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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qui | 29.12.22

Capelas curiosas

 

Desconheço se há algum inventário completo de todas as capelas e ermidas que temos em Portugal, mas tenho as minhas dúvidas de que exista. Serão muitas centenas, um trabalho de compilação gigantesco. País maioritariamente católico desde a fundação, em Portugal encontramos pequenas capelas por todo o lado – seja nas maiores cidades ou nas aldeias mais remotas ou minúsculas, no coração das localidades ou no meio de nenhures, quase incógnitas entre edifícios ou em grande destaque e rodeadas de aparato. São uma das formas de expressão mais genuína da devoção religiosa popular, e assumem uma enorme diversidade de aspectos, muitas delas com características únicas e excepcionais pela sua história, localização ou aparência. Há muitas que são particularmente curiosas, e com a minha apetência especial por locais fora do comum tenho coleccionado memórias de várias destas capelas “diferentes”, algumas das quais já visitei mais do que uma vez – não por questões religiosas, mas apenas porque são lugares que me atraem, cada um à sua maneira. Estas são só algumas das minhas preferidas.

 

Anta-capela de Alcobertas/Igreja de Santa Maria Madalena

(Alcobertas, Rio Maior)

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As antas-capelas são um dos muitos exemplos que mostram a forma como a religião cristã adaptou em seu benefício as tradições pagãs, e a sua concepção original faz com que sejam das construções religiosas mais interessantes do nosso país. Existem apenas seis em Portugal, e nem todas em bom estado. A de Alcobertas já foi autónoma, nela se venerando Santa Maria Madalena. Algures entre os séculos XVII e XVIII, perdeu a independência e passou a ser capela lateral da igreja dedicada à mesma santa – razão pela qual o seu acesso é feito pelo interior desta igreja. Imediatamente a seguir ao arco, forrado a azulejos da mesma época, por onde se entra na capela, são visíveis os esteios e a laje de cobertura do corredor do dólmen. Graníticos e de grande dimensão (têm cerca de cinco metros de altura, o que faz do conjunto um dos dez maiores monumentos megalíticos do género situados na Península Ibérica), os esteios da câmara ovóide já perderam a sua protecção superior original; o cimo da capela é agora fechado por um muro de tijolo e um tecto abobadado, sobre o qual assenta o telhado, de aspecto recente. Calcula-se que este dólmen date de finais do Neolítico (entre 4000 e 3500 a.C.), e terá sido cristianizado no século XVI.

 

A obscuridade do interior é aligeirada pela cor branca do tecto e da toalha que cobre o altar, revestido de azulejos tricolores que incluem uma representação não muito vulgar de Maria Madalena, arrojada na sua seminudez. Também curiosamente, sobre pedras colocadas num plano superior está uma pequena imagem quinhentista, em barro pintado de várias cores, que se supõe ser de Santa Ana, representada com um livro aberto no colo. Ainda outra curiosidade é o facto de os esteios terem gravadas, na sua superfície, muitas “covinhas” (nome técnico: fossetes), motivos rupestres encontrados com grande frequência em rochas e monumentos megalíticos, cuja finalidade continua a ser desconhecida, pese embora as várias possíveis explicações que lhes têm sido atribuídas.

A este lugar de devoção secular a Santa Maria Madalena estão associadas duas lendas, que se baralham entre si. Uma conta que foi esta santa a criadora das pedras que compõem o dólmen. A outra diz que por esta anta ter sido lugar de culto pagão, os populares tentaram demoli-la; mas cada tentativa de destruição era contrariada pela santa, que voltava milagrosamente a erguê-la. Respeitando a aparente vontade de Santa Maria Madalena, optou então o povo por dar a volta à situação, convertendo o local numa capela católica.

 

 

Capela e Gruta de Nossa Senhora da Lapa

(Entrevinhas, Sardoal)

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Dois quilómetros a sudeste da localidade de Entrevinhas há uma zona de lazer, nas margens da ribeira de Arecez. A montante, perto da modesta Barragem da Lapa, existe uma gruta onde desde há séculos é venerada a Virgem Maria. A entrada da gruta foi redesenhada em alvenaria, destacada por uma faixa amarela, e está protegida por um gradeamento de ferro. No interior, uma série de degraus feitos de pedras xistosas, em jeito de altar, conduzem os olhos até a um nicho, também realçado com ornamentos em amarelo, onde foi colocada uma pequena escultura policromada da Nossa Senhora da Lapa, na sua representação mais habitual. Este culto mariano, tão antigo que se desconhece quando terá começado, levou a que em meados do séc. XVII o Abade João Cansado mandasse edificar uma capela na margem oposta da ribeira, criando assim um pequeno santuário dedicado a Nossa Senhora. Há registo de um breve do Papa Alexandre VII, com data de 28 de Março de 1659, concedendo privilégios especiais a quem rezasse missa na capela. E em 1926, um jornal local dava conta de uma peregrinação eucarística ao local no dia de São João, tradição já antiga.

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Meio encaixada num maciço rochoso elevado, a salvo de enchentes em épocas de muita chuva, acede-se à capela por uma curta escadaria dupla. É uma construção simples, com alguns elementos barrocos na fachada e um arco sineiro sobre um dos lados do telhado, mas já sem sino. Nota-se que está a precisar de uma renovação. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1996, mas é uma capela privada e as visitas ao interior (que está descrito como sendo bem mais rico do que o exterior) só são possíveis por marcação com o seu proprietário.

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A zona de lazer onde se situa a capela é tranquila e agradável. Acompanhando a ribeira, filas extensas de árvores de grande porte criam uma área fresca para passear, piquenicar, ou até mesmo tomar banho, nos dias em que o calor aperta. Uma ponte de troncos e tábuas de madeira faz a ligação entre as duas margens. No extremo oposto ao da gruta há um parque de merendas, chorões frondosos, uma barreira de pedra para controlar o fluxo da água, e uma pequena cascata mais à frente. É um sítio bom para relaxar, dotado de um certo encanto, pese embora tenha no geral um aspecto pouco cuidado.

 

 

Capela do Calvário/Capela de Santa Maria Madalena

(Ferreira do Alentejo)

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É possivelmente a capela mais estranha do nosso país, e se não fosse a cruz de metal bem visível no topo, ninguém faria a mínima ideia da sua finalidade. Pequena, branca e cilíndrica, a fazer lembrar uma redoma, tem uma faixa amarela pintada na sua base, um lanternim sobre a cúpula, e várias dezenas de pedras irregulares de granito incrustadas nas paredes, concentrando-se sobretudo na parte superior. Além de estranha, é também misteriosa, pois desconhece-se o porquê de tão curiosa decoração. Moda alentejana, já que ornamentação semelhante existe na vizinha localidade de Beringel e consta que terá existido uma outra no mesmo género em Beja? Evocação do calvário de Jesus (que parece ser a explicação mais comum)? Ou da salvação de Maria Madalena (condenada a apedrejamento e uma das figuras representadas no altar da capela)? No interior, a parede do altar está pintada de azul-céu e decorada com estuques brancos com formas vegetais ou representando alguns Arma Christi (Instrumentos da Paixão, símbolos associados ao martírio de Jesus). O azul repete-se em faixas geométricas pintadas na abóbada.

