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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Seg | 24.05.21

7 parques para conhecer no Dia Europeu dos Parques Naturais

 

Nos cerca de quatro mil e quinhentos milhões de anos que a Terra supostamente terá, só existe presença de humanóides há seis milhões deles, e apenas há 200 mil na forma humana que é actualmente a nossa. Quanto àquilo que consideramos civilização, não tem mais de seis mil anos, e a revolução industrial, marco fulcral do nosso desenvolvimento tecnológico, só teve início na segunda metade do século XVIII.

 

Jovens que somos neste planeta, decidimos chamar-lhe nosso e fazer dele o que bem nos apetece. No início do século XX, o peso de tudo o que já tinha sido produzido pelo homo sapiens equivalia a apenas 3% da biomassa da Terra; no final do ano passado, a massa total do que já produzimos ultrapassou o peso das “coisas” vivas no nosso planeta. Bastou um século para irmos de 3 a 100%, e estima-se que em 2040 tenhamos triplicado esta diferença. Somos uma praga.

 

Se é certo que existe beleza em muito do que criamos, ainda assim não conseguimos produzir nada de tão belo e perfeito quanto o que a natureza concebe. Por muito sublimes que sejam o tecto da Capela Sistina, o Taj Mahal ou os Kelpies, não conseguem ultrapassar a grandiosidade e perfeição de qualquer obra da natureza – seja ela um floco de neve, uma barreira de coral, uma criança ou um gamo.

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A percepção de que é necessário definir limites à ocupação (e ganância) humana e proteger o maravilhoso capital natural do nosso planeta é muito recente. No mundo, a primeira área a ser definida como parque nacional foi Yellowstone, em 1872. Na Europa, em 1909 a Suécia criou nove parques nacionais, os primeiros do nosso continente, e é em homenagem a esta iniciativa que desde 1999 se comemora a 24 de Maio o Dia Europeu dos Parques Naturais. Com organização da Federação EUROPARC (Federação da Natureza e Parques Nacionais da Europa), neste dia celebram-se as áreas naturais protegidas do continente europeu, chamando a atenção para a necessidade de reflectirmos sobre as nossas atitudes para com o mundo que nos rodeia e para a importância que os parques naturais assumem tanto enquanto espaços de preservação de ecossistemas como – sem qualquer dúvida – fundamentais para a sobrevivência da raça humana.

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O tema que a EUROPARC escolheu para as celebrações deste ano, que vão mais uma vez ser exclusivamente online, é “Parques naturais – a próxima geração”. Estamos de olhos postos no futuro, que é cada vez mais incerto e requer de nós um constante esforço de adaptação. E há uma premissa que parece cada vez mais inevitável: para evoluirmos precisamos de dar um passo atrás – ou, mais provavelmente, vários passos atrás. Precisamos de retomar a nossa ligação ao que é verdadeiramente essencial e relegar para segundo plano a perspectiva economicista pela qual olhamos para o mundo e para as nossas vidas.

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Passar mais tempo em contacto com a natureza no seu estado menos humanizado traz inúmeros benefícios à vida de cada um de nós, sobretudo se a nossa sobrevivência nos obriga a habitar em ambiente citadino – como é o meu caso. E é por isso que quando viajo, seja em Portugal ou extramuros, cada vez dou maior preferência a lugares onde posso ter esse contacto mais próximo. Não faltam, felizmente, tanto no nosso país como por essa Europa (e mundo) fora, áreas protegidas e parques naturais para conhecer, cada um com as suas características únicas, todos eles maravilhosos, vários deles verdadeiramente especiais para mim – como estes de que vos falo a seguir.

 

 

FJALLABAK (ISLÂNDIA)

 

A Reserva Natural de Fjallabak, situada no sul da Islândia, foi estabelecida em 1979 e tem uma área de 47 mil hectares. À cota de 500 metros acima do nível do mar, é uma região montanhosa, de origem vulcânica, onde a actividade geotérmica ainda se faz sentir na forma de fumarolas e nascentes de água quente. O local mais popular deste parque é Landmannalaugar, um vale entre montanhas pintadas com variações coloridas de amarelo, branco, castanho, azul e verde, com curvaturas suaves, em franco contraste com as formações agressivas do extenso campo de obsidiana negra de Laugahraun – formado pela lava resultante de uma erupção que ocorreu em 1477.

