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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qua | 29.01.25

Um banco com vista: Caneiras

 

Manhã quente de Verão. O rio leva pouca água. Aqui e ali nota-se a sombra clara da areia por baixo do azul líquido, ou revela-se um tronco preso no leito, que a fraca corrente não consegue arrastar; até os mouchões mais rasos estão visíveis e pujantes de erva verde. Sob a copa larga de um salgueiro, o banco de madeira sem encosto é repousa-pés ideal para quem precisa de matar o tempo até à hora de almoço, pese embora o assento escolhido não seja o banco mas sim uma cadeira de campismo. É domingo, e para quem aqui vive pouco mais haverá para fazer do que contemplar a paisagem e aproveitar a sombra para fugir do calor.

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O rio é o Tejo e ao lugar deram-lhe o nome de Caneiras. Fica a uns curtos cinco quilómetros a sul de Santarém e é o aglomerado sobrevivente e ampliado da aldeia avieira ali fundada há mais de um século. O assentamento original terá sido destruído pelas cheias de 1941, e grande parte das construções que vemos hoje também já sofreram a adulteração intrínseca à “modernidade”; mas ainda se notam muitas características das antigas casas avieiras, e continua a ser habitada por alguns pescadores que não desistem do seu modo de vida: sair para o rio em busca da fataça (tainha), do sável ou da quase desaparecida lampreia.

 

Os nómadas do rio Tejo

 

Não há datas certas, mas estima-se que foi a partir de meados do século XIX (e sobretudo na primeira metade do século XX) que famílias de pescadores da zona de Vieira de Leiria começaram a deslocar-se para as áreas ribeirinhas do Tejo entre Abrantes e a Póvoa de Santa Iria, fugindo aos rigores do Inverno que não lhes permitia procurarem o seu sustento no mar. Trocavam os barcos de mar que usavam na arte xávega por embarcações de traça semelhante, mas bastante mais pequenas – as bateiras, a que os avieiros chamam simplesmente “barco” – fazendo delas a sua casa temporária. Era na bateira que pescavam, comiam e dormiam, usando um simples toldo para se abrigarem. O homem lançava as redes e a mulher remava, além de organizar toda a vida da família e ir vender o peixe às localidades vizinhas, transpondo para o ambiente do Tejo os papéis que cada um desempenhava na sua terra de origem. Era também na bateira que os filhos iam sendo criados e aprendiam as lides da pesca de rio, que lhes garantiria a sobrevivência no futuro, num tempo em que a vida era muito diferente. A embarcação é de tal modo característica e assumiu uma (óbvia) importância tão grande para estas comunidades que, em 2016, a sua construção e uso foram inscritos no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, com a indicação da necessidade de salvaguarda urgente.

Inicialmente, estas deslocações eram sazonais, e os pescadores voltavam à Praia da Vieira quando o tempo melhorava. Com o crescimento da família e o cansaço dessas idas e vindas, e porque o Tejo (e também o Sado) lhes proporcionavam peixe o ano inteiro, acabaram por se ir fixando nas margens destes rios – primeiro em simples palhotas feitas de caniço, que crescia à beira de água e era material leve e fácil de encontrar, e depois em casas de madeira, assentes sobre estacas, para evitarem ser inundadas quando o rio transbordava as suas margens. Nasciam as aldeias avieiras (de que já falei no meu blogue).

 

A aldeia das Caneiras

 

A partir dos trabalhos de levantamento feitos até à data, foram identificados cerca de 40 assentamentos de avieiros nas margens do Tejo, a maioria deles já desaparecidos ou completamente em ruínas, como é o caso do Patacão, perto de Alpiarça, que tem dois núcleos ainda visíveis mas já em rápido declínio, apesar das tentativas de preservação que foram feitas até há alguns anos. Entre as aldeias que sobrevivem contam-se o Escaroupim, assumido como ex libris turístico da cultura avieira, Porto da Palha (Lezirão) e Palhota, esta última trazida para a ribalta no romance “Avieiros”, de Alves Redol. O aldeamento das Caneiras, talvez por estar muito perto de Santarém, também tem resistido ao desaparecimento, pese embora a descaracterização e a construção desregulada das últimas décadas.

