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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qua | 05.04.23

Entroido galego

 

Há poucos anos, indo eu a caminho de Allariz para conhecer o seu Festival Internacional de Xardíns, calhou fazer uma paragem técnica para almoço em Verín, terrinha galega que fica a menos de uma vintena de quilómetros de Vila Verde da Raia. Da refeição não ficou grande memória e a vila não parecia ter um interesse desmedido, mas depois de comer decidi dar uma volta pelo centro histórico – já que ali estava, mais valia aproveitar. Num pequeno largo onde desaguavam umas ruelas, deparei-me com uma escultura de tamanho considerável que reproduzia uma figura mascarada algo estranha. Nestas coisas de estátuas o tamanho anda geralmente a par da importância, por isso quando voltei a casa fiz umas pesquisas online e descobri que a personagem imortalizada em pedra tem o curioso nome de Cigarrón. E descobri também que o dito cujo é a figura típica do que, para minha grande surpresa na altura, percebi ser o mais famoso de vários Carnavais galegos que fazem parte das Festas de Interesse Turístico oficiais do país nosso vizinho.

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Na bela língua galega (adorável por ser tão ciciada e ter tantos “xis”, e também por ser tão parecida com o português), não há Carnaval mas sim Entroido. São muitas as terras da Galiza que celebram a preceito esta época, com as folias a começarem várias semanas antes da terça-feira calendarizada. A tradição tem raízes documentadas pelo menos desde o século XIII e ao longo do tempo as festas foram crescendo em duração, importância e diversidade. De celebração rural num único dia, os seus excessos pagãos admitidos pela fé católica em vésperas de Quaresma jejuadora, o Entroido transformou-se em festa máxima, repartida por vários fins-de-semana, preparada com brio e publicitada como chamariz turístico. Cada localidade desenvolveu os seus próprios hábitos, calendário e figuras particulares, mas persistem algumas tradições comuns. Há os dias dedicados aos “compadres” e às “comadres”, bonecos feitos habitualmente com roupas velhas que eram exibidos e disputados em guerras de sexos animadas*, e cuja designação se ampliou para incluir gente de carne e osso – eles e elas frequentemente com disfarces que imitam o sexo oposto. Há as batalhas de farinha, que não poupam ninguém. Há as charangas e os gaiteiros, que não se poupam a esforços para animarem os foliões. E há os desfiles, encabeçados pelas figuras típicas que cada localidade criou para se distinguir das demais.

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Os Entroidos galegos mais famosos são os de Verín, Xinzo de Limia e Laza. Dizem que a curiosidade matou o gato, e eu devo ter um gene felino porque o que li sobre estas festas deixou-me curiosa. Este ano decidi ir conhecer in loco as festividades carnavalescas de Verín e Xinzo, perceber se a publicidade que lhes é feita se justifica. E (spoiler alert!) diverti-me mesmo.

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Em Verín, o dia do desfile principal é o domingo. Com início previsto ao meio-dia, antes das 11 da manhã já os vários estacionamentos da localidade – e são muitos, todos gratuitos – estavam praticamente a abarrotar, e não paravam de chegar autocarros repletos de gente. Com a sorte que não costumo ter no que toca a estacionar, consegui milagrosamente arranjar um sítio onde deixar o carro num dos parques mais centrais. O movimento de gente desaguava na Avenida de Castilla, àquela hora já parcialmente cortada ao trânsito automóvel e policiada, com as pessoas a começarem a ocupar os passeios para terem a certeza de que não iriam perder pitada do desfile. A quantidade de mascarados era impressionante, desde aqueles que se limitavam a uma cabeleira ou uns óculos excêntricos até famílias inteiras fantasiadas a rigor, incluindo bebés de colo. Os disfarces mais populares eram sem dúvida os macacões com formas de animal que agora se usam como pijama – o que é perfeitamente compreensível e muito razoável quando a temperatura do ar está nos antípodas da do Brasil nesta época do ano. Mas havia também fantasias muitíssimo elaboradas, dignas de um Carnaval de Veneza.

