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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qua | 24.08.22

A Galiza é já ali

 

Apesar de ter uma costela familiar do sul de Espanha, a minha primeira incursão no país vizinho, era eu miúda, foi por terras galegas. E embora só tenha vagas memórias dessa viagem, sei que gostei da experiência – que, a bem da verdade, também serviu para despertar o bichinho das viagens que até hoje se alimenta de mim.

 

Além de ser uma região fascinante e muito variada, a Galiza fica “já ali”, é ideal para um fim-de-semana comprido, e tem muitos (e bons) segredos para descobrir. Neste roteiro vou revelar-vos alguns.

 

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Dia 1

Verín → Castelo de Monterrei → Allariz

 

Saindo de Portugal pela A24, Verín fica a uns meros 20 km da fronteira, à beira do também nosso rio Tâmega. Aliás, a região de Verín e Chaves está unida num projecto comum, estabelecido com base no rio que os liga e naquela que é uma das maiores concentrações de nascentes termais da Europa, a que dão o nome de “Eurocidade das águas” – muito aconselhável para quem for fã de spas. Outra característica que aproxima estas duas localidades é o Caminho Português Interior de Santiago, que começa em Viseu, passa em Chaves, atravessa a fronteira em Vilarelho da Raia e segue em território espanhol pelo Caminho Sanabrês da Via da Prata.

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Verín não é uma vila particularmente bonita, mas tem um centro histórico interessante quanto baste, com ruas pedonais ladeadas de casas de pedra e onde ainda sobrevivem algumas belas casas apalaçadas. A Praça García Barbón é o centro nevrálgico deste bairro antigo, onde se destaca a Casa dos Acevedo, local onde consta que ocorreu, em 1506, um encontro histórico entre Filipe I de Castela, o Belo, e o Cardeal Cisneros, para resolverem divergências entre o rei e o seu sogro, D. Fernando II de Aragão. Se seguirmos pela Rua Maior, encontramos a igreja barroca de Santa Maria Maior, que data de inícios do século XVII.

A mais intimista e elegante Praça da Mercede é outro ponto incontornável deste passeio por Verín. É aqui que está a igreja que tem o mesmo nome e o Convento dos Mercedários, do século XVIII, que funciona como colégio particular.

Indo para norte, passamos pela rua do Poço – onde existe, de facto, um poço antigo – e no início da rua Viriato damos de caras com uma escultura algo “estranha”: é o Cigarrón, um dos símbolos da cidade e personagem destacada naquela que é a maior festa da região, o Carnaval – ou, como se diz por aqueles lados, o Entroido. As origens do Cigarrón são ancestrais e indistintas, e o seu traje e os chocalhos que leva à cintura evocam os nossos Pauliteiros de Miranda e os Caretos de Podence, o que não é de estranhar tendo em conta a proximidade geográfica. Neste que é um dos carnavais mais antigos e invulgares de Espanha (declarado Festa de Interesse Turístico Nacional), a animação prolonga-se por semanas e inclui actividades variadas, desfiles, chicotadas (sim, chicotadas!), farinha, e muita música, comida e bebida.

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Falando de gastronomia, aqui o polvo é rei, e o melhor sítio para o provar é a Casa do Pulpo, na Avenida Portugal. Além disso, toda esta região é famosa pela produção vinícola, em especial pelo vinho com a Denominação de Origem Monterrei. Há mais de 25 adegas incluídas nesta D.O. que podem ser visitadas, e em Agosto celebra-se na cidade a Feira do Vinho.

 

Monterrei é o nome do castelo e conjunto monumental que fica a apenas dois quilómetros de Verín. Construído no século XII sobre um antigo castro e rodeado de uma muralha tripla, tem como maior curiosidade (para nós, portugueses) o facto de ter sido mandado edificar por D. Afonso Henriques. Com a assinatura do tratado de Tui em 1137, em que o nosso rei abdicou de quaisquer pretensões em relação ao território da Galiza, passou para a posse do rei de Leão e Castela e foi desde essa altura um baluarte estratégico de defesa da fronteira com Portugal. Outra nota curiosa é o facto de ter sido aqui que se instalou a primeira prensa construída de acordo com a invenção de Gutenberg, de onde saiu o primeiro livro impresso no país segundo este método.

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No interior do recinto amuralhado há vários edifícios erigidos em épocas diferentes. O Paço dos Condes, construção renascentista que tem anexa a Torre das Damas, é agora um Parador de Turismo. A Igreja de Santa Maria da Graça, de finais do século XIII, ostenta um estilo entre o românico e o gótico. Ao lado encontramos um pequeno edifício com uma fabulosa portada em arco ogival: é o antigo Hospital de Peregrinos, que se destinava a apoiar os caminhantes com destino a Santiago de Compostela.

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Da Torre de Menagem do castelo temos uma vista abrangente sobre Verín, os vinhedos onde se colhe a uva que dá origem ao vinho da região, e toda a extensa paisagem circundante.