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A aldeia é um rectângulo com uma espécie de rua principal que desemboca em nenhures, encaixada entre o rio e a estrada de acesso ao mundo exterior. É ao longo desta estrada que se vêem as construções mais modernas, moradias concebidas com mais ou menos gosto, rodeadas de hortas e pequenos pomares. O núcleo mais antigo das Caneiras está bem escondido por trás destas casas vulgares, e até parece que o espírito recatado e quase impenetrável dos antigos pescadores ainda paira por ali – as comunidades avieiras eram muito fechadas, assentes no núcleo familiar e segregadas tanto por vontade própria como por animosidade da população rural, mantendo ao longo dos tempos algum secretismo sobre o seu modo de vida e as suas artes piscatórias.

 

A miscelânea arquitectónica das Caneiras tem tanto de surpreendente como de fascinante. As antigas palhotas palafíticas têm vindo a ser transformadas cada uma à sua maneira. Nas que ainda permanecem elevadas em relação ao solo, as estacas de madeira foram substituídas por pilares de alvenaria. As tradicionais varandas de acesso ao piso superior já quase desapareceram, e poucas construções as mantêm – a maioria das pessoas prefere espaço interior em detrimento do espaço de socialização, uma das funções principais das varandas das casas avieiras. A madeira ainda está bastante presente, em versões de cor escura e variados estados de conservação; são, para mim, as construções mais bonitas da aldeia, algumas realçadas com pormenores em branco ou cores vivas. É nelas que se notam os pontos de contacto com as casas típicas da região de origem dos avieiros, sobretudo as da Praia da Tocha e, mais tenuemente, as da Costa Nova.

Não faltam também os atentados arquitectónicos ao carácter original da aldeia, em que a alvenaria substituiu os materiais anteriormente utilizados, a ponto de agora não passarem de vulgares paralelepípedos com telhado, quase sempre pintados de branco e com as faixas azuis ou amarelas que voltaram a ser, em tempos recentes, populares na construção que se quer fazer parecer tradicional, mesmo quando completamente deslocadas do contexto. Deste mal enferma igualmente a Capela dedicada ao Sagrado Coração de Maria, um edifício desenxabido cuja única desculpa talvez seja o facto de datar de 2006 (embora tenha ares de reconversão de algum edifício anterior).

Num arroubo de imaginação e quiçá influência forasteira, alguém resolveu forrar o exterior de uma das casas com chapa ondulada e juntar-lhe um pormenor americanizado. Não é que seja feio – é só descabido. Prefiro a tinta a descascar e o telhado arqueado de uma outra casa, com a sua chaminé periclitante (as chaminés também são um acrescento moderno nas casas avieiras).

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Na rua principal há também um banco, mas este não tem nada a ver com o da beira-rio. É tosco e torto, tal como o casinhoto que está ao lado, uma espécie de telheiro abrigado para acumular tralhas diversas. Tento imaginar o que terá levado alguém a colocá-lo ali. Talvez para apanhar sol nos dias frios de Inverno? Para conversar com quem passa? Alguém que não tinha nada para fazer e decidiu construí-lo? As questões ficam sem resposta, porque por aqueles lados não se vê vivalma.

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Ao entrar numa espécie de beco, surge a casa que de imediato elejo como o supra-sumo do kitsch da aldeia. Uma manta de retalhos com metade em madeira escura e a outra em chapa ondulada, o rés-do-chão pintado de azul Chefchaouen, aparelho de climatização e antena parabólica bem visíveis, à mistura com cabos vários, uns trepando pelas paredes, outros cruzando o ar. Ao pé da porta, mais um banco de jardim, este bem harmonioso, em madeira e ferro forjado, tendo por companhia duas cadeiras plásticas rosa-bombom saídas directamente do mundo da Barbie. Com os seus anacronismos, parece-me ilustrar bem o espírito geral desta aldeia que tem crescido ao sabor do acaso, um pé na tradição e preservação cultural e outro na vontade de se modernizar.

