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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 26.09.25

Cultura e arte a céu aberto - parte 1

 

Há lugares onde a criatividade não cabe entre quatro paredes. Espaços ao ar livre onde a história, a memória e o talento humano se encontram em feliz coabitação. Alguns recriam modos de vida que já não existem ou estão a desaparecer; outros transformam jardins e campos em plataformas de arte. Têm em comum o facto de proporcionarem uma forma diferente de contacto com a cultura – não em vitrinas ou corredores fechados, mas em cenários onde a natureza e a intervenção humana se misturam. Tenho visitado alguns destes lugares, de que sou particularmente apreciadora, e nunca saio de lá defraudada.

 

O mundo contado pela vida quotidiana

Incluo neste conjunto os museus etnográficos a céu aberto. Neles, a curiosidade não se alimenta apenas de objectos expostos, mas de ambientes inteiros, pensados para mostrar como se vivia, trabalhava e organizava a vida em tempos passados. São recriações que nos permitem mergulhar na atmosfera quotidiana de outras épocas, sentir os ritmos de uma comunidade e reconhecer o engenho que moldou ferramentas, casas ou formas de trabalho. Lugares que nos desafiam a olhar para o passado não como algo distante e abstracto, mas como uma herança palpável, feita de gestos ligados à sobrevivência, práticas comunitárias e ligações profundas com o meio envolvente – uma herança que é preciso acarinhar e preservar, mesmo que por vezes possa parecer obsoleta aos olhos da sociedade moderna.

 

O berço dos museus ao ar livre

Estocolmo, Suécia

Ao falar destes museus, é quase inevitável começar pelo Skansen. Criado em 1891, foi o primeiro museu a céu aberto do mundo, pioneiro na ideia de preservar modos de vida tradicionais fora das paredes de um edifício. Nasceu com uma ideia muito concreta: fixar a memória de um país que estava a mudar depressa. O mundo rural perdia importância, as cidades cresciam, a era industrial avançava. Era necessário guardar, de forma organizada, aquilo que definia o dia-a-dia das comunidades que viviam da terra, do trabalho manual e da relação próxima com a natureza: reunir casas, oficinas e estruturas de diferentes regiões num só local, para mostrar como viviam as comunidades rurais antes da industrialização.

O resultado é um museu vivo, que não se limita a exibir objectos soltos, mas recria ambientes inteiros. Mais de um século depois, continua a ser uma referência mundial, visitado tanto por quem procura aprender mais sobre história cultural como por famílias em passeio. É possível entrar numa casa onde as tarefas diárias ainda são feitas como no início do século passado, ou descansar dentro de uma igreja de madeira que transmite a sobriedade do quotidiano religioso. Há uma mercearia antiga, uma tipografia numa casa do século XVIII, lojas que funcionam como noutros tempos, e oficinas onde artesãos trabalham o metal ou o vidro, ou produzem peças de cerâmica ou joalharia, entre outros ofícios. O Skansen dá-nos a noção de um país inteiro resumido em parcos quilómetros – é um pouco como se estivéssemos dentro d’ A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson, o delicioso livro de Selma Lagerlöf em que a paisagem da Suécia também é uma personagem.

Tem ainda outra faceta que o torna especialmente popular: a vertente zoológica. Para quem tem crianças pequenas, esta será a principal atracção – vi muitos pais, tanto sozinhos como em casal ou em grupo, empurrando carrinhos de bebé ou com filhos pela mão. O espaço inclui um pequeno jardim zoológico com espécies típicas da Escandinávia, como alces, ursos, linces ou renas, bem como animais domésticos tradicionais das quintas suecas: coelhos, porcos, ovelhas, cavalos, e afins. Tem também um aquário, e lagos onde vivem focas e lontras. Durante a visita, passamos das ruas de uma aldeia histórica para cercados onde vacas ou cabras pastam tranquilamente. Esta combinação entre cultura e natureza faz com que a experiência seja mais variada, mais completa e, de certa forma, mais acessível para diferentes públicos.

O Skansen tem um calendário diversificado de actividades para miúdos e graúdos, sejam elas de pura diversão, como as celebrações festivas anuais, ou de educação, como as palestras sobre animais e a protecção da biodiversidade. Nota-se que procuram um equilíbrio entre aprendizagem e entretenimento, sem que uma dimensão anule a outra.

Apesar de o ter visitado numa época do ano mais tranquila, não tive dificuldade em perceber porque é que Skansen é um local tão popular entre os locais e atractivo para quem vem de fora. Não é apenas um museu etnográfico: é também um espaço de lazer, um lugar onde se pode passar um dia inteiro sem que a experiência se torne pesada ou demasiado académica. A mistura de casas históricas, demonstrações de ofícios e componente zoológica tornam-no num espaço em constante movimento.

O modelo de Skansen acabou por influenciar muitos outros museus etnográficos pelo mundo fora. A ideia de desmontar casas, igrejas ou oficinas de várias partes de um país e reconstruí-las num mesmo local mostrou-se eficaz para contar uma história colectiva. Hoje, visitar o Skansen é perceber como um projecto museológico pode ser igualmente uma declaração de identidade: aquilo que se decide preservar é aquilo que se considera essencial para compreender um povo.