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Não tenho muita paciência para ficar quieta à espera, por isso fui dar uma volta pelo centro histórico. Na Praza Garcia Barbón, o coração da localidade, um enorme painel publicitava o Cigarrón como “Figura central do mellor Entroido do mundo”, expondo imagens de uma centena de máscaras diferentes usadas pelas pessoas que encarnam a figura carnavalesca típica de Verín. A origem desta personagem é incerta mas, segundo alguns estudiosos, remonta ao século XVI e evoca a figura dos odiados cobradores de impostos: esbirros ao serviço dos senhores feudais, que percorriam as aldeias para colectarem as rendas devidas pelos vassalos e, para serem mais intimidantes, usavam máscaras demoníacas inspiradas nas dos indígenas peruanos e um chicote para açoitarem quem se recusasse a cumprir com o seu dever.

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Ser um Cigarrón é uma honra transmitida de pais para filhos. Com o seu látego, impõe a ordem entre o público e ninguém pode tocar-lhe nem faltar-lhe ao respeito. O “Baptismo do Cigarrón” é um dos momentos altos das festas, habitualmente realizado no sábado de Entroido em acto solene na Praza de Mercede, quando os jovens candidatos são empossados, aprendem a vestir-se correctamente e colocam, pela primeira vez em público, a careta (máscara) que irão usar. As máscaras são feitas artesanalmente de madeira e pintadas com um rosto naif em que sobressaem as rosetas vermelhas, sobrancelhas carregadas, um bigode retorcido, um sorriso descarado e uma barba falsa. Agarrada à máscara e em jeito de chapéu, uma mitra onde é pintada a imagem de um animal autóctone, diferente para cada membro da Associação. O traje é complexo: calções com borlas e meias arrendadas presas com ligas, jaqueta com fitas e galões coloridos, um pequeno xaile pelas costas e faixa larga de cor viva à cintura, sobre a qual usam um cinto com seis chocalhos pendurados na parte de trás**.

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É o ruído quase atroador destes chocalhos que anuncia o início do desfile, com muitas dezenas de Cigarróns em corrida ritmada a abrirem caminho para os comparsas e as charangas. Há-os de todas as idades, os mais pequenos sem máscara, os mais velhos todos do sexo masculino, várias raparigas e meninas a fazerem já parte dos grupos dos mais novos – prova de que a mudança é inevitável mesmo nas tradições mais antigas. Enquanto durou o desfile, os Cigarróns foram incansáveis, com idas e vindas em pequenos grupos ao longo da avenida, mantendo o público confinado aos passeios de forma a não se atravessarem no caminho dos que desfilavam. Lá como cá, nem sempre o respeito impera.

Os desfiles destes Entroidos são (felizmente!) simples e pouco sofisticados, mas muito cheios de imaginação. Não há grandes carros alegóricos nem meninas em biquíni, as lantejoulas e os brilhos não ferem os olhos, mas não faltam animação e originalidade. No de Verín houve gaiteiros pediatras e utentes de um lar, piratas e fadas dos bosques, irredutíveis gauleses da banda desenhada, Flinstones, esquimós e gente das Arábias, veículos improvisados e outros construídos com engenho, charangas mais ou menos afinadas e moçoilos com kilts tocando e dançando em estilo “zumba no ginásio”, crítica social e ofertas de trabalho, matrafonas e motards. Uns com mais energia e espírito folião do que outros, os comparsas vão avançando enquanto dançam, tocam, pedalam, revolteiam e animam o público durante cerca de uma hora bem passada.

 

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Ainda o desfile não estava terminado, a maior parte das pessoas começaram a debandar, enfiando-se pelas ruas perpendiculares à avenida. “Entroideira” de primeira viagem, quase não me apercebi a tempo do que aí vinha: a farinhada. Em poucos instantes, ao som do rufar dos bombos, o ar encheu-se com o branco da farinha atirada com genica pelos comparsas menos desejados do desfile. Mesmo tendo conseguido distanciar-me alguns metros da confusão, não me livrei de ficar meio empoeirada. O baptismo tradicional é com água, no Entroido de Verín é com farinha. E até que tem graça!