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De volta ao carro, passo outra vez pela área junto ao rio, que se nota ter sido alvo de arranjo há não muitos anos: deck amplo em madeira, delimitado por postes baixos ligados com corda grossa, intercalados com painéis que exibem fotos da actividade piscatória dos avieiros. Árvores frondosas, bem cuidadas, e uma zona de merendas ao fundo, ao lado do parque de estacionamento. O banco foi abandonado, mas a cadeira de campismo colorida ainda lá está, sossegada, à espera do seu ocupante habitual. Tal como a aldeia, suspensa no limbo de decisões por tomar e herdeira de um passado que em breve será considerado obsoleto, decerto para dar lugar a mais um destino “típico” a explorar turisticamente.

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Fonte usada para pesquisa: http://www.e-atlasavieiro.org/

 

Sugestões de leitura:

Livros avieiros.jpg

 

(Este artigo foi publicado pela primeira vez no blogue Delito de Opinião)

 

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Sex | 10.01.25

Cotswolds, a Inglaterra genuína - parte 2

De Moreton-in-Marsh a Bourton-on-the-Water

 

De cada viagem que faço extraio algumas lições, e estas foram as primeiras que aprendi nas Cotswolds: as estradas inglesas não são para pedestres; o countryside da Inglaterra genuína tem muito mais carros do que é possível imaginar; e não acredites que todos os caminhos sugeridos pelo Google Maps são os mais indicados para percorrer a pé. Fica o aviso para quem ingenuamente (tal como eu!) julgar que as estradas do Reino Unido são como as nossas, com bermas ou passeios por onde um peão pode andar livremente. Não são!

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Caminhar, caminhar…

Manhã radiosa de sol, pequeno-almoço tomado no Grouch Coffee – café com preocupações ambientais e bowl saudável para umas, meia de leite e fatia deliciosa de bolo para a gulosa de serviço (ou seja, eu) – saímos de Moreton-in-Marsh para o que pensámos ser uma caminhada fácil de poucos quilómetros até Stow-on-the-Wold. A animação começou a esmorecer quando percebemos, pouco depois da saída da vila, que as bermas da estrada estavam cobertas de vegetação que nos dava até aos joelhos, e murchou definitivamente quando as ditas cujas passaram a ser inexistentes e tínhamos de nos enfiar entre mato e árvores de cada vez que passava um carro ou camião – na prática, a cada 20 segundos ou menos. Quatro quilómetros depois de termos saído de Moreton-in-Marsh, chegámos à conclusão de que a nossa integridade física valia bem o esforço de uma caminhada mais longa, e decidimos seguir pelo primeiro desvio que encontrámos, em direcção a Broadwell.

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Apesar de ser uma estrada secundária, e daquelas onde não conseguem passar dois carros na maior parte da sua extensão, este troço até Broadwell faz parte do Monarch’s Way (de que já falei no post anterior sobre as Cotswolds). Também com bermas quase inexistentes, teve a vantagem de ser curto e praticamente não ter trânsito, e pudemos continuar o passeio com mais tranquilidade de espírito.

 

Antes de chegar ao centro da aldeia, o percurso pedestre assinalado fez-nos passar pela igreja de St. Paul, onde aproveitámos para descansar das emoções matinais. Muito simples, apenas um corpo e uma torre, e construído com a pedra ocre e cinzenta da região, este templo religioso data do século XII e supõe-se que terá sido erguido sobre uma antiga igreja saxónica. À volta, projectando-se da erva verde e fofa que é um dos encantos das Cotswolds, sarcófagos, lápides e cruzes manchadas pelos líquenes e pelo tempo marcam a última morada de pessoas há muito desaparecidas. Aqui, pelo menos até ao século XIX e tal como em várias outras igrejas que visitei durante esta viagem, os mortos não eram segregados para chão que lhes fosse exclusivo. Gravados na pedra, os epitáfios carcomidos continuam a honrar a sua memória, à vista de quem passa e em saudável convivência com os vivos.