 

A alma rural de um país

Sibiu, Roménia

O Muzeul Astra, leva a uma escala impressionante o conceito de contar a vida de um país a céu aberto. Situado numa vasta área arborizada (96 hectares na floresta protegida de Dumbrava Sibiului), reúne centenas de casas, igrejas, moinhos e oficinas que representam diferentes regiões e tradições da Roménia. Mais do que um conjunto de edifícios, é uma espécie de pequena Roménia condensada num único espaço, onde podemos atravessar séculos de história caminhando entre vegetação, água e trilhos de terra.

O Astra demonstra, de forma exemplar, a diferença entre ver um objecto isolado numa vitrina e ver esse mesmo objecto no seu contexto natural. Uma enxada exposta num museu tradicional é apenas uma ferramenta. Colocada ao lado de um celeiro ou usada numa demonstração prática, passa a ser testemunho vivo de uma forma de subsistência. Essa diferença ajuda a entender porque é que estes museus têm tanto impacto: transformam peças inertes em histórias completas. No Astra, esse princípio está bem patente.

A Roménia é um mosaico de regiões com influências diversas – latinas, saxónicas, otomanas, húngaras – e o Astra reflecte esta diversidade cultural, sobretudo em termos de arquitectura e utilidades. O espólio do museu conta com mais de 400 estruturas edificadas e mais de 200 mil objectos variados, todos preservados com cuidado. Visitar o Astra é também perceber como a identidade romena se construiu a partir da coexistência de tradições distintas. Esta pluralidade é, ainda hoje, a verdadeira riqueza de um país que mais parece uma manta de retalhos.

O espaço natural em que o Astra está inserido contribui para um efeito de imersão. As casas não estão dispostas como numa exposição em linha, mas sim espalhadas no meio das árvores, à beira de lagos, ou em clareiras. Esta organização faz com que a visita se pareça mais com uma caminhada por aldeias reais do que com uma visita museológica. A natureza funciona como cenário e, ao mesmo tempo, como parte integrante da experiência.

Entre os edifícios mais marcantes está uma igreja de madeira, que data de 1672 e é o monumento mais antigo da colecção do museu. Depois, há os moinhos – uma colecção única que inclui 33 moinhos de todos os tipos energéticos conhecidos na área euro-asiática (com excepção dos moinhos de maré), e que espelham a importância da moagem nas economias locais. E há casas de todos os tipos, algumas muito antigas ou únicas, como por exemplo a maior casa de carvalho do sudeste da Europa, construída há três séculos.

O Astra não se limita a exibir edifícios estáticos. Muitos dos espaços estão equipados com objectos do quotidiano: cozinhas com potes de barro, camas cobertas por colchas bordadas, utensílios agrícolas de uso corrente. Há até demonstrações de ofícios: oleiros, ferreiros, carpinteiros ou tecelões mostram como as mãos davam forma a quase tudo o que era necessário para viver.

Faz também parte da missão do Muzeul Astra contribuir para o desenvolvimento e promoção das comunidades rurais, tendo já divulgado ao público visitante várias minorias étnicas nacionais e mais de 200 comunidades rurais. Os eventos que organiza incluem festivais tradicionais e celebrações diversas envolvendo música, dança, gastronomia e artesanato, com a presença de artesãos oriundos de cada comunidade representada.

Não sendo uma das atracções mais divulgadas a nível turístico (pelo menos para fora do país), posso dizer com sinceridade que, em Sibiu, foi o local que mais gostei de visitar. Foi um mergulho, durante as várias horas que demorei a percorrê-lo, numa forma de pensar e organizar o mundo que já desapareceu em grande medida, mas que continua a ser fundamental para compreender a história e o carácter de um país. Não é um espaço de nostalgia, mas sim de reconhecimento. Com a minha viagem pela Roménia ainda no início, deu-me uma base importante para compreender e destrinçar tudo o que vi do país daí para a frente.

 

Casas de turfa e a vida nos confins do Atlântico

Skagafjörður, Islândia

À beira de um fiorde no norte da Islândia, Glaumbær é um daqueles lugares que nos obriga a repensar a relação entre ser humano e ambiente: um conjunto de casas de turfa que testemunham como comunidades inteiras conseguiram sobreviver em condições climáticas extremas, usando engenho e recursos locais. Nestas construções, a terra não é apenas chão, mas também parede e tecto.

Esta quinta histórica preservada (que inclui também alguns edifícios de madeira, antigos e bem recuperados, com exposições etnográficas várias) oferece-nos um vislumbre de como seria a vida na Islândia rural dos séculos XVIII e XIX. À primeira vista, as casas parecem pequenos montículos cobertos de relva, confundindo-se com a paisagem. Só mais perto é que percebemos que existem fachadas de madeira, com entradas para interiores bem organizados. A turfa, retirada dos campos vizinhos, era usada em blocos compactados que, empilhados em configuração de espinha, formavam paredes espessas capazes de isolar contra o frio e o vento. No tecto, uma camada adicional de terra e vegetação ajudava a reforçar a estrutura. Não era arquitectura de ostentação, mas de sobrevivência, nascida da necessidade e da adaptação.

