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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 23.08.13

Cadaquès

 

Há lugares que têm uma atmosfera especial. Acabamos de chegar e pensamos: “Eu queria viver aqui, este é o meu lugar”. Quando viajamos temos a sorte de por vezes “tropeçarmos” em lugares assim, que ficam na nossa memória e no nosso coração para sempre. Mesmo que nunca mais lá voltemos.

Cadaquès-ponte.jpg

Cadaquès é, para mim, um desses lugares. Surgiu assim por acaso, no final de um Verão, numas curtas férias de carro, já de regresso a Portugal depois de termos visitado o principal objectivo da nossa viagem. Algures nos Pirinéus, olhámos para o mapa: “E agora onde é que vamos?” Os olhos pousaram em Girona e um bocadinho acima lá estava, mesmo na pontinha de Espanha: Cadaquès. Lembrei-me vagamente de um ou dois artigos lidos em revistas, veio-me à memória o nome de Dalí. E decidimos ir.


A surpresa de ver Cadaquès é tanto mais agradável quanto a região que se atravessa antes de lá chegar é desprovida de encanto. Cadaquès fica junto ao Cabo Creus, o ponto mais oriental da Espanha, no extremo nordeste da Catalunha, uma zona que é na generalidade pouco interessante em termos paisagísticos e urbanísticos, tão decepcionante que até faz duvidar do que vamos encontrar mais à frente. Só quando entramos na região acidentada que caracteriza o Parque Natural Cadaquès–Cap de Creus, alguns quilómetros antes da localidade propriamente dita, é que a mudança acontece. São curvas e contracurvas no meio de colinas cobertas de uma vegetação rasteira, pedra cinzenta e algumas oliveiras, aqui e ali deixando entrever o mar. De repente, lá em baixo, muito ao fundo, surge Cadaquès, de costas para nós, aninhada no declive à volta da baía que tem o mesmo nome, as casas brancas de telha vermelha iluminadas pelo sol do fim da tarde. E começa o encanto.

Cadaquès-vista para a parte oriental.jpg

Cadaquès é uma localidade pequena com ruas apertadas que vão confluindo até à marginal que acompanha toda a baía. Aqui as casas encostam-se umas às outras, estreitas e altas, com janelas rasgadas para o mar, paredes brancas em que a nota de cor só é dada pelos telhados e pelos caixilhos e estores das janelas, portas e varandas – vermelhos, verdes e azuis em todos os tons. As de traça antiga misturam-se com as mais modernas, lado a lado em calma e pacífica coexistência. O isolamento natural da aldeia acabou por se tornar num factor positivo. O turismo tardou muitos anos a descobrir este antigo porto de abrigo da comarca de l’Alt Empordà, o que lhe permitiu conservar alguma integridade urbanística, que contribui sem dúvida para o seu encanto actual.

Cadaquès-Es Passeig e rua marginal.jpg

A igreja de Santa Maria domina o conjunto, branca contra o verde das colinas que lhe servem de pano de fundo, linhas simples com vários volumes onde a torre quebra a monotonia e assume um nítido papel de destaque. Construída entre os séculos XVI e XVII, foi reconstruída no séc. XVIII e abriga um magnífico altar barroco. É sem dúvida uma das igrejas mais pintadas por artistas, incluindo Picasso e, claro está, Dalí.

Cadaquès-Igreja de Santa Maria.jpg

A praça principal de Cadaquès tem o nome de Es Passeig e fica em frente à praia – cuja areia, escura e um bocado pedregosa, definitivamente não convida a apanhar banhos de sol. Quase junto ao areal, de costas para o mar, há uma estátua de Salvador Dalí em pose convencional.

Cadaquès-Praia e Riba Nemesi LLorens.jpg

Cadaquès-Praia de Port-Alguer.jpg

Em Cadaquès em Setembro o mar é calmo, quase imobilizado. Há inúmeros barcos ancorados na baía recortada, em que estreitas faixas de areia alternam com as extensões rochosas em cima das quais se curva e se alonga a Riba Nemesi Llorens, a rua que contorna grande parte da baía. Também há barcos na areia, e até um pescador idoso que de manhã cedo trata das suas redes. Algumas ilhotas emprestam o seu charme à paisagem e uma delas, que fica antes da praia de Sa Conca, tem mesmo uma pequena e deliciosa pontezinha de pedra a ligá-la à costa. A mais famosa, com uma característica forma triangular, inúmeras vezes pintada e fotografada, tem o estranho nome de Cucurucuc.