 

Chegamos finalmente a Allariz, que merece uma visita bem demorada, e o meu conselho é passar aqui a noite. Lugar de escala e repouso para os membros da realeza de Castela e Leão a partir do século XII, sendo mesmo chamada de “chave do Reino da Galiza”, desta importância resulta um extenso património arquitectónico cujo núcleo principal se manteve conservado até aos nossos dias, declarado em 1971 Conjunto Histórico Artístico pelo Ministério da Cultura espanhol e tão bem restaurado que recebeu em 1994 o Prémio Europeu para o Património Cultural Europa Nostra.

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Do coração do centro histórico descemos até chegar ao rio Arnoia, que em Allariz toma o nome de Arnado. A área junto ao rio está lindamente recuperada e ajardinada mas mantém ao mesmo tempo vastas zonas de arvoredo, e o resultado desta mistura cria um ambiente agradabilíssimo e com um carácter singular. No local onde o curso do rio forma um cotovelo apertado há um enorme parque com árvores e relva, e aqui as margens são unidas pela ponte românica de Vilanova, em tempos a principal via de acesso à localidade mas da qual não se sabe ao certo se foi construída no séc. XII ou XIV. Menos dúvidas existem quanto à origem da igreja com o mesmo nome que lhe é contígua, datada de 1180 e que pertenceu à Ordem de São João de Jerusalém ou de Malta.

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À igreja românica de Vilanova juntam-se as também românicas de Santiago, situada na Praza Maior, de Santo Estevo e de San Pedro, e a barroca de San Bieito, todas em pedra granítica e todas restauradas, pese embora algumas já tenham perdido várias das suas características de origem. Ainda assim, são todas bem diferentes umas das outras e cada uma tem os seus motivos de interesse.

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Em tempos longínquos houve aqui um castelo, situado no alto do promontório de pedra a que chamam Penedo da Vela. Desaparecido totalmente em meados do séc. XIX, o local é o melhor miradouro sobre Allariz. A subida até lá não é difícil, e é absolutamente recompensada pela vista de quase volta completa que conseguimos ter sobre a vila.

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Logo abaixo, o bairro do Socastelo (“sob o castelo”) foi a partir do séc. XIII uma judiaria. Nalgumas casas destas ruelas estreitas e sinuosas ainda existem as características duas portas no piso térreo (uma grande para o comércio, e uma mais pequena por onde se acedia ao espaço privado da casa) e as típicas varandas fechadas. À presença judaica em Allariz está associada a Festa do Boi, que tem início no sábado anterior ao dia de Corpo Santo e se prolonga até ao fim-de-semana seguinte. Durante estas festas, de manhã e à tarde, celebra-se a corrida do boi pelas ruas da vila. Duas ou três pessoas levam nas mãos a corda que está atada aos cornos do boi escolhido para a ocasião (que vai variando de corrida para corrida), enquanto outras velam pela segurança do animal e dos “corredores” de fogem à frente do bicho. É também organizada uma Procissão Medieval, que termina em grande festa, além de outros eventos para todos os gostos. Perto da igreja de San Pedro, uma escultura modernista da autoria de Arturo Andrade celebra aquela que é a festa tradicional mais antiga da vila.

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A região de Allariz faz parte da Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO. Possui vários tipos de paisagem e habitats, dando origem a uma grande diversidade de fauna e flora, além de existir uma utilização sustentável dos recursos e uma permanência de valores culturais com práticas tradicionais que favorecem a preservação do ambiente. A somar ao Parque Etnográfico que se situa à beira do rio, fora da vila existem junto ao curso do Arnoia várias áreas de lazer e passeio – como por exemplo a praia fluvial de Acearrica e o Centro de Educação Ambiental do Rexo – que são excelentes pretextos para belos passeios e para conhecer melhor aquele que é um dos rios mais bonitos da Galiza.

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É na margem oeste do Arnoia que se situa o recinto do Festival Internacional de Xardíns de Allariz, ocupando uma área de 40 mil metros quadrados paralela ao rio. Tal como o seu congénere Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima (de que falei no artigo anterior, “Jardins e Arroz de Sarrabulho”), há sempre 10 jardins a concurso nesta exposição, a que se junta o jardim que venceu a edição anterior e um jardim extraconcurso criado, por tradição, pelos alunos da Escola Secundária da localidade. O tema dos jardins que vão estar em exibição até Outubro de 2022 é “Jardins terapêuticos, desenhos que curam”.

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Dia 2

Allariz → Augas Santas → San Pedro da Mezquita → Ourense

 

Allariz é também conhecida como um óptimo lugar para compras, sobretudo devido às suas várias lojas outlet de marcas espanholas de vestuário bastante conceituadas, entre outras dedicadas a artigos diversos. Concentradas no centro histórico, sobretudo na Rúa Portelo e na Rúa Fonteiriña, estão abertas durante todo o fim-de-semana (só encerram às segundas-feiras) e têm um horário bastante alargado. Por isso, a manhã deste segundo dia é a altura ideal para fazer um périplo pelas lojas da vila.

