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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qua | 30.06.21

Roteiro em São Miguel

 

Não há discussão possível, e não sou a única a partilhar desta opinião: o arquipélago dos Açores é um dos mais bonitos do mundo. São nove ilhas, cada uma com as suas particularidades e a merecer visita demorada – ou seja, nove motivos para viajar.

 

A minha sugestão de hoje é um pequeno roteiro para conhecerem alguns dos locais mais incríveis da ilha de São Miguel, que é uma das que tem mais ligações aéreas com o continente e portanto das mais fáceis de visitar. Sendo também uma das maiores, é claro que dois dias não são suficientes para ficar a conhecer tudo (nem metade!), mas este roteiro passa por alguns dos locais de que mais gosto nesta ilha e que não podem mesmo deixar de visitar – e é certamente um bom ponto de partida para uma estadia mais demorada.

 

Dia 1

 

Miradouro do Pico do Carvão → Aqueduto do Carvão → Lagoa das Empadadas → Lagoa do Canário → Miradouro da Grota do Inferno → Miradouro da Vista do Rei → Sete Cidades → Ponta da Ferraria → Ponta Delgada → Água de Pau →Monte Santo → Caloura

 

Apesar de ser uma ilha, a maioria das belezas de São Miguel está longe da costa. E o lugar onde começamos este roteiro fica precisamente no interior. No Miradouro do Pico do Carvão temos um primeiro vislumbre do que nos espera durante estes dois dias: uma paisagem verde, muito verde, que parece um manto ondulante ao sabor das colinas, e ao longe o azul do mar. Uma maravilha!

1 Vista do Miradouro do Pico do Carvão.JPG

Um pouco mais acima, do lado direito da estrada, encontramos o Aqueduto do Carvão, mais propriamente o troço que tem o nome de Muro das Nove Janelas. Este aqueduto foi construído entre os séculos XVII e XVIII para transportar água da Lagoa do Canário para Ponta Delgada, onde na época ela era escassa, e dele apenas subsistem algumas dezenas de metros. As pedras de que é feito estão cobertas de musgos, fetos e outras plantas, e por isso, apesar da sua envergadura, parece quase dissolvido na paisagem.

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É outra a primeira lagoa de São Miguel que vamos conhecer: a Lagoa das Empadadas, que tem como vizinha próxima a Lagoa das Éguas, um lugar silencioso a que a bruma quase constante confere um dos ambientes mais esotéricos da ilha.

3 Lagoa das Empadadas.JPG

E agora sim, vamos até à célebre Lagoa do Canário, rodeada de uma floresta cerrada onde quase não entra um raio de sol. O acesso faz-se primeiro por degraus escavados no solo e seguros por troncos de madeira, e depois por um trilho curto e agradável. É também da estrada de acesso a esta lagoa que chegamos ao Miradouro da Grota do Inferno, de onde é possível avistar quatro lagoas da ilha, mais especificamente a Lagoa das Sete Cidades, a Lagoa Rasa, a Lagoa de Santiago e a Lagoa do Canário.

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Uns escassos quatro quilómetros mais acima espera-nos outro miradouro famoso: a Vista do Rei. É daqui que podemos ver toda a Lagoa das Sete Cidades, a lagoa das duas cores que é sem sombra de dúvida o postal ilustrado mais conhecido da ilha de São Miguel.

5 Sete Cidades a partir da Vista do Rei.JPG

 

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LENDA DA LAGOA DAS SETE CIDADES

Havia no reino encantado das Sete Cidades uma bela princesa que passava muito do seu tempo a passear pelo campo. Gostava do verde dos montes e vales, das flores e dos pássaros, e de andar pelas aldeias. Durante um destes seus passeios conheceu um jovem pastor que guardava o seu rebanho. Passaram horas a conversar, e apaixonaram-se um pelo outro. A partir de então, encontravam-se todos os dias, trocavam juras de amor e faziam planos para o futuro.

Princesa que era, o seu destino já tinha sido traçado pelos progenitores: o casamento com o príncipe de um reino vizinho. Quando chegaram aos ouvidos do rei seu pai os rumores dos encontros amorosos com o pastor, a princesa foi proibida de o ver. Tiveram ainda assim os dois apaixonados oportunidade de se encontrarem uma última vez. A despedida foi regada com lágrimas, tantas que no local se formaram duas lagoas, cada uma com a cor dos seus olhos: azul a das lágrimas choradas pela princesa, verde a das que foram derramadas pelo pastor.

O casal enamorado não voltou a encontrar-se, mas as duas lagoas nunca se apartaram, e ali permanecem até hoje.

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Da Vista do Rei descemos até à aldeia das Sete Cidades para um passeio a pé pelo caminho que contorna uma parte da Lagoa Azul e nos leva até ao local a que dão o nome de jardim. Na aldeia, passamos pela Casa Grande, que pertenceu a um aristocrata local, vamos até ao pontão de madeira que construíram junto a uma ampla área arrelvada, e depois visitamos a Igreja de São Nicolau, de inspiração neogótica, construída na segunda metade do século XIX e cujos elementos arquitectónicos fora do comum fazem dela uma das mais originais e bonitas da ilha.

6 Lagoa das Sete Cidades.jpg

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Deixamos o interior e rumamos ao mar, até à Ponta da Ferraria, no extremo sudoeste de São Miguel. É aqui, numa “praia” de rochas quase negras, que é possível tomar os banhos de água salgada mais quentes da ilha. Nesta piscina natural formada numa reentrância que escapa à bravura do oceano, a água chega a ter uma temperatura acima dos 30 graus, pelo que se percebe bem a razão pela qual este é um dos lugares mais frequentados em dias soalheiros. Há ainda a possibilidade de aproveitar as comodidades das termas que existem no local.

