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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 13.05.16

7 lugares quase desconhecidos em Portugal continental

 

Existem em Portugal deliciosos “segredos”, alguns mais protegidos do que outros, muitos deles ao abandono e mais ainda a precisarem de urgente recuperação, outros talvez em vias de desaparecerem. São lugares únicos, diferentes, especiais. Lugares que se cruzam inesperadamente no nosso caminho e às vezes só por isso ficamos a conhecê-los, porque deles quase não se fala e permanecem injustamente ignorados, preteridos a favor de outros lugares mais “visitáveis” ou mais glamourosos.

Estes são apenas alguns deles, meros fragmentos da nossa História e da nossa tradição. A visitar antes que desapareçam ou os tornem irreconhecíveis.

 

BAIRRO DO QUELHO, SALZEDAS

 

Atravessando a rua em frente ao Mosteiro de Salzedas encontramos uma das maiores surpresas que eu já tive ao viajar pelo nosso país: um bairro medieval praticamente inalterado, em ruínas, com ruelas estreitinhas e labirínticas entre casas feitas de pedra e madeira com dois ou três pisos. Muitos alpendres em madeira, vários deles avançando sobre as ruas, unindo umas casas às outras. Deserto, silencioso, atravessá-lo é sentirmo-nos no cenário de um filme apocalíptico, ou talvez numa cidade decadente da Guerra dos Tronos.

Existe uma certa polémica em torno do Bairro do Quelho, que alguns defendem ter sido uma judiaria, teoria firmemente renegada por outros. Seja o que for, ele é o remanescente de um bairro que era nitidamente mais alargado, como o provam a maioria das casas (habitadas) nas ruas circundantes, que possuem algumas características similares.

Um bairro que é uma preciosidade do nosso património, mas para o qual não se vislumbram quaisquer esperanças de recuperação a curto prazo. Lamentavelmente.

 

 

 

CASTELO DE VIANA DO ALENTEJO

 

Na pacata vila de Viana do Alentejo, a meio caminho entre Évora e Beja, existe um castelo único no género no nosso país pela “mistura” de estilos que apresenta: gótico tardio, manuelino e mudéjar. As suas origens remontam ao reinado de D.Dinis (sécs. XIII-XIV). Tem uma planta pentagonal ligeiramente irregular, com cinco torres cónicas a fazerem lembrar os castelos medievais mais típicos da Europa central. Uma delas, a Torre da Misericórdia, é nitidamente diferente das outras e abriga o sino da igreja com o mesmo nome. No interior do Castelo, rodeada por jardins, está a belíssima igreja Matriz.

(Mais pormenores aqui)

 

 

 

ERMIDA DE NOSSA SRª DE GUADALUPE

 

A dois quilómetros de Serpa, no alto de um monte – como convém a toda a ermida que se preze – e mais propriamente na serra de S.Gens, há uma capela dedicada à Nossa Senhora de Guadalupe, também conhecida como capela do Altinho ou de S.Gens. Completamente branca no meio da paisagem verde e castanha, e com uma vista soberba sobre a planície, é um lugar tranquilo onde quase não se ouvem outros sons que os próprios da natureza, e um ponto de observação privilegiado para ver aqueles maravilhosos pores-do-sol que só o Verão alentejano nos oferece.

Presumivelmente de fundação anterior ao séc. XII, a história da ermida tem ligações à batalha do Salado e talvez também a Cristóvão Colombo, sendo uma possível razão para o nome que o navegador deu a um dos territórios que descobriu.

 

 

 

ESCAROUPIM

 

O Escaroupim é uma aldeia avieira situada à beira-Tejo, perto de Salvaterra de Magos. Nestas aldeias, as casas eram construídas sobre estacas para evitar que fossem inundadas durante as cheias frequentes do rio, e pintavam-nas de cores vivas, as mesmas cores do barco que pertencia ao seu dono. Hoje subsistem algumas dessas casas, restauradas e agora dedicadas ao comércio. O cais palafítico, também renovado, abriga os barcos dos pescadores ainda activos, e foram construídos mais alguns cais onde atracam as embarcações protegidas com toldos que se dedicam a levar grupos de pessoas em passeio pelas ilhas do Tejo. Foi criado um museu destinado a preservar e divulgar a memória da aldeia. Há um parque de merendas, lugares para estacionar, e um restaurante excelente que enche facilmente no Verão ao fim-de-semana.

 

 

 

MOINHOS DE GAVINHOS

 

São catorze os moinhos que se perfilam no alto da serra junto à aldeia de Gavinhos, ali para os lados de Penacova e do Lorvão. Apenas um deles trabalha de vez em quando, encontrando-se todos eles em vários estágios de degradação ou recuperação, vigiados pelo olhar atento da estátua religiosa do Imaculado Coração de Maria.

A vista é soberba e o vento constante, como que a pedir velas que possa fazer rodar.

 

 

 

PRAIA DA TOCHA

 

Antiga aldeia de pescadores no concelho de Cantanhede e perto da Figueira da Foz, a praia da Tocha tem, além da belíssima e longa praia que lhe dá o nome, um curioso núcleo habitacional formado pelos antigos palheiros onde eram guardados em tempos idos os materiais da actividade dos pescadores, ou que serviam de armazém para a salga do peixe. Hoje têm uma nova vida e são essencialmente recuperados para servirem como casas de férias, mas mantêm os seus traços e materiais originais, e muitos deles os seus padrões genuínos com riscas fininhas em duas cores, em contraste alegre com o tom quase branco da areia.

A designação de “palheiros” vem do facto de originariamente os telhados destas casas serem feitos de palha. Nos nossos dias, a palha deu lugar às telhas, mas o nome permanece.