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Calcula-se que a sua construção date dos séculos XVII ou XVIII. Originalmente, foi erguida num outro local da vila, a antiga Rua do Calvário, e transferida em 1868 para um dos extremos da então Rua de Lisboa, que agora é a Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Classificada como Imóvel de Interesse Público em 2003, a espécie de praça onde se encontra é zona de protecção especial, com a capela no seu centro, isolada e bem visível. À volta há edifícios baixos, de traça tradicional, um ou outro com ar apalaçado, e uma fonte ornamental moderna, com bicas e repuxos, que dá um certo ambiente de frescura a esta vila alentejana.

Seja qual for a razão das suas origens, o certo é que esta capela se tornou no ícone máximo de Ferreira do Alentejo – que é, de resto, uma vilazinha pacata, bem arranjada e limpa, com vários outros motivos de interesse para uma visita mais demorada.

 

 

Capela de Nossa Senhora das Vitórias

(Furnas, São Miguel)

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Praticamente isolada na margem sul da Lagoa das Furnas, esta capela é muito diferente de qualquer outro monumento religioso em São Miguel e, por ter bastante altura e uma torre aguçada, passa facilmente por igreja. Meio dissolvida entre a água e todo aquele verde, com a pedra manchada e avermelhada pelo tempo, as suas formas elaboradas tornam-se incongruentes num enquadramento tão simples. Visto de longe, o conjunto tem um ar algo surreal.

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Foi mandada construir em fins do século XIX por José do Canto, um abastado proprietário açoriano, para servir de mausoléu à sua mulher e a ele próprio. José do Canto era um intelectual progressista e botânico amador, e esta capela encontra-se precisamente numa das suas antigas propriedades, a mata-jardim a que foi dado o seu nome. Construída em estilo neogótico, possui uma dimensão bastante generosa, com uma torre sineira alta, pontiaguda e ornamentada. No interior, chamou-me primeiro a atenção, por não ser muito habitual, o belíssimo piso de mosaicos coloridos. Os vitrais das janelas altas, que do exterior parecem desenxabidos, mostram-se bem mais ricos quando vistos de dentro. A pedra cinzenta nua da estrutura, com as tonalidades dadas pela passagem dos anos, contrasta com a madeira castanha do gradeamento, do púlpito e dos altares. Incomum é também a ausência da talha dourada, tão habitual nos lugares de culto em Portugal, mas isso em nada lhe diminui o encanto.

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Capela de São Mamede

(Janas, Sintra)

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Saindo de Janas para norte na direcção de Fontanelas, encontramos a poucas centenas de metros, do lado esquerdo, um terreno descampado onde se ergue uma construção branca e baixa, de formato circular, que à primeira vista não dá a ideia de ser um edifício religioso. Mas é, como o provam as pequenas cruzes que se erguem no topo, visíveis se olharmos com mais atenção. Dedicada a São Mamede, esta capela data presumivelmente do séc. XVI, embora até agora não tenha sido possível saber exactamente quando foi construída. Suspeita-se inclusivamente que a sua origem seja bem mais remota, reportando-se à época romana, e que no local tenha existido um templo consagrado ao culto da deusa Diana. A razão para esta suspeita prende-se com a romaria que ali se realiza anualmente em meados de Agosto, e que se reveste de um carácter muito particular: os lavradores da região trazem até ali o seu gado (e por vezes animais domésticos), e com ele dão três voltas à capela no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Mais tarde, como pagamento das suas promessas ou como pedido de protecção para os seus animais, colocam ex-votos e oferendas agrícolas no interior da capela. Embora estas festividades sejam em honra de São Mamede, protector do gado, as suas características assemelham-se em muito às dos antigos cultos dedicados a Diana, a deusa romana das florestas e protectora dos animais, cuja principal festa ocorria no dia 13 de Agosto. Existem documentos dos séculos XV e XVII que referem esta festa dedicada a São Mamede com pormenores semelhantes aos de hoje, o que prova que esta tradição já é bastante antiga.

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É uma das poucas capelas de planta circular existentes no nosso país, e a sua concepção é atribuída, por alguns entendidos na matéria, a Francisco d’Olanda, embora tal facto não esteja de maneira nenhuma confirmado. Tem ainda a particularidade de possuir um alpendre que acompanha metade da circunferência do edifício, com colunas de pedra e janelas que lhe dão um invulgar aspecto de casa de habitação. É por este alpendre que se acede à porta de entrada na capela, cujo interior é bastante simples e despojado – como todo o edifício, aliás. Apesar de estar junto à estrada, o local onde se ergue a Capela tem uma certa aura de serenidade, e sente-se no ar o cheiro intenso dos pinheiros que estão plantados em redor. Os bancos corridos de pedra no interior do alpendre convidam a sentar e relaxar, a descontrair da correria diária, a aproveitar o sossego.

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Capela de Nossa Senhora da Orada

(Melgaço)

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Já são muitas as centenas de anos que passaram pelas pedras manchadas da Capela de Nossa Senhora da Orada. À saída de Melgaço, na estrada que vai para São Gregório, e encaixada entre os muros de uma quinta vinhateira e umas quantas casas rústicas vulgares, pode facilmente passar despercebida a quem vai de carro com a atenção mais virada para a paisagem aberta do lado do rio. E no entanto, esta capela do século XIII é um dos edifícios mais surpreendentes da arquitectura religiosa do Alto Minho (já de si riquíssima em exemplares soberbos do período românico). Dizem os entendidos que mostra ser do período tardo-românico, por possuir alguns elementos protogóticos. Mais leiga do que eles, os meus olhos notam sobretudo o portal com colunas e arcos muito trabalhados, os cachorros com símbolos e figuras esculpidas, sob as cornijas, e um motivo vegetal por cima da porta norte que (mais uma vez de acordo com os peritos) representa a árvore da vida e é único em Portugal.

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Na sua escrita tão característica, Saramago descreveu a Capela da Orada no livro “Viagem a Portugal”, e foram precisamente as palavras dele que me trouxeram aqui pela primeira vez, há já muitos anos:

 

Mas a Igreja da Nossa Senhora da Orada, pequena construção românica decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é.