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Acompanhando a costa, chegamos a Ponta Delgada. Não sendo uma cidade grande, percorre-se bem a pé, mas ainda assim tem muitos pontos de interesse para visitar. Começamos pelo Forte de São Brás, importante exemplar da arquitectura militar seiscentista, construído para defender a cidade dos ataques de piratas e corsários, frequentes naquela época. Do outro lado da estrada, a encantadora praça que dá pelo nome de Campo de São Francisco, onde chamam a atenção dois edifícios religiosos: a Igreja de São José e o famoso Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em cuja honra se realizam todos os anos as festas religiosas mais populares e participadas de São Miguel (e das mais importantes do país), normalmente no mês de Maio. Seguimos pela marginal até às Portas da Cidade, o ex libris de Ponta Delgada, “guardadas” pela estátua de Gonçalo Velho Cabral. Nesta praça, tal como em toda a parte antiga da cidade, o piso é em calçada portuguesa, e é belíssimo o efeito do contraste entre as pedras negras e brancas, dispostas em florões e padrões geométricos pelas mãos habilidosas dos calceteiros.

9 Ponta Delgada.jpg

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Continuamos até ao espaço modernista da marina, a que dão o nome de Portas do Mar, depois viramos para o interior, passando em frente à Igreja de São Pedro, e seguimos até à Igreja Matriz de São Sebastião, imponente na sua envergadura e no estilo barroco predominante, mantendo no entanto um maravilhoso portal manuelino.

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Numa visita mais demorada à cidade seria também obrigatório passar pelo Jardim António Borges e ir conhecer o Algar do Carvão, mas agora vamos seguir para leste até Água de Pau, uma vila simpática e aparentemente vulgar, mas que tem mais do que aparenta. Estacionamos por trás da igreja e atravessamos a estrada para entrar num bairro de ruas estreitas e íngremes com casinhas minúsculas coladas umas às outras, pintadas com barras coloridas. Na fachada de cada casa, uma imagem religiosa em azulejo. Continuamos a subir até à Ermida de Nossa Senhora do Monte Santo, lugar de peregrinação desde 1918, quando aqui terá ocorrido uma aparição mariana. A ermida existe desde 1931 e é uma pequena jóia, tanto exterior como interiormente. Subindo mais umas poucas centenas de metros chegamos a outro dos melhores miradouros de São Miguel, de onde temos uma visão de 360 graus sobre esta parte da ilha, mar de um lado e terra do outro.

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O último destino deste dia fica bem perto e é uma conhecida zona balnear: a Caloura. De um lado e do outro da estrada que serpenteia até ao mar há propriedades extensas e com ar próspero. Mesmo antes de chegar, encontramos a igreja mais original de toda a ilha, que pertence a um dos conventos mais antigos de São Miguel, o Convento da Caloura. A fachada desta igreja está praticamente toda revestida com azulejos azuis e brancos, ao contrário da grande maioria das igrejas micaelenses, em que o branco contrasta com o cinzento muito escuro do basalto.

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E para terminar este dia tão preenchido, nada melhor do que um passeio pelo pontão do porto da Caloura, seguido de bem merecido descanso numa esplanada com vista para o mar.

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Dia 2

 

Vila Franca do Campo → Lagoa das Furnas → Mata José do Canto →Parque Grená → Caldeiras das Furnas → Parque Terra Nostra → Fábrica de Chá Gorreana → Lagoa do Congro

 

Começamos este segundo dia muito perto de onde terminámos o primeiro, mais concretamente em Vila Franca do Campo. Primeiro que tudo, vamos satisfazer a gulodice com um doce conventual criado pelas freiras que viveram no Convento de Santo André, situado nesta localidade, e que é um dos mais típicos de São Miguel: as queijadas de Vila Franca do Campo, que se compram na fábrica e loja de Adelino Morgado, muito perto da marina.

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Depois, para gastar algumas das calorias ingeridas, vamos até à bela igreja barroca do Senhor Bom Jesus da Pedra. A paragem seguinte é no Miradouro de Nossa Senhora da Paz. A 215 metros de altura, é o lugar ideal para apreciar o famoso ilhéu de Vila Franca do Campo, melhor ainda se subirmos os 100 degraus até à ermida que dá nome ao lugar (aproveitamos para gastar mais umas quantas calorias), pois teremos como prémio vistas fabulosas sobre este lado da ilha.

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18 Vista do Miradouro de Nossa Senhora da Paz.JPG

O próximo destino é a Lagoa das Furnas, onde há muito para ver. Começamos pela Mata-Jardim José do Canto, que merece uma visita demorada, não só para conhecer as suas cameleiras centenárias e o maravilhoso Vale dos Fetos, mas sobretudo para ver de perto a bela ermida de Nossa Senhora das Vitórias, muito diferente de qualquer outro edifício religioso da ilha.

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Seguindo pela estrada que rodeia a lagoa, vamos até às célebres furnas onde é preparado o cozido típico desta região. O odor sulfuroso poderá não agradar a todos, mas esta é uma oportunidade para observar de perto as evidências da actividade vulcânica da ilha. Além disso, é aqui que fica o Parque Grená, a jóia natural de São Miguel que mais recentemente abriu ao público, e que não podemos deixar de ir visitar.