Por dentro, as divisões são estreitas e pouco iluminadas, mas revelam uma organização funcional surpreendente. Há cozinhas com fogões a carvão, quartos partilhados por várias pessoas, despensas com prateleiras para conservar alimentos e áreas de trabalho onde se fiava lã ou se preparavam utensílios. O mobiliário, em madeira simples, mostra como cada peça tinha de ser prática e duradoura. O museu conserva muitos desses elementos originais, permitindo-nos imaginar o quotidiano das famílias que aqui viveram até ao século XX.

O que mais me chamou a atenção foi a forma como estas casas exprimem uma lógica comunitária, que ainda hoje sobrevive em muitas partes da Islândia. Glaumbær não era apenas uma residência isolada, mas um conjunto de edifícios interligados, uma espécie de aldeia minúscula sob uma mesma cobertura de turfa. Essa proximidade física traduzia também a importância da cooperação: num ambiente hostil, a sobrevivência dependia de esforços partilhados, desde a produção de alimentos até à manutenção das construções.

Há também um lado simbólico nesta arquitectura. As casas de turfa significavam não só abrigo físico, mas igualmente uma extensão da própria terra. A fronteira entre o natural e o humano era ténue: vivia-se dentro daquilo que o solo oferecia. Esta ligação à natureza é uma constante na cultura islandesa, visível tanto nas sagas medievais, que celebram a dureza da vida nos confins do Atlântico, como na literatura mais contemporânea, que continua a retratar a Islândia como um território onde a paisagem molda o carácter das pessoas.

Visitar Glaumbær fez-me, de certo modo, perceber como a chamada “modernidade” mudou (e vai continuar a mudar) tão radicalmente os nossos conceitos de conforto. Hoje em dia, habituados a casas luminosas e bem equipadas, causa-nos estranheza atravessar um corredor estreito ou entrar numa divisão sombria. Mas não há como ignorar a engenhosidade que permitia, em tempos menos tecnológicos, transformar recursos escassos em abrigo eficaz. A turfa pode parecer frágil, mas revelou-se mais resistente e duradoura do que muitos materiais modernos.

Glaumbær não é só um museu sobre casas antigas, mas sim uma lição sobre resiliência e adaptação. Mostra como a arquitectura pode ser profundamente enraizada no ambiente e como, mesmo em condições adversas, as comunidades encontraram formas criativas de viver e prosperar. É um lugar que nos lembra que a cultura não se exprime apenas em palácios ou monumentos grandiosos, mas muitas vezes em soluções simples, engenhosas e silenciosas que garantiram a continuidade da vida em regiões isoladas.

 

A paisagem que se tornou museu

Zaandijk, Países Baixos

Nas margens do rio Zaan, às portas de Amesterdão, Zaanse Schans é uma pequena localidade transformada em museu activo, onde moinhos, armazéns e casas de madeira recriam a atmosfera holandesa dos séculos XVIII e XIX. Aqui, não se trata apenas de conservar edifícios históricos, mas de mostrar como funcionava (e em certa medida ainda funciona, pese embora mais assente no turismo) uma comunidade próspera, sustentada pela engenhosidade técnica e pelo comércio. Se conseguirmos ignorar as centenas de turistas que visitam a aldeia, não é difícil “encaixar” neste cenário a beleza do quotidiano e as personagens retratadas por Vermeer nos seus quadros.

O que distingue Zaanse Schans é a sua ligação ao vento e à água. Os moinhos eram usados para tudo, desde a moagem tradicional destinada à alimentação até à produção de óleo ou de pigmentos, passando pela serração de madeiras. Cada moinho tinha uma função precisa. Juntos, formavam uma rede que, em plena era pré-industrial, colocava a região de Zaan na vanguarda da inovação: nesta que foi a área industrial mais antiga da Europa Ocidental, chegaram a existir, nos séculos XVIII e XIX, cerca de seiscentos moinhos de vento em funcionamento simultâneo. Alguns dos que vemos hoje em Zaanse Schans ainda são usados. Entrar num deles é ter uma aula in loco sobre a transformação de uma energia natural em força produtiva: as engrenagens de madeira rangem, as pás rodopiam, e sente-se no ar o cheiro a madeira serrada ou a sementes esmagadas.

O projecto de Zaanse Schans sensivelmente como o vemos hoje foi concebido em 1946 pelo arquitecto Jaap Schipper. Os edifícios que congrega foram resgatados em locais diversos e transportados, por estrada e por via navegável, para a área onde actualmente se encontram. Alguns já não correspondem exactamente à estrutura original. É o caso do De Kat, o único moinho de vento do mundo ainda em funcionamento que mói pigmentos minerais para a produção artesanal de tintas de acordo com a composição criada por Rembrandt, tal como se fazia há séculos. Desmantelado em 1904 até à altura da cremalheira, em 1960 foi reconstruído com a colocação do corpo de um outro moinho na subestrutura. Quanto ao Het Jonge Schaap, também ainda activo, é uma réplica fiel de um moinho de serração original de 1680, em tempos situado atrás da estação ferroviária de Zaandam e demolido em 1942. Antes da demolição foi cuidadosamente estudado e medido, o que permitiu a sua reconstrução posterior por artesãos locais. Funciona desde 2007 em Zaanse Schans, operado por uma equipa dedicada de moleiros.