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Além de ter um parque de campismo e piscinas naturais de água quente, Landmannalaugar é ideal para quem gosta de caminhadas. É daqui que parte o trilho montanhoso mais percorrido da Islândia, o Laugavegur: 55 km até Thórsmörk, outro parque natural famoso e de muito difícil acesso. Há vários outros trilhos mais curtos e menos exigentes, perfeitos para percorrer em poucas horas e cujo grau de dificuldade é baixo ou médio.

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A pouca vegetação existente é tão rasteira que se torna quase imperceptível. Só vemos rocha negra e montanhas às manchas, por vezes o vapor que se solta da terra em grandes baforadas, ou um lençol de neve que se derrete num pequeno lago com água azul-turquesa brilhante. Num momento o trilho é de terra batida, a seguir temos de subir e descer sobre pedras, ou ziguezaguear entre formações de lava que ainda mostram arestas vivas. Mais adiante há um ribeiro que corre, com dificuldade mas determinado, por entre os obstáculos do terreno; a sua água é gelada e sabe demasiado a minerais. A sensação de estar noutro planeta é constante, o cérebro tem dificuldade em processar o que os olhos vêem, tudo parece estranho, irreal. Intocado pela mão humana, é um dos lugares mais belos onde já estive.

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Podem ler mais sobre a Islândia nos posts já publicados com o Diário de uma viagem à Islândia e Coleccionar paisagens surreais na Islândia.

 

 

MONTANHAS DE MARAMUREȘ (ROMÉNIA)

 

O Parque Natural das Montanhas de Maramureș é a maior zona protegida dos Cárpatos romenos. Fica no extremo do centro-norte do país, junto à fronteira com a Ucrânia (para lá da qual a região de Maramureș se estende), e abrange uma área de 1500 km2, cuja maior parte (70%) está incluída na Rede Natura 2000. Aqui, a floresta é rainha, sobretudo alpina, com predominância de carvalhos e abetos.

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O pico mais alto em território romeno é o Fărcăul, com quase 2 mil metros, em cuja base se formou um dos dois lagos glaciares do parque, o Vinderel. A fragmentação morfológica é uma das características mais marcantes desta região natural, que a torna única nos Cárpatos. Há substratos geológicos calcários, xistosos, basálticos e de dolomita cristalina, entre outros. Os dois rios principais, o Vaser e o Ruscova, dividem a área montanhosa em três áreas, separadas por vales encaixados entre encostas muito íngremes. O do Vaser, com cerca de 60 km, é considerado um dos mais belos vales dos Cárpatos Orientais, e uma das formas de o conhecer – porque não existem estradas – é a bordo de um pequeno comboio a vapor que percorre a mocăniță, uma linha férrea em funcionamento contínuo desde há quase 100 anos, usada sobretudo para transportar troncos de árvores cortadas – a exploração madeireira é uma das principais actividades económicas da região – e mais recentemente também para passeios turísticos.

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A linha férrea estreita acompanha o curso do rio, por vezes cruza-o, e o comboio vai seguindo lentamente o seu percurso entre a água e a floresta exuberante, tão cerrada que quase não deixa passar os raios de sol. O ar é frio e cheira a terra molhada e a húmus. Praticamente não se vêem pessoas, apenas alguns lenhadores ou uma guardadora de vacas acompanhada pelos seus animais. O passeio na mocăniță é uma espécie de viagem ao passado. Nas Montanhas de Maramureș, o tempo flui ao ritmo de um comboio vagaroso, e a tradição ainda é muito do que era.

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Podem ler mais sobre a Roménia nestes posts já publicados: Um roteiro na Roménia, 10 razões para visitar a Roménia, Nos passos de Vlad Dracul, Dois dias em Bucareste, O melhor segredo da Roménia e Peleș, o palácio a que chamam castelo.

