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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 11.07.25

A História tem nome de ilha: Malta - parte 2

Uma história de três cidades

 

Em 1091, Malta foi reconquistada pelos Normandos e integrada no Reino da Sicília. A ilha passou por diferentes governantes cristãos, incluindo os Angevinos e os Aragoneses, mantendo-se como parte do sul de Itália. Em 1530, Carlos V de Espanha concedeu Malta à Ordem dos Cavaleiros de São João, que estabeleceram a sua primeira sede em Birgu e transformaram a massa de água agora conhecida como Grande Porto numa espécie de fortaleza inexpugnável – característica que continua bem visível nos dias de hoje. O evento mais marcante deste período foi o Grande Cerco de 1565, quando os Cavaleiros e os malteses resistiram heroicamente à invasão otomana, reforçando a importância histórica e estratégica de Malta e do Grande Porto. Foi só após a vitória que construíram Valeta, a nova capital.

 

Três Cidades, seis nomes

 

Olhando para o mapa da ilha de Malta, não há como ignorar os recortes profundos talhados na costa leste, como se fossem dedos de várias mãos. Valeta fica no centro desta área e é o pólo principal de atracção dos visitantes. A norte, em Sliema, concentra-se o grosso dos alojamentos turísticos – e também uma mole de prédios altos a perder de vista, tal como em tantas outras cidades do mundo. Confesso que ignorei Sliema propositadamente, o ambiente que procurava era outro. A sul de Valeta, do lado de lá do Grande Porto, encontram-se as Três Cidades: Vittoriosa, Senglea e Cospicua – ou, em maltês, Birgu, L-Isla e Bormla, respectivamente. É conveniente reconhecer os seus nomes malteses, pois são eles que predominam na sinalização rodoviária e de transporte, pese embora em Malta o inglês seja língua oficial e comum (falada por 88% da população).

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Birgu, a vitoriosa

 

Devido à sua localização estratégica, abrigadas no Grande Porto, as Três Cidades tiveram como origem pequenos povoados fenícios, cartagineses e romanos. Durante a Idade Média, desenvolveram-se como importante núcleo portuário em torno de um braço de mar, com Birgu no lado esquerdo, Isla no direito e Bormla ao fundo. Sendo a mais próxima da entrada do porto, Birgu destacou-se pela sua vantagem defensiva e por isso tornou-se a primeira sede dos Cavaleiros da Ordem de São João, quando Malta lhes foi concedida por Carlos V.

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A atmosfera nas Três Cidades é mais calma e menos cosmopolita do que a de Valeta, o que as torna uma excelente opção para quem procura tranquilidade. Foi por essa razão que nos primeiros dias da estadia em Malta escolhi ficar em Birgu. Misturando tradição e uma modernidade simples, o ambiente desta localidade é discreto e sossegado, sobretudo ao início da manhã e à noite, quando a maior parte dos turistas regressa a Sliema, Valeta ou St. Paul’s Bay, as localidades onde a oferta de alojamento é maior. Com Senglea e Cospicua (as outras duas das Três Cidades) facilmente alcançáveis a pé e Valeta a uma dezena de minutos de barco, além de ter autocarros frequentes para outras partes da ilha, Birgu foi ideal para “sentir o pulso” ao país fora do comum que Malta me revelou ser.

Fiquei num alojamento local situado numa ruazinha em que mal cabe um carro e, por isso mesmo, pouco ruidosa. A excepção foram os foguetes que interrompiam o silêncio às 8 da manhã e à noite, lançados de tão perto que mais pareciam fogo de artilharia. Comemorava-se naquela altura o Centenário da constituição do governo autónomo de Malta e, além disso, aproximava-se o 8 de Setembro, o Dia da Vitória. Esta data celebra o fim de três grandes cercos a Malta: o do Império Otomano em 1565, o bloqueio francês a Valeta em 1800 e o da Segunda Guerra Mundial pelas Forças do Eixo. A ilha estava em festa e, lá como cá, festa significa manifestações ruidosas.

