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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Ter | 28.04.20

Aldeias com histórias: Fonte Arcada

 

Hoje trago-vos histórias de mais uma aldeia portuguesa que vale a pena visitar.

Talvez por ter nascido em Lisboa e vivido quase sempre nos seus arredores, durante boa parte da minha vida não senti grande apetência específica por visitar as nossas (ou quaisquer outras) aldeias. Os meus pais não eram lisboetas, mas nem eles nem os meus avós tinham casas na “terra”, pelo que até à idade adulta apenas fiz esporádicas visitas a uma ou outra morada de primos afastados que viviam em ambientes mais rurais, e que nada me diziam. Foi só quando passei a viajar com regularidade por Portugal que comecei a descobrir o encanto de algumas localidades mais pequenas. Ainda assim, são poucas as que me conquistam logo nos primeiros instantes. Fonte Arcada, de que vos vou falar agora, é uma delas.

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Ergue-se sobre a margem esquerda da Barragem de Vilar, que represa o rio Távora e é a maior barragem do distrito de Viseu. Esta localização privilegiada faz com que um dos maiores atributos de Fonte Arcada seja a fabulosa paisagem que dela se avista – ter um manto de água como cenário de fundo é sempre uma percentagem de beleza garantida. Mas este atributo é relativamente recente, pois a barragem só foi construída em 1965 e a história de Fonte Arcada vem de muitos séculos antes, ao que parece pelo menos desde a época da ocupação sueva ou visigótica. Com efeito, a fonte de mergulho que encontramos no lugar da Cova da Moura e dá nome à aldeia – por ter a forma de um arco ogival – data dos séculos XIII ou XIV, mas supõe-se que terá origens mais remotas, uma vez que nas suas proximidades passava uma via romana. Hoje, não fosse o letreiro e a protecção de vidro, não lhe atribuiríamos grande importância, pois os nossos olhos são atraídos para a fonte e o tanque mais recentes de onde corre a água, à distância de uns quantos degraus. A água é a mesma, mas o aparato é maior. Como é de bom-tom em qualquer aldeia vetusta e com pergaminhos, uma lenda associa esta fonte secular a uma jovem moura que ali se escondeu, chorosa, guardando um fabuloso tesouro. A ela se refere o Abade Vasco Moreira na sua obra “Terras da Beira – Cernancelhe e seu Alfoz” O imaginário português é fértil em lendas que envolvem mouras belas e infelizes …

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A aldeia é mencionada no século X no testamento de D. Flâmula Rodrigues, sobrinha da famosa Condessa Mumadona Dias (que fundou o Castelo de Guimarães), mas comprovadamente marcado na História é o foral que foi concedido a Fonte Arcada em 1193 por D. Sancha Vermuiz e a elevou a Vila e Concelho. Datará desta altura a construção da igreja, um edifício simples em granito que ainda mantém na sua porta principal o arco de volta perfeita característico do estilo românico, apesar das renovações de que foi alvo ao longo do tempo: no século XVI, quando lhe foram acrescentadas as capelas laterais, em finais do século XVII com a criação do retábulo-mor em talha dourada, e mais recentemente em 1978.

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Muito do casario de Fonte Arcada já é moderno e está pintado de branco, mas a pedra ainda reina. Apesar de ter visitado a aldeia num dia gélido de Inverno, o sol baixo da tarde já avançada quebrava a frieza do granito, que aqui já é amarelado por natureza, matizando-o de tons alaranjados. Espalhando-se por duas encostas suaves e um ligeiro vale entre elas, com ruas estreitas de traçado irregular, a aldeia torna-se aconchegante. Alguns pormenores das habitações denunciam as suas raízes medievais: varandas de madeira avançando sobre a rua, que contrastam com outras em pedra, e pisos inferiores das casas com grandes portadas, denotando as suas anteriores funções de curral ou armazém. Na orla da aldeia as casas são novas, mas no núcleo, tal como sucede na grande maioria das nossas aldeias mais remotas, há várias que estão em ruínas ou em vias disso. Talvez por serem acatitadas e sem terreno à volta, as pessoas parecem preferir construir de raiz a recuperar o que já existe, e assim vão decaindo algumas destas casas mais típicas e originais.

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Um edifício chama a atenção pelo seu ar robusto e maciço, quase de fortaleza. É o Paço da Loba, erguido a mando de Fernão Sanches, filho bastardo de D. Dinis e senhor destas terras no século XIII. O nome vem-lhe das duas imagens talhadas em granito que se encontram por cima da porta, por se assemelharem à cabeça de um lobo.