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É igualmente uma boa ocasião para visitar pelo menos um dos vários museus abertos ao público, e aquele que aconselho que não percam é o Museu da Moda. Há também o Museu do Brinquedo, Museu de Arte Sacra de Santa Clara, a Casa-Museu Vicente Risco, o Museu do Coiro e o Moinho do Burato, estes dois últimos inseridos no Parque Etnográfico. Mas o Museu da Moda é particularmente curioso, sobretudo por não ser uma temática habitual, menos ainda numa localidade tão pequena, e é um excelente exemplo de como é possível criar um museu agradável, distractivo e muito interessante sem necessidade de recursos astronómicos.

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De Allariz seguimos para Augas Santas, outro ponto importante para quem faz o Caminho de Santiago por Verín e Allariz. É uma aldeia pequena, também declarada Conjunto Histórico Artístico nos anos 60, com casas de granito conservadas com maior ou menor fidelidade à traça inicial, e que se agrupam em volta da Igreja-Santuário de Santa Mariña. Filha de um governador romano e decapitada em 139 d.C., a santa que é considerada a primeira mártir galega é objecto de grande devoção. Vários locais associados a antigos ritos pagãos deram origem a lendas construídas em volta desta figura popular na região, e formam uma rota arqueológica muito interessante, com vestígios que datam desde a Idade do Ferro. Estes lugares fazem parte do percurso da Procissão dos Pendões, que tem lugar no dia da Ascensão, e as festas anuais em honra da santa celebram-se a 18 de Julho.

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A Igreja de Santa Mariña de Augas Santas, tal como hoje a vemos, data dos séculos XII-XIII e encerra no seu interior um mausoléu erguido sobre o que se supõe ser a tumba da santa. Construída em estilo românico a partir de um pequeno templo erigido em fins do século VIII ou inícios do século IX, quando foi descoberta a tumba, teve modificações posteriores tanto no seu interior como no exterior, de que são prova a torre do campanário, os pináculos e as cúpulas das torres laterais. É um monumento harmonioso e imponente, maio asfixiado pelas construções muito próximas que o rodeiam, pese embora minúsculas por comparação com a envergadura da igreja.

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Deste complexo religioso fazem também parte um cemitério, vários cruzeiros, um adro e o Paço Episcopal, uma construção modesta que se destaca pelas escadas que levam à porta de entrada, guardadas por dois mamíferos de pedra com expressão feroz, e que agora desempenha as funções de casa paroquial.

 

A uma mera dezena de quilómetros de Augas Santas há uma outra bela igreja que vale a pena visitar: São Pedro de A Mezquita. Situada em espaço aberto sobre um plano ligeiramente elevado, pertenceu ao Mosteiro de Celanova e foi construída em inícios do século XIII, apesar de já estar referida em documentos que lhe são anteriores mais de 200 anos.

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A fachada principal, bastante adornada, contrasta com a simplicidade aparente do resto do edifício. O portal tem três arquivoltas adornadas, apoiadas em colunas com motivos vegetais, todas diferentes umas das outras. Por cima da porta, um tímpano com o Agnus Dei. Sob a imposta há várias figuras antropomórficas e, em grande destaque, a figura de São Pedro, identificado pela chave que tem na mão, e uma figura feminina que se supõe ser uma representação da Virgem ou de Santa Ana. Na parte superior dos contrafortes que dividem a fachada também há um grupo interessante de figuras esculpidas na pedra: a loba que amamenta Rómulo e Remo, um dragão, um lobo que devora um cordeiro ou coelho, e um músico. Mais acima, abre-se a roseta típica do estilo românico.

Na fachada sul, mais ornamentada que a do lado oposto, há uma porta cujo tímpano parece suportar a tese da existência de uma anterior igreja visigótica. Nele estão representados dois leões rampantes simétricos com as patas dianteiras apoiadas num castelo, motivo que não se encaixa no tema habitual das igrejas românicas.

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De A Mezquita só demoramos 15 minutos a chegar a Ourense. Capital de província e terceira maior cidade da Galiza, por ela passa o também nosso rio Minho, e é desde há séculos lugar de excelência pelas suas águas termais, que brotam à “agradável” temperatura de 67°C. Não é por isso de estranhar que por toda a cidade existam fontes e estações termais, algumas delas gratuitas, e que na margem direita do rio tenha sido criado o Passeio Termal, um percurso de quatro quilómetros entre o Campo da Feira e Outariz, que dá acesso a várias destas termas.

