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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 25.11.22

No sobe-e-desce das Cinque Terre

 

Imaginem um pedaço de costa europeia banhado pelo Mediterrâneo, com colinas altas que descem vertiginosamente até à água. Imaginem que nestas encostas há socalcos com vinhedos, limoeiros e oliveiras, definidos por muros de pedra, e trilhos pedestres criados por séculos de povoamento. Imaginem ainda que junto ao mar e no topo das colinas há pequenas aldeias com casas coladas umas às outras, coloridas como rebuçados, trepando pelos declives, as de cima espreitando sobre as que estão mais abaixo. Agora coloquem tudo isto num dos países mais fascinantes da Europa – a Itália – e com o selo de Património Mundial da UNESCO. O resultado são duas pequenas palavras: Cinque Terre. É por aqui que agora vos convido a passear.

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Apesar de haver vestígios do seu povoamento desde pelo menos a época romana, esta estreita faixa de terra costeira a sul de Génova, na região da Ligúria, só passou a ser conhecida como Cinque Terre por volta do século XV, reportando-se a cinco pequenas aldeias com semelhanças geográfico-territoriais e económicas: Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. Nestas aldeias, durante muito tempo remotas, os habitantes dedicavam-se à pesca e simultaneamente à agricultura, aproveitando as riquezas do mar e dos solos para a sua subsistência. Hoje como ontem, no mar pescam sobretudo a anchova, entre Junho e Setembro, pelos métodos tradicionais com lâmpadas ou com redes de cerco. Aperfeiçoaram também as técnicas de conservação deste peixe, fumando-o ou preservando-o em óleo ou sal – é famosa a anchova salgada de Monterosso. Na agricultura, o relevo acidentado e a sua orientação, com boa exposição ao sol e ao abrigo dos ventos de norte, levou à escolha da videira como planta de eleição para cultivo, a par da oliveira. Os terrenos foram desmultiplicados em socalcos, estabilizados por muros de granito, e o vinho e azeite aqui produzidos são de qualidade reconhecida.

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Considerada “paisagem cultural viva”, a região das Cinque Terre foi integrada em 1997 na lista do património protegido pela UNESCO, e em 1999 foi delimitada como parque nacional, abrangendo também uma área marítima. Em toda a área do parque estão definidos percursos pedestres, alguns dos quais foram durante séculos a única ligação entre as várias aldeias e entre elas e o interior do país. Há percursos de vários tipos, tanto em meio rústico como urbano, e com vários níveis de dificuldade, o que faz desta região um destino ideal para quem gosta de caminhar. O mais famoso destes trilhos é o Sentiero Azzurro, que liga as cinco aldeias – o trecho que liga Riomaggiore a Manarola é tão romântico que lhe puseram o nome de Via dell’Amore.

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Como contraponto à melhoria das condições de vida dos seus habitantes permanentes, o aumento da popularidade das Cinque Terre como destino turístico tem trazido alguns problemas. O trabalho ligado ao turismo tornou-se uma alternativa mais fácil e mais rentável, e cada vez menos pessoas se dedicam ao cultivo das terras. O abandono da agricultura levou à deterioração das condições dos terrenos, instáveis por natureza, e dos muros que os sustêm, o que se torna problemático quando ocorrem chuvas torrenciais – ainda está na memória de todos a enxurrada de 2011, que devastou uma grande parte de Monterosso e Vernazza, e cujos efeitos demoraram vários anos a ser ultrapassados. À data de hoje, dois troços do Sentiero Azzurro (de Corniglia a Manarola e de Manarola a Riomaggiore, a famosa Via dell’Amore) continuam encerrados devido a deslizamentos de terras, e só se prevê que reabram dentro de dois ou três anos, no mínimo. Apesar dos esforços desenvolvidos nas últimas décadas para incentivar o turismo responsável e sustentável, e pese embora as Cinque Terre continuem a atrair muitos adeptos da caminhada, a maioria dos visitantes hoje em dia concentra-se sobretudo nas aldeias junto ao mar.

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Não é difícil perceber porquê. As Cinque Terre estão ligadas entre si por uma linha férrea que corre junto ao mar e nos deixa, a intervalos de poucos minutos, no coração de cada uma das aldeias. A excepção é Corniglia, a única que está situada no cimo de um promontório, mas cujo acesso ao comboio é facilitado por um pequeno autocarro em constante vaivém entre a aldeia e a estação; ou, em alternativa, por uma escadaria – tão icónica que até tem nome próprio: Lardarina. Esta ligação ferroviária foi construída durante a segunda metade do século XIX como parte do projecto de unir as cidades de Ventimiglia, na Ligúria (junto à fronteira com a França), e Massa, na Toscânia. Uma empreitada que não se revelou fácil devido ao recorte acidentado da costa liguriana, sobretudo na região das Cinque Terre, e que obrigou à construção de 23 pontes e 58 túneis (que totalizam 28 km) ao longo dos 44 km deste troço da obra. A linha só ficou pronta em 1874, e foi um passo gigante para contrariar o isolamento a que estas aldeias estavam votadas. Concebida com uma única linha, obviamente para reduzir despesas, só nos anos 70 do século passado é que foi alargada para duas vias, facilitando ainda mais o acesso à região – e catapultando-a para a popularidade turística. Actualmente, o comboio das Cinque Terre corre entre Levanto, a norte, e La Spezia, a sul, com intervalos de mais ou menos 15 minutos na época alta (entre fins de Março e inícios de Novembro), e levando a bordo centenas de pessoas em cada viagem. É o meio de transporte preferido pela maioria dos cerca de 2 milhões e meio de visitantes anuais que a região recebe.