Ainda assim, Birgu revelou-se perfeita para evitar a confusão turística. O alojamento, no nº 17 da rua Santa Skolastica, fica perto da Pjazza tal-Belt à Vittoriosa, o centro da localidade, onde há tudo o que é preciso: autocarros até Valeta e outros pontos da ilha, cafés e restaurantes, um minimercado onde comprar água e fruta, e acesso pedonal fácil à marina partilhada pelas Três Cidades.

Toda a arquitectura de Birgu é uma ode à resistência. As ruas estreitas são herança medieval e as coloridas varandas de madeira remetem para o norte de África, que está ali tão perto. A pedra calcária das casas torna-se dourada sob o sol maltês e protege do calor intenso (Malta tem uma média de 300 dias de sol por ano). Trepadeiras e flores emprestam um pouco de natureza ao ambiente que, sem elas, seria mais árido.

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Na Triq it-Tramuntana (que significa Rua do Norte), encontramos a casa mais antiga de Birgu: a Id-Dar Normanna. Supõe-se que date do século XIII, embora possa ser anterior. Construída em estilo siciliano-normando (evidente também em várias casas da localidade de Mdina), é notável a sua janela dupla ornamentada com motivos de palmeiras.

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Na Triq Hilda Tabone, uma surpresa. Cravada no pilar robusto de uma casa de esquina, uma laje de mármore anuncia o “Auberge de Castille et Portugal”. Este edifício foi o segundo albergue dos Cavaleiros da Ordem de São João oriundos do nosso país e de Castela e Leão. Sabe-se que existiu um primeiro albergue, mas a sua localização exacta permanece desconhecida. Os Cavaleiros portugueses e espanhóis foram transferidos para aqui em 1555, e permaneceram no local até 1574, quando um novo albergue foi criado em Valeta.

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Por estranha que pareça esta coabitação entre Portugal e Castela, dois reinos tantas vezes desavindos, ela devia-se tão só a uma questão prática dentro da estrutura da Ordem, que agrupava os Cavaleiros por “línguas” (ou nações). Na realidade, a Ordem funcionava como uma entidade supranacional, unindo indivíduos de diferentes regiões em torno de um objectivo comum: a defesa da fé cristã no Mediterrâneo. Na mesma rua encontra-se também o “Auberge de France”, onde se alojavam os Cavaleiros de Auvergne e da Provença. Está listado no Inventário Nacional das Propriedades Culturais das Ilhas Maltesas, mas sofreu alterações ao longo do tempo e, actualmente, apenas resta uma parte do edifício original.

Malta é um estado laico, mas a religião católica continua a ser um componente importante da vida social e política, com a Igreja a desempenhar um papel significativo nas questões educacionais e de bem-estar social. Em Birgu não faltam evidências desta espiritualidade. A mais proeminente é a Igreja de São Lourenço, dedicada ao santo padroeiro dos marinheiros. Vigiando as águas a partir da encosta sobre a marina, é um exemplo notável da arquitectura barroca maltesa, com a sua fachada imponente e um interior ricamente decorado que exibe obras de arte e relíquias de grande valor.

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Mesmo em frente, uma rotunda com um monte artificial domina a praça. É o Monumento do Dia da Liberdade, erigido para comemorar um ponto de viragem na história política moderna de Malta. Construído com grandes pedras trazidas das falésias de Dingli e plantado com diferentes tipos vegetação mediterrânica, traz simbolicamente o campo para a cidade. No topo do monte há quatro figuras alegóricas em tamanho real que representam um marinheiro britânico que se despede com um último aperto de mão a um trabalhador maltês, outro trabalhador maltês que hasteia a bandeira maltesa e um corneteiro. Reproduzem a cerimónia do dia 31 de Março de 1979, quando o governo britânico encerrou a sua base militar em Malta – o dia em que Malta passou a ser um país verdadeiramente independente.