 

O primeiro destes espaços que se encontra no Passeio Termal, muito perto da Ponte do Milénio, é a Chavasqueira, um conjunto de pequenas piscinas de pedra ao ar livre no meio da vegetação ribeirinha. Aqui podemos contar com água a cerca de 40° de temperatura. Mas as fontes de água quente mais emblemáticas de Ourense são As Burgas, situadas no centro histórico e intimamente ligadas à origem de Aquis Aurensis, a povoação romana da qual nasceu a cidade actual. Os vestígios arqueológicos descobertos no local indicam que este foi um centro de peregrinação na antiguidade e um dos santuários mais importantes da Península Ibérica pelo menos desde o século I d.C. Para nos contar a história do lugar foi criado um Centro Interpretativo, dividido em cinco áreas e complementado com uma zona verde que funciona como museu ao ar livre.

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Dia 3

Ourense → Parada de Sil

 

A Praza Maior é, como em qualquer cidade espanhola, o centro da vida social de Ourense, com esplanadas em toda a volta e os edifícios da Câmara Municipal e do Museu Arqueológico. Tem ainda uma particularidade algo fora do comum: é inclinada. Subindo por uma escadaria lateral damos de caras com a Igreja de Santa María Madre e depois entramos numa pequena praça deliciosa, a Plazuela de la Madalena. Atravessamos uma passagem estreita e estamos na Praza do Trigo, cujo nome vem do facto de ser aqui que em tempos idos se fazia o comércio dos cereais. Há edifícios com arcadas, e no centro ergue-se a Fonte Nova.

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É nesta Praça o acesso à Catedral, que vista daqui não parece muito impressionante, com a sua fachada meio austera e pouco ornamentada, assim a modos que a fazer lembrar um castelo. Dedicada a São Martinho de Tours, foi construída entre os séculos XII e XIII, e elevada a basílica em 1887. No interior, o ambiente soturno mantém-se, com paredes de pedra nua, manchada pelo tempo, colunas e abóbadas simples, a luz exterior que entra em doses reduzidas pelas frestas estreitas, rasgadas quase junto ao tecto. O antigo claustro está actualmente ocupado pelo Museu Catedralesco, recheado de peças valiosíssimas de arte sacra. Depois subimos à Torre Sineira, um fantástico miradouro sobre a cidade e o melhor sítio para observar o magnífico zimbório tardo-gótico que é uma das jóias desta catedral.

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Quando começamos a visitar as capelas, a impressão de sobriedade desaparece. Na Capela Maior, o retábulo do século XVI é uma orgia de pormenores. A da Assunção é uma festa de cores, com um original tecto aos quadrados, e na do Santo Cristo é tanta a quantidade de ouro que forra paredes e tectos, e tão trabalhado, que não há como não abrir a boca de espanto. Mas o sítio que mais me encantou dentro deste monumento foi o Pórtico do Paraíso: três arcos, cada um com várias colunas agrupadas, sobre cada coluna a reprodução polícroma de uma personagem religiosa, e acima delas outras imagens esculpidas. A este conjunto mesmerizante de cores fortes juntam-se a escultura que representa o apóstolo Santiago, a abóbada estrelada, os altares laterais barrocos e as pinturas murais com imagens extra-large de São Cristóvão e Santo Ildefonso, também elas bem coloridas. O pórtico é do século XIII e as imagens têm um ar deliciosamente naif, que condiz bem com as cores exuberantes do conjunto.

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Ao contornar a Catedral é que nos apercebemos de como ela é realmente volumosa, sobretudo quando chegamos por fim à Praza de Santa Eufemia – que parece mais uma rua larga do que propriamente uma praça. A igreja que lhe dá o nome tem uma fachada barroca côncava belíssima e muito original, com colunas e elementos decorativos pouco vulgares. Ao lado, vale a pena espreitar o interior do Paço Oca-Valladares, onde está alojada a sede do Liceo de Ourense, uma sociedade cultural fundada em 1850.

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Embora Ourense tenha muito para ver, vale a pena aproveitar uma parte deste dia para fazer um curto de desvio de 40 km e ir conhecer outro dos lugares mais bonitos desta região galega: o desfiladeiro do Sil. No seu troço final, este rio corre aos esses e às voltinhas por entre paredes graníticas abruptas, tão altas que por vezes se erguem quase 500 metros acima das águas. É uma paisagem soberba, e um dos locais onde melhor podemos apreciá-la é no Miradoiro dos Torgás, mais conhecido por Balcones de Madrid, que fica a uma curta distância de Parada de Sil. O vale do Sil separa as províncias de Ourense e Lugo, e aqui as suas águas são tranquilas, represadas mais a oeste pela Barragem de Santo Estevo antes de se juntarem ao rio Minho. Toda esta zona, que acompanha parte dos percursos do Sil e do Minho, é conhecida como Ribeira Sacra, e nela encontramos um património cultural e paisagístico invejável que merece por si só uma visita bem demorada. Mas por agora, será satisfação suficiente terminar este roteiro num lugar tão cheio de beleza natural.