Cadaquès-pescador em Llane Petit.jpg

Aparte isso, Cadaquès é uma típica localidade de veraneio com cafés, restaurantes e hotéis, lojas de todos os tipos e os habituais postais ilustrados e “souvenirs”. Mas consegue mesmo assim manter uma atmosfera ímpar e exclusiva que não contemporiza facilmente com o turismo de massas – Cadaquès não se vende fácil. Frequentada regularmente desde há muitas décadas por intelectuais e artistas, que lhe conferiram prestígio além fronteiras, é actualmente palco de um Festival de Música Internacional, que se realiza anualmente. As galerias de arte são quase uma dezena. E todas as segundas-feiras de manhã se realiza um mercado, que ainda é conhecido como mercado “hippy”, embora a característica que lhe dá o nome já tenha desaparecido há bastante tempo.

Cadaquès-vista para a zona ocidental.jpg

 

Mas a localidade está e ficará para sempre associada a um dos mais polémicos mestres do surrealismo, que uns classificaram de génio e outros simplesmente de louco: Salvador Dalí.


Foi numa pequena casa de pescadores situada na Cala de Port Lligat, do outro lado da península de Cadaquès, que Dalí decidiu instalar o seu refúgio a partir de 1930, fascinado pela paisagem em que ela se enquadrava. Ao longo de quarenta anos acrescentou e transformou a pequena casa branca à sua imagem, decorando-a por dentro e por fora com cores e objectos dos mais díspares, a maior parte deles criados por si. Ali fez o seu atelier e ali recebeu os seus convidados e amigos, na sua maioria nomes famosos das mais diversas áreas artísticas – no entanto, apenas os acolhia nas dependências exteriores da sua casa, à volta da piscina, pois tanto ele como a sua muito amada mulher Gala eram extremamente ciosos da sua privacidade. O casal viveu nesta casa até à morte de Gala, em 1982.

Port Lligat-Casa de Dalí.jpg

Hoje a casa está transformada num museu, com visitas guiadas e rigorosamente cronometradas, onde tudo está preservado tal como em vida do pintor, excepção feita aos seus quadros e livros, que foram praticamente todos substituídos por cópias, encontrando-se os originais expostos em Figueres, terra-natal de Salvador Dalí. Ao observarmos os vários ambientes onde Gala e Dalí viveram, e com a ajuda de algumas explicações dos guias, ficamos a conhecer um pouco mais a personalidade deste pintor surrealista que tanta tinta fez correr.

Port Lligat-Casa de Dalí-Piscina.jpg

É uma casa labiríntica, quase orgânica. Os vários espaços interligam-se uns com os outros, cada um tendo uma função bem definida. Nas palavras de Dalí, era “como uma verdadeira estrutura biológica, (...). A cada novo impulso da nossa vida correspondia uma nova célula, uma divisão”. A entrada faz-se pelo vestíbulo do Urso, onde um espécime embalsamado deste animal, entretanto transformado em candeeiro, impõe a sua presença.

Port Lligat-Casa de Dalí-Vestíbulo.jpg

O estúdio de Dalí mostra um trabalho inacabado do artista (um dos raros originais que podemos encontrar na casa) exposto no enorme cavalete especial que ocupa toda uma parede de alto a baixo, engenhosamente concebido por ele próprio para poder trabalhar sempre sentado, independentemente do tamanho do quadro que estivesse a pintar. Também aqui o mar e a luz da Catalunha inundam todo o aposento e criam um ambiente verdadeiramente especial.

Cópia de Port Lligat-Casa de Dalí-Estúdio.jpg

 

Compreendo e partilho a paixão de Dalí por este lugar. É impossível ficar indiferente à magia de Cadaquès.

 

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