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Depois do desfile, os turistas foram peregrinar pelas ruas do centro histórico. São obrigatórias as fotos ao pé da estátua do Cigarrón, tal como com algum dos de carne e osso que continuam aos pulos de um lado para o outro mesmo após o desfile. Os habitués não perderam tempo com estas coisas, foram directos para a Garcia Borbón e atiraram-se à cerveja e a qualquer coisa que se comesse em pé, juntando-se em grupos palradores enquanto as charangas se iam instalando na praça e debitando cantoria à vez. Os restaurantes encheram-se com os cautelosos que tinham marcado mesa, e os incautos tiveram de esperar muito tempo à porta ou simplesmente não conseguiram comer. E a festa continuou pela tarde e noite adentro, com a música a ouvir-se a quilómetros de distância – mais propriamente no Castelo de Monterrei, que fica a um quilómetro e meio em linha recta (transformado em mais de quatro pela estrada), que eu e muitos outros optámos por visitar em alternativa.

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Após um dia de interregno para ver outras paisagens (que isto de folia carnavalesca para mim tem de ser em doses homeopáticas), terça-feira foi o dia de ir até Xinzo de Limia. Vila também sem interesse desmedido, é contudo aqui que se encontra o Museo Galego do Entroido, criado para preservar as tradições carnavalescas da região – as que se mantêm, e as que se perderam. Durante os quase quarenta anos de ditadura franquista em Espanha muitos festejos tradicionais foram proibidos, entre eles os Entroidos galegos. Alguns foram sobrevivendo à revelia e regressaram em força nos anos 80, outros acabaram por desaparecer completamente, e tenta-se agora que sejam recuperados.

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O Entroido de Xinzo arroga-se ser o mais longo de Espanha, com a animação a começar mais de um mês antes do Carnaval oficial. O programa das festas estende-se por cinco fins-de semana seguidos e este ano tiveram início em fins de Janeiro com o Sábado do Petardazo (música e dança até de madrugada) e o Domingo Fareleiro, uma farinhada colectiva que tem lugar ao fim da tarde na Praza Maior.

 

Em Xinzo de Limia, as figuras centrais do Entroido são os Pantallas. Sobre eles, existe a teoria de que a sua origem remontará à época celta, representando um druida agregador dos poderes religioso, judicial e social. Talvez por essa razão, a máscara típica destes ícones locais – que também é feita artesanalmente, em pasta de papel ligada com água e farinha – inclui um barrete com ponta curva que se enrola para frente, decorado com motivos astrais e geométricos. Por baixo, um rosto meio demoníaco, com olhos protuberantes, cornichos e um bigodinho torcido nos extremos que faz lembrar a personagem principal da novela gráfica “V de Vingança”. A fardamenta tem como base o branco da camisa e das calças, presas do joelho para baixo por polainas negras. O colorido fica por conta da capa, quase sempre vermelha (mas também as há em negro, azul, verde), com franjas, rosetas e fitas de cetim em várias cores, e da faixa na cintura, onde estão presos vários sininhos.

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Mas o barulho mais característico dos Pantallas é o que ouvimos quando fazem chocar as duas grandes bexigas de vaca cheias de ar que levam nas mãos. A ideia é assustarem o público, e acompanham as batidas com saltos, cabriolas e uns bramidos guturais. Manda a tradição que se encontrarem algum homem que não esteja mascarado, o rodeiem e obriguem a ir até um bar para pagar uma rodada de copos de vinho. Se for uma mulher, deverão dançar à sua volta, envergonhando-a.

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À espera do desfile, o momento ternurento ficou por conta de um miúdo bem pequenino, vestido a rigor com o traje dos Pantallas, que insistia em escapar-se aos adultos e correr pela avenida, abanando as suas bexigas de vaca – certamente já a preparar-se para exibições arrojadas em pleno desfile daqui por uns anitos.

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E por falar em desfile, o de Xinzo de Limia abriu com um buggy verde alface conduzido por um marinheiro e levando a bordo uma figura presidencial (quiçá real), atestando desde o início a solenidade da ocasião. Logo atrás vinham os Pantallas e a sua banda sonora de sininhos e batuques secos, seguidos por umas senhoras com gigantescas couves-galegas nas mãos, que insistiam em dar a provar (cruas!) aos espectadores, e depois por um grupo misto de gaiteiros com vestes vagamente medievais e barretes com cornos.

