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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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As escadas da Pedra do Dragão

 

Não conheço ninguém que não seja fã da série Guerra dos Tronos. Excepto, claro está, aquelas pessoas que nunca viram nenhum episódio. De resto, mesmo que a temática não seja à partida do agrado de toda a gente, é impossível não ficar “agarrado” a uma série tão bem produzida e interpretada.

 

Como muitas outras séries, os cenários onde se desenvolve o enredo são uma parte não pouco importante do sucesso do resultado final, e na Guerra dos Tronos tem havido um cuidado especial em descobrirem lugares fora do comum para filmarem os exteriores (apesar da posterior montagem digital na maioria dos casos). A 7ª temporada da série foi em grande parte filmada em cenários espanhóis, mas entre todos eles o que mais me chamou a atenção foi a estranha e fascinante escadaria do lugar a que chamam Pedra do Dragão (Dragonstone na língua original).

 

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Não foi obviamente difícil saber o nome do local, complicado de fixar e pronunciar mas fácil de localizar no mapa: Gaztelugatxe, no País Basco, muito perto de Bilbau. E na primeira oportunidade que tive lá fui eu conhecer o sítio, que isto de ver as coisas na televisão é muito bonito mas não há nada que se compare à nossa própria opinião in loco.

 

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Gaztelugatxe é uma ilhota situada lá muito para cima, no norte longínquo da Península Ibérica, uns 30 quilómetros a leste de Bilbau e no lado oeste do Cabo Matxitxako. O nome vem de duas palavras bascas e um dos seus significados possíveis é “castelo difícil”. Aqui a costa é agreste, com mar bravio e muita rocha, erodida pelos elementos até formar arcos e grutas. Quase ao lado, a ilhota de Aketx é uma espécie de santuário para as aves marinhas. Como todas as zonas rochosas, tem uma vida submarina intensa e é local frequentado por mergulhadores quando as águas estão menos agitadas.

 

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Na Guerra dos Tronos a escadaria da Pedra do Dragão dá acesso a um enorme castelo (que é uma criação digital), mas no nosso mundo o topo de Gaztelugatxe está ocupado por uma ermida, cujos vestígios apontam para os sécs. IX ou X como época da construção inicial. Dedicada a São João Degolado (possui um relicário, que se dá a beijar nos grandes dias de festa, onde supostamente está encerrada uma relíquia da cabeça de São João Baptista), data de 1053 o primeiro documento onde é referida – na altura com o nome de Sancti Johannis de Castiello. Entre saques e incêndios, esta ermida sofreu vários incidentes ao longo dos séculos e foi sendo sucessivamente reconstruída. A versão actual data de 1980 depois de um incêndio, provocado por mão humana, que a destruiu em 1978. A ermida de San Juan de Gaztelugatxe (o seu nome pelo menos desde o séc. XIX) é o santuário marítimo mais importante do País Basco, local de romaria e devoção principalmente por parte de marinheiros e pescadores.

 

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Mas o que torna este lugar verdadeiramente fora do comum é sem dúvida a ponte que liga Gaztelugatxe ao continente e se prolonga pela escadaria que sobe até à ermida. Intimidante quando vista de baixo, os seus 231 degraus (versão oficial, que eu contei-os mas já não me lembro do número…) acabam por ser surpreendentemente pouco difíceis de subir. Estão inteligentemente dispostos em socalcos que mudam de direcção em cada patamar que se atinge – e cada um deles corresponde a uma estação da Via Crucis, pois a ermida é lugar de peregrinação colectiva quatro vezes por ano, em datas especiais festejadas pela população das localidades vizinhas. Ou talvez a subida me tenha sido facilitada pela excitação que o lugar provoca, uma certa sensação de estar suspensa no ar, pairando sobre a água…

 

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A impressão de viver uma pequena aventura continua lá em cima: ar limpo (muito vento, claro), magníficas vistas sobre a costa biscainha e sobre o Golfo, o mar a bater com violência nas rochas cá em baixo, água de um azul profundo transformada em espuma branca. Um deslumbramento.

 

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Mesmo não havendo muitos visitantes (vantagens de não ir lá no Verão), o sino da ermida toca com frequência. Diz a tradição que quando se chega ao topo devemos fazer tocar o sino três vezes, para afastar os maus espíritos e atrair boa sorte; e que se pedirmos um desejo ele é realizado; ou também podemos fazê-lo tocar como festejo pelo esforço da subida; ou ainda – pasme-se! – que o seu som pode ajudar a curar dores de cabeça. Enfim, a interpretação fica ao gosto de cada um, mas a verdade é que quase toda a gente que ali chega cumpre o ritual.

 

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A ermida aloja ex-votos de marinheiros que sobreviveram a naufrágios. Embora só esteja aberta nos meses de Julho e Agosto e apenas durante certas horas do dia, tem uma espécie de abrigo adaptado para zona de merendas e alguns bancos de pedra onde podemos descansar e ficar a aproveitar a paisagem.

 

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A descida deveria ser mais rápida do que a subida, mas a verdade é que acabamos por parar em cada curva da escadaria para admirar tudo o que se avista, cada ângulo a oferecer uma perspectiva ligeiramente diferente. O que parece minúsculo visto lá de cima adquire novos contornos quando nos aproximamos, e a própria escadaria vai mudando de padrão geométrico à medida que descemos. Todo o ambiente é vagamente surreal.

 

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À ilha de Gaztelugatxe só se chega a pé. Os carros têm de ficar num dos vários estacionamentos que existem na estrada que liga as localidades de Bakio e Bermeo. Ao pé dos estacionamentos há restaurantes e até mesmo alojamento para quem quiser demorar-se por ali. A partir daí o acesso pode fazer-se por dois caminhos: um mais curto e íngreme, entre o arvoredo; o outro, mais longo e amplo, é na realidade uma estrada, mas a circulação de veículos está restrita na sua maior parte. A melhor forma de fazer o percurso é descer pelo caminho pedonal que tem início ao lado do restaurante Eneperi (está devidamente assinalado por placas) e depois regressar pela estrada – é o dobro da distância e demora-se bem mais, mas é muito menos penoso e temos sempre a paisagem como companhia. Mas é óbvio que quem for corajoso e estiver em boa forma pode optar pelo caminho mais íngreme e assim regressar mais rapidamente.

 

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San Juan de Gaztelugatxe é verdadeiramente um daqueles lugares que não defrauda as expectativas. Há casos em que a realidade se mostra ainda melhor do que a ficção; este – podem crer! – é um deles.

 

 

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