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(Este artigo foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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A Galiza é já ali

 

Qua | 10.08.22

Príncipe, a outra ilha

 

Chamar caminhos de cabras aos trilhos que dão acesso às melhores praias da ilha do Príncipe é ser simpática. Até a sport wagon com pneus tamanho XL conduzida pelo Vado, um dos guias mais experientes da ilha, tem dificuldade em percorrer os poucos quilómetros de piso meio lamacento, cheio de buracos e com pedras gigantes a despontarem do solo que leva à praia Boi. Curto em distância mas longo em minutos, o percurso mói os ossos e os músculos, chocalhados sem piedade e ininterruptamente até ao final, e só o facto de ser feito dentro de uma floresta magnífica mitiga um pouco o incómodo: os olhos vão entretidos a admirar árvores desconhecidas, tão altas que apenas deixam passar uns ténues raios de sol. Isso e a praia no final do caminho. Areia fina e clara debruada a palmeiras, deserta; mar tranquilo em dégradé de azuis; sol brilhante, água morna. Perfeita!

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Tal como para as suas praias, o mote para a ilha do Príncipe podia ser este: não é fácil lá chegar, mas vale muito a pena. É preciso estar no Aeroporto de São Tomé tão cedo como se fôssemos para uma viagem internacional, não é possível levar mais do que 15 kg de bagagem de porão, e a viagem total de 40 minutos (dos quais apenas 25 em voo) é feita numa avioneta que só leva 19 passageiros, com pouco espaço, pouco insonorizada e pouco fresca. Ainda assim, a procura é tanta que actualmente estão a ser feitos três voos diários, operados pela companhia portuguesa Sevenair, e vão sempre cheios.

À chegada, meras dezenas de metros nos separam do pequeno edifício do aeródromo, pintado de amarelo-vivo. Depois aguardamos a chegada das malas numa saleta com porta aberta para o exterior, a fazer lembrar as salas de espera de antigamente das estações de comboio. Contrariando o frenesim da cidade de São Tomé que deixámos pouco antes, há uma atmosfera geral de tranquilidade, e até os ruídos do exterior soam abafados. Estranha-se esta calma, que contudo não é surpreendente se pensarmos que a ilha tem pouco mais de 9 mil habitantes (em contraste com os 80 mil da capital do país).

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Lá fora, uma mão cheia de guias aguarda a nossa saída, cada um com o nome do seu cliente escrito numa folha branca. Os turistas que chegam desta vez são poucos, a maioria dos passageiros são gente da terra. Sorridente, o Vado dá-nos as boas vindas e leva-nos ao carro. A estrada até Santo António, capital do Príncipe, é asfaltada e está em bom estado, e em coisa de 10 minutos estamos no restaurante da Residencial Mira Rio para matar a fome em frente a uma omelete – um lanche reforçado para substituir o almoço que estava em falta por causa da viagem de avião. Fazendo jus ao nome, o restaurante tem varanda e vista sobre o rio Papagaio, que nasce no pico homónimo, um dos mais altos da ilha.

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A cidade

 

Santo António é cidade com dimensão de vila e ambiente de aldeia. Fundada em inícios do século XVI, chegou a ser capital da colónia portuguesa de São Tomé e Príncipe, entre 1753 e 1852, antes de a cana-de-açúcar como produção principal ter sido substituída pela de cacau e café. Com ruas arejadas e rectilíneas na área junto à baía, onde ainda se mantêm de pé vários edifícios da época colonial, em diversos estados de conservação, o casario vai-se tornando mais miúdo e irregular à medida que seguimos para sul. Nas casas baixas de cores pastel, a alvenaria alterna com a madeira e a chapa ondulada, e quando deixamos o centro da cidade os passeios são aos poucos substituídos por meras bermas, que a vegetação tenta engolir. Há palmeiras gigantescas e muitas outras árvores e arbustos, a darem uma impressão visual de frescura mesmo quando o mercúrio sobe nos termómetros. Não há qualquer sintoma de aridez nesta ilha e a água nunca falta. Além disso, garante o Vado, toda a água da cidade é tratada e potável, pode por isso ser bebida directamente da torneira. Ainda assim, cingimo-nos à água engarrafada – vale mais prevenir, que o nosso sistema digestivo europeu já se sente sobrecarregado quanto baste pelos temperos generosos da comida local.

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Se a água não falta, o mesmo não se pode dizer do combustível. Além de ter subido a níveis estratosféricos nas últimas semanas (aqui também se sentem as consequências da guerra na Ucrânia), todo o combustível vem de São Tomé por barco, em fornecimentos irregulares que por vezes deixam a ilha do Príncipe à míngua de gasolina, gasóleo e petróleo. As gasolineiras estão vazias, e para honrar o seu compromisso connosco o Vado terá de pedir combustível a um amigo – pagando-o acima do preço habitualmente cobrado nas bombas de gasolina. No Príncipe como em São Tomé, todas as oportunidades são boas para fazer negócio.