Saímos de Broadwell por mais uma estrada secundária (secundaríssima, pois raros foram os carros que vimos passar), esta já com bermas decentes e a acompanhar campos povoados por bolas de lã com quatro patas, vulgo ovelhas. Subimos durante uns dez minutos, cruzando-nos com alguns casais em sentido contrário, decerto em busca de almoço depois da caminhada matinal. Até que entrámos na parte mais bonita deste percurso: um trilho de terra batida no meio das árvores, por vezes tão frondosas que formavam um túnel por cima de nós. Com o tempo a aquecer, depois de duas horas a caminhar e tendo apenas feito uma breve paragem, a frescura e a sombra foram bem-vindas. É muito por causa de lugares como este que gosto tanto de fazer caminhadas, é nestes ambientes que me sinto verdadeiramente em liberdade, tranquila, em paz comigo mesma.

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Stow-on-the-Wold

Depois do sossego da parte final do percurso, a agitação de Stow-on-the-Wold foi quase um choque. Desaguámos mesmo no coração da vila, a Market Square, na segunda quinta-feira do mês, que é precisamente o dia do Farmer’s Market, quando os pequenos produtores locais vendem ao público de tudo um pouco, desde queijo a vinhos e sidras, passando por pão e bolos, carne, fruta e legumes. Com raízes que remontam ao período saxão, a localização estratégica de Stow-on-the-Wold no cruzamento de várias rotas comerciais importantes contribuiu para o seu desenvolvimento como centro mercantil. Na Idade Média a vila tornou-se próspera graças ao comércio dos lanifícios, uma das principais indústrias das Cotswolds durante séculos. A Market Square era nessa época palco de movimentadas feiras de gado e lã – chegavam a ser vendidos 20 mil animais num único dia! Testemunho desses tempos são as “tures” que desembocam na praça: vielas tão estreitas que quase passam despercebidas e que, diz-se, serviriam para contar o gado, pois a sua largura não permitia a passagem a mais do que um animal de cada vez.

No centro da Market Square fica o edifício da Câmara Municipal, a que dão o nome de St. Edward’s Hall. À primeira vista confunde-se com uma igreja, muito por causa do pináculo, da grande janela com vitrais, vagamente gótica, e da estátua embutida na fachada. O seu ar vetusto também é enganador, pois ainda nem sequer tem 150 anos. É um belo exemplo da arquitectura vitoriana e foi concebido originalmente como biblioteca pública e espaço para exposições de artefactos da Guerra Civil Inglesa. O que remete para outro marco histórico importante da vila: a Batalha de Stow, travada em 1646 durante a 1ª Guerra Civil, considerada a última grande batalha do conflito que opôs Carlos I e os realistas, seus apoiantes, aos parlamentaristas. Carlos I defendia o direito divino dos reis, ou seja, considerava que detinha poder absoluto. A sua tentativa de governar sem convocar o Parlamento durante 11 anos criou grande descontentamento no reino, a que se somaram tensões religiosas e económicas. A guerra estalou em 1642, e a derrota em Stow-on-the-Wold simbolizou o colapso final da causa realista, levando a que o rei se entregasse mais tarde aos escoceses. Depois de nova tentativa falhada de recuperar o poder, Carlos I foi executado em 1649. A monarquia foi abolida e a Inglaterra passou a ser uma Commonwealth, com Cromwell como Lorde Protector. Só foi restaurada em 1660, após a morte deste estadista.