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A partir daí, foi sempre a subir em termos de diversão, e houve alturas em que chorei de tanto rir. Agricultores em greve que “emigraram” para Portugal; uma brigada de limpeza que trabalhava rente ao chão, às voltas, de barriga para baixo sobre placas de madeira com rodinhas; quatro irmãos travestidos de donas-de-casa, com mímicas engraçadas nas suas varandas móveis, sacudindo o pano do pó ou bebendo directamente de uma garrafa; cavaleiros de competição montados em póneis cheios de originalidade, revoluteando até desabarem no chão de cansaço; uma corrida de triciclos (perdão!) karts; um animado grupo de bem vestidas majoretes, na sua maioria barbadas, de sombrinhas coloridas nas mãos e um impecável esquema de desfile; uma divertidíssima mesa de snooker onde se disputava um jogo difícil… porque as bolas eram pessoas pouco obedientes e às vezes recusavam-se a entrar no buraco; um grupo de prisioneiros que decidiu fugir do seu carro alegórico/prisão; e até uma recriação bem-humorada de “O Resgate do Soldado Ryan”. Tudo isto intervalado com charangas, grupos elegantes de comparsas mascarados, e outros quadros figurativos representados com muita imaginação. No final, vários automóveis antigos, com os seus ocupantes também disfarçados a rigor.

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Em resumo: diversão a valer, e os músculos da cara doridos de tanto rir. A tradição carnavalesca na Galiza está de boa saúde e recusa os estereótipos importados de outras latitudes. As festas continuam a ser do povo e para o povo – gratuitas e abertas a todos, tanto participantes como público. Proibições ditatoriais não as mataram, e uma pandemia também não parece ter-lhes retirado força.

 

Por motivos profissionais, a minha escapadinha carnavalesca teve de ficar por aqui. Se tivesse ficado mais um dia poderia ter assistido ao Enterro da Sardinha, cerimónia “solene” que marca o final do Entroido e início da Quaresma. Há uma procissão nocturna, seguida da leitura do testamento da defunta (reproduzida em papel), que depois é queimada. Tal como na vida real, a cremação está a tornar-se mais popular do que o enterro. E o que é que uma sardinha, bicho capturado no Verão, está a fazer numa festa de Fevereiro? Também neste caso, as origens do costume são incertas, e há versões diferentes. Uma diz que se deve à confusão linguística de “sardiña” com “cerdín”, nome de um canal madrileno onde um porco era enterrado antes da Quaresma; outra diz que um rei mandou servir sardinhas nos festejos do fim do Entroido, mas estava muito calor e as sardinhas estragaram-se, por isso houve que enterrá-las para evitar o cheiro a peixe podre. Seja qual for o motivo, o costume pegou e dura até hoje. É mais uma das características peculiares dos Carnavais galegos.

 

O Entroido é celebrado em quase duas centenas de localidades galegas, com personagens e singularidades próprias em muitas delas. Algumas destas festas ganharam tanta popularidade que já são consideradas como muito importantes para o turismo do país. Os Entroidos de Verín e de Xinzo de Limia estão oficialmente classificados como “Festas de Interesse Turístico Nacional”, e outros cinco como “Festas de Interesse Turístico da Galiza”: os de Cobres, Laza, Viana do Bolo e Manzaneda, e os Xenerais da Ulla, que percorrem 30 lugares em oito concelhos da região.

 

De ritual pagão a festividade religiosa, em boa parte do mundo o Carnaval é uma das celebrações mais antigas, reflexo de características comuns a toda a raça humana: a alegria e a gratidão por existirmos neste planeta, e por aquilo que ele nos proporciona. Se isso não é motivo para festejar, não sei o que será.

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* Esta tradição também existe em Portugal e mantém-se pelo menos parcialmente viva. Neste fim-de-semana alargado por terras raianas, encontrei “comadres” e “compadres” em Pitões da Júnias, onde o Carnaval também estava a ser celebrado a preceito.

 

** O traje e a máscara dos Peliqueiros de Laza são, aos olhos de uma leiga como eu, idênticos aos dos Cigarróns. No entanto, os puristas mais entendidos dizem que há algumas pequenas diferenças.

 

(Este artigo foi publicado pela primeira vez no blogue Delito de Opinião)

 

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