Para além dos moinhos, o complexo inclui oficinas e armazéns onde se fabricavam produtos que ainda hoje associamos à identidade neerlandesa. Há queijarias que mostram o processo artesanal de produção, sapatarias dedicadas aos famosos tamancos de madeira e pequenas lojas que exibem artesanato local. Esta componente prática liga a vocação museológica à comercial, onde tradição e consumo se misturam sem conflitos.

O ambiente urbano recriado em Zaanse Schans também tem o seu encanto. As casas pintadas em tons de verde e branco, com telhados inclinados e janelas de guilhotina, evocam a estética típica da região. Várias delas foram transferidas de outras localidades para aqui, de modo a preservar o conjunto arquitectónico, e são habitadas, o que reforça a sensação de que não estamos apenas perante uma reconstrução museológica, mas num lugar que continua a ter vida própria. A etnografia pode não se resumir apenas ao registo de costumes desaparecidos.

Interessante em Zaanse Schans é também a forma como o património cultural e o natural se articulam. O rio, os canais e os prados em redor criam um enquadramento que explica porque é que esta região se tornou um pólo de actividade económica. Não é apenas uma sucessão de edifícios bem conservados, mas uma paisagem cultural em que cada elemento – água, vento, madeira, barro – desempenhou um papel na construção de um modo de vida. É o equilíbrio entre o passado preservado e o presente activo que faz de Zaanse Schans um lugar tão singular dentro do panorama dos museus ao ar livre.

 

Memórias a céu aberto

Estes quatro espaços são diferentes nas geografias, nos climas e nas tradições, mas partilham uma mesma virtude: transformam a história em algo palpável. Cada um deles tem a sua marca própria: Skansen alia a preservação cultural a uma vertente zoológica que aproxima gerações; Astra mostra a diversidade e a riqueza da vida rural romena; Glaumbær ensina-nos como a adaptação à natureza foi, em si mesma, uma forma de cultura; e Zaanse Schans revela a engenhosidade que transformou o vento e a água em motores de prosperidade. No fundo, todos estes lugares nos relembram que a cultura não é feita apenas de grandes monumentos ou obras-primas consagradas, mas também de soluções práticas, de rotinas e de modos de vida que sustentaram comunidades inteiras.

 

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(Este artigo foi publicado pela primeira vez no blogue Delito de Opinião)

 

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Qua | 03.09.25

No Rio também há dias sem sol

 

Quatro da tarde, e parecia hora de ponta na entrada do Parque Bondinho, ao pé da Praia Vermelha. É verdade que era domingo, e para os brasileiros o bilhete é mais barato do que para os estrangeiros (que eram nitidamente poucos). Só que… o sol ia desaparecer por volta das cinco e meia, e na minha cabeça rodava uma interrogação: o que é que tanta gente vai fazer ao Pão de Açúcar a esta hora? Resposta óbvia: o mesmo que tu – ou seja, ver o pôr-do-sol num dos lugares mais icónicos do Brasil e do mundo. Mas seria “só” isso?

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Não, não era.

Para mim, o Pão de Açúcar foi sempre o conjunto dos dois monólitos, um mais alto do que o outro, eternizados nas milhentas imagens do Rio difundidas por todo o lado. Só que não é. O Pão de Açúcar é o mais alto dos dois. O mais baixo é o Morro da Urca. E se para chegar ao cimo deste morro existe um trilho pedestre – muito íngreme, é certo, mas devidamente marcado e mantido – para subir ao Pão de Açúcar só em modo escalada na rocha. Portanto, a solução é mesmo usar os dois teleféricos que ligam a cidade aos miradouros instalados no topo dos morros.

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Turismo e rentabilidade oblige, o conceito de miradouro neste caso está bastante expandido. Três minutos de ascensão no teleférico deixaram-nos 220 metros acima do nível do mar, num espaço alargado ao ar livre em que o ambiente era de festa. A animação maior era ditada por um DJ aos comandos do equipamento que debitava música de dança, rodeado de um mar balançante de gente, bebida na mão ou telemóvel no ar para gravar o momento. O Morro da Urca é lugar de entretenimento. Há restaurantes, barzinhos de espécies várias e lojas de marca. Há o Museu do Teleférico e uma Árvore dos Desejos, espelhos deformadores no Beco das Ilusões, e malabaristas que distraem os visitantes durante os longos minutos de espera nas filas para subir ou descer nos bondinhos. Há até um heliporto, de onde saem helicópteros que levam quem pode em voo panorâmico sobre o Rio de Janeiro.

E há – claro! – vistas sem fim sobre a beleza, feita de mar e serra, da Baía de Guanabara e o seu entorno. Por trás da praia de Botafogo, com a água pintada de um laranja pálido, já descia um sol envergonhado, a sua luz filtrada pelas nuvens acasteladas sobre a Serra da Carioca. No topo do Corcovado, que mais parece um irmão gémeo do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor era só uma cruz escura contra o céu cinza claro. A superfície glauca e imóvel da baía estava mosqueada com dezenas de embarcações, quase todas tão imóveis como a água por baixo delas. Ali do alto, os inúmeros arranha-céus que ocupam a maior parte do Rio perdem importância, e a cidade justifica que a adjectivem de maravilhosa.