Outro meio de transporte popular para visitar a região na época alta é o barco. Modernas e rápidas, as embarcações que prestam este serviço funcionam com horários regulares, que vão variando ao longo do ano, sobretudo entre Porto Venere (perto de La Spezia) e Monterosso. Apenas não param em Corniglia, onde não existe cais, e têm como maior atractivo oferecerem a possibilidade de admirarmos a costa e as aldeias de outra perspectiva, já que elas estão todas viradas para o mar.

Cinque Terre 7.jpegEvidentemente, ir de carro também é uma opção, mas só aconselhável na época baixa. As aldeias têm parques de estacionamento à entrada (no interior, as vias são quase exclusivamente pedonais), mas são pequenos e francamente insuficientes para o enorme afluxo de visitantes da região. Além disso, são pagos, e não são baratos.

 

A oferta de alojamento nas Cinque Terre não é abundante. A maioria dos visitantes ficam alojados nas cidades vizinhas de La Spezia ou Levanto, onde há mais variedade e a preços mais em conta. Pessoalmente, acho mais compensador ficar a dormir numa das aldeias, para poder usufruir completamente da experiência. Quando lá estive fiquei alojada em Vernazza, e foi uma excelente opção. Ao segundo dia, o bem-disposto dono do snack-bar onde tomávamos o pequeno-almoço já nos conhecia e conversava connosco. E jantar ao lusco-fusco num dos restaurantes da piazza junto ao porto, na atmosfera tranquila que se instala depois do êxodo da maré de turistas, é muitíssimo agradável.

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MONTEROSSO AL MARE

 

Monterosso é a localidade que fica mais a norte e a maior das cinco, com uma população de cerca de dois mil residentes – mais vila do que aldeia, na verdade. É sobretudo famosa pela sua extensa praia de areia clara e vibe de estância balnear. Na realidade, tem duas faces bem distintas: uma mais moderna e cheia de movimento; a outra mais recatada, onde ainda pairam algumas memórias dos tempos em que esta povoação era apenas uma aldeia piscatória. A separação entre as duas é bem nítida e está marcada pela torre Aurora, erguida num promontório rochoso sobre o mar, e pelo seu vizinho Convento dos Frades Capuchinhos, construído no cimo do monte San Cristoforo. São as testemunhas mais antigas da história da localidade, que se reporta à época romana. A torre que hoje existe, construída sobre o local de outra mais antiga, data do século XVI. Quanto ao convento, foi criado na primeira metade do século XVII, e desde então teve períodos de actividade alternados com outros de abandono. A partir de 2006 voltou a dedicar-se à sua vocação espiritual inicial, pese embora aberto a actividades turísticas.

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A zona leste de Monterosso é conhecida como Fegina, o nome da praia e da avenida que a acompanha. É nesta avenida que ficam a estação de comboio, a pequena mas engraçada igreja de Sant’Andrea e, no extremo, a estátua do Gigante, como é conhecida localmente – uma representação de Neptuno com uns impressionantes 14 metros de altura, esculpida em 1910 como parte da decoração da Villa Pastine. Infelizmente, estava tapada para reparações quando lá estive. A Via Fegina tem antigos palacetes transformados em hotéis, fachadas com buganvílias, loendros e outras árvores de pequeno porte, esplanadas simpáticas e um passeio pedonal a todo o comprimento. Um rochedo fotogénico compõe a paisagem marítima, melhor apreciada ao fim da tarde enquanto se saboreia um gelado.

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Na extremidade oeste da Via Fegina, um túnel deixa-nos no acesso ao bairro medieval, onde o ambiente de praia desaparece e é substituído pelo de uma aldeia. Uma aldeia turística, sem dúvida, mas bastante diferente da outra metade. Na praça de entrada, o campanário de pedra da igreja de São João Baptista – que foi em tempos uma torre de vigia pertencente às fortificações construídas no século XIII – contrasta com as riscas em mármore negro e branco da fachada e das colunas que separam as naves no interior do monumento. As riscas bicolores repetem-se no Oratório da Confraternidade Mortis et Orationis, quase ao lado da igreja, que por sua vez contrastam com as tonalidades vivas dos edifícios entre os quais está encaixado. Nas ruas e pracetas, que parecem ter sido feitas para descansar, há toldos listrados e bancos de madeira. As ruelas são cruzadas por arcos, e as cores vibrantes das casas combinam com as das flores que estão espalhadas por todo o lado, em grandes vasos ou espreitando sobre os muros. Há toalhas de praia a secar nas varandas de ferro forjado, e as janelas estão protegidas com venezianas pintadas de verde-escuro. É aqui que se sente verdadeiramente a atmosfera das Cinque Terre.