 

Em tempos, junto à capela esteve colocado um cruzeiro – erguido em 1567, ano de peste e portanto de fervor religioso acrescido. Questões logísticas ligadas à quantidade de devotos que o contornavam nos dias de romaria acabaram por o deslocar, em fins do século XIX, para um pouco mais acima, no outro lado da estrada, local que é agora um miradouro de excelência sobre Melgaço, o rio Minho e terras galegas. Tal como sucede com a capela, a imagem de um tosco Cristo crucificado e o desgaste do granito acusam as centenas de anos a que este cruzeiro já sobreviveu.

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Anta-Capela de São Dinis

(Pavia, Mora)

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Outra anta-capela de que gosto particularmente, pela sua harmonia estética, é a de Pavia. A sua importância histórica levou a que fosse classificada como Monumento Nacional em 1910. Não sendo difícil de reconhecer, pode passar despercebida a quem não souber da sua existência e for desatento, meio escondida que está no recanto de um largo com árvores, bem vindas pela sombra mas que também funcionam como cortina visual.

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Apesar das intervenções feitas pela mão humana, são bem visíveis os sete grandes esteios (agora unidos por alvenaria) do monumento megalítico original, mais ainda porque a capela está virada de costas para as vias de acesso principais. A anta terá sido erguida algures pelos milénios IV ou III a.C., e por desígnios misteriosos sobreviveu até ser cristianizada, provavelmente no século XVII. A sua transformação em capela dedicada ao culto de São Dinis não envolveu nem grandes complexidades, nem grandes quantidades de cimento: um alçado saliente, com a abertura para entrada, protegida por portas de madeira e portões de ferro, e uma cruz no topo; um pequeno campanário rectangular mais elevado, que abriga o sino; e três degraus para acesso ao interior, mais elevado do que o nível da rua.

Por dentro, a capela não poderia ser mais minimalista: paredes nuas e apenas um frontal de altar revestido de azulejos azuis e brancos, decorados com volutas e querubins e com uma representação fora do comum de São Dinis ao centro, em tamanho reduzido. Sobre o altar, um pano branco bordado e uma jarra de cerâmica com flores artificiais. O despojamento interior, que o contraste com os azulejos de influência barroca acentua sobremaneira, condiz bem com o aspecto geral desta capela, onde as características primitivas não foram abafadas pelas alterações posteriores e permanecem bem marcadas.

 

 

Capela de Nossa Senhora do Monte

(Santarém)

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Na cidade a que chamam “capital do gótico” não faltam monumentos religiosos, mas esta capela é uma curiosidade. Primeiro que tudo, porque é românico-gótica, com origens no século XII, mas também tem características renascentistas, fruto de uma remodelação no século XVI. Depois, porque se encontra em meio urbano, quase “abafada” pelas construções que a rodeiam e que, embora sejam baixas, roubaram a vocação que este lugar já teve de miradouro privilegiado sobre o vale que se estende para oeste da cidade. E finalmente, porque é desde há uns anos a sede da Paróquia Ortodoxa Romena de Santarém, cujo nome é “Ascensão do Senhor”, utilização que não é habitual nos edifícios de raiz católica apostólica romana.

A capela é toda de pedra nua, com excepção de um “acrescento” lateral em alvenaria. Rectangular e com vários volumes, a sua característica mais marcante é a galilé (alpendre com colunas) que ocupa a totalidade das fachadas oeste (a principal) e sul. Assentes sobre um murete baixo, as colunas elegantes terminam em capitéis decorados, cada um de sua maneira, com elementos vegetais, volutas e cabeças de onde saem asas, representando anjos. Na fachada nascente há um nicho muito elegante, que os peritos dizem ser quinhentista, tal como os alpendres, e de recorte mudéjar. Abriga uma escultura que representa a Virgem Maria, que terá sido bem colorida em tempos mas agora apenas tem uns restos de tinta azul no manto. Alguém terá achado por bem “embelezar” o nicho com algumas flores artificiais que já viram melhores dias, entre elas uma rosa, de tamanho desproporcionado e cor já muito desbotada, colocada sobre as mãos unidas da imagem.

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A história desta capela também não é desprovida de particularidades algo fora do comum. Pertencendo originalmente à Colegiada de Santa Maria de Alcáçova, em meados do século XIII passou para a posse da Casa de São Lázaro – hospital e leprosaria criados em Santarém por D. Afonso II, que contraiu lepra e escolheu isolar-se nesta cidade, onde veio a morrer em 1223. A partir do século XVII, o Hospital de São Lázaro passou a ser administrado pela Misericórdia, o mesmo sucedendo à capela. Datam deste século os lambris de azulejos que existem no interior.

 

Apesar de encafuada entre casas e carros, que lhe retiram uma parte do protagonismo no local, a Capela de Nossa Senhora do Monte mantém uma aura de encanto e um aspecto de dignidade, de que sobrevive ali por mérito próprio, há muitos séculos, e ali continuará por muitos mais, qualquer que seja o destino dos edifícios que a cercam.

 

 

Anta-capela de São Brissos/Capela de Nossa Senhora do Livramento

(Santiago do Escoural, Montemor-o-Novo)

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O nosso Alentejo é uma região riquíssima no que toca a vestígios pré-históricos, e é na estrada que liga Santiago do Escoural a Évora que encontramos mais um monumento megalítico adaptado a local de culto católico. Isolada, com um ar meio perdido junto à entrada para um couto de caça, passa facilmente despercebida a quem não vai propositadamente à sua procura. Tem entre cinco e seis mil anos e o seu nome religioso é Capela de Nossa Senhora do Livramento, atribuído após a sua transformação e cristianização no séc. XVII. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, da anta primitiva restam alguns esteios, um dos quais está caído ao lado da capela, e parte da laje de cobertura, que foi integrada no tecto da ermida. Está pintada de branco, com uma faixa azul na base, à maneira das casas típicas alentejanas, e só é possível visitar o interior mediante marcação antecipada.

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Até recentemente foi lugar de romaria, especialmente por alturas da Páscoa. A Senhora do Livramento está tradicionalmente associada ao parto, mas a que está nesta capela tem desempenhado também uma outra função: a de invocar as chuvas em anos de seca prolongada, atribuição que lhe advém de uma daquelas lendas em que nós, portugueses, somos pródigos, e cuja origem mística se perde nos tempos. São Brissos é um santo português que terá sido o segundo bispo de Évora e supostamente martirizado pelos romanos no séc. IV d.C. Existem no Alentejo várias povoações com o seu nome, uma delas bem perto da anta-capela, e a imagem do santo ocupa lugar de destaque na igreja da localidade. Diz então a lenda que a Senhora do Livramento e São Brissos tiveram um filho, também representado na anta-capela ao colo da sua mãe. Ora sucede que o dito santo acabou por trair a mãe do seu filho com a Senhora das Neves (talvez em dia de muito calor, quem sabe, que esta Senhora devia ser fresquinha…) e o casal ficou de candeias às avessas para todo o sempre. Quando a seca já vai longa e a chuva começa a fazer falta, os habitantes da localidade transportam a Senhora do Livramento para a igreja de São Brissos, onde a colocam de costas voltadas para o seu antigo amor. No entanto, o filho permanece na anta-capela – e então a Senhora, com saudades da criança e obrigada a estar ao pé do homem que a traiu, chora rios de lágrimas, lágrimas essas que se transformam em chuva. Uma lenda ao gosto da nossa tão portuguesa costela trágica.