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Outro trajecto de bondinho, tão curto quanto o primeiro, e chegámos ao Pão de Açúcar. A atmosfera aqui estava mais calma, condizente com o lusco-fusco que se instalava em modo acelerado. O espaço disponível é bem mais reduzido que o do Morro da Urca, mas aquele que a vista alcança, a quase 400 metros de altitude, é muito superior: abrange de Niterói a Copacabana, oferecendo-nos uma paisagem em que a água se impõe a tudo o resto.

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A oferta de restauração e lojas no Pão de Açúcar é menor do que na paragem anterior, e isso também ajuda à tranquilidade do lugar. Em compensação, há um percurso entre o arvoredo, a que chamam Bosque das Artes, aproveitado agora para expor alguns trabalhos do artista plástico Carlos Vergara, um dos mais representativos do movimento da Nova Figuração no Brasil (inspirado na pop art americana dos anos 60). O projecto inclui três esculturas do artista, colocadas em pontos estratégicos, e é complementado com uma sugestão de jornada digital interactiva, em que vamos encontrando informações sobre a Mata Atlântica e a sua biodiversidade.

A escuridão chegou quase de repente, como é habitual nestas latitudes. As descidas foram intercaladas por tempos alargados de espera – a maior parte dos visitantes não fica por ali até ao encerramento do parque, que tem horário variável – pois cada bondinho só transporta um máximo de 65 pessoas por viagem. A demora teve, ainda assim, um lado positivo: a possibilidade de ver o Rio sob outra luz, e ficar a saber que nem a noite lhe diminui a sedução.

 

Lugares com história

O condutor do Uber como que materializou os meus pensamentos em palavras: “Sem sol, nem parece o Rio”. Pelos vistos, estávamos em sintonia. A cidade que eu imaginava e aquela onde ele vive são um Rio onde o sol brilha a maior parte do tempo – só que não desta vez. A excepção certamente confirmará a regra, mas o clima está a mudar. E a verdade é que nos dias em que estive no Rio de Janeiro, o sol nunca se mostrou completamente, substituído por nuvens grossas que de vez em quando decidiam aliviar a sua carga em forma de chuva.

Não seria isso que iria estragar a nossa estadia. Trocam-se as sandálias por ténis, veste-se uma gabardina (fininha, que a temperatura não baixa assim tanto), e vamos lá à descoberta da cidade. O Rio conhece-se ao ar livre. Quando a chuva aparece, aproveita-se para entrar numa loja, num café ou numa igreja. Quando ela vai embora, voltamos à rua e seguimos caminho. Há muito para ver, e não é uma chuvinha que vai arruinar-nos os planos.

O Rio dos nossos dias é uma cidade imensa, espalhada por bairros de carácter muito distinto. Numa primeira visita, por onde começar? Para nós, depois de a vermos do alto, fez sentido começar a descobri-la por alguns dos lugares ligados à sua história. Porque a verdade é que nós, portugueses, só conhecemos a história do Brasil que nos é contada nos bancos da escola, e que quase se resume a dois momentos: a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, e a independência proclamada por D. Pedro em 1822.

O Rio é de Janeiro porque foi esse o mês em que no ano de 1502, uma frota portuguesa enviada por D. Manuel I e comandada por Gaspar de Lemos entrou na imensa enseada hoje conhecida como Baía de Guanabara. Na altura, a região era habitada por povos indígenas provenientes da Amazónia, conhecidos como tamoios ou tupinambás. Durante algumas décadas, a baía tornou-se palco de encontros e tensões. Franceses e portugueses disputaram o comércio do pau-brasil e a amizade dos autóctones, que conheciam a fundo aquelas águas e manguezais. Em 1555, os franceses, sob o comando de Villegaignon, tentaram fixar-se, erguendo a chamada França Antártica. A resposta portuguesa não tardou: após anos de confrontos, em 1565, Estácio de Sá fundava oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, ao pé do Morro Cara de Cão, selando o domínio luso sobre uma das paisagens mais cobiçadas do Atlântico.

Em 1567, a jovem cidade foi transferida para o Morro do Castelo, onde se ergueram igrejas, colégios e fortalezas, tornando-se o verdadeiro berço urbano do Rio de Janeiro até ao século XVIII. Hoje o morro já não existe (foi demolido nas reformas urbanísticas do início do século XX), mas a sua memória corresponde grosso modo ao actual centro da cidade, onde se encontram alguns dos lugares importantes para compreender a evolução do Rio de Janeiro.

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Por estarmos num alojamento ali bem perto, começámos pelo bairro da Saúde, um dos cinco bairros que abrigam o porto da cidade. Num dos seus extremos, bem de frente para a Baía de Guanabara, a Praça Mauá foi desde sempre um palco privilegiado da história carioca. No século XIX, era a porta de entrada do porto, espaço de comércio intenso, marcado pelo vaivém de mercadorias e pelo peso silencioso do tráfico atlântico de escravizados, que ali deixou cicatrizes. Durante muito tempo, porém, a praça foi esquecida, sufocada pelo tráfego pesado e pela sombra de armazéns que a separavam do mar.