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VERNAZZA

 

A paisagem de Vernazza é dominada pelas ruínas do “castrum”, uma fortificação defensiva acastelada que data do século XI. O ex libris da localidade é a Torre Doria, bem visível no topo da falésia que brota abruptamente das águas do mar da Ligúria, a mais de 70 metros de altura. A aldeia tem uma única rua principal, a Via Roma, que desce até ao porto. Dela saem ruelas e escadinhas, tão irregulares como ramos de uma árvore. Passear por Vernazza é um sobe-e-desce constante, ora viramos para um lado, ora para outro, numa desorientação total que acaba por nos deixar longe do sítio para onde queríamos ir. O bónus é descobrir perspectivas diferentes sobre o mar de casas que escorrem pela encosta, e sobre os marcos arquitectónicos que se destacam contra as vinhas, os penhascos e o azul-esmeralda da água: as torres, o Convento de São Francisco, e a Igreja de Santa Margarida de Antioquia.

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A inundação de 2011 danificou quase todos os edifícios da aldeia e deixou toneladas de lama na Via Roma. Foram necessários dois anos para recuperar aquela que é muitas vezes definida como “a pérola das Cinque Terre”. Hoje já não há quaisquer vestígios da tragédia, e Vernazza recuperou todo o seu esplendor. Os pisos térreos das casas, que têm no máximo meia dúzia de andares, e na sua maioria menos do que isso, estão ocupados com lojas, cafés e restaurantes. Na estação de comboio há pessoas a entrar e sair a toda a hora, e o ruído das rodas dos trolleys é uma constante.

O porto de abrigo está definido por um pequeno paredão, que protege umas quantas dezenas de barcos de pescadores, muitos dos quais acumulam funções turísticas. Há também uma praia minúscula com areia escura que, apesar de não ser muito convidativa, é bastante procurada quando o tempo está mais quente – ou até mesmo à noite, para uma partida familiar de futebol. Acima da praia, o olhar é atraído pela igreja de Santa Maria de Antioquia, com a sua torre sineira octogonal coroada com arcos e uma cúpula em ogiva. Em contraste, o corpo do edifício é em pedra escura, marcada pelos séculos, denunciando o estilo românico original deste monumento religioso, que é um dos mais famosos das Cinque Terre.

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Paredes-meias com a igreja, uma piazza repleta de esplanadas e rodeada de edifícios em cores pastel, onde apetece fazer uma refeição ao final da tarde, quando as sombras avançam sobre as colinas e a luz do sol é gradualmente substituída pela dos candeeiros, reflectindo-se nas águas do porto. Um verdadeiro cenário romântico italiano.

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CORNIGLIA

 

Está posicionada centralmente em relação às suas “irmãs” e difere delas porque não está ao nível do mar, mas sim num promontório 90 metros mais acima, encaixada entre vinhedos. A sua posição privilegiada permite-lhe também ser a única que tem um miradouro de onde se avistam simultaneamente as outras quatro aldeias. E é, de todas elas, a mais pequena e mais tranquila.

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Há quem considere Corniglia como a menos atractiva das Cinque Terre, mas eu discordo totalmente. É uma aldeia cheia de cor, e de recantos e caminhos perfeitamente deliciosos. A ausência de uma ligação directa ao mar é largamente compensada pela sua originalidade e pelos pormenores surpreendentes que encontramos em todo o lado. Em vielas estreitinhas, as lojas e restaurantes parecem competir entre si pela fachada mais fora do comum, seja com elementos decorativos extravagantes, com trepadeiras ou vasos cheios de flores garridas, ou com peças de artesanato que chamam a atenção. Casas de pedra exposta alternam com outras pintadas em cores de rebuçado, e alguns recantos fazem lembrar as aldeias portuguesas: ferros forjados, sardinheiras e roupa a secar ao sol.

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O Largo Taraggio é o ponto central de Corniglia, rodeado de cafés e restaurantes, esplanadas e bancos para descansar. Subindo umas escadas, o Oratório dos Disciplinados de Santa Catarina, e por trás dele um terraço com vistas magníficas para o mar e a costa. No extremo oposto da aldeia, a igreja de São Pedro, monumento religioso do século XI com exterior gótico – onde dá nas vistas uma lindíssima rosácea em mármore branco, nitidamente recuperada em tempos recentes – mas barroca no interior, com paredes e piso em branco e preto e tectos abobadados cobertos de pinturas muito coloridas.

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Obrigatório em Corniglia é percorrer a Scalinata Lardarina, uma escadaria de tijolo com 382 degraus distribuídos por 33 patamares. Liga a aldeia à estação de comboio, e os mais corajosos atrevem-se a subi-la. Quanto a mim, optei pelo melhor dos dois mundos: subi de autocarro até à aldeia, e desci pela escadaria no regresso à estação.

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MANAROLA

 

Manarola começou a crescer no século XII, quando uma parte dos habitantes da aldeia de Volastra (situada poucos quilómetros mais acima na encosta) desceram para se instalarem junto ao mar e resgatarem novos terrenos para cultivo. Em 1276 passou a ser governada por Génova, e a arquitectura das suas casas-torre, empoleiradas na falésia de rocha compacta, é testemunha das influências genovesas que perduram até hoje. Da época medieval, quando toda a costa liguriana estava sujeita aos ataques de piratas, restam meros vestígios do bastião defensivo do castelo, actualmente meio despercebido entre as casas de habitação construídas sobre e à volta das suas ruínas.

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Também aqui, as vinhas trepam pela encosta, disputando o espaço com as habitações, e criam um contraste encantador. A aldeia de Manarola é um puzzle intrincado de casas que parecem caixas de fósforo e ruelas estreitas que se transformam em escadarias de xisto, desdobrando-se e serpenteando em ladeiras que pedem muito fôlego e energia para percorrer – mais ainda nos dias quentes de Verão.