 

(Este artigo foi publicado pela primeira vez no blogue Delito de Opinião)

 

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Capelas curiosas

Qui | 15.12.22

Coimbra, Lousã, Góis: cidade, serra e água num roteiro de 3 dias - parte 3

O Ceira e as praias

 

O curso do Rio Ceira vai ser o mote para o último dia deste roteiro por uma das mais deslumbrantes regiões do distrito de Coimbra. Vão ser poucos os quilómetros a percorrer, mas muita a beleza que nos vai entrar pelos olhos adentro. E encher a alma.

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Dia 3

 

O passeio de hoje começa na cativante vila de Góis, atravessada pela agora famosa Nacional 2 e também pelo Rio Ceira. Mesmo com uma manhã cinzenta e chuviscosa, o nosso destino é o parque que acompanha o rio até à Praia Fluvial da Peneda, onde a água escorrega por um declive artificialmente criado. No Verão, quando o caudal é menos volumoso, do leito do rio emerge uma zona pedregosa, a Ilha Branca, que é enriquecida com areia para ser aproveitada pelos banhistas e tornada mais acessível por uma pequena ponte. E as infra-estruturas da praia até incluem uma esplanada sobre a água, um cenário muito diferente daquele que encontramos agora, neste Outono chuvoso.

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Seguindo até ao fim do Parque Público Francisco Rosas, um passadiço de madeira facilita o caminho até outra queda de água mais à frente, que define a praia do Pêgo Escuro. Ao lado, um rego de água mantém em movimento a roda de um moinho recuperado.

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Regressamos pelo mesmo percurso até à Ponte Real, que data do século XVI e é o ex libris da vila. No extremo oeste, a invulgar e misteriosa capela do Mártir Sebastião. Invulgar por ser de planta hexagonal e ter uma sineira muito baixa, colocada lateralmente sobre um muro. Misteriosa porque se desconhece a data em que foi construída e o nome de quem a patrocinou, embora a sua decoração seja nitidamente barroca.

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Passando sobre a ponte e virando à esquerda, uma rua empedrada corre paralela ao Ceira. Ao longo da avenida há chaises-longues e bancos em cimento que convidam ao descanso, à sombra das árvores que crescem na margem do rio, e mesas e cadeiras onde imagino facilmente grupos de reformados a jogarem às cartas, ou famílias a piquenicar no Verão. Continuando junto à água, encontramos primeiro o parque de merendas e praia do Cerejal, e a seguir o Parque Hugo Miguel Piteira Barata. Um sem-fim de lugares para descontrair e aproveitar o ar livre e a tranquilidade do Ceira.

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Abandonamos Góis, mas não o rio. A M543 persegue o Ceira durante uma vintena de quilómetros, e é por ela que seguimos. O intuito é descobrir as aldeias que cresceram à sua beira, e também algumas das praias fluviais mais bonitas que ele oferece neste trecho.

 

A primeira aldeia a visitar é Cabreira, e para isso desviamos para a M543-1 à entrada da povoação. Encavalitada numa encosta, num primeiro relance parece algo descaracterizada. É depois de passarmos a ponte sobre o Ceira que temos dela a panorâmica mais bonita, com o campanário a destacar-se acima do casario. Embora muitas habitações já estejam revestidas com a habitual alvenaria pintada, algumas ainda mantêm à mostra as pedras de xisto de que são feitas, várias delas com ar de terem sido recuperadas há não muito tempo. Nas coberturas, a telha é o material mais comum, mas uma ou outra possuem telhado de ardósia.

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Logo a seguir à ponte, uma placa indica a entrada para a praia fluvial e parque de merendas do Eirão. Aqui não há estacionamento, o carro teve de ficar arrumado lá para trás. Uma descida leva-nos, para um lado, até uma zona ligeiramente acima do rio, delimitada por muros de xisto, mesmo a pedir manta e cesto de piquenique em dia de sol. Para o outro lado desce-se à água. A praia aproveita uma curva do rio por baixo da ponte, onde a corrente amansa e as árvores projectam alguma sombra.

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A aldeia da Cabreira é uma sortuda, porque dispõe não de uma, mas sim de duas praias fluviais. Regressando ao tramo principal da M543, ao fazer uma curva larga a menos de um quilómetro de distância vislumbramos, do lado direito, um conjunto de casas meio escondidas pela encosta. Uma placa tosca indica Ponte Velha (com o “A” pintado por cima de um “O”), apontando para o lado do rio. E a ponte está lá – há quanto tempo não sei, mas tem ar de ser bem antiga, a pedra manchada provavelmente por séculos, com musgo e plantas a crescerem nos interstícios. Faz a ligação à aldeia de Cadafaz, um trilho que não me negaria a percorrer se o tempo estivesse mais convidativo e o dia não fosse tão curto. Aliás, é precisamente aqui que se inicia o percurso pedestre circular designado por PR3GOI, com um total de 13 km e que passa também pelas aldeias de Sandinha e Candosa. O cenário de fundo é uma encosta que mais parece uma manta de retalhos, cada árvore com a sua cor: verdes em todos os seus matizes, amarelos que escurecem até ao castanho, vermelhos quase cor de vinho e tonalidades ruivas – a prova de que o Outono é a época mais bonita para viajar em Portugal.

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Numa região rica em oliveiras, este é o local em que se erguem o antigo lagar de varas e as casinhas das tulhas onde os aldeãos guardavam a azeitona que tinham apanhado nos seus terrenos, enquanto esperavam a vez para ser moída no lagar. Da ponte, a vista abrange as casas – abrigadas pelo declive do terreno, cujas terras são sustidas por paredes de xisto – o antigo moinho e o rio, represado por um muro, de onde cai depois em cascata.

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Apaixonei-me por este lugar quando o descobri pela primeira vez há uns anos (não muitos), num mês de Abril já bem quente. Na altura, o sítio ainda nem sequer estava assinalado no Google Maps, e foi uma daquelas surpresas que me deixou maravilhada e que, por si só, valeu toda uma viagem. Decidimos ficar por ali durante um bom bocado, sobretudo porque além de nós, apenas uma família aproveitava o sossego e a beleza ímpar deste sítio. Aproveitámos para molhar os pés na água fresca e comer a merenda que tínhamos trazido para o caminho, uma pausa muito relaxante num dia que já tinha muitos quilómetros de viagem.