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A próxima paragem será já na aldeia das Furnas, no local a que chamam Caldeira do Vulcão das Furnas. Além de observar as fumarolas que saem das crateras, quem gostar de sensações diferentes não pode deixar de provar as águas azedas que brotam de várias fontes distribuídas pelo local – e há que experimentá-las todas, pois os sabores variam ligeiramente entre elas.

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O Parque Terra Nostra, considerado um dos mais bonitos do mundo, é outro dos lugares que é obrigatório visitar em São Miguel. Com uma área de 12,5 hectares, abriga muitos milhares de espécies vegetais, endémicas dos Açores e de muitos outros pontos do globo, além de ter uma magnífica piscina termal de águas naturais férreas cuja temperatura ronda uns maravilhosos 34-40 graus Celsius. Não se deixem influenciar pela cor ferrugenta e pouco convidativa da água, pois tomar banho nesta piscina é uma experiência única.

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27 Parque Terra Nostra.JPG

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Depois deste belo banho, nada melhor do que um chá. Vamos então seguir para norte para visitar a célebre Fábrica de Chá Gorreana, que funciona desde 1883 e é a mais antiga plantação de chá da Europa. Esta empresa familiar continua a utilizar o mesmo processo de produção desde que foi fundada. Não são usados químicos nas plantações, e a colheita e posterior transformação são essencialmente manuais. As poucas máquinas utilizadas são centenárias. A fábrica está aberta a todas as visitas, que são gratuitas, tal como o chá que se bebe na cafetaria. Podemos acompanhá-lo com bolos, tartes ou sanduíches vendidas no local e, como é óbvio, comprar os chás que são aqui produzidos.

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Plantações de Chá Gorreana

https://gorreana.pt/pt/

Gorreana, 9625-304 Maia, São Miguel – Açores (Portugal)

Horário: 2ª a 6ª - 8h-18h / sábados e domingos - 9h-18h

Informações: telefone 296 442 349  e-mail: gorreanazores@gmail.com

 

O último local deste roteiro é para mim o mais surpreendente e encantador de toda a ilha e dá pelo nome de Lagoa do Congro. O deslumbramento começa logo no acesso, primeiro por uma vereda larga entre árvores altas, depois descendo por um caminho sinuoso de terra batida na floresta que rodeia a lagoa. E que floresta! Árvores cuja copa se perde nas alturas, pedras e troncos caídos cobertos de musgo, enormes fetos, trepadeiras, o chão atapetado de folhas e um cheiro penetrante e doce a terra molhada e húmus. O silêncio é quase total, só quebrado por algum pássaro que pia ao longe ou por um ramo que estala.

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Depois, por entre a silhueta sombria das árvores, surge de repente o brilho da água e descemos os últimos degraus até à lagoa, um espelho de água tranquila que reflecte as cores do céu e da vegetação que a rodeia. Se por esta altura ainda não estiverem apaixonados por São Miguel, podem ter a certeza de que é aqui que o vosso coração vai ficar.

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Ficam por incluir neste roteiro vários outros locais, alguns icónicos, outros meio desconhecidos – mas, tal como ressalvei logo no início, dois dias não chegam para conhecer todas as belezas da ilha. E, vendo bem, uma das melhores sensações que podemos ter em viagem é quando descobrimos, sem aviso prévio, “aquele” lugar especial que nem sabíamos que existia.

 

(Este roteiro foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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Outros posts sobre os Açores:

Açores, destino sustentável

Um dia errante em São Miguel

As surpresas de Angra do Heroísmo

Na ilha das Flores - parte I

Na ilha das Flores - parte II

Na ilha das Flores - parte III

Na ilha das Flores - parte IV

Na ilha das Flores - parte V

Na ilha das Flores - parte VI

No Corvo

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Roteiro em São Miguel

 

 

Ter | 15.06.21

A ponte 516 Arouca, passadiços, baloiços e afins

 

Eu, pecadora, me confesso: já percorri a ponte 516 Arouca. E gostei da experiência. Quer isto dizer que sou fã de pontes suspensas, passadiços, baloiços e todas as demais infra-estruturas cuja intenção principal é apenas serem chamariz para o turismo? Claro que não. Devemos riscar do nosso mapa e votar ao esquecimento todos estes equipamentos que têm crescido que nem cogumelos um pouco por todo o nosso país? É óbvio que também não. A polémica está instalada e avoluma-se na proporção do aumento destes locais, que atraem cada vez mais atenções e pessoas. Não sou nem me considero tecnicamente habilitada para emitir juízos sobre o assunto. Apenas posso falar sobre o que vejo e sinto, e reflectir sobre o assunto. Que é precisamente o que vou fazer.

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Deixem-me, antes de mais, contar-vos como foi esta minha recente experiência. Fim-de-semana combinado com amigas para ir conhecer Cinfães e uma parte da margem sul do Douro (altamente recomendável, e hei-de falar aqui sobre isso), a recente inauguração da 516 e o facto de nenhuma delas ainda ter ido aos passadiços do Paiva fizeram-nos decidir aproveitar a proximidade geográfica e reservar um dia para este passeio.