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Com o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009, o espaço renasceu. As avenidas foram abertas à luz, os armazéns deram lugar a esplanadas amplas e o mar voltou a estar em contacto com a cidade. Hoje, a Praça Mauá é o coração de um novo eixo cultural: de um lado o Museu de Arte do Rio (MAR), instalado em dois edifícios díspares (o palacete Dom João VI e um antigo terminal rodoviário modernizado) e que guarda e narra a pluralidade da vida urbana; do outro, sobre um cais antigo, o audacioso Museu do Amanhã, cuja arquitectura futurista se projecta como uma nave sobre as águas – e basta um olhar para se intuir que o edifício foi concebido por Santiago Calatrava, pese embora o arquitecto não se tenha socorrido, para esta obra, das suas habituais linhas arredondadas.

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Ao percorrer esta área, não há como ignorar uma das páginas mais duras da História: a do tráfico atlântico de escravizados, que fez do Rio um dos maiores portos negreiros do mundo. Em quase 400 anos de esclavagismo, a cidade recebeu cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas – a maior transferência forçada de população na história da humanidade. Esta herança pode ser sentida em lugares de memória hoje recuperados, como é o caso do Cais do Valongo. Situado na zona portuária da cidade, não muito longe da Praça Mauá, é um dos lugares mais marcantes da história da escravatura no mundo atlântico. Construído em 1811, o Cais do Valongo foi pensado para afastar do centro urbano o desembarque dos africanos escravizados, que até então ocorria em áreas mais visíveis da cidade. Durante décadas, tornou-se a principal porta de entrada de homens, mulheres e crianças trazidos à força de África: calcula-se que mais de um milhão, vindos na sua maioria do Congo e de Angola, tenham pisado aquelas pedras.

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Redescoberto em 2011, aquando das obras de revitalização da zona portuária (o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009), a Prefeitura do Rio acolheu a proposta do Movimento em Defesa do Direito do Negro e devolveu ao Cais do Valongo o lugar que lhe pertence na memória colectiva: um espaço preservado, onde as lajes de pedra e estruturas expostas permitem hoje um contacto directo com um passado que é difícil, mas incontornável. Desde então, o cais integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, um percurso que convida a visitar as marcas deixadas pela diáspora africana na região portuária, e que inclui o Jardim Suspenso do Valongo, a Largo do Depósito, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio e o Cemitério dos Pretos Novos. Em 2017 foi classificado como Património Mundial da UNESCO.

Ao lado, na Praça Jornal do Comércio, está exposto desde 2013 o projecto artístico “Valongo, Cais de Ancestralidades”, que nos conta a história do cais e a sua relação com a área do Rio conhecida como Pequena África. Com curadoria de Ynaê Lopes dos Santos, e além de vários painéis informativos, inclui um conjunto escultórico que homenageia os escravizados, concebido pelo cenógrafo carioca Cachalote Mattos. O memorial apresenta figuras humanas em bronze que evocam a travessia atlântica e o sofrimento da escravatura, mas também a resistência e a herança cultural africana que moldou o Brasil. Um lugar que pretende ser simultaneamente de reflexão e de memória colectiva.

Seguindo pela Rua Sacadura Cabral (e que estranho é encontrar, no coração da Pequena África, uma rua com o nome de um aviador português, mesmo que a sua história esteja vagamente ligada ao Brasil…), chegámos ao Largo de São Francisco da Prainha. O nome vem da igreja erguida ali quase ao lado, escondida pelas casas coloridas de arquitectura tipicamente colonial que compõem uma face arredondada do espaço – edifícios estreitos de dois ou três pisos, com varandas de ferro forjado, portas com vidros e lojinhas no rés-do-chão, algumas das quais agora convertidas em bares ou restaurantes com esplanada. Ao centro, a estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal e pioneira em fundir a dança clássica com a herança afro-brasileira, ergue-se como símbolo de superação e afirmação num território marcado pela diáspora africana.

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A sensação de cor e alegria é incrementada pelas filas de bandeirinhas bicudas penduradas sobre as nossas cabeças, de um lado ao outro do largo; e também pelo imenso mural, pintado na lateral de um edifício vizinho, que celebra Conceição Evaristo, uma das escritoras mais importantes e profícuas do movimento pós-modernista no Brasil. Nascida em Belo Horizonte, foi no Rio que começou a sua carreira como professora e mais tarde como escritora. É precisamente no interior do Bairro da Saúde, no Morro da Conceição (o nome é mera coincidência), que viveu e mantém a sua casa e escritório quando está no Rio. Foi do quotidiano que partilhou ao longo dos anos com outras famílias negras migrantes, marcado tanto pela precariedade quanto pela força colectiva, que brotou a sua escrita singular. Conceição criou o conceito de “escrevivência”, em que a literatura nasce da vida real e da memória colectiva das mulheres negras, transformando dor e resistência em palavra literária. Uma inspiração para novas gerações de vozes periféricas e resistentes.

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Ali bem perto, numa confluência de ruelas e escadinhas mais para dentro do bairro, encontra-se a Pedra do Sal: uma espécie de paredão rochoso com degraus talhados na rocha, onde em tempos coloniais se descarregava o sal trazido pelas embarcações. Mas a história que lhe dá alma vai muito além do comércio, pois foi aqui que os africanos escravizados e seus descendentes encontraram espaço para celebrar, resistir e reinventar tradições. A Pedra do Sal tornou-se ponto de encontro da comunidade negra, lugar de rodas de samba, de batuques e de devoção, onde a fé e a música se entrelaçaram. Hoje continua a ser um espaço vivo, embora de uma maneira bem diferente da sua vocação original.