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O extenso paredão que acompanha a marina foi lugar de passeios agradáveis, sobretudo ao cair da tarde, quando as sombras se apropriavam dos edifícios, arrefecendo a pedra, e a água reflectia as primeiras luzes que se iam acendendo. A marina é concorrida e abriga embarcações de todas as espécies: veleiros e iates modernos, barcos malteses tradicionais, barquinhos pequenos e básicos. A coabitação é pacífica e não choca, antes empresta ao lugar um cunho de autenticidade, de recusa de um certo elitismo que é frequente noutros ambientes semelhantes. Aproveitando o passeio, foi aqui que jantei na primeira noite, num dos vários restaurantes dispersos ao longo do cais, o Don Berto – cujo ponto forte, como dá para perceber pelo nome, é a cozinha italiana (mas também propõe vários pratos de peixe).

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Em Birgu, os dias começavam invariavelmente com um pequeno-almoço na esplanada do Cafe du Brazil, observando o movimento na Pjazza tal-Belt à Vittoriosa – que, note-se, nunca era muito: habitantes locais nas idas e vindas dos seus afazeres diários, alguém sentado no banco à espera do autocarro, a descarga de uma carrinha para abastecer o minimercado, um carro a passar de vez em quando. A praça não é particularmente atractiva, talvez por ser um rectângulo irregular ou por uma percentagem avantajada do seu espaço estar ocupada por carros estacionados. Ou talvez por ter como motivo principal não apenas um, mas sim dois obeliscos com estátuas, ambos descentrados, colocados a uma vintena de metros um do outro no lado sul da praça. Não são um par. Um deles é o Monumento da Vitória, que comemora (como não podia deixar de ser) o triunfo no Grande Cerco de 1565. O outro tem no topo uma escultura que representa São Lourenço, o santo protector de Birgu.

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Ainda assim, nos edifícios em volta da praça há algumas varandas típicas e um deles, o Palazzo Huesca, tem uma fachada particularmente bonita, decorada com elementos barrocos e ferros forjados. Além de ser a sede da Sociedade Musical de São Lourenço, fundada em 1883 e cuja banda de sopro foi a primeira da cidade, tem também um café-restaurante, o BeBirgu. Vale a pena ignorar a esplanada e optar por comer no pátio interior, aonde se chega atravessando um belo corredor que mantém a decoração e a aura de outros tempos.

Outra das boas surpresas de Malta foi perceber que se come bem em todo o lado, independentemente do tipo de comida que se escolha. Ficou-me na memória uma deliciosa focaccia que um empregado simpático me serviu no Tal-Papas, um restaurantezinho despretensioso numa rua lateral à praça, num final de tarde em que o apetite não pedia grandes refeições. O restaurante mudou entretanto de nome e de menu, mas permanece a lembrança dessa focaccia: fininha, estaladiça, bem temperada e saborosa. O prazer das coisas simples.

No extremo norte de Birgu, o Forte de Sant’Angelo é uma presença monumental e a imagem de marca da localidade. Construído sobre as estruturas de antigas fortificações medievais, desempenhou um papel crucial durante o Grande Cerco, tornando-se a cidadela mais importante da Ordem. Actualmente é um espaço cultural que acolhe eventos e exposições, e as suas muralhas maciças continuam a dominar a paisagem do Grande Porto.

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A sul, os limites de Birgu são também definidos pelas muralhas dos antigos bastiões – altas, robustas, impossíveis de ignorar. Um dos bastiões aloja o Museu da Guerra e a Biblioteca Regional, junto à Porta de Provença, que é o acesso rodoviário principal ao centro histórico. Qualquer que seja o ponto de acesso a Birgu, a pé, de barco ou sobre rodas, a primeira impressão é sempre a de estarmos a entrar numa fortaleza. Vittoriosa, o nome que lhe foi dado em homenagem à sua resistência contra os otomanos, assenta-lhe como uma luva.

 

Bormla, entre o declínio e a modernidade

 

Mais conhecida por Cospicua, o seu nome oficial, Bormla é uma localidade de contrastes. Partilha com as suas vizinhas um passado de resistência, esplendor e cicatrizes profundas deixadas pelo tempo e pela guerra. Foi rebaptizada pelos Cavaleiros da Ordem de São João como Cospicua, significando “proeminente”, em reconhecimento do seu papel defensivo e importância estratégica e da coragem e determinação dos seus habitantes durante o Grande Cerco. Mas para os malteses ela será sempre Bormla, o nome que carrega a sua identidade mais antiga.