 

 

 

TORRE DE CENTUM CELLAS

 

Um dos monumentos mais estranhos do nosso país, até aos anos 90 permaneceu desconhecida a origem desta torre em ruínas que se avista junto a uma das estradas na periferia de Belmonte. Sabe-se hoje que terá sido uma vila romana do séc. I d.C., propriedade de uma família que se dedicaria à exploração agrícola e de estanho, à época abundante nesta região. Há vestígios de outras construções no local, mas apenas a Torre permanece nos nossos dias orgulhosamente de pé, com a sua configuração única e facilmente reconhecível, guardadora dos segredos e mistérios dos seus dias áureos.

 

 

English translation

 

7 places almost unknown in mainland Portugal

 

Portugal has many delightful “secrets”, some more secluded than others, many of them abandoned and many more badly in need of restoration, others maybe already in the process of disappearing. They are unique, different, special places. Places that unexpectedly appear on our way and sometimes this is the only reason why we come to know of their existence, because they are hardly ever mentioned and remain unfairly ignored, forgotten in favour of other places which are more “worth visiting” or more glamorous. These are just a few of them, mere fragments of our history and our tradition. Visit them before they disappear or become unrecognizable.

 

“BAIRRO DO QUELHO”, SALZEDAS

When we cross the street in front of the Salzedas Monastery, we find one of the biggest surprises I have ever had when travelling in my country: a small medieval quarter practically unchanged, in ruins, with narrow and winding streets between houses made of stone and wood with two or three storeys. There are many porches of wood, several of them almost covering the streets, linking one house to another. Deserted and silent, wandering around this quarter feels like we are on the set of an apocalyptic movie, or perhaps in a decadent city in Game of Thrones.

There is a certain controversy around “Bairro do Quelho”, which some claim was one a Jewish quarter, a theory firmly denied by others. Whatever it may have been, now it is only the remnant of a quarter which was clearly bigger, as attested by the majority of the (inhabited) houses on the surrounding streets, which have some similar characteristics.

A quarter that is a precious asset of our heritage, but for which no hope of restoration seems to be envisaged in the short term. Regrettably.

 

CASTLE OF VIANA DO ALENTEJO

In the quiet village of Viana do Alentejo, halfway between Évora and Beja, there is a castle of a unique nature in Portugal, due to the “mixture” of styles that it presents: Late Gothic, Manueline and Mudéjar. Its origins date back to the reign of King Denis (13th-14th centuries). It has a slightly irregular pentagonal plan with five conical towers reminiscent of the most typical medieval castles in central Europe. One of them, the Tower of Mercy, is distinctly different from the others and houses the church bell with the same name. Inside the castle, surrounded by gardens, we can find the beautiful main church of the village.

(More details here)

 

CHAPEL OF OUR LADY OF GUADALUPE

Two kilometres away from Serpa, on the top of a hill – as befits any good chapel – there is a small sanctuary dedicated to Our Lady of Guadalupe, also known as the Chapel of Altinho or St. Gens. Completely white in the middle of the green and brown landscape, offering a superb view over the plain, it is a quiet place where you can hardly hear anything other than the sounds of nature, and a privileged vantage point to view those wonderful sunsets that only the Alentejo summer is able to offer.

Thought to have been  founded before the 12th century, the history of this chapel is related to the Battle of Salado and maybe also to Christopher Columbus, this being a possible reason for the name that the navigator gave to one of the territories that he discovered.

 

ESCAROUPIM

Escaroupim is a traditional fishermen’s village located on the banks of the River Tagus, near Salvaterra de Magos. In these villages, the houses were built on stakes to prevent them from being flooded during the frequent river overflows and painted in vivid colours, the same colours as the boats which belonged to their owners. Some of these houses have survived until today and now they are restored and dedicated to commerce. The pier on stilts, also renovated, houses the boats of the fishermen who remain active and a few more piers were built as docking places for a few modern boats, protected by awnings, which take groups of people on tours around the islets of the Tagus. A museum was created to preserve and disseminate the memory of the village. There is also a picnic park, a car park and an excellent restaurant, which is usually very busy on summer weekends.

 

THE WINDMILLS OF GAVINHOS

Fourteen is the number of windmills standing high on the hills close to the village of Gavinhos, near the towns of Penacova and Lorvão. Only one of them works from time to time, as they are all in various states of degradation or restoration, watched over by the attentive look of a religious statue of the Immaculate Heart of Mary.

The view is superb and the wind blows constantly, as if longing for sails to put in motion.

 

PRAIA DA TOCHA

Formerly a fishing village in the municipality of Cantanhede, near the town of Figueira da Foz, besides the beautiful long beach of the same name, Praia da Tocha has a curious settlement formed by the traditional old “straw sheds” where fishermen used to keep their fishing equipment, or that they used as storage places for salting fish. Today these constructions have a different life and have been restored essentially to serve as holiday homes, yet retaining their original features and materials. Many of them also maintain their genuine patterns with thin stripes in two colours, in cheerful contrast with the almost white shade of the sand. The designation “straw sheds” comes from the fact that originally these houses had thatched roofs. Nowadays straw has given way to tiles, but the name remains.

 

CENTUM CELLAS TOWER

One of the most mysterious monuments in my country, the origin of this ruined tower remained unknown until the 1990s. The Centum Cellas tower stands next to a road on the outskirts of Belmonte. It is now known that it will have belonged to a Roman village in the 1st century BC, owned by a family most likely engaged in agriculture and tin production, which was abundant in this region at that time. The place also has vestiges of other buildings, but only the tower remains proudly standing today, with its unique and easily recognizable configuration, guardian of the secrets and mysteries of its golden days.

 

 

 

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