 

 

FLORES (PORTUGAL, AÇORES)

 

Apesar de a ilha pertencer desde 2009 à Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, o Parque Natural das Flores só foi criado dois anos depois. Engloba cerca de um terço da área total da ilha, repartindo-se em zonas protegidas de vários tipos, reservas naturais, geossítios, áreas da Rede Natura 2000, um Sítio Ramsar e um Monumento Nacional. Para pouco mais de 140 km2 de área, isto quer dizer muito. Quer dizer, por exemplo, que aqui existem duas das plantas mais raras do mundo, entre as mais de 50 que são endémicas do arquipélago dos Açores. Que há na ilha duas espécies endémicas de aranhas e uma de escaravelhos Que esta é a ilha açoriana onde existe maior número de maars, ou crateras de explosão, de que são exemplo as lagoas Rasa, Funda, Negra e Comprida. Entre outras particularidades igualmente relevantes.

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E no entanto, saber tudo isto não nos prepara para o deslumbramento que a ilha provoca, sobretudo na região a que convencionaram chamar área protegida da zona central e falésias da costa oeste. No planalto central está incluída a Reserva Natural do Morro Alto, onde se situam quatro das sete lagoas da ilha das Flores. Na costa oeste estão as paisagens mais dramáticas, que se estendem sobretudo entre a Rocha dos Bordões, a formação prismática que é o ex libris da ilha, e a Ponta da Fajã. O maciço central termina numa arriba fóssil abrupta que chega aos 300 metros de altura em alguns locais, separado do mar pelas faixas larga de terreno plano a que dão o nome de fajãs.

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Desta arriba precipita-se a água de vários ribeiros, mais ou menos caudalosos, mas sempre com grande efeito. Uma destas cascatas é a do Poço do Bacalhau, bem visível ao longe, caindo pela falésia imponente do alto dos seus 90 metros. Nas proximidades começam (ou terminam) dois trilhos pedestres, um que liga a Fajã Grande às lagoas do planalto e outro que segue a linha da costa até Ponta Delgada, no extremo norte da ilha.

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Também na costa oeste, perto da Fajãzinha, fica a cascata da Ribeira Grande, a maior corrente cristalina da ilha, composta por vários saltos, dos quais o último é o maior e mais impressionante. Muito perto, o Poço da Ribeira do Ferreiro. Já capturado em milhares de fotografias e filmes, nenhum consegue verdadeiramente transmitir-nos a beleza que tem ao vivo. É um cenário perfeito, uma parede verde, larga e muito alta, quase a pique, por onde caem dezenas de fios de água que se juntam numa lagoa extensa onde está reflectida toda a paisagem em volta. Embora esteja a uns meros 500 metros da estrada, esconde-se atrás de uma floresta. É o lugar mais bonito da ilha das Flores e, para mim, um dos mais bonitos do mundo.

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Podem ler mais sobre a ilha das Flores noutros posts já publicados.

 

 

FRAGAS DO EUME (ESPANHA)

 

Situado quase no extremo norte da Galiza, o Parque Natural das Fragas do Eume é uma das maravilhas desta província. Em galego, fraga significa floresta com árvores de diferentes espécies, e esta que rodeia o percurso do rio Eume tem carvalhos e castanheiros, freixos, amieiros e teixos, bétulas, medronheiros, azevinhos, loureiros e até mesmo sobreiros, a somar a mais de 20 espécies de fetos e 200 espécies de líquenes. São 90 km2 de floresta quase virgem e praticamente desabitada, cheia de maravilhosos segredos.

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O parque tem oito percursos pedestres marcados e é acessível por quatro entradas diferentes. A principal, onde se encontra o Centro Interpretativo, fica perto da vila costeira de Pontedeume e leva-nos até ao Mosteiro de San Xoán de Caaveiro, que terá as suas origens algures entre os séculos X e XII. Embora seja possível chegar até quase ao Mosteiro de carro (fora da época alta) ou de autocarro (na Semana Santa e no Verão), para apreciar verdadeiramente a maravilha da natureza que é este parque há que fazê-lo a pé, seguindo simplesmente pela estrada ou optando pelo Camiño dos Encomendeiros, mais desafiante em alguns troços.