 

Não tivemos muita sorte com o tempo, sempre cinzento e meio chuviscoso, e nitidamente a piorar quando chegámos a Alvarenga. Optámos por esta entrada porque a do Areinho obriga a subir (e depois descer, obviamente) a escadaria inicial de acesso aos passadiços, e no grupo há uma pessoa que tem uma certa fobia a descidas. Além disso, o plano era também ir depois provar o célebre bife de Alvarenga, uma sugestão à qual não consegui resistir – há já vários anos que evito comer carne de qualquer tipo, mas não sou fundamentalista e abro excepções quando estou em viagem, principalmente quando os outros pratos não me agradam por aí além; e constato, com muita pena minha, que continuo a gostar imenso de um belo bife de vaca. Mas adiante…

 

O carro ficou estacionado junto ao cemitério de Alvarenga, onde uma seta indica o acesso à ponte por um caminho pedonal que atravessa uma parte da aldeia e segue depois por um belo trilho de terra batida entre árvores. É um percurso de cerca de um quilómetro, que teria sido bem mais agradável se não estivesse a chover e não fosse esse o dia em que estava a decorrer o Trail Passadiços do Paiva, que passava precisamente por ali e nos obrigou a desviarmo-nos constantemente dos corredores, além de levarmos com a água enlameada que faziam saltar na corrida. Não estava, a bem dizer, um dia bom para actividades ao ar livre, nem para eles, nem para nós.

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As entradas na ponte são com hora marcada, porque é preciso limitar o número de pessoas que acedem, e porque cada grupo leva um guia. As torres onde estão fixados os extremos da ponte são uns mamarrachos altos que desfeiam a paisagem, e só não é pior porque ao longe ficam meio escondidas pelas árvores, sobretudo a da entrada de Alvarenga. Não pudemos levar os chapéus-de chuva para a ponte, o que é compreensível porque se tornaria perigoso por causa do vento (que não era muito, felizmente). Incompreensível é não terem feito nem sequer um pequeno telheiro de abrigo junto às entradas, que servisse para proteger tanto os funcionários que ali trabalham (do lado por onde entrei tinham um chapéu-de-sol daqueles das esplanadas, do outro lado nem isso) como os visitantes que têm de estar à espera para entrar. Seria uma protecção da chuva, mas sobretudo do sol no Verão, que aquela zona é bem quente.

 

No início, e também quando chegamos ao lado oposto, o guia dá algumas explicações sobre a ponte, a envolvente, e a fauna e flora da região. São explicações curtas e nada maçadoras, pois já se sabe que quem ali está quer mesmo é passar pela experiência sem ter de ouvir grandes dissertações. E atravessar a ponte é, de facto, uma experiência diferente de tudo o resto que podemos ver e fazer no nosso país. A paisagem é lindíssima, como não podia deixar de ser, com a Cascata das Aguieiras a despenhar-se pela encosta abaixo e as vistas sobre quilómetros da Garganta do Paiva de ambos os lados da ponte (e por baixo!), o rio a correr lá bem no fundo. Mas o que mais me impressionou foi mesmo a sensação de estar a uma grande altura tendo em volta um espaço completamente aberto e a perder de vista – quase como se estivesse a pairar. O gradeamento da ponte nem sequer nos chega aos ombros e não serve de grande bloqueador visual, e os cabos de suporte são praticamente invisíveis, mais ainda num dia em que o céu estava da mesma cor. A somar a isso, a ligeira vibração da ponte contribuiu para a impressão de que não estava a pisar chão firme, quase como se estivesse num barco.

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Depois de terminar a primeira travessia houve quem continuasse para os Passadiços, mas a maioria dos visitantes voltaram para trás pelo mesmo caminho, incluindo nós. Já tínhamos mesa marcada para o famoso bife, que não defraudou as expectativas. O restaurante, um dos vários que há na localidade, é grande mas estava a abarrotar, e havia fila de espera. Se em tempos de pandemia é assim, nem imagino como será em época normal. E não creio que a maioria dos clientes estivesse ali por causa da ponte ou dos passadiços… Nós, portugueses, somos capazes de fazer dezenas (às vezes centenas) de quilómetros para ir comer qualquer coisa de especial que nos apeteça, só porque sim.

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Quando saímos do almoço o mundo estava diferente, sol brilhante numa tarde calma e quase sem nuvens. Aproveitámos para ir até Espiunca, onde deixámos o carro, e fomos percorrer passadiços durante três ou quatro quilómetros, voltando depois para trás. Um passeio muitíssimo agradável, relaxante, que me deu a oportunidade de ver o rio a uma outra luz, pois da primeira vez que os percorri (podem ler tudo neste post) também estava, por coincidência, tempo chuvoso.

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Já passei por algumas outras experiências “radicais”, mas atravessar a 516 Arouca foi na verdade diferente. Não estou a dizer que tenha sido a mais fantástica de todas – até porque me sentia incomodada com a chuva, que a certa altura caiu com alguma intensidade e começou a encharcar-me, apesar do impermeável. Mas, embora já tenha cruzado outras pontes suspensas, esta foi de facto única no género, pelo menos até agora.

 

O que é que me levou a querer ir à 516 Arouca? Pois a curiosidade, está claro. De conhecer uma coisa nova, querer saber como é em vez de só ouvir pela boca dos outros, que cada um tem uma perspectiva diferente consoante a sua própria experiência. E, sobretudo, de querer pôr-me à prova, numa situação única e que não é, de maneira nenhuma, para todos. Não sou medricas, não tenho fobia de alturas, nem sofro de vertigens. Mas também não sou propriamente uma supermulher, e há situações que impõem respeito, ou mexem com os meus terrores de criança (e alguns de adulta…). Gosto de saber até onde consigo ir, conhecer os meus limites e tentar esticá-los mais um bocadinho. Já passei por situações que achei irem ser favas contadas e depois não foram, e por outras que pensei serem mais difíceis e ultrapassei sem grandes problemas. É com estas experiências que me vou conhecendo melhor.