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As casas continuam bem recuperadas, apesar da falta de uso. O xisto das paredes e a ardósia dos telhados contrastam com o verde brilhante da erva viçosa. Um ribeiro corre, cheio de força, entre o lagar e o telheiro que protege o assador posto à disposição de quem frequenta o local. As cores desmaiadas das oliveiras quase se fundem com a atmosfera acinzentada, e o rio é um lago escuro que se metamorfoseia em cascata, branca como uma manta de lã acabada de tosquiar. Nesta época do ano, apesar do tempo pouco simpático e tão diferente do da minha primeira visita, voltei a render-me à magia deste lugar.

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Nos funestos incêndios de Junho de 2017, as chamas lavraram em força por esta região, e ainda hoje estão à vista alguns vestígios dessa catástrofe. Sandinha foi uma destas aldeias mais atazanadas pelo fogo, que a ameaçou em várias frentes e obrigou à evacuação dos seus poucos habitantes (na altura eram apenas 10). Nesta aldeia, pequenina e compacta, as casas estão todas muito juntinhas, como que para se protegerem umas às outras, empoleiradas no cimo de uma elevação e com vistas para a serra que se agiganta do lado de lá do Ceira. Quase à beira da estrada, por entre arbustos espinhosos, uma roseira teimou em botar flores nesta época do ano. Talvez seja de uma espécie peculiar, ou esteja baralhada com as alterações climáticas, mas é sem dúvida uma visão invulgar nesta altura do ano.

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Seguindo sempre pela mesma estrada, cujas curvas caprichosas parecem competir com as do rio, há que fazer novo desvio para descer até Candosa. Não sendo grande, é uma aldeia arejada, com muito espaço, estendendo-se por uma zona plana e com várias casas de tamanho respeitável (algo que não é muito habitual por estas bandas), algumas sendo de construção moderna, outras de xisto. Na ponte de cimento que une as margens do Ceira, uma placa bem visível anuncia que “esta obra há muitos anos desejada” foi “inaugurada no dia 1 de Agosto de 1982” – portanto, este ano entrou nos “entas”. Uma escadaria, não íngreme nem grande, passa por baixo do seu tabuleiro para dar acesso ao rio, que também serve de praia no Verão.

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Quatro quilómetros depois chegamos a Colmeal. É uma das maiores aldeias do concelho, e também uma das mais antigas – a data da sua fundação é incerta, mas há documentos que atestam que já existia no século XVI. No entanto, é uma das mais modernizadas, e nela já não existem praticamente nenhumas edificações em que o xisto esteja à mostra. As casas espalham-se por várias ruas de traçado ondulante, formando núcleos meio separados uns dos outros; a aldeia parece ter crescido ao sabor das irregularidades orográficas. No cimo de uma das elevações destaca-se a Igreja Matriz, com o telhado da sua torre numa inabitual cor negra. O aspecto que esta igreja tem hoje deve-se essencialmente à remodelação feita no século XIX, mas escavações arqueológicas efectuadas há cerca de uma década mostram que a estrutura data do século XVI, no local de uma capela ainda mais antiga dedicada a São Sebastião.

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Apesar de ficar numa zona alta, apartada do rio, a aldeia do Colmeal também tem uma praia. Fica um quilómetro mais abaixo, junto à ponte da estrada que cruza sobre o Ceira, e dão-lhe, com alguma falta de imaginação, precisamente o prosaico nome de Praia Fluvial da Ponte. Em contraste, o lugar não tem nada de prosaico, muito pelo contrário. É mais um recanto delicioso, onde nem sequer falta um antigo moinho, meio disfarçado entre as árvores e a ponte, e um riacho que surge da vegetação, em cascata, para se juntar ao Ceira. Do lado oposto, a que acedemos por uma rampa e degraus, o piso foi revestido de pedra e alisado, para proporcionar algum conforto a quem aproveita o local para se refrescar nos dias quentes. Tal como nas outras praias fluviais que conhecemos nestes dias, a intervenção da mão humana não foi exagerada e manteve a rusticidade e o encanto do lugar – porque, a bem da verdade, o nosso engenho ainda não foi capaz de suplantar o da Mãe Natureza.

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Muito mais haveria para ver e contar sobre esta região tão cheia de belezas naturais, que este roteiro de três dias apenas aflorou. De Coimbra a Góis, passando pela Lousã, há uma infinidade de boas razões para regressar uma e outra vez, seja em escapadinha ou para uma estadia mais demorada, e em cada uma dessas vezes descobrir algo que nos vai surpreender – e deixar ainda com mais vontade de voltar.

 

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Coimbra, Lousã, Góis: cidade, serra e água num roteiro de 3 dias - parte 3

 

Sex | 09.12.22

Coimbra, Lousã, Góis: cidade, serra e água num roteiro de 3 dias - parte 2

A serra e o xisto

 

Lousã é vila e é serra, e é também porta aberta para um mundo de possibilidades: visitar um castelo e um santuário, descansar numa praia fluvial, fazer uma caminhada em passadiço de madeira ou pelos trilhos da serra, visitar aldeias muito antigas que já estiveram abandonadas e agora conhecem uma nova vida, percorrer estradas serranas desafiantes. Passaporte para um dia memorável.

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Dia 2

 

Este dia pode começar com um passeio a pé pelo centro da vila da Lousã. Com calma, vamos descobrir as suas ruas tranquilas e os edifícios apalaçados – de que o melhor exemplo é o Palácio dos Salazares (agora um hotel) –; a Capela da Misericórdia, a Igreja Matriz e, atrás dela, o Pelourinho (monumento nacional que data do séc. XX e tem a particularidade de ser encimado por três rostos); as avenidas com árvores de folhas tornadas rubras pelo Outono. Para quem quiser conhecer um pouco mais da cultura local, o ideal é visitar também o Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques, espaço interessante e bem organizado.

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A uns meros dois quilómetros da vila, escondido entre as voltas da serra, ergue-se o Castelo da Lousã, também conhecido por Castelo de Arouce, nome que partilha com o rio que passa na sua base. É um dos raros castelos construídos com pedras de xisto e também um dos meus castelos portugueses preferidos, sobretudo pelo ambiente que o rodeia. Sobre ele (e a sua lenda) escrevi há algum tempo um post, que podem ler aqui. Nesta minha recente visita tive a boa surpresa de finalmente poder visitar o seu interior. Um projecto municipal concretizado em 2019 dotou o troço da M580 que liga ao castelo de um passadiço de madeira lateral (retirando da estrada as muitas pessoas que fazem este percurso a pé, principalmente aos fins-de semana), instalou um pequeno e bem conseguido Centro de Interpretação e Acolhimento num recanto da muralha exterior, e criou as condições necessárias para que o castelo pudesse ser visitado por dentro.