O dia soalheiro parecia ter atraído para fora de casa os quase dois mil habitantes da vila, acrescidos de outros tantos turistas. O corrupio de pessoas extravasava a Market Square e espalhava-se pelas ruas adjacentes quando descemos a Digbeth Street em busca daquela que se assume como a estalagem mais antiga da Grã-Bretanha, a Porch House, que é também um pub. Tem uma história interessante que remonta ao século X, pois crê-se que terá sido um hospício construído em terras pertencentes à Abadia de Evesham. Fica numa praceta simpática, onde uma árvore de porte avantajado lança sombra sobre bancos de jardim desirmanados, mas ainda assim convidativos. Não fossem as letras garrafais com o seu nome e os painéis auto-publicitários, a Porch House não chamaria a atenção entre os edifícios que a rodeiam. Só um olhar atento se apercebe de certos pormenores mais rústicos e “medievais”, da patine dada pela antiguidade e propositadamente não disfarçada – desleixo não será, mas sim estratégia de marketing. Afinal, há que fazer jus à alegação de edifício milenar…

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A Inglaterra rural é fortemente religiosa, o que está bem patente no grande número de igrejas que encontramos por todo o lado, no cuidado com que estão preservadas, e nos vestígios de afluência que se notam mesmo quando fora das horas de culto. Meio camuflada por algumas árvores e pela linha cerrada de casas no flanco oeste da Market Square, a igreja de St. Edward é disso um bom exemplo. Está consagrada a Edward the Confessor, um dos santos mais venerados em terras britânicas. Rei de Inglaterra no século XI, durante o período anglo-saxónico, ficou conhecido como figura pacífica e espiritual, e pela sua devoção religiosa, humildade e generosidade. A Abadia de Westminster foi uma das suas maiores realizações, e ali foi enterrado. Canonizado em 1161, tornou-se santo padroeiro do reino (até ser substituído por São Jorge no século XV). Não é por isso de estranhar que a igreja de Stow-on-the-Wold, que remonta ao século XI (embora a maior parte do edifício actual date dos séculos XIII a XV) lhe tenha sido dedicada.

Exemplar do gótico perpendicular inglês – característico dos séculos XIV a XVI e reconhecível pela ênfase na verticalidade, na simetria e na elegância estrutural – a igreja de St. Edward foi também construída com a pedra calcária dourada típica das Cotswolds. A torre tem um aspecto quase militar, com contrafortes robustos, e o resto do edifício parece insignificante por comparação. No interior reina a simplicidade. Tecto com traves de madeira escura, paredes de um branco uniforme só quebrado pelos vitrais que ornam todas as janelas, incluindo as do clerestório. Bandeiras numa das paredes, ausência de ícones religiosos, alguns símbolos (sobretudo cruzes) aqui e ali. Pormenor curioso, que também vi depois em várias outras igrejas da região: os coxins bordados em ponto gobelim para os fiéis se ajoelharem, em cores variadas, de aspecto impecável e ordeiramente pendurados nos bancos de madeira.

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O relvado circundante está igualmente salpicado de urnas tumulares e lápides. Uma delas evoca a já referida batalha de Stow, à qual a igreja de St. Edward também tem ligação: foi utilizada como prisão temporária para os soldados realistas capturados, uma vez que era o único edifício na vila que se podia fechar à chave.

O pórtico norte da igreja foi construído há cerca de 300 anos e na altura foram plantados dois jovens teixos para melhorar a sua entrada. Actualmente, estas árvores fazem parte das arquitraves da porta, criando um efeito orgânico muito peculiar. Parece saída da ilustração de um conto fantástico e diz-se que terá servido de inspiração a J. R. R. Tolkien para as “Portas de Durin”, o portão oeste de Moria que é referido n’O Senhor dos Anéis. O escritor, que viveu grande parte da sua vida em Oxford, a cerca de 50 km de distância, não precisou de viajar muito para encontrar cenários perfeitos para as suas obras.