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Aqui há uma meia dúzia de anos, descobriu-se que o turismo podia ser uma galinha dos ovos de ouro para Portugal. Acontece que o turismo é um “produto” com tantos outros e, nos tempos que correm, para vender há que apostar no marketing. Se os primeiros passadiços de madeira instalados no nosso país tinham como finalidade proteger os cordões dunares da nossa costa, não tardou muito até que alguém percebesse que seriam também uma forma de tornar acessíveis às pessoas comuns, para fins de lazer, zonas que habitualmente exigiam algum nível de agilidade para serem visitadas, bem como outras de acesso praticamente impossível. Quase de um dia para o outro, passámos a poder andar, correr ou pedalar em áreas de floresta, ria, pântano, areia, rocha, e tudo o mais que as edilidades autárquicas se têm lembrado de aproveitar para atrair visitantes aos seus territórios. Nalguns casos, a madeira veio substituir ou alternar com trilhos de terra batida pré-existentes, noutros simplesmente criou percursos novos onde apenas havia terra ou água.

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A fórmula resultou: portugueses e estrangeiros aderiram em massa a estas novas oportunidades de estarem mais facilmente em contacto com pedaços de natureza que até então lhes estavam praticamente vedados, e muitas localidades desconhecidas (ou quase) começaram a florescer com este aumento de atenção. Mais gente significa mais cafés, mais almoços, mais dormidas na região, mais uma “lembrança” que se compra. Mas também significa mais barulho, mais intrusão, mais lixo, mais impacto ambiental. Negativo, ou nem tanto? Fizeram-se estudos antes de tomar as decisões? Segundo o que tenho lido, parece que não – e também parece que não estão a ser avaliadas quaisquer potenciais alterações que tenham ocorrido ao longo dos anos de utilização de várias destas estruturas.

 

Se resulta bem para uns, então também deve resultar bem para outros, e as “modas” pegaram. Primeiro foram os passadiços. Com o sucesso dos do Paiva (que, dizem os ambientalistas, não faziam falta nenhuma), começaram a surgir estruturas no género em tudo quanto é sítio – alguns nem sequer são passadiços propriamente ditos, são apenas escadas de madeira absolutamente redundantes, como é o caso, por exemplo, dos que instalaram nas Fragas de São Simão, que nada vieram acrescentar a não ser poluição visual, pois os acessos à praia fluvial já eram mais do que suficientes. Pelo contrário, aumentaram a pressão humana num local idílico, que já foi relativamente tranquilo e agora fica apinhado de gente mal o tempo aquece. Também os passadiços que estão a ser construídos junto ao Pulo do Lobo, perto de Mértola, não fazem grande sentido num local que sempre foi de fácil acesso a partir de qualquer das margens. E estes são só dois exemplos.

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Depois foram os baloiços. Aos dois ou três mais antigos, juntaram-se recentemente tantos que já lhes perdi a conta. Embora não tenham o impacto ambiental dos passadiços, como são “instagramáveis” por natureza acabam por atrair hordas de pessoas ao local onde estão instalados – e quem diz pessoas diz carros, como é óbvio, e a consequente poluição. Alguns estão em sítios onde já existiam outras infra-estruturas de lazer, e por isso acabam por não fazer grande mossa, mas outros foram colocados em locais onde não há mais nada a não ser beleza natural.

 

Agora chegaram as pontes. As notícias da inauguração da 516 Arouca correram mundo (e a polémica de ser ou não a mais longa do mundo não a prejudicou, antes pelo contrário – é aquela coisa de não importar se dizem bem ou mal, o que interessa é que falem…) e visitantes não hão-de faltar, apesar das queixas do preço elevado (pode ser caro para o nosso nível de vida médio, mas para qualquer estrangeiro será uma pechincha). A ponte vem até insuflar vida nos próprios passadiços, que já têm demasiada concorrência. As torres estragam a paisagem, é verdade, mas a ponte em si, vista de longe, pouco se nota. Sobre o custo e o facto de alegadamente ter sido feita com dinheiros públicos, que poderiam ter sido usados para outro tipo de investimento, penso que é uma questão que deveria ser bem esclarecida e discutida. Se tiver sucesso, como provavelmente terá, fica uma porta aberta para que outras estruturas no género comecem a aparecer. E será que fazem falta? Esta é, quanto a mim, mais uma matéria discutível e que não deve ser apenas analisada do ponto de vista do turismo.

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Devemos então pôr completamente de lado este tipo de infra-estruturas turísticas? Ou, indo mais longe, o turismo será mais nocivo do que vantajoso? Como é óbvio, não tenho qualquer idoneidade para dar uma resposta cabal as estas questões. Mas podemos olhar para o que é feito noutros países, seja de bom ou de menos bom, e tirar algumas conclusões.

 

Tomemos como exemplo o super famoso Parque dos Lagos de Plitvice, na Croácia. É um dos parques naturais europeus mais concorridos – no ano de 2019 recebeu cerca de 1,8 milhões de visitantes. Uma parte do percurso de visita, que está bem delimitado, é feito sobre passadiços de madeira, outra em trilhos de terra batida. São passadiços simples, que apenas têm corrimãos nas zonas inclinadas. Permitem que o passeio se faça por zonas que de outra maneira dificilmente seriam acessíveis, sobretudo junto à água. Como os lagos apenas ocupam 1% dos 300 km2 deste que é o parque nacional mais antigo da Croácia (foi criado em 1949), a parte mais visitada é muito reduzida por comparação com a extensão total da área. Além disso, não é barato (um adulto paga actualmente, nos meses de época alta, cerca de 40€). É, obviamente, um caso de sucesso do ponto de vista turístico, e que se manteve dentro de limites razoáveis durante muitos anos.