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Um longo túnel liga a estação de comboio à rua principal da localidade, que a percorre a todo o comprimento, de leste para oeste. Subindo, chegamos à igreja de São Lourenço, construída em 1338 em estilo gótico, mas com pormenores barrocos no interior. Em frente está a Torre Sineira, que foi em tempos uma torre de vigia. Ao lado da torre, um excelente miradouro sobre o casario de Manarola com o mar por fundo, e mais ao lado, encostado a umas escadinhas que se perdem entre as casas pintadas de cores quentes, o Oratório dos Flagelados.

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Descendo até ao outro extremo da aldeia, entre lojas e restaurantes, chegamos ao porto de abrigo, que acumula as funções de praia. Não é uma praia tradicional – são apenas rochedos, alguns com uma altura respeitável, no meio dos quais foi construída uma rampa de acesso para as embarcações – mas é muito concorrida na época alta, sobretudo pelos mais jovens, que estendem as toalhas em qualquer saliência ou nesga de rocha mais plana e depois passam o tempo exibindo-se em saltos para a água, no meio de gritos de excitação.

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Depois há que voltar a subir, trepando pelas escadinhas e caminhos construídos no promontório do lado norte de Manarola, a Punta Bonfiglio. Chegamos ao cimo com os bofes de fora, mas a recompensa é grande: de um lado, a vista de postal ilustrado sobre o porto, a falésia e parte da aldeia; do outro, uma visão da costa até Corniglia e mais além.

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É aqui que há um bar com esplanada (o Nessun Dorma) que é provavelmente o mais espectacular das Cinque Terre, não pelo bar em si mas pela vista. Também há um jardim com área de piquenique e parque infantil, cheio de árvores e flores, a que chamam “Paradiso” e que é gerido e arranjado por voluntários que habitam na aldeia – ou, pelo menos, é isso que se declara em azulejos pintados à mão e afixados num muro.

Manarola é também palco de uma tradição natalícia curiosa que, só por si, deve valer bem a pena uma visita em Dezembro. Publicita-se como o Maior Presépio do Mundo, e é inaugurado todos os anos em princípios de Dezembro, mantendo-se até fins de Janeiro. Foi idealizado e começou a ser construído em 1976 por um senhor de nome Mario Andreoli, nos socalcos da encosta norte da aldeia. É composto por mais de 300 figuras em tamanho natural, feitas com materiais reciclados ou inutilizados, e para além dos personagens tradicionais de qualquer presépio todos os anos são acrescentadas novas figuras (no ano da pandemia foram adicionados médicos e enfermeiros). A iluminação é ligada todos os dias, entre as cinco da tarde e as dez da manhã seguinte, e fornecida por oito quilómetros de cabos eléctricos e 17 mil lâmpadas – alimentadas desde 2008 por uma instalação fotovoltaica construída especialmente para o efeito, uma prova de que mesmo as maiores atracções turísticas podem ser ambientalmente sustentáveis.

 

RIOMAGGIORE

 

Situada no vale do curso de água que lhe dá o nome (um pequeno ribeiro, que agora corre num túnel por baixo da aldeia), Riomaggiore não é muito diferente das suas vizinhas. A norte e sul da via principal, as casas trepam pelas escarpas, parecendo nascer umas das outras, com os seus telhados de ardósia e as suas cores fortes. Diz a tradição oral que o uso destas cores chamativas servia para que os pescadores, ao regressarem ao porto, conseguissem identificar de longe a sua habitação, mesmo quando o tempo dificultava a visibilidade.

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O acesso a partir da estação também é feito por um longo túnel rasgado sob a serrania. O tecto abobadado está pintado de um azul brilhante, e os muitos metros de parede são uma obra de arte e paciência: um mural de 200 metros de comprimento com uma sequência de mosaicos compostos por pedaços de azulejo que formam desenhos variados, alguns facilmente identificáveis, outros abstractos, misturados com pedras e seixos, pedaços de mármore, espelhos, conchas e peças em cerâmica. O projecto é do artista Silvio Benedetto, que executou todo o trabalho manualmente, no local, e lhe deu o nome de “Sequência da memória”. A assinalar o meio do túnel, a reprodução de uma grande e multicolorida estrela do mar.

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O túnel desemboca no centro da aldeia. Para cima e para sul, a zona mais rural. Para baixo, na direcção do mar, o bairro dos pescadores, parcialmente construído sobre rocha. Também aqui há um pequeno porto, com rochedos e praias de pedra de ambos os lados, acessíveis por um caminho cimentado que percorre a orla marítima para sul. Há barcos a remos em quantidade, dentro de água e fora dela, e lojas que anunciam passeios ou vendem bricabraque turístico ao lado de restaurantes, mas nem sombra de ambiente de aldeia piscatória.