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Da igreja saímos novamente para a praça principal, onde não foi difícil escolher onde almoçar, apesar da variedade da oferta. O pico da confusão já tinha passado e conseguimos lugar no pátio ajardinado do Lucy’s Tearoom, um B&B situado paredes-meias com o jardim da igreja e que serve refeições leves até às 4 da tarde. Tal como algumas outras casas da Market Place, tem uma “bay window” (janela envidraçada saliente) ao lado da porta de entrada e duas trapeiras no telhado. O ambiente é informal mas cuidado, a comida é variada, dentro do que se espera num sítio deste género – sopas, sanduíches variadas, pizzas, ovos, e tudo o que faz parte de um lanche inglês, com opções vegan e sem glúten – e admitem cães. É mesmo a Inglaterra no seu melhor.

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As Slaughters

Upper Slaughter e Lower Slaughter são duas aldeias situadas entre as vilas de Stow-on-the-Wold e Bourton-on-the-Water. Ao contrário do que a tradução parece indicar, neste caso a palavra “slaughter” não tem ligação com o significado moderno de “matança” ou “abate”. Na verdade, deriva do inglês antigo “slothre”, que significa algo como “lugar pantanoso” ou “terra húmida”, e refere-se à condição geográfica local: ambas as localidades são atravessadas pelo Eye, um rio pouco extenso, estreito e tranquilo, sedutor protagonista de belos recantos neste trecho da região.

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Pés de novo ao caminho, de Stow-on-the-Wold até Lower Swell – mais uma espécie de aldeia com casas tradicionais rodeadas de jardins floridos – o percurso fez-se entre estrada com berma e caminho pedonal paralelo, protegido por árvores que nos afastam do bulício automóvel e onde até surge um banco ocasional para quem precisa de descansar. Depois, sob um sol que nos convenceu a largar agasalhos, seguimos por estradinha alcatroada, daquelas em que mal cabe um carro mas onde não passa vivalma. De ambos os lados, campos de pasto e cultivo delineados por arbustos ou muros de pedra meio cobertos por trepadeiras. E pequenos rebanhos com borreguitos barulhentos, que nos “obrigavam” a parar para os admirarmos.

Em Upper Slaughter, uma curva do rio ofereceu-nos um banco de madeira e uma abençoada oportunidade para repousar. É um daqueles bancos típicos que se encontram em inúmeros jardins ingleses – semelhantes a um que tem tido morada nas minhas varandas desde há muitos anos, e que comprei por gostar tanto deles. Como acontece com frequência em Inglaterra, tem uma placa de latão com dedicatória gravada. Uma dedicatória simples, com poucas palavras, nas quais não é difícil adivinhar uma história de amor: “Em memória de Peter e Elaine Glaister e do cão Óscar, que passaram muitas horas felizes neste banco xxx Sente-se e também irá apreciá-lo...”. Foi, de facto, uma meia hora feliz que passámos sentadas naquele banco, na tranquilidade daquele lugar. Assim como já passei vários momentos felizes no meu, que está igualmente manchado pela idade. Talvez seja uma qualidade intrínseca destes bancos, a de terem sido concebidos para dar felicidade às pessoas que neles se vão sentando ao longo dos tempos.

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Uns metros mais à frente começa o Warden’s Way, o trilho pedonal que liga Upper Slaughter a Bourton-on-the-Water. Até Lower Slaughter é um quilómetro de beleza verde contínua, abrindo e fechando cancelas, ora junto ao rio Eye e em caminho sombrio, ora em prado aberto pintalgado de flores bravias e árvores tingidas de rosa.

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Entrámos em Lower Slaughter por um dos cenários mais bonitos da localidade, junto ao Moinho Velho. Construído no século XIX, ainda mantém a sua roda de água original e uma enorme chaminé, que se ergue acima de todos os edifícios circundantes. Utilizado comercialmente pela última vez em 1958 agora funciona como museu, casa de chá e loja de produtos artesanais. É uma das principais atracções desta que é uma das mais famosas aldeias das Cotswolds.