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Património Mundial da UNESCO desde 1979, passou há alguns anos a também ser alvo de polémica. O aumento brutal de popularidade e de visitantes levou a que o governo (que recebe a quase totalidade da receita de bilheteira do Parque) autorizasse mais construção nas aldeias que estão incluídas na área protegida, além de muitas quintas e edifícios antigos estarem a ser reconvertidos para alojamento temporário. No entanto, o investimento em estruturas de abastecimento de água e de drenagem de águas poluídas não está a acompanhar esta evolução e está a poluir as águas de um dos rios que abastecem os lagos, o que levou a que em 2017 o relatório da missão UNESCO que visitou o Parque levantasse questões que, a não serem resolvidas, poderão colocá-lo na lista do Património Mundial em perigo.

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Numa latitude e registo bem diferentes, temos a Costa Rica. Nos poucos mais de 51 mil km2 de área deste país (0,001% da área da Terra) encontra-se 2,5% da biodiversidade do nosso planeta. A Costa Rica é conhecida pelas suas excelentes políticas de conservação da natureza e cerca de 28% do seu território está classificado como área protegida – 186 locais, entre parques nacionais, refúgios da vida selvagem, reservas biológicas e reservas florestais. Sendo o turismo (e sobretudo o ecoturismo) uma das principais fontes de riqueza do país, é evidente que não faltam atracções e infra-estruturas de todos os tipos para os cerca de 1,7 milhões de visitantes anuais. Aqui as pontes suspensas já não são novidade, pois entre as actividades mais populares encontramos os passeios ao nível das copas das árvores. Existem em quatro parques explorados privadamente, dois no Parque Nacional do Vulcão Arenal e dois na Reserva de Monteverde. A mais longa encontra-se precisamente num dos parques desta Reserva: incluída num percurso pedestre de 2,5 km com seis pontes no total, está colocada a 50 metros de altura e tem 236 metros de comprimento. São pontes suspensas simples, estreitas e pouco aparatosas, praticamente escondidas entre a vegetação densa, e servem de ligação entre os trilhos de terra batida do percurso, interrompidos por gargantas abruptas.

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Claro que nem tudo são rosas naquele que é considerado o país mais sustentável da América Latina. Apesar do esforço para reduzir a desflorestação que tem sido feito desde finais dos anos 70 e da implementação de uma política descentralizada de gestão e conservação das suas várias regiões, a Costa Rica continua a debater-se com questões graves, persistentes e de vária ordem, muitas delas causadas pelo aumento do turismo. Guias ilegais, que levam os visitantes por trilhos em áreas interditas, caçadores furtivos e colectores de ovos de tartaruga, que vendem as suas mercadorias exóticas a bares e restaurantes, ou o abate de grandes áreas arborizadas para a construção de alojamentos turísticos desproporcionados, são problemas que se somam a outros de ordem geral, como as rotas do tráfico de droga ou a prospecção de ouro nos rios.

 

Quer isto dizer que os benefícios económicos do turismo têm sempre como contraponto desvantagens ambientais e uma descaracterização cultural? Não forçosamente. Tudo depende, como é evidente, de como se olha para esta fonte de rendimento, dos limites que são (ou não) impostos ao seu desenvolvimento, e da forma como são geridas as questões mais complexas que o seu incremento sempre levanta. Bons exemplos há muitos. Organismos e associações regionais que optam por incentivar a continuação de modos de vida e de produção mais tradicionais (em vez de orientarem a maioria das pessoas para profissões padronizadas, como a restauração ou a hotelaria). Reinvestimento de lucros em soluções ambientalmente mais sustentáveis, tanto por parte de entidades privadas como públicas. Ou projectos que juntam a observação da vida selvagem com a sua conservação – como sucede, só para citar um exemplo aqui bem perto, no Parque Ornitológico de Pont-de-Gau, na região francesa da Camarga. Por esta região húmida, classificada como reserva da biosfera pela UNESCO, passam anualmente cerca de 150 mil aves em migração. Entidade privada com parceiros institucionais e comerciais, desde meados dos anos 70 que o Parque Ornitológico desempenha não só as funções de gestão e conservação de uma área de 60 hectares do Parque Natural Regional da Camarga, como também as de facilitar ao público o acesso à observação de uma enorme população de aves (tanto sazonais como permanentes) que vivem em completa liberdade e educar as gerações mais jovens no sentido da eco-responsabilidade, e ainda a de acolher e cuidar, no seu centro de tratamento, de um grande número de aves doentes ou feridas (cerca de 600 por ano) que lhes são confiadas, e das quais cerca de 40% são libertadas após a sua recuperação, que pode durar entre alguns dias e vários meses.

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O turismo (e sobretudo a sua massificação) é, de facto e em muitos casos, fonte de grandes e variados problemas. Mas pode também, se “utilizado” de outras formas, fazer parte da solução. Independentemente do que nos é oferecido e da forma apelativa como essa oferta é feita, podemos sempre pesar os prós e os contras das nossas opções quando viajamos, e adoptar princípios e condutas que sejam menos danosos para o nosso mundo ou mesmo, idealmente, que contribuam para um desenvolvimento ponderado dos lugares que visitamos.