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Para norte do bairro dos pescadores, no topo da colina de Cerricò, o castelo. É novamente preciso subir, e subir ainda mais, por ruazinhas em declive ou escadinhas que passam por baixo das casas, até que finalmente deparamos com as muralhas. Lá em cima, como seria expectável, a vista é soberba e desafogada: casas entre vinhas para um lado, casas sobre o mar para o outro, e as balaustradas da interditada Via dell’Amore a definirem o contorno das formações rochosas obliquamente estratificadas. Ao lado do castelo, o Oratório de São Roque, construído depois de uma praga que assolou a região e exteriormente algo insípido (e a precisar de ser pintado). Descendo para a Via Pecunia, a igreja gótica de São João Baptista e, na rua mais abaixo, o Oratório de Santa Maria Assunta. Tal como nas outras aldeias das Cinque Terre, a quantidade de lugares de culto numa localidade tão pequena mostra bem o peso que a igreja católica sempre teve, e continua a ter, nesta região italiana.

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Embora unidas pela geografia comum, cada uma das Cinque Terre tem as suas características particulares, e se parecem quase iguais umas às outras quando as vemos em fotografia, facilmente percebemos as suas dissemelhanças quando as visitamos. Qual delas é a mais bonita? As respostas vão variar tanto quantas forem as pessoas a quem fizerem a pergunta. Cada um sentirá mais afinidades com uma ou com outra, ou terá uma experiência mais marcante nesta ou naquela. Ou então será mesmo incapaz de escolher, porque todas elas têm qualquer coisa de especial. Mas uma coisa é certa: ninguém sai de lá desiludido.

 

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No sobe-e-desce das Cinque Terre

Ter | 15.11.22

Alentejo raiano

É a maior região geográfica de Portugal, mas a sua densidade populacional é um quinto da densidade média do país, e esta amplidão de espaços desabitados é tão maior quanto mais nos aproximamos da fronteira com Espanha. Felizmente, falta de gente não é sinónimo de falta de lugares interessantes, e a pequena fatia do Alentejo que hoje vos proponho visitar é uma prova disso. Se o mood for passar um fim-de-semana longe da confusão, comer bem e descobrir locais quase secretos e meio misteriosos, este é o roteiro ideal. Vamos passear?

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Dia 1

Com raízes pré-históricas e foral concedido no séc. XIV por D. Dinis, que terá ordenado a construção do castelo que ainda hoje existe (as origens do castelo estão envoltas em dúvidas), a vila do Redondo exemplifica bem aquilo que esperamos de uma povoação alentejana: casas caiadas, com barras em amarelo ou azul, baixas e bem alinhadas; ruas calcetadas com pedra negra; igrejas e capelas simples; o branco que reflecte o sol e dá a impressão de que está tudo lavado de fresco; o sossego. E é aqui que começamos este nosso passeio.

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Na Praça da República, o piso de calçada portuguesa desdobra-se em padrões geométricos, rodeado por edifícios institucionais – Câmara, Tribunal, Conservatória – casas meio apalaçadas, um fontanário antigo e o Museu Regional do Vinho, que funciona também como posto de turismo e loja. O museu expõe, como é óbvio, objectos e instrumentos agrícolas ligados à vitivinicultura, reproduzindo as várias fases de uma das actividades mais importantes desta região.

 

Museu Regional do Vinho

Praça da República, 7170-011 Redondo

https://www.facebook.com/museudovinhoderedondo/

Horário (de terça a domingo) – Verão (Abril a Outubro): 10h-12h30 e 14h-19h / Inverno (Novembro a Março): 10h-12h30 e 14h-18h (encerra às segundas-feiras e nos dias 1 de Janeiro, domingo de Páscoa, 1 de Maio e 25 de Dezembro)

Informações: telefone +351 266 909 100  e-mail: museudovinho@cm-redondo.pt

 

Mas o verdadeiro coração da vila não é esta Praça, antes está algumas ruas ao lado, na Praça Dom Dinis. É aqui que fica a Porta do Sol, aberta nas muralhas para dar passagem à rua do Castello (na sua grafia antiga, tal como escrita nos azulejos cravados na parede), de um lado a Igreja Matriz e do outro a torre sineira, provavelmente o postal mais conhecido do Redondo. No extremo oposto da rua, outra imagem icónica, esta porque ilustra uma marca de vinhos sobejamente conhecida no nosso país: a Porta da Ravessa. Um terceiro acesso ao interior das muralhas faz-se pela escadaria junto à Torre de Menagem – que, curiosamente, é redonda na sua face exterior.

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A olaria é um dos produtos artesanais mais famosos do Redondo. Em tempos, o concelho chegou a ter 40 olarias em funcionamento, hoje não chegam a uma dezena. A preservação da memória e a valorização desta actividade levaram à criação em 2009 do Museu do Barro, instalado no Convento de Santo António, monumento religioso seiscentista mandado edificar pelo 5º Conde de Redondo e que foi local importante de romaria até meados do séc. XX. Além do espaço expositivo, o museu organiza workshops e visitas às olarias da região.

 

Museu do Barro

Convento de Santo António, Alameda de Santo António, 7170-056 Redondo

https://www.cm-redondo.pt/visitante/a_nao_perder/museu-do-barro/

Horário (de terça a domingo): 10h-12h30 e 14h-18h (encerra às segundas-feiras e nos dias 1 de Janeiro, domingo de Páscoa, 1 de Maio e 25 de Dezembro)

Informações: telefone +351 266 989 216  e-mail: museudovinho@cm-redondo.pt

 

De dois em dois anos, em fins de Julho e inícios de Agosto, a vila do Redondo é palco de animação excepcional, o acontecimento a que simplesmente chamam Ruas Floridas. As ruas são decoradas pelos seus moradores com flores e objectos feitos de papel colorido, segundo um plano que é decidido e começado a preparar muitos meses antes. As origens deste evento tradicional remontam a meados do séc. XVIII, nas festas populares que eram dedicadas à padroeira da vila, Nossa Senhora de Ao Pé da Cruz. O cariz essencialmente religioso desapareceu mas as festas continuaram, agora abrilhantadas por espectáculos musicais, animações de rua, exposições e actividades afins. Para apoiar o evento e difundir a arte de trabalhar o papel foi criada a Oficina das Ruas Floridas, que funciona simultaneamente como espaço para exposições, centro de recursos e núcleo de formação. Estão expostos trabalhos em papel que pertenceram às decorações de edições passadas do evento, e que vão sendo regularmente renovadas.