Saindo de Birgu, de repente já estamos em Bormla e nem damos por isso. A marina é comum a ambas e não há limites visíveis. Num dos braços do Grande Porto, onde antes existiam estaleiros e docas industriais, agora há embarcações modernas. A envolvente da marina espelha o contraste entre o passado e a modernidade, fruto de uma recuperação cuidadosa que trouxe uma nova dinâmica à zona ribeirinha das Três Cidades.

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Na margem leste da Dock No. 1, uma extensa esplanada de lajes calcárias em socalcos acompanha o declive suave até à água, desembocando numa ampla área relvada. Uma ponte pedonal metálica une as duas margens da doca e sobre a erva há bancos estrategicamente colocados, convidando ao descanso. Mais à frente destaca-se a “Dgħajsa tar-Riħ”, uma escultura que homenageia o património industrial autóctone de Malta e a apreciação da perícia e da evolução do design de barcos e da aviação. Criação do artista plástico Matthew Pandolfino, é uma estrutura gigantesca em metal oxidado que agrega um zepelim e um dgħajsa tal-pass – o táxi aquático tradicional amplamente utilizado para transportar passageiros no Grande Porto nos séculos XVIII e XX, hoje em dia apenas usado pelos turistas.

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Este cenário de renovação convive com a presença imponente da Igreja da Imaculada Conceição, cuja cúpula domina a paisagem urbana, recordando a espiritualidade enraizada em Bormla. Foi construída em estilo barroco entre 1730 e 1738 sobre um antigo templo medieval, com grandes colunas na sua fachada simétrica de pedra calcária e um portal central ladeado por janelas e nichos com estátuas religiosas. Ergue-se majestosa no cimo de uma grande escadaria, e a sua cúpula maciça é visível de vários pontos das Três Cidades. Contrasta com as edificações mais modestas que a rodeiam e com a modernidade da marina, numa lembrança constante da profunda devoção maltesa.

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Na orla oeste da doca alonga-se o histórico Edifício dos Estaleiros Britânicos, renovado há alguns anos para acolher um dos pólos da Universidade Americana de Malta (AUM). Originalmente construído no século XIX para alojar os escritórios administrativos e de gestão dos estaleiros navais de Malta, foi um dos centros nevrálgicos da actividade marítima durante mais de um século, reflectindo a importância estratégica do Grande Porto para a Marinha Real Britânica. A reabilitação manteve a estrutura e o carácter histórico do edifício, respeitando a sua identidade original. Está harmoniosamente integrado na renovada frente ribeirinha de Bormla, e todo o conjunto é um exemplo de como a valorização estética e funcional de uma área que, durante décadas, esteve marcada pelo declínio industrial, pode fomentar novas dinâmicas económicas e sociais.

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Mesmo ao lado, testemunha muda de tantas mudanças, a estátua dourada da Madonna tal-Għar (Nossa Senhora da Gruta) marca a transição para a zona mais tradicional de Bormla. O seu nome tem origem numa antiga devoção a Nossa Senhora associada a uma gruta existente na região. A imagem da Virgem, com um olhar sereno e protector, foi colocada estrategicamente voltada para o porto, num gesto simbólico de bênção e salvaguarda para todos aqueles que partiam para o mar.

Percorrer as ruas de Bormla a partir daqui foi sentir, mais uma vez, os grandes contrastes de Malta. As ruelas estreitas, com escadarias de pedra polida pelo tempo, revelam fachadas de edifícios históricos, alguns restaurados com esmero, outros caindo lentamente em ruína. Há uma certa melancolia nestas ruas, uma beleza nostálgica em cada varanda de madeira gasta, em cada porta maciça desbotada pelo sol, em cada parede onde o tempo deixou marcas profundas. No extremo da rua San Pawl, quase ao pé da igreja que lhe dá nome, há vários edifícios que chamam a atenção por serem muito bonitos (as varandas são um encanto!) mas estarem em muito mau estado de conservação. Não são caso único, há exemplos idênticos também em Valeta. Ver estes lindíssimos edifícios tão degradados foi o que mais me fez doer o coração.

