foi abandonado e vandalizado, e tem vindo progressivamente a dissipar-se. Classificado em 2013 como Conjunto de Interesse Público, espera-se que seja mais cedo ou mais tarde posto em marcha um plano de recuperação ambiental e eventual reconversão do local, mas ainda está tudo numa fase bastante incipiente. Até lá, enquanto as ruínas não desaparecerem completamente ou não forem transformadas (ou o local vendido para qualquer outra coisa, quem sabe…), vamos tendo a sorte de poder usufruir deste lugar com um ambiente tão especial.

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O percurso até à Achada do Gamo, quase todo em solo árido e passando junto a alguns pontos de água e zonas rochosas, tudo “pintado” com as tonalidades mais invulgares, é já uma amostra do que nos espera mais à frente. A meio do caminho, do outro lado de um curso de água, vê-se o que resta do centro de britagem e queima da Moitinha. Até que surgem ao longe, do lado esquerdo, os vultos irregulares de duas torres com aspecto alienígena, e sabemos que estamos a chegar. 

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É difícil descrever toda a impressão que causa aquele lugar. A aridez, as cores, o vento – e o silêncio. Sobretudo o silêncio. Apenas se ouve o som da terra pisada pelos nossos passos, e esporadicamente o piar de uma ave muito ao longe. Ali é terra-de-ninguém, contaminada, onde rara vegetação cresce e que os animais evitam. Edifícios meio desfeitos, extirpados, estruturas expostas, os tons da pedra manchados pela ferrugem, o cinzento do solo declinado desde o quase branco até ao negro-carvão. Das várias vezes em que já lá estive, nunca vi vivalma.

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As fotos não conseguem fazer jus ao lugar. É preciso ir lá, estar lá. Sentir a atmosfera. perdermo-nos entre as ruínas. Chamar pelo outro, e nada ouvir em resposta a não ser o som do vento – e mesmo esse soa abafado. Estamos debaixo de uma cúpula, ou noutro planeta. Estamos noutro mundo.

 

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*Se também são, como eu, apaixonados por ruínas, vejam este blogue maravilhoso.

 

 

Fonte:

http://www.fundacaoserraomartins.pt/index.php?id=history

 

English translation

 

The ruins of Mina de S. Domingos

 

I like ruins*. There is something about them that is both touching and fascinating at the same time. After all, they are the mirror of ourselves, humans: of our society, of our physical decline, of our memory. In ruins there is beauty and decadence, attraction and anguish. Ruins move me.

 

The ruins of Mina de S. Domingos are one of my favourite sites in Portugal. This is such a beautiful place, so out of this world, that I’m amazed when someone tells me that he has never been there (and sometimes is even unaware of its existence). It is true that I only heard of this place and went there when I was already a grown-up. But those were the pre-Internet ages and long before we had a thousand TV channels and Portuguese magazines about everything under the sun. Nowadays, in the 21st century, the age of information, it is difficult to understand how so much of our rich cultural and landscape heritage remains nearly unknown.

 

Mina de S. Domingos is a village located 17 km east of Mértola, in one of the most beautiful areas of our Baixo Alentejo region. The village itself is worth a visit, especially for the beautiful river beach – but I'll tell you about that one of these days. Although there are some ruins of former structures in the village, namely the railway workshops, and a huge crater filled with water loaded with ore deposits, in the open air between layers of coloured rock, as well as a Documentation Centre and the permanent exhibition at “Casa do Mineiro”, the most interesting place is about 3 km south, at Achada do Gamo. There is an earth track that takes us there, but the signposting is not very clear and it is not easy to immediately find it, so when in doubt the safest option is to ask someone on the street for directions.

 

The mining of the pyrite deposit of São Domingos dates back to the first millennium BC and occurred in several periods over time. The last phase began in 1854 and lasted until 1966, during which the British company Mason & Barry extracted more than 20 million tonnes of ore from the site. One of the first railway tracks in Portugal was laid there (connecting the mine to Pomarão, where the ore was shipped along the Guadiana River), as well as the first power station in the Alentejo region. After Mason & Barry went bankrupt in 1968, the surviving buildings were abandoned and vandalized, and have been progressively falling apart. Classified as a Public Interest Site in 2013, it is expected that sooner or later an environmental recovery plan and potential redevelopment of the site will be implemented, but this is still at an early stage. For the moment, until these ruins completely disappear or are converted (or the place is sold for some other purpose, who knows ...), we are lucky to have the possibility of visiting this place with such a special environment.

 

The track to Achada do Gamo, almost completely on arid soil and passing near some water points and rocky areas, all of them “painted” in the most unusual shades, is already a clue to what lies ahead. Halfway there, across a small watercourse, we can see the remains of the crushing and burning centre of Moitinha. And then in the distance, to our left, the irregular shapes of two alien-looking towers appear and we realise that we are arriving.

 

It is difficult to describe the amazing impression caused by this site. The aridness, the colours, the wind – and the silence. Especially the silence. We can only hear the sound of the earth trampled by our steps and sporadically the whistling of a bird far away. This is no-man's-land, contaminated, where vegetation hardly grows and avoided by animals. Half-destroyed, stripped buildings, exposed structures, shades of stone stained by rust, the grey colour of the ground declined from almost white to charcoal black. During the many times I've been here, I’ve never seen a soul.

 

Photos cannot do justice to this place. You have to go there, be there. Feel the atmosphere, get lost among the ruins. Call someone and hear nothing in response other than the sound of the wind – and even the wind sounds muffled. We are under a dome, or on another planet. We are in another world.

 

* If, like me, you are also passionate about ruins, check out this wonderful blog: http://ruinarte.blogspot.pt/.

 

 

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