 

Não se pode dizer que Santo António tenha uma arquitectura extraordinária. Nota-se, isso sim, alguma preocupação em manter a cidade limpa (até há caixotes destinados à separação de lixos para reciclagem) e cuidada. Olhando para algumas casas, com varandas em ferro forjado, cornijas sobre as janelas e beirais nos telhados, podemos até pensar que estamos em Portugal. No centro da cidade há meia dúzia de edifícios que se destacam, seja pelo aspecto recente, como o edifício do BISTP (o principal Banco do país); pela cor, como a casa colonial que abriga a capitania, pintada de azul céu e com um friso de bóias e âncoras, ou o edifício que ostenta o emblema do Sporting Clube de Portugal, sem vidros nem finalidade aparente, mas primorosamente pintado de verde e branco; ou pela beleza dos seus elementos decorativos, como a casa oficial da presidência, e que é sem dúvida o edifício mais bonito de todos: exterior em ripas de madeira pintadas de cinza-claro, um alpendre em toda a volta, friso de metal trabalhado a rematar o telhado, e com uma magnífica palmeira-do-viajante plantada num dos vértices, a fazer as vezes de sentinela.

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Há uma igreja católica, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, simples e com uma única torre. Parece muito antiga, talvez por estar em obras, mas data apenas de 1943. Tal como em todo o país, a religião é pedra basilar para as gentes do Príncipe e o catolicismo é predominante (mais de 70% da população de São Tomé e Príncipe), embora se note alguma proliferação de outras confissões ditas evangélicas, com locais de culto numa das ruas principais. Surpreendente para mim foi descobrir que no Príncipe se festejam os Santos Populares, a sério e “à antiga”. Na noite de São João, uma das que passei na ilha, uma marcha popular alegre e muito participada, com marchantes vestidos a rigor, percorreu as ruas de Santo António durante quase duas horas, mostrando as coreografias ensaiadas ao som de canções tradicionais. Uma animação, para a qual grande parte do resto da população da cidade também contribuiu, seguindo o cortejo sem nunca esmorecer. No final, saltou-se a fogueira na praceta em frente à igreja – algo a que eu já não assistia há sei lá quantos anos, e que me trouxe memórias da infância.

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No Príncipe as tradições são acarinhadas e respeitadas. Ao pôr-do-sol do primeiro dia, passámos por acaso pelo jardim da Praça Marcelo da Veiga, onde fica o Palácio do Governo. A bandeira do país estava a ser arreada à frente do Palácio, com cerimonial militar ao som do cornetim. De imediato, o nosso guia estacou e colocou a mão no coração. Não arredou pé enquanto não terminou a cerimónia, e deu uma descompostura a um adolescente que passava apressado, obrigando-o a parar também. E não, o Vado não é um conservador bacoco já entradote. Na verdade, tem apenas 32 anos – a mesma que o actual Presidente do Governo Regional do Príncipe, Filipe Nascimento. Num país em que cerca de 40% da população tem menos de 15 anos (e apenas 7% tem mais de 55), são cada vez mais os jovens que tentam (e têm de) fazer avançar São Tomé e Príncipe. E se para muitos o maior anseio é virem para Portugal, sobretudo para estudarem, há outros que sonham com um país mais desenvolvido e menos pobre, e querem contribuir para isso.

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As praias

 

Que o maior trunfo da ilha do Príncipe é a sua beleza natural e consequente capacidade de atrair turismo, isso está à vista. Dos 142 km2 da sua área, a maior parte está coberta de floresta tropical húmida, sobretudo a região sul, que é bastante acidentada e por isso difícil de visitar. É aqui que se encontra o Pico do Príncipe, cujos 948 metros fazem dele o cume mais alto da ilha, e é aqui também que despontam da floresta grandes torres de fonólito, uma rocha vulcânica algo rara, que dão à paisagem um certo ar de mundo jurássico. Inversamente proporcional ao seu tamanho, a idade geológica do Príncipe está estimada em 31 milhões de anos, tempo suficiente para nela se desenvolverem imensas espécies vegetais e animais, tanto no solo como no mar – e esta é uma das razões pelas quais a ilha do Príncipe foi categorizada pela UNESCO em 2012 como Reserva da Biosfera.

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Das cerca de duas dúzias de praias que a ilha tem, nem todas são acessíveis, e raras são as que é fácil visitar. O percurso é quase sempre por caminhos em mau estado, que implicam a deslocação num todo-o-terreno, e a constante ameaça de se ficar atolado na lama ou estragar alguma parte essencial do carro. Uma excepção é a praia Bom Bom, no norte, cujo acesso em estrada de terra batida apresenta menos dificuldades do que o normal, talvez por não ser em declive, e certamente por servir o conhecido resort que tem o mesmo nome, apesar de agora estar fechado. Também aqui se fizeram sentir com força os efeitos da pandemia.