 

Mas voltando à questão mais comezinha que deu origem a este texto. Se por um lado é possível compreender o entusiasmo com que no nosso país actualmente se divulgam e acolhem todas as “novidades” turísticas que têm vindo a surgir nos últimos anos (mais ainda agora, quando toda a gente está sequiosa de voltar a usufruir de uma liberdade total e já se perspectiva um possível fim desta pandemia), por outro lado parece-me ser importante – e antes que este frenesim descambe e depois seja mais difícil contê-lo – reflectir e ter algum espírito crítico em relação ao que está, ou não, a ser feito, e como está a ser feito.

 

Não é preciso cair no exagero de encarar pontes suspensas, passadiços, baloiços e afins como obras demoníacas, nem o turismo como um pecado, mas é de todo aconselhável ter a noção de que as nossas escolhas quando viajamos têm sempre algum impacto no mundo que nos rodeia.

 

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A 516 Arouca, passadiços, baloiços e afins

 

Qua | 02.06.21

Um outro Algarve

 

Algarve é geralmente sinónimo de Verão, praia, férias, e muitas vezes também de confusão. E no entanto, esta nossa região soalheira tem muito mais para oferecer do que apenas mar e belas praias. Tem temperaturas mais amenas durante todo o ano, o que a torna ideal para férias ou fins-de-semana fora da época alta. Tem belas paisagens, bem melhor apreciadas quando não estão cheias de gente. E tem séculos de história e uma cultura própria à espera de ser descoberta. No sotavento algarvio encontramos um outro Algarve: tranquilo, bonito, turístico sem exageros, onde se come bom peixe e marisco numa esplanada sem pagar demasiado, onde ainda se houve falar mais português do que outras línguas, onde o ar é morno e confortável. É o “meu” Algarve preferido, e é por aqui que hoje vos levo a passear.

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A Ria Formosa estende-se desde Faro até Manta Rota e é uma das áreas mais fascinantes e ricas em biodiversidade do sul de Portugal. Aqui as praias têm sempre espaço para mais alguém, a paisagem muda consoante as marés, e ainda se vêem pescadores e casas tradicionais. Mesmo no pino do Verão, o ritmo de vida nas localidades é mais relaxado e menos confuso.

 

Situada em plena Ria Formosa e atravessada pelo rio Gilão, a cidade de Tavira é o símbolo de tudo o que o Algarve tem de melhor. Desde muito antes da fundação de Portugal, aqui viveram fenícios, turdetanos, romanos, cartagineses, árabes e judeus, e esta mescla de culturas deixou marcas. Conquistada definitivamente para a coroa portuguesa em 1239, recebeu o primeiro foral em 1266. A importância estratégica do seu porto fez de Tavira uma localidade-chave na defesa da nossa costa sul e na expansão portuguesa para o território africano. Elevada a cidade em 1520, Tavira festeja este ano o seu 5º centenário. O património arquitectónico que subsiste até aos nossos dias, tão rico e miscigenado como a sua história, faz dela um dos melhores exemplos de uma cidade mediterrânica fortificada, e esta é uma das razões pelas quais Tavira é a representante de Portugal na Dieta Mediterrânica como Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

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É uma cidade para conhecer a pé, por isso o carro pode ficar num dos parques de estacionamento que existem quase à entrada da cidade, um de cada lado do rio, para quem vem da N125. Seguimos pela margem do Gilão, onde as casas têm escadas que tocam na água quando a maré sobe, mas ficam surrealmente suspensas sobre o nada quando o leito do Gilão se esvazia. Cruzamos a Ponte Antiga, que dizem ser romana, passamos pelas arcadas da Praça da República e subimos as escadinhas até à Igreja da Misericórdia, e depois até ao Palácio da Galeria e ao Castelo, que esconde no seu interior um encantador jardim e é miradouro privilegiado sobre a cidade. O branco rodeia-nos, só quebrado de vez em quando pelas cores da pedra, pelo amarelo-vivo que nos surpreende em alguns edifícios, ou pela paleta multicolorida de roupas a secar ao sol.

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Ao lado do Castelo, os volumes irregulares da lindíssima Igreja Matriz de Santa Maria, que terá sido construída no século XIII sobre uma antiga mesquita. O aspecto actual desta igreja demonstra uma multiplicidade de estilos arquitectónicos, sobretudo Manuelino, Barroco e Neoclássico, resultantes das várias alterações de que foi alvo ao longo dos séculos.

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Descemos pelas ruelas, novamente ao encontro do rio, para visitar o Jardim do Coreto. O nome já desvenda o ex libris deste jardim: um magnífico coreto octogonal, exemplo brilhante da arquitectura do ferro oitocentista. Construído numa fábrica do Porto em 1889, teve de ser transportado para Tavira por via marítima. Outra atracção maior do local são os engraçados cágados que vivem no pequeno lago que rodeia este coreto. Logo a seguir ao jardim, o Mercado da Ribeira, construído em alvenaria mas com estrutura no interior também em ferro trabalhado e alguns elementos em cerâmica, cuja função principal de abastecimento foi substituída pela de espaço comercial e de restauração.