 

Oficina das Ruas Floridas

Rua Prof. Dr. Hernâni Cidade 23, 7170-001 Redondo

http://arquivo2020.cm-redondo.pt/pt/site-viver/Cultura/Equipamentos/Paginas/Oficina-das-Ruas-Floridas.aspx

Horário (de terça a domingo) – Verão (Abril a Outubro): 10h-13h e 14h-19h / Inverno (Novembro a Março): 10h-13h e 14h-18h

Informações: telefone +351 266 989 220  e-mail: oficina.rfloridas@cm-redondo.pt

 

Com cerca de uma vintena de restaurantes, o Redondo é também o sítio ideal para experimentar os pratos típicos da gastronomia alentejana: as açordas e as afamadas migas, as sopas de tomate ou de cação, ou ainda as de feijão com poejos e bacalhau, que são o prato tradicional das quartas-feiras de cinzas no Redondo; e também as bochechas com vinho tinto, a mais popularizada carne de porco à alentejana, ou uns sempre bem vindos ovos mexidos com farinheira.

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Saímos do Redondo para ir à descoberta de um segredo com alguns milhares de anos. Já ouviram falar no Endovélico? Este é o nome dado a uma divindade pré-romana, possivelmente com origens na Idade do Ferro, associada à cura das doenças e à segurança das pessoas. Posteriormente romanizado, o culto do Endovélico popularizou-se por todo o Império Romano, mas sempre com especial incidência na Lusitânia. Vestígios deste culto foram encontrados ou subsistem nas proximidades da ribeira de Lucefécit, que pertence à bacia do Guadiana e corre entre Terena e o Alandroal. No local identificado como São Miguel da Mota existe um sítio arqueológico que terá sido um santuário de devoção ao Endovélico erguido (provavelmente) no século I d.C., mais tarde cristianizado com a construção de uma capela dedicada a São Miguel. Mas o santuário mais antigo que se supõe dirigido ao culto desta divindade fica mais a norte, mesmo junto à ribeira, e dão-lhe o nome de Rocha da Mina.

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Como bom segredo que é, não é fácil de encontrar: contem com percurso em estrada de terra batida e mais um bocado a pé, se optarem pelo caminho mais curto (está identificado no Google Maps). Descobri-lo assim faz parte da experiência, que é memorável. Entre duas curvas da ribeira, que corre entre árvores, ergue-se um afloramento granítico magnífico a que o tempo e a erosão deram formatos algo estranhos. Subindo a encosta, descobrimos degraus talhados na rocha até aquilo que se supõe ter sido um balcão de sacrifícios (de animais, claro, não deixem a vossa imaginação tirar conclusões precipitadas…). Na parte de trás, mais abaixo, há ruínas de construções habitacionais.

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Uma boa parte do percurso da ribeira está seco, com excepção de um grande charco, e em redor do local não se vê vivalma. O silêncio é quase total, às vezes ouve-se um pássaro ou um ramo que estala, o restolhar das folhas calcadas pelos nossos pés. O ambiente é envolvente, meio sombrio, parece ter uma carga mística própria – e percebe-se porque é que terá sido escolhido para lugar de culto. Daqui saímos com a cabeça mais leve e as energias repostas.

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Terena é a próxima paragem. Esta vila pequena e muito antiga – o primeiro foral data do século XIII – parece dividida em duas. Uma parte mais recente, plana, com umas quantas ruas desenhadas a régua e esquadro, casas perfiladas de ambos os lados, maioritariamente de piso térreo com telhado de duas águas, muito simples e muito brancas, com quintais povoados por laranjeiras e oliveiras, um jardim público bem cuidado, uma capela e uma ermida, ambas singelas e despidas de ornamentações externas. E o bairro de acesso ao castelo, mais alto em relação à vila e com ruas mais estreitas, um casario algo irregular onde se destacam as grandes chaminés, como é típico da região alentejana. Encontramos primeiro a Igreja Matriz, consagrada a São Pedro, também ela muito branca, ornamentada com faixas azuis. Mais acima, a Torre do Relógio, ao lado do pelourinho e anexa à Igreja da Misericórdia, e logo a seguir a casa dos Antigos Paços dos Concelho, facilmente identificada pela escada em pedra que ocupa grande parte da fachada.

Sobranceiro à vila, o Castelo de Terena não é particularmente espectacular: uma muralha de dimensões modestas, encimada por ameias e com um formato algures entre o triangular e o pentagonal, uma torre de menagem despretensiosa e algumas torres e bastiões. Mas a localização elevada deste castelo faz dele um excelente miradouro. A norte estende-se a albufeira da Barragem de Lucefécit, e à volta a planície alentejana típica: campos dourados e grupos de árvores de pequeno porte, sobretudo oliveiras, azinheiras e sobreiros.