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Agora já é possível subir à torre de menagem, ver a abertura da cisterna e percorrer parte da muralha, de onde se tem uma vista fenomenal sobre a serra em redor e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade. Melhor ainda, é também possível ter uma visita guiada para ficar a conhecer toda a história e as particularidades do castelo e da sua envolvente. Podem obter mais informações no site da Câmara Municipal da Lousã ou contactando directamente os seus serviços por email ou telefone.

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Do castelo desce-se à Ribeira de São João (outro nome dado ao Rio Arouce) e à praia fluvial, rodeada de árvores de várias espécies, altíssimas, frondosas umas, outras já meio despidas e com a folhagem pintada com os amarelos e castanhos-avermelhados da época outonal. Há mesas de pedra, bancos, escadas metálicas de acesso à água e corrimãos para protecção de escorregadelas acidentais. Ao fundo, entre a vegetação densa, o rio salta em cascata, engrossado pelas chuvas habituais nesta altura do ano. Pese embora seja pequena, esta é para mim uma das praias fluviais mais bonitas do nosso país, e uma das menos artificiais.

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Passando a ponte de pedra, acedemos ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, um santuário mariano composto por várias capelas brancas. Três delas estão ligadas por escadinhas. A primeira, e mais antiga, é a Capela de São João, que se presume ter sido edificada no século XIII ou XIV. Do século XVIII serão as outras duas: a da Agonia, e a que se encontra no ponto mais alto e dá o nome a este santuário. Existe uma quarta capela, dedicada ao Senhor dos Aflitos, mas está longe das outras. Fica junto ao castelo, do outro lado da estrada, e só foi construída em 1912.

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Apesar dos seus 1205 metros (no Alto do Trevim, situado na linha divisória entre os distritos de Coimbra e Leiria), a Serra da Lousã não é famosa pela sua altura, mas sim pela sua beleza fascinante. Além disso, oferece alguns dos percursos pedestres mais compensadores (embora algo difíceis) para quem gosta de caminhar na natureza. Atravessamos zonas de floresta densa, passamos por cascatas e ribeiros, e até é possível ter algum encontro imediato com um javali ou um veado. Estes trilhos que serpenteiam pela serra fazem também a ligação entre as várias aldeias do xisto mais emblemáticas da Lousã: Cerdeira, Candal, Catarredor, Vaqueirinho, Chiqueiro, Casal Novo e Talasnal. Todas elas são visitáveis de carro, com a visita a implicar muitas curvas e contracurvas até lá chegar, por vezes em estradas estreitas e com vistas vertiginosas. Mas é percorrendo a serra a pé que percebemos quão difícil era o acesso a estas aldeias antes de o alcatrão chegar até elas, e a razão pela qual começaram a ser abandonadas nos anos 50, só voltando lentamente à vida a partir das duas últimas décadas do século passado.

É precisamente junto ao Castelo da Lousã que se inicia um destes percursos pedestres cheios de atractivos, que nos leva pela serra acima até duas das aldeias do xisto mais bem recuperadas desta região: Talasnal e Casal Novo. O PR2 da Lousã é um trilho circular com 6 km de extensão, mas devido aos seus grandes desníveis (alguns trechos são bastante íngremes) não se torna fácil percorrê-lo, seja em que sentido for (aconselha-se o sentido horário), e convém estar em relativamente boa forma física. Desenvolve-se tanto no meio de vegetação cerrada, rasgada por belíssimos cursos de água, como em zonas abertas que proporcionam vistas para paisagens desafogadas.

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A primeira aldeia a que chegamos é o Talasnal. Ao contrário de quem vem pela estrada, neste percurso entramos pela parte que se encontra mais abaixo na encosta, onde algumas casas ainda estão em ruínas – e acreditem-me, vale bem a pena todo o esforço feito para lá chegar, porque este lado da aldeia é fascinante. Depois há que passear pelas ruazinhas que se enroscam umas nas outras, entre casas cheias de pormenores rústicos e artesanais, às vezes naïf. Atentem nas janelas, tão encantadoras que até já lhes dediquei um post.

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O trilho continua até ao Casal Novo, onde as casas parecem escorrer pela encosta ao longo de uma rua central. Também aqui entramos “pela porta das traseiras” e percorremos a aldeia no sentido ascendente. Mais pequena e simples do que a sua vizinha, a aldeia do Casal Novo tem o atributo de ser um excelente miradouro sobre a vila da Lousã. A seguir encetamos o caminho de regresso ao castelo, agora sempre a descer, por um trilho largo mas bastante inclinado, que pode tornar-se escorregadio quando o tempo está húmido – e humidade é coisa que não costuma faltar na Serra da Lousã, frequentemente envolta numa neblina tão densa que mal deixa ver a estrada.

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Contornando a serra, em curvas, contracurvas e mais curvas, que tornam longínquas as distâncias mais curtas mas nos compensam com paisagens soberbas, vamos visitar outras duas aldeias do xisto. A primeira é Aigra Nova, e é uma boa surpresa. Pequenina e compacta, com casas bem recuperadas, duas delas estão ocupadas pelos núcleos do Ecomuseu Tradições do Xisto. Uma das exposições incide sobre a natureza na Serra da Lousã e a outra sobre a etnografia das aldeias do xisto que pertencem ao concelho de Góis. Na loja do Ecomuseu há produtos artesanais à venda, café e muita simpatia.

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Ao sairmos da aldeia, um rebanho de cabras gulosas pasta livremente pela encosta, indiferentes à beleza do manto vegetal colorido que cobre a serra e ao céu rosado do final de tarde.

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Dois quilómetros mais à frente e já com a luz a desaparecer, chegamos a Aigra Velha. À cota de 770 metros acima do nível do mar, entre todas as aldeias do xisto é a que está situada a maior altitude. Há meia dúzia de casas com ar de desabitadas, uma mais alta e recém-recuperada, as outras muito baixinhas, e todas estão fechadas – talvez pelo adiantado da hora, talvez por ser fim-de-semana, ou talvez por estar frio. A leste, no horizonte, a réstia de claridade ainda nos deixa ver a crista rochosa dos Penedos de Góis. No ar, a promessa de mais um dia à descoberta das paisagens desta região.