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A praia Bom Bom é na verdade uma praia dupla, com uma grande extensão de areia de cada um dos lados do istmo que liga ao ilhéu. A icónica e longa ponte de madeira que possibilitaria visitar a ilhota está agora interditada (por falta de manutenção, dizem-nos) mas continua a ser uma atracção na paisagem. Virada a noroeste, a meia-lua de areia alaranjada que fica do seu lado esquerdo é local de excepção para passar um final de tarde, aproveitando os raios menos inclementes do sol-pôr – sendo que nestas latitudes, quase em cima da linha do Equador (que passa no ilhéu das Rolas, cerca de 200 quilómetros a su-sudoeste), a escuridão chega invariavelmente menos de seis horas depois do meio-dia.

Há quem diga que a praia Boi é a melhor da ilha do Príncipe, e certamente merecerá o título. Como não é fácil chegar lá, o mais provável é tê-la toda por nossa conta, e isso decerto que contribui para a sua fama. Mas há outras igualmente bonitas e recomendáveis, como a praia Macaco ou a mais célebre praia Banana, onde em 1991 foi filmado o anúncio de um rum famoso. Vê-la do miradouro que fica na Roça Belo Monte é a primeira abordagem que aconselho. Dali vê-se bem o formato da praia, e percebe-se o porquê do nome; em jeito de brinde, desfrutamos de uma magnífica paisagem em tons de verde e azul. Lá em baixo, a vista é mais rasa mas igualmente paradisíaca. Sol aberto, mar chão, algumas rochas escuras, um ilhéu mais ao fundo. O ar está a uns simpáticos 28°C, e a água imita-o. Há uma brisa ligeira, o conforto da sombra das palmeiras, e um sossego quase total. O cliché da praia paradisíaca, que por coincidência é o meu conceito de praia ideal. A vontade de sair dali é zero.

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Para uma experiência menos “postal ilustrado”, há que ir até à praia Abade. O entorno é igualmente idílico, uma praia límpida e sem ondulação numa baía quase fechada e debruada a verde. À volta alonga-se uma aldeia piscatória, pequena, com casas toscas feitas com tábuas de madeira e telhado de chapa ondulada, algumas pintadas de cores vivas. Na areia não há toalhas de praia nem banhistas, mas sim miúdos que brincam e canoas que descansam, umas feitas de tronco de árvore, outras mais modernas, com motor reluzente. E na água haverá talvez apenas um pescador, impelindo o seu barco à força de braços e de uma pagaia.

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As roças

 

A ilha do Príncipe foi descoberta por Pêro Escobar a 17 de Janeiro de 1471, apenas 27 dias depois da sua irmã São Tomé. O seu primeiro nome foi Santo Antão, e o primeiro produto ali explorado a cana-de-açúcar. Os impostos sobre a produção de açúcar na ilha eram pagos ao Príncipe de Portugal, Afonso, filho e herdeiro de D. João II, razão pela qual o nome da ilha acabou por ser mudado em 1502. Os engenhos de açúcar foram introduzidos em fins do século XV por Álvaro de Caminha, a quem a coroa portuguesa concedeu a terra. A partir do início do século XIX, o açúcar foi sendo gradualmente substituído pelo café e sobretudo pelo cacau, cultivados nas roças que constituíram desde sempre a base da vida económica e social da ilha.

Após a independência de São Tomé e Príncipe em 12 de Julho de 1975, poucas foram as roças que mantiveram as suas produções. Algumas transformaram-se em aldeias, outras são hoje apenas ruínas, outras ainda foram convertidas, em tempos mais recentes, em empreendimentos turísticos de luxo. Apenas duas são actualmente exploradas para a produção de café e cacau: A Roça Paciência, que pertence ao grupo HBD, e a Roça Terreiro Velho, que abastece a fábrica Claudio Corallo.

 

Situada a poucos quilómetros de Santo António, a Roça Porto Real (que em tempos teve o nome de Roça Esperança) é um dos exemplos mais flagrantes do abandono a que a maior parte destas grandes estruturas produtivas foram votadas. Foi uma das maiores roças do Príncipe e chegou a ter outras oito, mais pequenas, na sua dependência. Roça-terreiro típica, com um espaço central amplo, quadrado ou rectangular, rodeado por diversas áreas edificadas – oficinas, armazéns e edifícios fabris e administrativos, sanzalas (onde viviam os trabalhadores), capela, hospital, escola e cozinhas, e a casa principal – encontra-se hoje em ruínas, com a maior parte dos edifícios engolidos pela vegetação. Da grandeza anterior destes fantasmas do passado só nos apercebemos pela enorme escadaria que ainda é visível, e que nos leva a paredes de pedra esverdeada por musgos, com aberturas por onde irrompem fetos e ramagens folhosas, troncos e raízes de árvores que se enrolam em volta dos muros como tentáculos de polvo. Mais à frente, ao longo da estrada, os edifícios da antiga sanzala continuam a ser habitados, à mistura com casinhotos de madeira que foram entretanto construídos.