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Antes de terminar o dia vale a pena ir espreitar o Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, que fica a cerca de 1 km de Terena. Neste santuário mariano muito antigo, que se julga ter sido criado sobre um local de culto pagão, existe uma das raras igrejas-fortaleza que podemos encontrar no nosso país: tem planta em cruz grega e detalhes que encontramos habitualmente nas construções fortificadas (matacães, frestas em vez de janelas, ameias e merlões), e a cantaria granítica nua faz com que se assemelhe muito mais a um edifício militar do que religioso.

 

O Santuário é palco de uma romaria anual, que se realiza no domingo a seguir à Páscoa e é popularmente apelidada de Festa dos Prazeres.

 

Dia 2

Hoje a manhã começa noutra vila alentejana situada muito perto da fronteira: Alandroal. E para não destoar do tema do dia anterior, podemos tomar o pequeno-almoço no Endovollico, um simpático café com esplanada situado na Praça da República, quase ao lado da Câmara Municipal, e com vista para a Torre de Menagem do castelo.

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Espreitamos depois a Fonte das Bicas, num dos cantos da Praça, uma fonte barroca construída no século XVIII para aproveitar as águas subterrâneas da região, que eram consideradas de grande qualidade. Daqui seguimos para o interior do castelo, fortificação erguida durante o reinado de Dom Dinis sob as ordens de um arquitecto muçulmano, um tal “Mouro Galvo”, como o atesta a inscrição num dos torreões – facto curioso que mostra como a comunidade islâmica da região estava nesta altura já pacificamente integrada no reino. Em tempos, dentro do castelo existiu um pequeno bairro, mas hoje o espaço está livre de construções, excepção feita à Igreja Matriz da vila, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. A alvura da fachada e do muro da igreja contrasta com o castanho muito escuro da pedra, deixada à vista no resto do edifício e nas muralhas.

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Alentejo raiano 20.jpegSubimos a escadinha muito íngreme do Caminho de Ronda, com acesso a uma parte da muralha e à panorâmica sobre os telhados cor de tijolo, que formam puzzles complicados com pedaços de paredes brancas e chaminés a precisarem de pintura. Ao lado, a Torre do Relógio, um acrescento do século XVIII, também em pedra mas com o branco do terraço e da torre sineira a destacarem-se no topo. A saída pela Porta do Arrabalde leva a uma escadaria e à Igreja da Misericórdia – que tem a particularidade de ser composta por duas igrejas paralelas, uma construída no século XVI e a outra no século XVIII.

 

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Para norte do castelo estende-se a parte mais nova da vila, onde se nota recuperação urbana recente e se destaca o bonito Mercado Municipal, um edifício baixo e quadrangular organizado em torno de um pátio interior – a fazer lembrar a herança árabe de toda a região.

 

Seguimos na direcção da fronteira. O destino é o Castelo-Fortaleza de Juromenha, cujas origens são tão remotas que até tem direito a uma lenda: na época dos Visigodos, teria sido o lugar de encarceramento de uma jovem, de seu nome Menha, por quem um irmão abastado se havia perdido de amores. Mas nem a prisão teria convencido a fidalga a envolver-se numa relação incestuosa, respondendo-lhe sempre: “Jura Menha que não!” Consta que é por isso que uma das torres do castelo é conhecida por Torre da Menha. Lendas à parte, crê-se que tenha sido uma cidade moura com alguma importância, “Yulumaniyia” ou “Julumaniya”, derivando daqui o seu nome.

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Pese embora sejam sempre excelentes miradouros, poucos castelos se podem gabar de terem um vista tão invejável para a paisagem em seu redor – e invejável tanto em amplitude como em beleza. Debruçado de um lado sobre o Guadiana, que aqui tem uma largura respeitável e corre em ziguezague, e do outro sobre uma imensidão quilométrica de planície que extravasa em muito o reduzido casario da pequena localidade adjacente, o nosso cérebro tem dificuldade em compreender (muito menos identificar) tudo o que os olhos alcançam do alto das suas muralhas arruinadas. Do lado de lá do rio, os férteis terrenos cultivados e a povoação de Vila Real lembram-nos que aquela faixa de território incluído na comarca de Olivença ainda hoje permanece uma espécie de “terra de ninguém” (ou de todos), teoricamente fazendo parte de Portugal mas na realidade sendo governada por Espanha.

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O castelo de Juromenha está, desde há muitos anos e cada vez mais, em avançado estado de abandono e ruína. Custa a crer que foi durante séculos um elemento fulcral na defesa desta região, havendo referências ao local desde a segunda metade do século IX e tendo feito parte do Califado de Córdova. Nos séculos XII e XIII andou em bolandas, ora conquistado pelos reis portugueses, ora recuperado pelos mouros, até ficar finalmente na posse da nossa coroa. Reedificado por D. Dinis, no século XVI as suas muralhas chegaram a ter 17 torres, e devido à sua importância estratégica (como defensor da região de Olivença, que estava quase completamente rodeada por terras castelhanas) foi modernizado no século XVII, depois da Restauração. Em 1801, toda a região anexa a Olivença e Juromenha foi tomada pelo exército espanhol, durante o conflito a que foi dado o nome de Guerra das Laranjas: a Espanha era aliada de Napoleão, que queria expandir-se em todas as frentes, mas Portugal era aliado secular de Inglaterra, que se opunha ao imperador francês – por consequência, e apesar de por interposta pessoa, Portugal e Espanha encontravam-se em lados opostos do conflito. Juromenha acabou por ser devolvida ao nosso país alguns meses depois, mas Olivença e todo o território português para lá do Guadiana não tiveram até hoje a mesma sorte, nem mesmo depois do compromisso formal assinado em 1817 pelo país vizinho comprometendo-se à sua devolução.