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Bormla está igualmente rodeada por bastiões que fazem parte das chamadas “Cottonera Lines”, o sistema de fortificações construído no século XVII para reforçar a protecção das Três Cidades após o Grande Cerco. A sua construção foi ordenada pelo Grão-Mestre Nicolau Cotoner (daí o seu nome) e o objectivo era a formação de um segundo anel de defesa que abrangesse um maior número de habitantes e fosse ainda mais forte contra futuras ameaças. Dois dos marcos icónicos da cidade incluídos nesta linha defensiva são o Forte Verdala e a Porta de Santa Helena.

Entre uma herança secular e os desafios da modernidade, Bormla revela-se-nos em camadas contrastantes e, apesar do desgaste visível, parece estar a reconstruir-se sem se alhear da sua história.

 

Senglea: resistência e fé

 

Contígua a Bormla e paralela a Birgu, com a marina a separá-las, Senglea estende-se magnificamente para dentro do Grande Porto – uma mancha ocre e compacta de muralhas e edifícios encaixados uns nos outros, num tetris complexo coroado de cúpulas. Ao longo da sua história, tem sido conhecida por vários nomes: L-Isla, pela sua forma geográfica; Civitas Invicta, título atribuído após resistir heroicamente ao Grande Cerco de 1565; e Senglea, em honra do Grão-Mestre Claude de la Sengle, que ordenou o reforço das suas fortificações no século XVI.

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É a mais pequena das Três Cidades. Não sendo, na sua génese, muito diferente das suas irmãs, sente-se na atmosfera de Senglea um forte enraizamento marítimo e espiritual. Ou talvez eu tenha ficado com essa impressão porque a visitei num domingo especial, em vésperas do Dia da Vitória. Economizando nas comemorações, a cidade celebra no mesmo dia a Festa da Natividade da Virgem Maria, e já estava engalanada a preceito.

A entrada em Senglea faz-se pelo Bastião de São Miguel, uma das fortificações da linha de defesa das Três Cidades. A sua localização estratégica, virada para o istmo que liga a península ao continente, fazia dele o primeiro reduto de resistência em caso de invasão. Quase cinco séculos depois, e apesar de esvaziado da sua função primária, mantém um perfil de inexpugnabilidade, guardião de eventuais preciosidades que possam esconder-se para lá das suas muralhas. As pedras de calcário dourado mostram idades diferentes – algumas já estão muito marcadas pela erosão e pela luz do sol mediterrânico, enquanto outras são lisinhas e com ar de novas. Os tempos hoje são de paz em Malta, mas o bastião permanece ali para o que der e vier.

Passados os arcos do bastião, não havia como ignorar que a cidade estava em festa. Sobre a rua central ondulavam grinaldas quilométricas, gambiarras compridíssimas e enormes estandartes coloridos, esticados entre os prédios baixos de pedra neutra. Mais à frente, de ambos os lados da rua, várias estátuas de figuras religiosas, pintadas com cores vivas, pontificavam sobre colunas altas e profusamente ornamentadas. E a fachada da Basílica da Natividade de Maria, mais conhecida como Igreja de Maria Bambina, estava coberta de lâmpadas, que à noite desenhavam o contorno do edifício na forma de luzes coloridas.