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Diferente é a história da Roça Sundy. Adquirida há cerca de uma dezena de anos pelo grupo HBD, cujo líder é o sul-africano Mark Shuttleworth (sendo que HBD neste caso são as iniciais de Here Be Dragons, expressão usada em tempos idos para designar territórios inexplorados do nosso planeta), a roça tem vindo a ser reconstruída e transformada numa unidade de alojamento turístico de gama alta, apesar de alguns edifícios limítrofes ainda estarem por recuperar. A renovação exterior sóbria disfarça o interior mais luxuoso. Há uma loja, onde são vendidos os produtos orgânicos feitos com o cacau e outros frutos e plantas cultivados na Roça Paciência. Aberto a visitas está também o Espaço Ciência Sundy, um pequeno museu que expõe maquinaria antigamente usada na roça e celebra o facto de ter sido aqui que, em 1919, um grupo de astrónomos ingleses liderados por Sir Arthur Eddington levou a cabo a experiência que deu como provada, pela primeira vez, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein. A HBD Príncipe também explora o Sundy Praia e o Bom Bom (com reabertura prevista para 2023), e os objectivos que apregoam são o desenvolvimento sustentável da ilha e a conservação da Reserva da Biosfera.

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Outra história feliz é a da Roça Belo Monte. Antiga plantação de cacau e café e objecto de recuperação primorosa, agora funciona apenas como hotel (também de luxo). Apesar disso, as instalações podem ser visitadas por qualquer pessoa, e é um lugar de excelência para ir tomar um chá ou uma bebida fresca, por exemplo. Visitável é igualmente o seu museu, que ilustra a história e a cultura da ilha, e o miradouro sobre a Praia Banana é de acesso livre. A entrada para a área principal do complexo é feita por um portão icónico, com torreões e um sino, guardado por dois canhões cuja ferrugem atesta a sua antiguidade. Nos jardins, muito bem cuidados, nem sequer falta um tabuleiro de xadrez gigante, com as respectivas peças bicolores, e um banco-baloiço circular pendurado nos ramos de uma árvore, compridos como braços de um colosso. Quanto ao interior, é o epítome do requinte discreto, clássico sem ser pesado, ligeiros toques rústicos misturados com outros mais modernos. O Monte Belo faz parte da Africa’s Eden, uma organização que contribui para a preservação da natureza e desenvolve actividades turísticas sob o mote “O turismo paga a conservação”.

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Menos popular e de mais difícil acesso do que São Tomé, a ilha do Príncipe é frequentemente ignorada por quem visita o país – sobretudo, não tenho qualquer dúvida, devido ao preço exorbitante (para uma viagem tão curta) das passagens aéreas entre as ilhas, e também ao facto de o custo de vida ser mais elevado do que na ilha principal. Há também a ideia de que no Príncipe é tudo mais rudimentar e básico, e portanto menos “confortável” ou “civilizado”. Se a presunção no que toca à parte financeira é correcta, em relação ao resto posso afirmar que vim de lá com uma percepção completamente oposta. Apesar de todas as limitações existentes e da sua extrema dependência de São Tomé, a ilha do Príncipe está a trilhar um caminho rumo ao futuro bem coerente e esclarecido, e a qualidade dos serviços que oferece é superior à impressão que é habitualmente difundida sobre a ilha. Há já bastante oferta de alojamento a preços razoáveis, os restaurantes são mais que muitos, alguns já modernizados, e o atendimento é impecável, mesmo que por vezes um pouco demorado (porque é tudo feito na hora). Sem a sofisticação plasticizada de tantos destinos turísticos apregoados de paradisíacos, o Príncipe é um verdadeiro oásis de simplicidade, onde é possível uma genuína comunhão com a natureza pouco delapidada pela mão humana, e com a essência de um povo que tem orgulho na sua cultura e respeito pelas maravilhas do lugar onde vive.

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Onde fiquei:

Príncipe Residencial – Rua Estádio 13 de Junho, Santo António – Email: principeresidencial@hotmail.com

Fica um pouco afastado do centro, mas é confortável qb e limpo. Os quartos são simples, espaçosos e têm ar condicionado. O pessoal é muito atencioso, tem bom wifi em todo o lado e um pequeno-almoço razoável.

 

Onde comi:

Mira Rio – Amplo, aberto para o exterior, serve a qualquer hora do dia; o sítio ideal para uma refeição leve fora de horas.

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Armazém Roça Porto Real – Moderno, com uma enorme esplanada e um ambiente europeizado; o menu é mais variado do que o habitual e a frequência é maioritariamente jovem.

Beira-Mar (Juditinha) – Um dos restaurantes mais famosos de Santo António, ideal para conhecer os pratos típicos da ilha. Servem rapidamente, e a Juditinha e as outras senhoras são uma simpatia.

Romar – Tranquilo, sobretudo ao jantar, ambiente modernizado; a comida é boa e têm sobremesas, algo que é raro em muitos restaurantes de São Tomé e Príncipe.

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Príncipe, a outra ilha