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Em 1400 D. João I doou Fonte Arcada a Gonçalo Vasques Coutinho, 2º Conde de Marialva. Fez parte da herança até ao 4º Conde e Meirinho-Mor do reino, D. Francisco Coutinho, que não teve descendência masculina. À filha, D. Guiomar Coutinho, em carta de 18 de Junho de 1504 D. Manuel I permitiu que herdasse o património dos seus pais, o que fez dela uma das mais ricas e cobiçadas herdeiras em Portugal, com um rendimento de cerca de 14 mil cruzados. Talvez por isso o rei tivesse achado boa ideia combinar desde cedo, com o Conde, o casamento de D. Guiomar com o seu filho D. Fernando. A boda só teve lugar em 1530, já no reinado de D. João III, pois entretanto a perspectiva deste matrimónio tinha sido contestada por D. João de Lencastre, Marquês de Torres Novas, que defendia ter casado em segredo com D. Guiomar. Sobre este conflito (que durou nove anos…!) escreveram vários cronistas, e foi à volta dele que Camilo Castelo Branco urdiu a trama da sua obra “O Marquês de Torres Novas”. Dos dois filhos do casal, um morreu à nascença e a outra aos três anos de idade, em 1534, o ano em que D. Guiomar e D. Fernando também faleceram, pondo assim um fim trágico ao Condado de Marialva. Consta que D. Fernando se terá refugiado, desgostoso, pouco tempo antes da sua morte, em Fonte Arcada, precisamente no Paço da Loba.

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Outro marco importante neste mesmo século foi a concessão de um foral manuelino em 1514, devidamente assinalado pelo pelourinho em granito que sobreviveu até aos nossos dias, agora quase “abafado” pelas construções que o rodeiam. Fica na minúscula Praça Pádua Correia e, apesar do seu aspecto geral muito simples, tem quase cinco metros de altura e uma base octogonal com sete degraus.

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Mas foi no século XVII que a localidade conheceu os seus tempos mais prósperos ao ser qualificada como Viscondado, que D. Pedro II atribuiu a Pedro Jacques de Magalhães, herói da Guerra da Restauração. São desta época as casas solarengas mais bonitas que existem em Fonte Arcada. Num dos extremos do largo a que chamam da Igreja, o Solar dos Condes da Azenha é uma dessas casas, facilmente identificável pelas armas afixadas em alto-relevo no seu pórtico (que está a precisar de obras urgentes de manutenção).

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Outra destas grandes mansões é o Solar dos Gouveias, mais conhecido por Casa dos Brigadeiros porque os varões da família desempenharam sempre altos cargos militares. Situado numa rua que desemboca ao lado da igreja, tem um muro alto e longo com variados elementos decorativos que causam grande impacto visual. É bem óbvia a importância que este edifício teve e continua a ter na aldeia.

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Fonte Arcada é palco de uma das maiores romarias do concelho de Sernancelhe, que tem lugar no terceiro domingo de Páscoa. A ela ocorrem habitualmente milhares de pessoas para participarem na procissão em honra da Senhora da Saúde. O Santuário ocupa o topo de uma colina, miradouro de onde se avista toda a aldeia até ao Távora. A capela branca e simples, que terá as suas origens em finais do século XVIII ou inícios do seguinte, está situada no centro de um enorme terreiro que inclui parque de merendas e um coreto. A procissão sai da igreja de Fonte Arcada com os andores (que antigamente eram puxados ladeira acima por carros de bois) a serem rebocados por tractores – excepto o que transporta a Senhora, pois este continua a ser carregado em ombros. O passo é marcado pelos bombos dos Zés-pereira e pelos sons de uma banda de música. A festa prolonga-se por uma semana com uma feira montada na avenida paralela à capela.

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Com a tarde a chegar ao fim, subi ao cerro do Castelo, que na verdade não tem castelo nenhum mas sim uma torre sineira. A Torre do Relógio é o ex libris de Fonte Arcada, e parece pairar sobre ela. Não é grande nem vistosa, mas atrai o olhar desde longe. À falta de adjectivo melhor, só posso dizer que é “diferente”, e imprime à aldeia um cunho muito particular e original. Terá servido desde o século XVI como local de vigia, e o seu sino ressoava umas vezes como aviso à população, outras como convocatória de assembleias. Na parede frontal tem degraus e uma porta descentrada, noutra parede há uma minúscula janelinha quadrada, no cimo o campanário com o sino, que agora cumpre a função de relógio, e uma cornija com gárgulas de canhão. Nada mais tem, e nada mais faz falta.

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É aqui o melhor sítio para ver o sol a recolher-se para lá das águas calmas da barragem, rodeada de oliveiras e campos de cultivo. Caudas de fumo saíam das chaminés, uma leve neblina alastrava sobre o vale como um véu fino, os raios de sol imprimiam auréolas vermelhas à terra castanha, em contraste com o céu ainda muito azul típico dos nossos dias frios de Inverno. O final perfeito para uma visita a esta aldeia memorável.

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