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Em Lower Slaughter, o rio Eye é um belo pretexto para pontes minúsculas e longas filas de casas alinhadas junto à água, todas elas de traça antiga e primorosamente conservadas. Não há ruínas nem atentados arquitectónicos, a bem da harmonia e da preservação do encanto histórico, o que faz desta região uma das mais valorizadas do interior da Inglaterra, em termos imobiliários. Numa das suas curvas, o Eye encontra-se com mais um dos ícones da localidade: a Copse Hill Road, votada já por várias vezes a estrada mais romântica de Inglaterra. Consigo perceber porquê, embora na verdade, durante esta viagem, tenha passado por outras igualmente românticas.

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Rio e estrada seguem lado-a-lado durante umas dezenas de metros até divergirem, e entre os dois segue também o seu caminho o Warden’s Way. Este “public footpath” (como indicam as setas que vamos encontrar muitas vezes nos dias seguintes) leva-nos novamente por cenários arborizados, daqueles que nunca me cansam, e depois por campo aberto com direito a passagem junto a um centro equestre. Paisagens cliché, sim, mas do bom.

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Fim de tarde em Bourton-on-the-Water

O Warden’s Way termina na A429, que um semáforo (bem-vindo, de tão raro…) permite atravessar sem sobressaltos para entrar em Bourton-on-the-Water. A imagem de marca desta vila – e daí o nome – é o rio Windrush, que atravessa a localidade e é cruzado por cinco pequenas pontes, construídas entre 1654 e 1911 com a pedra típica da região. Em tempos idos, o Windrush era bastante mais largo e profundo, e corria para sul da aldeia. Foi canalizado em inícios do século XVI para passar pelo centro da localidade, a fim de fornecer energia hídrica a três moinhos. Hoje é local de lazer e diversão, uma espécie de praia nos dias mais quentes, recinto de brincadeira para os mais pequenos, lugar de piqueniques familiares nas margens, de passeios e de descanso.

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Sendo uma das localidades mais famosas das Cotswolds, Bourton-on-the-Water não se envergonha do seu estatuto de chamariz turístico. Pelo contrário, aproveita-o para oferecer aos visitantes atracções condizentes com a sua popularidade. É o caso do Model Village, uma réplica da vila em miniatura, construída em 1937, que permite aos visitantes explorarem a vila a uma escala reduzida, estando fielmente reproduzidos os edifícios históricos e o traçado das ruas; ou do Birdland Park & Gardens, que alberga mais de 500 aves, aproveitando o rio Windrush para recriar alguns habitats naturais; ou ainda do Cotswold Motoring and Toy Museum, que propõe uma viagem nostálgica pelo passado automóvel e cultural da região, com exposições de carros clássicos, motociclos e memorabilia de outras décadas – instalado à beira do rio numa casa de traça tradicional e anunciado, de forma bem imaginativa, por um carro-topiária.

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À hora a que chegámos a Bourton-on-the-Water já era tarde para aproveitarmos estas distracções, que são suficientes para ocupar um dia inteiro. O que acabou por ser uma vantagem, pois deu-nos a oportunidade de nos demorarmos no parque junto ao rio, descansando as pernas depois de tantas horas de caminhada, num dos fins de tarde mais relaxantes desta viagem. Já descrevi o cenário no início do post anterior, e não vou maçar-vos com repetições. “Aprazível” é um daqueles adjectivos que diz tudo e ao mesmo tempo não diz nada, mas não encontro nenhum melhor para definir o ambiente.

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O autocarro que nos levou de regresso a Moreton-in-Marsh confirmou a pontualidade pela qual os britânicos também são famosos, saindo exactamente às 7 da tarde. Uns escassos 25 minutos foram suficientes para voltar ao sítio de onde tínhamos saído mais de nove horas antes, também com passagem por Stow-on-the-Wold. É verdade que de manhã podíamos ter trocado a caminhada pela comodidade das quatro rodas com motorista. Mas, parafraseando o chavão publicitário, não seria a mesma coisa.

 

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