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Roubada de grande parte das suas terras, a machadada final veio na forma de uma peste bubónica que assolou Juromenha em princípios do século XX, e que levou à fuga de muitos dos seus habitantes. Desde essa altura, o declínio da povoação acentuou-se (agora terá cerca de 100 habitantes), e com ele o do seu castelo. Visto de fora continua a ser impressionante, com a sua dupla cintura de muralhas compactas, a exterior uma estrela atarracada com baluartes e a interior mais alta, onde a torre de menagem ainda se mantém imponente. Só quando entramos é que começamos a perceber até que ponto este monumento se encontra deteriorado. Os edifícios que mais chamam a atenção dentro do recinto amuralhado são as duas igrejas, a Matriz e a da Misericórdia, esta em melhor estado por já ter sido alvo de ligeiras (mesmo muito ligeiras…) obras de requalificação. Dos restantes edifícios – os antigos Paços do Concelho, a cadeia e uma cisterna – estão de pé algumas paredes e telhados, e tudo o resto se resume a uma massa de pedras mais ou menos informe, cuja utilidade anterior se torna difícil identificar.

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Ainda assim, sobretudo pela sua localização e envolvente, o Castelo de Juromenha mantém uma certa aura de magnificência, que nem o seu confrangedor estado de degradação consegue diminuir.

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Um pouco mais a norte há uma outra ruína que é obrigatório visitar. Vamos até à Capela de Nossa Senhora da Ajuda, uma pequena ermida estrategicamente localizada numa elevação junto ao Guadiana. Daqui temos uma primeira perspectiva sobre o nosso destino: a Ponte da Ajuda. Esta ponte-fortificada foi mandada construir no séc. XVI por D. Manuel I para ligar Elvas a Olivença, quando ambas as margens do rio Guadiana nesta zona estavam incluídas em território português, e em substituição de uma outra ponte mais antiga. Tinha 385 metros de comprimento, suportados por 19 arcos, e um torreão colocado no centro, que serviria para controlo de passagem. Foi várias vezes destruída, fosse por cheias ou por lutas armadas, e outras tantas reconstruída, até que em 1709 o exército castelhano a fez explodir durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Está em ruínas desde essa altura, apesar de vários planos para ser recuperada como passeio pedonal, e uma das razões que tem travado esta recuperação é o facto de no seu tabuleiro existir a colónia mais numerosa, a nível mundial, de uma espécie rara de narcisos que só se encontram na Península Ibérica e no Norte de África. Mas mesmo arruinada, não perde o seu ar robusto e continua a ser um motivo de atracção – e é, além disso, um local excepcional para observar o pôr-do-sol.

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Se ainda sobrar tempo, vale a pena cruzar a ponte (não a da Ajuda, mas sim a nova, mais ao lado) e dar um pulinho a Olivença – a cidade que é meio portuguesa, meio espanhola. Dois séculos sob a administração dos nuestros hermanos, em que a maior parte do tempo Portugal e Espanha estiveram de costas voltadas, fizeram com que hoje a maioria da sua população tenha ascendência espanhola. No entanto, permanecem na cidade muitas marcas da portugalidade, e desde que as relações entre os nossos dois países passaram a ser cordiais não têm faltado iniciativas de aproximação de Olivença às suas vizinhas portuguesas mais próximas, e na generalidade a Portugal. O português já é ensinado nas escolas, como opção, e as ruas do centro histórico têm desde 2010 dupla toponímia, com o antigo nome português (que ainda hoje é usado por muitos dos habitantes da cidade) a figurar também nos azulejos que identificam cada uma delas.

O património monumental de Olivença é, obviamente, quase todo da época anterior à administração espanhola, com destaque para a influência do estilo manuelino, bem visível por exemplo na Igreja de Santa Maria Madalena e na porta dos Paços do Concelho. O Castelo e a Igreja de Santa Maria, situada dentro do perímetro das muralhas, foram originariamente construídos pelos Templários no século XIII, com reconstruções posteriores no século XVI. As casas com grandes chaminés redondas e faixas amarelas na fachada branca são nitidamente idênticas às casas típicas alentejanas.

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Mas o pormenor que mais evoca o nosso país são as centenas de metros quadrados de belíssima calçada portuguesa que ornamentam o piso da Avenida de Portugal e da Plaza de España, que já teve o nome de Terreiro do Chão Salgado, da Plaza de la Constitución e da Plaza Magdalena, além de várias outras ruas emblemáticas do centro histórico de Olivença.

Esta cidade, que a administração portuguesa ainda hoje continua a recusar reconhecer como espanhola, tem como faceta mais distintiva do seu carácter uma hibridez que é fonte de diversidade e riqueza culturais, e que reflecte, afinal de contas, a mistura genética de que nós, seres humanos, somos feitos.

 

(Este artigo foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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