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Cinzento tropical

Ver as areias de Ipanema praticamente desertas não será certamente muito habitual. Havia mais pombos do que pessoas, que esses não pareciam incomodados pelas nuvens cinzentas e baixas, tão baixas que às vezes escondiam os picos do Penhasco Dois Irmãos e os maciços do Parque Nacional da Tijuca. Sem sol, o Rio até parece uma cidade sossegada, e só a passagem constante dos carros nos lembra de que estamos numa cidade com perto de sete milhões de habitantes.

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Irrequieto, o mar subia pelo areal acima quase até ao paredão (calcetado à portuguesa) que acompanha a praia, ansioso por ocupar todo o espaço disponível – a maré tempestuosa, mesmo que sem vagas altas, mostrava a sua força. Ainda assim, não conseguia eclipsar o adorável verde-azul da água, decerto menos brilhante do que se houvesse sol, mas não menos bonito. Na areia clara, a espuma deixava rastos cinzentos, espelhos do céu. Plantado na extremidade leste da praia, de viola ao ombro, encontrámos um Jobim de bronze, camisa e calças brancas manchadas pela maresia. Magro e jovem, parece que vai passear pelo calçadão, talvez em busca da garota que ele e Vinicius celebrizaram.

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Quanto a nós, voltámos costas a Jobim (nada pessoal contra ele, de cuja música sou grande admiradora) e dirigimo-nos para a Pedra do Arpoador – que é, como o nome indica, uma península de rocha maciça, parcialmente coberta de vegetação. Na vizinhança há mais tributos a figuras famosas no Brasil: ao desenhista Millôr Fernandes, notável pelas suas tiras de humor gráfico publicadas em jornais e revistas brasileiras de renome; e ao cineasta e fotógrafo brasiliense Breno Silveira, realizador de filmes aclamados pelo público e precocemente falecido em 2022. O Rio de Janeiro é pródigo em homenagear nomes grandes da cultura brasileira.

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Avançada sobre o mar e de fácil acesso por escadarias e caminhos entre arbustos e cactos, a Pedra do Arpoador é um miradouro natural muito frequentado por locais e turistas – mesmo em dias não tão amenos. De um lado, estendem-se as praias do Arpoador, de Ipanema e do Leblon; do outro, esconde-se a praia do Diabo, que a ondulação forte torna num spot apreciado pelos surfistas. Consta que é local de eleição para ver o pôr-do-sol. Mas eram horas de almoço, e o céu estavam tão carregado que nem dava para adivinhar onde ele estaria.

Por trás de Ipanema, a Lagoa Rodrigo de Freitas é um espelho de água cercado por ciclovias, jardins e quiosques. Com cerca de 7,5 km de perímetro, é ideal para caminhadas e passeios de bicicleta, e ao seu redor há um sem-número de áreas culturais e de lazer, incluindo o Jardim Botânico da cidade.

O nosso destino, porém, foi outro. No lado norte da lagoa fica o Parque Lage, um engenho de açúcar do período colonial que é actualmente um parque público. Fica aos pés do Corcovado, que se impõe 700 metros mais acima, o Cristo Redentor tornado minúsculo pela altura. Como panorama de fundo, não se pode pedir mais. Reestruturada em meados do século XIX ao estilo dos parques ingleses, a antiga fazenda foi depois adquirida pela família Lage. Já no século XX, o industrial Henrique Lage mandou erguer o palacete em estilo ecléctico que hoje é o coração do parque, rodeado por jardins planeados com lagos, grutas artificiais, caminhos sombreados e espécies vegetais exóticas. A casa foi criada como refúgio para a mulher do industrial, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, que ali organizou grandes festas para a alta sociedade carioca. No interior tem um pátio aberto, com colunas e arcadas, enquadrando uma piscina no centro – um cenário de excepção que abriga, desde 1975, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Rio de Janeiro. Ao redor do palácio, os jardins são um convite a passear devagar, entre alamedas de palmeiras imperiais, grandes árvores com raízes que emergem do solo, laguinhos e fontes antigas, pequenas pontes, e até mesmo uma pequena torre em forma de castelo. Um lugar onde a herança do romantismo, a força da natureza tropical e a energia contemporânea da arte convivem sem preconceitos.

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Um Rio de contrastes

Sob a capa da modernidade que ostenta quando visto de cima – seja da janela do avião ou de um dos inúmeros miradouros que nos oferece – o Rio revela-se, nas suas ruas, um mosaico de tempos, culturas e estilos. É Brasil, mas é também internacional, pois cada um dos milhões de visitantes estrangeiros que o visitam deixa um pouco de si, e leva consigo um pouco da cidade.