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Seja qual for a opção, é um passeio que enche a alma, sempre junto ao rio e entre árvores, altíssimas algumas, outras já reduzidas a meros troncos cobertos de líquenes ou musgo, passando por ribeiros que se precipitam pela encosta, ruidosos, saltando sobre as pedras, ansiosos por se juntarem ao Eume.

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Junto ao Mosteiro passa o rio Sesín, ao qual acedemos por uma ladeira empedrada para chegar à vetusta ponte que o cruza e às ruínas de um antigo moinho. O Sesín desdobra-se em vários cursos de água, cada um escorrendo entre pedras diferentes, ou saltando sobre elas, e nessas pedras nascem árvores e fetos. O ambiente é o de uma floresta encantada, e quase esperamos que de repente nos apareça um duende, zangado por o estarmos a incomodar. Os sortilégios da Galiza são muitos…

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Podem ler mais sobre este parque natural no post Na Galiza, entre mosteiros e fervenzas.

 

 

LAGOS DE PLITVICE (CROÁCIA)

 

É unanimemente considerado um dos parques naturais mais belos do mundo, e basta olhar para uma qualquer fotografia para perceber porquê. Os lagos de Plitvice (ou Plitvička Jezera, na língua croata) estão inseridos na região calcária dos Alpes Dináricos, numa área relativamente perto da fronteira da Croácia com a Bósnia e Herzegovina. Devido a vários factores de ordem geológica e hidrológica, são um dos mais impressionantes conjuntos cársicos do mundo: uma área de floresta densa com quase 300 km2, onde vários pequenos rios e ribeiros confluem para formar uma bacia de 8 quilómetros de comprimento com 16 lagos que se sucedem uns aos outros, separados por cascatas.

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Criado em 1949 e tornado Património Mundial da UNESCO em 1979, o Parque dos Lagos de Plitvice recebe anualmente mais de um milhão de visitantes. Os lagos estão divididos em dois grupos, 12 superiores e 4 inferiores. O desnível entre o primeiro (Prošćansko jezero) e o último (Novakovića brod) – que se situa cerca de 500 metros acima do nível do mar – é de 150 metros. As águas são cristalinas e têm cores que vão do cinzento ao azul e verde em todos os tons imagináveis, mudando consoante a posição dos raios solares ou os tipos e a quantidade de minerais que nelas se acumulam.

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As suas características especiais fazem deste parque um fenómeno único em termos de abundância e diversidade da flora, com 1267 espécies de plantas já identificadas (incluindo plantas carnívoras), várias delas raras e até em perigo de extinção. Quanto à fauna, foram até agora registadas 157 espécies de aves, entre elas o melro-d’água (Cinclus cinclus), um pássaro raro que depende de habitats com água absolutamente limpa. O Parque abriga também 50 espécies de mamíferos, tais como arganazes, musaranhos, ouriços, martas, javalis, morcegos de 20 tipos diferentes, lobos, veados, linces, lontras, e o mais famoso de todos: o urso pardo.

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Existem 18 quilómetros de passadiços de madeira e trilhos de terra batida que serpenteiam em volta dos lagos e sobre as águas. Cada volta do caminho oferece um quadro diferente, cenários de beleza natural sucedendo-se um após o outro, vegetação aquática alternando com bosques de árvores altíssimas. Nos meses mais quentes vêem-se borboletas e pássaros, e em certas zonas há peixes em abundância e patos. No Inverno o Parque torna-se branco de neve e as águas gelam em muitos pontos, mas o seu fascínio em nada diminui. Visitar o Parque dos Lagos de Plitvice é passar um dia no paraíso.

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Podem ler mais sobre este parque natural no post Os Lagos de Plitvice ou como passar um dia no paraíso.