O Grande Cerco de 1565 terminou no dia 8 de Setembro, que é também o dia liturgicamente dedicado pela Igreja católica à Natividade da Virgem Maria. Como memorial das provações sofridas e da vitória sobre os otomanos, os habitantes de Senglea quiseram erigir uma igreja que honrasse essa data e a protecção divina que tinham merecido. Essa igreja foi terminada em 1580. Diz a tradição, alegadamente apoiada em manuscritos antigos dos arquivos da paróquia, que em 1618 foi encontrada uma imagem da Virgem a flutuar entre os destroços de um galeão naufragado ao largo da Dalmácia. Resgatada pelo capitão de uma embarcação austríaca, e a pedido de dois dos seus passageiros, moradores de Senglea, foi entregue à guarda da paróquia da cidade. Restaurada e devidamente paramentada de ouro, a imagem de madeira foi colocada na igreja em altar próprio. Devido ao seu tamanho reduzido, passou a ser carinhosamente apelidada de Il-Bambina. Ao longo dos séculos, a pequena imagem foi ganhando uma aura quase mística entre os habitantes de Senglea, sendo considerada protectora da cidade, especialmente durante períodos adversos. Foi invocada com fé inabalável durante epidemias e guerras, particularmente durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial, quando Senglea foi duramente atingida. Em reconhecimento pelo seu significado espiritual, a estátua foi coroada em 4 de Setembro de 1921 por ordem do Papa Bento XV, tornando-se a única estátua em Malta a ser solenemente coroada por decreto especial emitido pela Santa Sé. A igreja foi nessa altura elevada a basílica menor.

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O exterior da basílica é sóbrio mas elegante, com fachada em estilo barroco maltês, construída na pedra dourada típica da ilha. A entrada principal é emoldurada por colunas e um frontão triangular, onde repousa uma representação escultórica da Virgem. No topo, duas torres sineiras bulbosas. Só de longe é que se consegue ver a sua cúpula rosada e branca, que paira sobre a cidade. Destruída durante um bombardeamento em 1941, a igreja foi reconstruída e reconsagrada em Agosto de 1956.

Senglea é um emaranhado de ruas com casas de pedra à vista ou pintadas de cores claras, coladas umas às outras. As varandas maltesas típicas alternam com outras em ferro forjado, quase sempre brancas ou cinzentas, e as esquinas estão adornadas com figuras religiosas. Aqui e ali há escadarias estreitas que descem até ao mar. Na cidade há uma mistura de charme antigo com um certo ar de dignidade ferida: alguns edifícios mostram as cicatrizes da guerra e do tempo, mas mantêm-se firmes, como se recusassem esquecer ou render-se.

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No extremo norte da península, o Jardim Gardjola oferece uma das melhores vistas sobre Marsa, Valeta, o Grande Porto e o Forte de Sant’Angelo. Uma das suas curiosidades é a torre de vigia suspensa na ponta do baluarte, denominada “Il-gardjola”, decorada com vários símbolos esculpidos em pedra (um olho, uma orelha e um grou), que simbolizam a vigilância constante e a protecção das costas maltesas. No centro do jardim há uma fonte-lago com a forma da cruz de Malta, rodeada de bancos e árvores circunscritas por canteiros.

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Senglea foi desde sempre um importante ponto comercial e de construção naval, o que fez dela a mais próspera das Três Cidades no século XVIII, altura em que contava entre os seus residentes com algumas das famílias, académicos e políticos mais respeitados de Malta. A presença do estaleiro naval contribuiu para o facto de ter sido um dos principais alvos dos ataques de bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial, que quase a arrasaram. A guerra transformou a cidade. Os habitantes refugiaram-se em cidades e campos periféricos, e muitos deles nunca regressaram. Os seus estaleiros de reparação naval foram entretanto reconstruídos e constituem hoje em dia uma importante fonte de emprego. Mais do que património, Senglea oferece uma experiência de vida autêntica – talvez por isso, cerca de 30% dos seus residentes actuais são estrangeiros, conquistados pela genuinidade do local.

Algo alheias ao bulício de Valeta, pese embora a sua proximidade, as Três Cidades continuam a ser um testemunho vivo da resiliência e da importância estratégica de Malta. Para lá de destino turístico popular, representam o coração histórico da ilha, onde o passado se entrelaça com o presente. Um dos lugares onde melhor se consegue vislumbrar o espírito maltês e conhecer a história multifacetada da ilha.

 

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