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Continuamos ziguezagueando pelas ruas estreitas, ladeadas de casas tradicionais de recorte antigo, até chegarmos às salinas. Ao lado, uma enorme chaminé da antiga fábrica de conservas chama a nossa atenção, paredes-meias com o imponente Convento das Bernardas, agora transformado em hotel. Andamos mais um pouco até encontrarmos por fim a harmoniosa Ermida de São Sebastião, de raiz medieval com toques barrocos. Diz-se do mártir São Sebastião que é advogado contra as epidemias e os contágios – o que quer dizer que é o santo mais adequado a quem apelar nos tempos que correm…

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Na gastronomia da região, o peixe e o marisco têm, como é óbvio, lugar de destaque. As minhas preferências neste campo vão para a sopa de peixe, o mexilhão ou o lingueirão ao natural, ou o bife de atum. Mas a doçaria não lhe fica atrás, confeccionada com amêndoa, gila, figo e alfarroba – o difícil é não ceder à tentação.

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Embora não faltem restaurantes, bares e pastelarias ao longo de toda a Ria Formosa, a próxima paragem vai ser em Cabanas de Tavira, onde existe uma impressionante quantidade de restaurantes na rua marginal, agora dotada de um passadiço com vista para a ria. A minha sugestão? Provem as pataniscas de polvo e o arroz de coentros do restaurante Noélia & Jerónimo, e depois digam-me se não são uma delícia. Regalar o estômago com boa comida e os olhos com a bela paisagem é uma combinação imbatível.

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Seguimos para Cacela Velha, que os portugueses e as redes sociais parecem ter descoberto no Verão que há pouco terminou. E esta recém-adquirida popularidade é bem merecida, pois todo o conjunto paisagístico da aldeia e da ria aos seus pés são uma delícia para os nossos olhos. Os caprichos das marés desenham mapas na areia, que vão mudando ao longo do dia e consoante a posição do sol, pontilhados por pessoas e barcos. A aldeia, pequenina e praticamente inalterada desde que a conheço (já lá vão mais de duas dezenas de anos…), mantém a capacidade de me desvendar, a cada visita, um recanto ou pormenor em que ainda não tinha reparado. E as muralhas do Forte escondem um segredo que só alguns felizardos conhecem: a beleza da ria em noite límpida de lua cheia.

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A seguir a Cacela Velha, a ria termina e o areal estende-se, ininterruptamente, por 13 quilómetros. Manta Rota e Altura já perderam alguma da sua genuinidade mas ainda não se converteram – felizmente! – ao turismo de massas, a Praia Verde passou de enorme pinhal ignorado a estância de luxo, e Monte Gordo é uma amálgama de prédios que é melhor ignorar, a nódoa no fino pano do sotavento algarvio.

 

E chegamos a Vila Real de Santo António, a extremidade sudeste do Algarve e do país, encaixada entre o rio Guadiana, a extensa zona arborizada a que chamam Mata Nacional das Dunas, e o Sapal de Castro Marim. Do lado de lá do rio, a não muitos minutos de barco e menos ainda de carro, vemos Espanha, mais precisamente Ayamonte. Os pontos em comum entre as duas localidades não são muitos, e isso deve-se essencialmente à figura polémica que conhecemos como Marquês de Pombal. De facto, até 1774 a única localidade que defendia a nossa fronteira naquela área do Algarve era Castro Marim. Para reforçar as nossas defesas numa época de grandes mudanças, decidiu D. José I criar uma outra cidade na região, e incumbiu o seu super-ministro de executar essa tarefa. À semelhança do que havia feito com Lisboa, o Marquês de Pombal decidiu criar uma cidade organizada em blocos de edifícios baixos, com dois pisos e mansardas, separados por ruas e avenidas traçadas a régua e esquadro em ângulos de 90 graus, configuração que se mantém até hoje mesmo nas zonas mais recentemente construídas. De notar que a cidade foi erguida na totalidade em tempo recorde para a época: apenas dois anos.

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O coração de Vila Real de Santo António é a icónica Praça Marquês de Pombal, com o seu obelisco central – que homenageia o Rei e o próprio Marquês – a cumprir a função de sol, à boa maneira iluminista, do qual irradiam no chão faixas alternadas de pedra branca e negra. Em volta do quadrado central há laranjeiras e bancos de repouso, e nos edifícios que a limitam, tal como nas ruas imediatamente adjacentes, há um sem número de esplanadas e lojas de várias espécies. É aqui que encontramos grande parte da animação da cidade, sobretudo nas horas de menos calor, e é também a partir daqui que começamos a explorar as ruas pedonais em redor, com as suas casas brancas ou de cores suaves que ainda mantêm, na sua maioria, a traça original.

 

Vila Real de Santo António desenvolve-se, de sul para norte, paralelamente ao Guadiana, do qual apenas está separada por uma grande avenida, outro dos sítios favoritos para passear na cidade. Os passeios largos são de calçada portuguesa, com desenhos que replicam os motivos geométricos tradicionais em pedra das fachadas das casas. Ao longo da avenida, as palmeiras alternam com candeeiros brancos futuristas, há canteiros com relva e flores, bancos de jardim, quiosques e toda a parafernália habitual de uma zona ribeirinha. Ao lado do porto de recreio, uma escultura de João Cutileiro, também branca, retrata em modo modernista o omnipresente Marquês.

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É aqui, nesta cidade “a céu aberto”, jovem pelos padrões nacionais e tranquila pelos padrões turísticos, que termina este passeio pelo outro Algarve. Há muito mais a descobrir por estes lados, mas as coisas boas devem ser saboreadas aos poucos – porque assim teremos sempre motivos para voltar.

 

(Este roteiro foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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Um outro Algarve