 

 

RIA FORMOSA (PORTUGAL)

 

A Ria Formosa estende-se desde a praia do Garrão, perto de Faro, até Manta Rota e é uma das áreas mais fascinantes e ricas em biodiversidade do sul de Portugal, além de ser a zona húmida mais importante desta região. Apesar dos seus cerca de 180 km2, possui uma variedade incomum de habitats naturais, entre dunas e bancos de areia, sapais, áreas de pinhal, agrícolas e lagunares. Inclui cinco ilhas, que separam a ria do oceano, e a sua paisagem muda consoante as marés. É paraíso para um grande número de espécies de aves migratórias e terreno fértil para muitas actividades económicas, ligadas sobretudo ao meio aquático.

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Até há poucos anos foi o melhor segredo do Algarve, e conseguiu manter-se uma bolha de relativa tranquilidade mesmo no pico da época de veraneio. Entretanto, quase de repente, saiu do anonimato, sobretudo por causa daquela que é uma das mais bonitas aldeias portuguesas: Cacela Velha. A aldeia e a ria aos seus pés são um cartão-postal em tons de azul-verde com manchas de areia quase branca, onde nem sequer faltam apontamentos de cor viva dados pelos barcos tradicionais de madeira.

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Dos encantos da Ria Formosa fazem também parte outros lugares menos fotografados, mas não menos fascinantes: o recorte irregular e mutável das areias da Fuseta; a praia do Barril, com o seu cemitério de âncoras e o comboiozinho que nos transporta e parece de brincar; o casario tradicional de Olhão e os seus mercados; Tavira, o rio Gilão e as salinas; o peixe e marisco que fazem as nossas delícias. É rio que cheira a mar, e mar que às vezes parece rio e raramente se rebela. Mesmo que o céu esteja cinzento e a chuva ensope a areia, na Ria Formosa o Verão parece eternizar-se.

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Podem ler mais sobre esta região no post Um outro Algarve.

 

 

CAMARGA (FRANÇA)

 

No sul de França, ao desaguar no mar Mediterrâneo, o Ródano forma um delta que tem vindo a moldar, ao longo dos séculos, uma paisagem substancialmente plana. Este é o maior delta do território francês. Os seus ecossistemas têm uma riqueza biológica notável, e está situado no eixo migratório das aves que transitam do norte da Europa para África, constituindo um ponto de paragem vital para as mais de 150 mil aves por ali passam anualmente.

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Para proteger esta zona húmida de excepcional importância, classificada pela UNESCO como reserva da biosfera, foi criado em 1970 o Parque Natural Regional da Camarga, que se estende por mais de 1300 km2 (em terra e no mar), com 75 km de frente marítima. Região fértil e muito cultivada, protegida das grandes variações tanto do rio como marítimas por um longuíssimo dique construído para o efeito no final do século XIX (la digue à la mer), a paisagem da Camarga tem sido modelada tanto pela natureza como pela intervenção humana, que se nota sobretudo nos aglomerados populacionais (uns mais discretos do que outros), nos arrozais e nas salinas.

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Desta interacção entre o rio, o mar e o Homem resulta uma região pouco povoada, onde há mais animais do que pessoas, e com uma cultura muito própria. A maior parte da actividade económica (turismo excluído) está ligada às suas especificidades naturais: além da produção de sal e arroz, criam-se aqui cavalos e touros, apanha-se peixe e marisco.

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Um dos lugares mais extraordinários que é possível visitar na Camarga é o Parque Ornitológico de Pont de Gau – provavelmente o local onde existe a maior concentração de aves por metro quadrado, sobretudo flamingos. O parque tem duas lagoas, com trilhos pedestres fáceis de percorrer e devidamente sinalizados. A enorme colónia semi-permanente de flamingos ocupa um deles quase em exclusividade, e é fascinante observá-los e ouvir a sua “refilice” constante – parece que estão sempre zangados com qualquer coisa. Mas também conseguimos ver facilmente garças, milhafres, guinchos, pernilongos, pernas-verdes e alfaiates, além de patos e cisnes. Para lá da vertente turística, o parque funciona como centro de acolhimento e tratamento para aves selvagens feridas, cuidando de uma média de 600 aves por ano, das quais quase metade são devolvidas à liberdade após estarem curadas. Um verdadeiro santuário da vida selvagem.