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Coimbra, Lousã, Góis: cidade, serra e água num roteiro de 3 dias - parte 2 - A serra e o xisto

 

Qua | 07.12.22

Coimbra, Lousã, Góis: cidade, serra e água num roteiro de 3 dias - parte 1

A cidade e o rio

 

O distrito de Coimbra estende-se do litoral até ao interior serrano e, não sendo um dos maiores do país em termos de área, é sem qualquer dúvida um dos que apresenta maior variedade e riqueza de paisagens, histórias e culturas. Associada à fundação de Portugal, a cidade de Coimbra é um manancial de descobertas e aprendizagens – ou não fosse ela a cidade universitária mais famosa e mais cheia de tradições, algumas delas velhas de séculos. É por isso o sítio certo para começar este roteiro de três dias por uma das regiões do nosso país de que mais gosto, e aonde nunca me canso de voltar e ser surpreendida.

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Dia 1

 

Coimbra, cidade secular

 

Coimbra é e será sempre a nossa cidade dos estudantes. Em nenhuma outra localidade portuguesa a tradição universitária está tão presente e tem tanta História. Embora o “Estudo Geral” tenha sido fundado em Lisboa e durante vários séculos alternado entre a capital e Coimbra, em 1537 D. João III decidiu que a instituição universitária ficasse definitivamente instalada nesta cidade. O que muita gente não sabe é que esta decisão levou ao planeamento de uma rua propositadamente dedicada ao desenvolvimento das instalações universitárias – uma rua vanguardista para a época, com grandes dimensões e implantada em linha recta, fora dos limites (na altura) amuralhados da cidade, onde os edifícios seriam construídos segundo padrões rigorosos, no melhor espírito renascentista, e cujo nome espelha essa intenção inicial: Rua da Sofia. É, pois, um óptimo ponto de partida para descobrir uma zona de Coimbra que é, por um lado, o coração da cidade mas, por outro, às vezes esquecida ou relegada para segundo plano numa visita, com o protagonismo a ser dado a áreas arquitectónicas mais monumentais, como o conjunto do Paço das Escolas, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha ou o Convento de São Francisco.

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Pelos cânones dos nossos dias, a Rua da Sofia já não é monumental nem impressionante, parece simplesmente uma rua com muito trânsito e onde o comércio tradicional ainda impera. Contudo, um olhar mais atento vai revelando pormenores que indiciam a sua importância: várias igrejas muito próximas umas das outras, muitos edifícios de traça antiga com varandas de ferro forjado, alguns revestidos a azulejo, montras e portas de lojas rematadas por colunas e frontões trabalhados, fachadas com brasões. Com sinais metálicos, letras brancas e laranja sobre cinza-antracite, o Município de Coimbra assinala as edificações mais relevantes – afinal de contas, a Rua da Sofia não é uma rua qualquer, pois faz parte do conjunto arquitectónico da Universidade de Coimbra que foi reconhecido pela UNESCO em 2013 como Património da Humanidade.

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Foi Frei Brás de Barros (na altura, por nomeação de D. João III, Reformador da Congregação da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, sediados no Mosteiro de Santa Cruz) que criou o plano para a Rua da Sofia, segundo o qual os vários colégios de ensino (na altura associados a ordens religiosas) seriam erigidos no lado nordeste da rua, enquanto o lado oposto seria reservado para habitação e comércio de apoio às instituições e seus alunos. Os primeiros colégios construídos foram os de São Miguel, Todos os Santos, Nossa Senhora do Carmo e do Espírito Santo, e mais tarde os da Graça e de São Pedro, já na extremidade norte da rua. Rompendo com os planos iniciais, no lado poente foram instalados os colégios de São Tomás e de São Boaventura e, em 1543, o novo Convento de São Domingos, cujo edifício primitivo tinha sido destruído pelas cheias do Mondego.

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Com a extinção das ordens religiosas masculinas em 1834, os edifícios dos colégios perderam a essência e foram progressivamente reconvertidos para outras finalidades. Se actualmente não é difícil identificar alguns dos antigos colégios, pelas suas igrejas – como as de São Pedro, da Graça e do Carmo – ou por continuarem a ser edifícios institucionais, como sucede com o Palácio da Justiça, que foi em tempos o Colégio de São Tomás, torna-se bem mais complicado perceber que há um mercado ou centro comercial instalado no Convento de São Domingos, que no antigo Colégio de São Boaventura há uma loja com grandes portas de vidro, e que o Colégio do Espírito Santo é só mais um edifício de comércio e habitação como os outros. Salva-se a originalidade de algumas lojas e a ausência (por enquanto) das grandes cadeias de fast food.

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A Rua da Sofia começa na Praça 8 de Maio, a data de entrada das tropas liberais em Coimbra no ano de 1834. É aqui que se encontram os Paços do Concelho, ocupando uma boa parte do antigo Mosteiro de Santa Cruz. Fundado em 1131 com o patrocínio do nosso primeiro rei, teve como estudante mais famoso da época medieval Fernando Martins de Bulhões – ou, como é mais conhecido, Santo António de Lisboa. Mas o que vemos hoje deste mosteiro é principalmente o resultado das obras efectuadas no século XVI, o que explica a preponderância de elementos do gótico tardio tanto na fachada principal da igreja como no interior.

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A extinção das ordens religiosas também afectou o Mosteiro de Santa Cruz, parte do qual acabou por ser destinado a outros fins. Mantiveram-se a igreja e a sua sacristia do século XVII (que tem pinturas de Grão Vasco e Cristóvão de Figueiredo), algumas capelas, o Claustro do Silêncio e o antigo refeitório. O interior da igreja não é exuberante, mas há vários elementos para os quais os olhos se desviam imediatamente. O mais chamativo de todos (pelo menos para mim) é o lindíssimo órgão barroco, uma peça muito harmoniosa no seu todo e invulgar pela cor avermelhada, que cria um contraste atractivo com o ouro dos ornamentos e a cor de chumbo dos tubos. As paredes estão decoradas até meia altura com azulejos barrocos, recortados no topo, que compõem painéis figurativos em azul e branco, e na abóbada de pedra há uma rede de nervuras rematadas por florões dourados.

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Vermelho e ouro repetem-se no altar-mor, ladeado pelos famosos túmulos de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I concebidos pelo escultor francês Nicolau de Chanterenne em estilo manuelino – de que os retábulos são obras-primas da estatuária, pela sua impressionante riqueza de pormenores. Do mesmo escultor são também o maravilhoso púlpito, cujo trabalho tão minucioso mais parece uma renda, e os baixos-relevos com cenas da Paixão de Cristo que se vêem no Claustro do Silêncio. A presença dos túmulos dos nossos primeiros dois reis levou a que ao Mosteiro de Santa Cruz fosse atribuído em 2003 o estatuto de Panteão Nacional (que divide com a Igreja de Santa Engrácia, com o Mosteiro dos Jerónimos e com o Mosteiro da Batalha).