A Escadaria Selarón, é talvez o exemplo mais vibrante desta fusão, uma explosão de cores que brota entre dois bairros históricos, Lapa e Santa Teresa. Nas ruas de acesso já se sente a vibração do lugar, um dos poucos onde encontrámos mais movimentação turística, com a presença das consequentes bancas de venda de souvenirs e artigos artesanais vários. As paredes vizinhas estão cobertas com murais e pinturas que prolongam o espírito criativo do lugar, num work in progress constante. A escadaria é um manifesto de cor e identidade nascido da inspiração de Jorge Selarón, artista chileno radicado no Rio, que começou em 1990 a decorar os degraus com azulejos recolhidos das ruas e, mais tarde, doados por visitantes do mundo inteiro. Hoje, mais de dois mil mosaicos, vindos de mais de 60 países, formam uma narrativa única, que mistura bandeiras, símbolos, frases, retratos e cores intensas. Para lá de uma escadaria, é uma carta de amor ao Rio e ao mundo, uma obra viva que Selarón continuou a transformar até à sua morte em 2013.

Do alto da escadaria, a Ladeira de Santa Teresa desce até aos Arcos da Lapa que, com as suas 42 arcadas brancas, parecem emergir como uma ponte suspensa entre o passado colonial e o presente boémio do Rio. Construído no século XVIII para levar água do rio Carioca até ao centro da cidade, o aqueduto foi adaptado no início do século XX para servir de viaduto aos bondes que seguem até Santa Teresa, tornando-se símbolo incontornável da paisagem.

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Uma chuva miudinha, mas insistente, obrigou-nos a procurar um lugar mais abrigado. A poucos passos dali, com a sua estranha forma cónica a disfarçar a função que exerce, a Catedral Metropolitana pareceu-nos o sítio indicado para esperar pelo fim do aguaceiro. Não fosse esse acaso, o exterior austero, quase brutalista, do edifício não me despertaria o interesse: visto dos Arcos, confunde-se e é quase abafado pelos arranha-céus que se erguem do outro lado da avenida. Construída nos anos 60-70 do século passado segundo concepção do arquitecto Edgar de Oliveira da Fonseca, rompeu com a tradição barroca e neogótica das igrejas antigas. Há quem diga que esta Catedral teve como inspiração as pirâmides maias; outros defendem que evoca as cápsulas do Projecto Apollo. Tem ainda um outro nome, talvez mais oficial: Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, por ser dedicada ao padroeiro da cidade. Uma dualidade que condiz com o edifício, cujo interior foi para mim uma total surpresa – o contraste com o exterior não podia ser maior. As paredes inclinadas, com mais de 70 metros de altura, terminam numa cruz quadriculada, com vidros que deixam passar a luz vinda do céu. Tal como a cruz, estão perfuradas com centenas de janelas minúsculas, que mais pareciam meros pontos reluzentes na escuridão imensa daquele espaço. No alinhamento de cada braço da cruz, descendo quase até ao solo, há quatro vitrais monumentais, com imagens pintadas em cores vivas, também eles divididos em inúmeros quadradinhos. Suspenso acima do altar, um moderno e gigantesco crucifixo de madeira parece flutuar no nada. O ambiente inspirava paz, incitando ao silêncio, ao recolhimento e ao assombro, numa experiência quase espiritual – mesmo para alguém não religioso como eu.

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Com a luz do dia a desaparecer, a fome e o cansaço encaminharam-nos para a Confeitaria Colombo, uma jóia da Belle Époque carioca. Fundada em 1894 e situada no coração do centro histórico do Rio, o seu interior é uma ode ao luxo e à elegância. Conserva até hoje enormes espelhos belgas emoldurados em jacarandá, vitrais coloridos, balcões de mármore, madeiras talhadas e lustres de cristal, que nos transportam para uma época em que o café era um ritual e a pastelaria uma arte. O ambiente sofisticado valeu-lhe a fama de “café da moda” entre intelectuais, políticos e artistas do início do século XX. As mesinhas redondas com tampo de mármore e as cadeiras de palhinha evocam os cafés de Paris ou Viena. O salão superior é um varandim largo que liberta o espaço para permitir ver os vitrais iluminados do tecto em forma de cúpula ovalada. É como estar dentro de um cartão-postal que não perdeu o brilho. E quanto à comida, a variedade do menu (que vai muito para lá dos doces) tornou difícil a escolha, mas não saímos de lá defraudados.

Mais tarde, já noite cerrada, voltámos à Pedra do Sal. Local deserto durante o dia, se exceptuarmos um ou outro passante ou curioso, como nós, encontrámo-lo quase irreconhecível. Tal como em todas as segundas-feiras a partir das 7 da noite, a Pedra do Sal vibrava ao som da roda de samba que ali se realiza há já muitos anos, e que reúne moradores, músicos e visitantes, numa celebração que atravessa gerações. Uma multidão compacta ajeitava-se como podia, de pé ou espalhando-se pelos degraus, abanando-se ao som da música ou de copo na mão, ou simplesmente apreciando o ambiente e o vaivém de pessoas. De espaço de dor e trabalho a lugar da moda – é destas assincronias que o Rio também é feito.

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Foi a conhecer todos estes lugares que compreendi como a cidade nasceu e vive de contrastes: beleza natural e violência colonial, grandiosidade cultural e cicatrizes históricas, tradição e modernidade. E é justamente nesse diálogo entre passado e presente que a cidade se revela em toda a sua profundidade e se reinventa uma e outra vez.