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Podem ler mais sobre esta região no post Um cheirinho a sul de França - III - Camarga.

 

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Poder usufruir hoje em dia de espaços como estes, que satisfazem a nossa necessidade de contacto próximo com o que é mais genuíno e original no planeta que habitamos, só é possível porque estão institucionalmente protegidos. E mesmo assim, tantos deles são frequentemente alvo de desrespeito, vandalizados, destruídos pelo fogo ateado por mão humana, descurados, ou devastados por motivos de ambição económica. É, por todas estas razões e muitas mais, imperativo que as gerações mais jovens sejam educadas a considerá-las como tesouros que urge preservar a todo o custo.

 

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7 parques para conhecer na Europa

 

Sex | 14.05.21

Melgaço, o Minho do meu coração

 

Foi no Minho que tive durante bastantes anos uma casita de férias, numa aldeia que nem vinha no mapa, a um escasso quilómetro do troço da N101 entre Arcos de Valdevez e Monção – tão perto, e ainda assim suficientemente longe para já pertencer ao Portugal profundo. Aparte uns passeios bucólicos e a leitura (e as vindimas, quando era altura delas), nunca havia muito que nós, citadinos até ao tutano, quiséssemos ou gostássemos de fazer, por isso usávamos a casa sobretudo para dormir e durante o dia partíamos de carro à descoberta das redondezas. Foi assim que acabei por conhecer praticamente toda a região e pude voltar ao longo dos anos uma e outra vez aos lugares que me eram mais queridos.

 

O meu primeiro encontro com este Minho aconteceu quando tinha acabado de casar. Da região já conhecia Braga, Guimarães e Viana do Castelo, mas são cidades, e por muito bonitas que sejam, não é nelas que descobrimos o melhor que o Minho tem: o verde avassalador que nos entra pelas pupilas, a água que brota da terra e dos penedos, escorrendo pelos regueiros e pelas bermas da estrada, o cheiro inesquecível da terra e das folhas mortas, da seiva dos pinheiros, da palha dos currais, o tinir do sino que marca as horas no campanário da igreja, dia e noite, e o mugido das vacas galegas que passam a caminho do bebedouro ou do pasto. É disto – e de muitas outras maravilhas – que é feito o meu Minho, aquele que conheci naquela altura e que, com o passar dos anos, se foi polindo e modernizando, piorando nalgumas coisas e melhorando em muitas mais, mas sem perder o seu carácter.

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Estávamos no Outono, que é provavelmente a estação do ano mais bonita para viajar. É verdade que a Primavera tem a garridice das flores, mas as cores do Outono encantam-me. Numa tarde fria mas sem chuva, o meu recém-marido decidiu levar-me a conhecer Melgaço, e a primeira paragem foi no Parque das Termas do Peso, uns três quilómetros antes da vila. Passámos os portões, e foi amor à primeira vista. O Parque tem centenas de árvores de grande porte, plantadas há cerca de um século segundo plano do arquitecto paisagista Jacinto de Matos, que concebeu também vários outros parques e jardins em todo o país. Há plátanos, carvalhos, tílias e faias, caducifólias que começam no Outono a largar a sua folhagem, e a alameda central que conduz à Ribeira do Peso estava quase completamente coberta de folhas castanhas e amarelas de recortes variados. Não se via vivalma, tínhamos o lugar todo para nós e os únicos ruídos eram os das folhas a quebrarem sob os nossos pés, o piar de um ou outro pássaro, e o gorgolejar da água que salta para o ribeiro.

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Ao fundo, o edifício das Termas, baixo e comprido, foi mais um motivo para me encantar. Em estilo Arte Nova – o meu preferido – sóbrio nas suas linhas com ângulos curvos, a fantasia típica desta corrente estilística fica por conta dos ferros forjados, trabalhados com formas caprichosas, e dos vidros coloridos, que aligeiram a aparência dos enormes portões e das janelas altas rasgadas nas paredes. O interior do pavilhão da fonte principal é um cenário de filme, um espaço amplo dominado pelo chão de mosaicos quadrados em preto e branco, com gradeamentos de metal trabalhado em volutas, pintado de verde-esmeralda suave, e candeeiros também de ferro com globos brancos. A luminosidade filtrada pelos vidros das janelas e da clarabóia dá-lhe um ambiente glauco, bem apropriado para quem ali vai tratar-se pela água.