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Contornando o quarteirão até à parte de trás do mosteiro vamos descobrir outra preciosidade, ainda desconhecida de muitos: o Jardim da Manga. A razão para este nome permanece um mistério (há uma lenda que o associa a D. João III, que teria supostamente ordenado a sua construção, mas não corresponde à verdade), mas ele já vem da época em que este jardim era um claustro do Mosteiro de Santa Cruz, construído em torno da magnífica fonte que ainda hoje continua a ser o centro das atenções. A obra foi concebida em 1530 pelo escultor e arquitecto francês João de Ruão, também a mando do prior frei Brás de Barros. Esta fonte, com uma cúpula sobre a bacia central rodeada por quatro capelas e oito tanques rectangulares, dispostos em forma de cruz e com pequenos repuxos de água, tem grande importância simbólica, por ser considerada a primeira obra arquitectónica completamente renascentista erigida no nosso país. É também uma das Fontes da Vida mais importantes da arquitectura europeia (na arquitectura cisterciense, a fonte da vida significava imortalidade).

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A edificação está decorada com colunas e arcos, escadas, gárgulas e volutas que terminam em cabeças de animais. Compondo a simetria do conjunto, quatro rectângulos de relva e duas laranjeiras, cujos frutos competem em cor com o amarelo-vivo escolhido para pintar o exterior do monumento. Apesar de estar situado junto a uma artéria bastante buliçosa de Coimbra, o Jardim da Manga transmite uma sensação de tranquilidade, de lugar à parte no mundo, impermeável ao que está do lado de fora, como que a convidar à reflexão – uma herança, talvez, da época em que foi um claustro monástico.

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Esta viagem temporal aos primórdios da cidade de Coimbra não poderia ficar completa sem uma visita à Sé Velha – por ter sido mandada construir por D. Afonso Henriques quando a cidade era capital do reino, e por ser a catedral românica da época da fundação de Portugal que terá sofrido menos alterações de fundo na sua estrutura e aspecto.

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As semelhanças entre esta Sé e a sua homónima de Lisboa parecem dever-se ao facto de terem sido concebidas pelo mesmo arquitecto, um tal de Mestre Roberto, que se supõe ter sido francês. De construção sólida, paralelepipédica, encimada por ameias, e com janelas tão estreitas que às vezes não passam de fendas, o seu ar de fortaleza medieval só é quebrado pelos volumes arredondados do exterior da capela-mor e pela Porta Especiosa, um portal renascentista particularmente belo que se destaca na fachada lateral norte da Sé. Esculpida em pedra de Ançã, mais clara do que a das paredes do edifício, a sua feitura atribui-se também a João de Ruão e Nicolau de Chanterenne.

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O interior é bastante simples, quase espartano, com abóbadas em pedra nua, e arcos e colunas sem grandes arrebiques a separarem as naves. A hegemonia é quebrada por quadros de dimensões avantajadas, pendurados nas paredes das naves laterais, inseridos em vãos com arco, alguns deles forrados a azulejo hispano-mourisco (que vieram do bairro de Triana, em Sevilha). Além de dois túmulos e uma primorosa pia baptismal, o destaque vai para o retábulo da capela-mor concebido no estilo gótico flamejante, muito elaborado e colorido.

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Talvez como reconhecimento pela sua longevidade, a Sé Velha está também intimamente ligada ao presente e à tradição estudantil de Coimbra, pois as suas escadas exteriores são o palco da serenata que dá início, todos os anos, aos festejos da Queima das Fitas nesta cidade.

 

Ao encontro do rio Ceira

 

Deixamos a cidade para trás e vamos em busca dos segredos de um dos rios mais fascinantes da região centro de Portugal: o Ceira. Precisaríamos de muitos dias para os descobrirmos todos, mas ficar a conhecer alguns já é recompensa suficiente. Tomamos a N17, que segue este rio durante alguns quilómetros até se apartar em direcção ao norte. A primeira paragem que fazemos é na praia fluvial da Bogueira, em Casal de Ermio. Deserta neste Outono que já vai avançado, o rio mais parece um espelho, e a pequena queda de água que se forma mais à frente apenas se ouve. Há um bar, agora fechado, um deck em madeira que será provavelmente uma esplanada na época alta, e outro mais à frente, onde imagino toalhas de praia estendidas e pessoas a apanharem sol. Um caminho de terra batida segue pela margem do rio, e as folhas dos plátanos pintam o chão em tons variados de castanho.

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Três quilómetros mais à frente na M552 novo desvio, desta vez para o Poço do Boque. Há uma ponte metálica para os carros, com separador pedonal, e depois desce-se até um lugar a que o adjectivo idílico é bem adequado: um açude por onde o Ceira escorre em desníveis vários, pouco íngremes, e em abundância (graças às chuvas que têm caído). O entorno é meio selvagem – o Poço do Boque não é considerado zona balnear – e isso aumenta o encanto do lugar. Junto às árvores há um pescador, imóvel, paciente na sua demanda por peixe fresco do rio. Os sons zen da natureza só são quebrados pelos latidos insistentes de um cão numa casa próxima (talvez não goste de forasteiros…), e pela passagem ocasional de um carro na ponte. É um daqueles sítios que ilustram bem a definição de bucólico.

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Passando Serpins, ao pé do parque de campismo, encontramos a praia fluvial da Senhora da Graça. Aqui o Ceira corre mais agitado entre as plataformas de cimento criadas para definir a praia fluvial. O local é arejado, tem uma grande área com relva e um parque infantil, um edifício baixo de apoio à praia e um café com esplanada, bastante frequentado neste dia em que o sol resolveu dar um ar da sua graça. Do outro lado da ponte, uma janela artesanal de madeira com letras naif publicita Serpins, e mais acima desenha-se o perfil da Igreja Matriz, com a sua torre sineira barroca em relevo contra o céu brilhante de azul e nuvens.

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O último destino no dia é mais um daqueles lugares excepcionais pela sua morfologia geológica: a garganta de Cabril do Ceira. Aqui, o rio passa apertado entre maciços quartzíticos de altura respeitável, e o efeito é impressionante. Caprichoso, mostra-se tranquilo até passar as portas rochosas, mas a partir daí desata aos saltinhos sobre o leito irregular, soltando espuma, abrindo caminho entre os abetos e eucaliptos jovens que povoam as margens. Consta que no Verão está mais calmo e transforma-se numa lagoa maravilhosa para banhos, mas neste crepúsculo outonal o ambiente é propício para deixar a imaginação correr solta. Nem sequer falta um túnel misterioso, escuro e húmido, cavado na serra algures no século passado para uma suposta ligação ferroviária, que me faz sentir como que transportada para um filme de aventuras.

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Definitivamente, “monótono” não é adjectivo que se aplique a uma viagem em Portugal.

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