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Tanto o parque como as termas estavam meio ao abandono quando os conheci. O declínio tinha começado pelos anos 50 e continuou até há cerca de uma década, quando foram estabelecidos um plano e uma parceria público-privada para a sua recuperação. Os efeitos deste plano já se notavam bem quando lá voltei mais recentemente, depois de ter estado bastantes anos ausente da região. Os edifícios das Termas estão restaurados, a zona junto ao ribeiro foi arranjada e dotada de um módulo de madeira e vidro, estilizado para fazer vagamente lembrar um espigueiro (ou pelo menos assim me parece) e que abriga um café com esplanada, foi instalado um parque infantil e criado um circuito de manutenção, e até existe na zona arborizada um parque de campismo com bungalows e espaço para tendas e autocaravanas.

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No exterior do parque, junto à entrada da estrada principal, permanece ainda em ruínas o antigo Grande Hotel do Pêso (ou Hotel Figueiroa, como também ficou conhecido). Os edifícios baixos, completamente esventrados e sem cobertura, estão invadidos pela vegetação, a tinta azul-anil das paredes quase desaparecida, e partidos muitos dos coloridos vitrais da capela. Hoje não é fácil imaginar que o hotel, construído em 1901, foi um dos expoentes máximos da época de ouro do termalismo em Portugal, mas estes edifícios agora arruinados sobreviveram às convulsões e mudanças de um século fecundo em acontecimentos fracturantes e grandes transformações sociais, políticas e tecnológicas, e ainda assim mantêm um certo fascínio (podem ler a história do hotel na notícia publicada online pela Rádio Vale do Minho). Há um projecto ambicioso para a sua recuperação, com abertura prevista para 2022 – a oportunidade merecida para uma segunda vida, certamente diferente, deste hotel, do parque e das termas.

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Do lado oposto do parque, junto à entrada norte, termina (ou começa, se preferirmos) um trilho pedestre criado há alguns anos pela Câmara Municipal, a que deram o nome de Percursos Marginais do Rio Minho. São quase seis quilómetros (para cada lado) de caminhada, metade deles acompanhando o traçado do rio, que nem sempre se deixa ver, escondido pelas árvores e pela vegetação densa, e apenas se adivinha pelo som. A corrente forte atropela rochas, ilhotas e as pesqueiras – construções rudimentares feitas com pedras sobrepostas, que continuam a ser utilizadas sobretudo para a pesca à linha – e faz as delícias dos praticantes de canoagem e de rafting. O percurso é fácil e muito agradável mesmo nos dias mais soalheiros, pois em grande parte faz-se entre árvores, passa por um parque de merendas e tem inclusivamente um troço em passadiço de madeira, que termina numa espécie de miradouro sobre o rio, antes de voltarmos para trás pelo mesmo caminho para depois seguirmos para a vila. Podem encontrar toda a informação sobre este trilho no desdobrável publicado pela Câmara Municipal.

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Talvez por o meu primeiro encontro com esta região ter sido tão bem sucedido, sempre senti um carinho especial por Melgaço, mesmo que as minhas visitas à vila tenham sido irregulares. Lembro-me de que numa delas, depois de ter estado alguns anos sem lá ir, achei o centro histórico muito diferente, renovado, mais limpo e bem mais bonito. Desde essa altura, Melgaço tem crescido pouco (em área, não em interesse) e devagar, o que não deixa de ser uma mais-valia. Pese embora a presença do reboco pintado e construções mais modernas na orla da vila, continua a manter muitas das suas casas em pedra de granito, agora com janelas em PVC branco em vez de madeira.

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Ao fundo das ruas estreitas, onde felizmente os carros não passam, ergue-se vigilante a torre de menagem do castelo, sozinha, protegida por uma muralha elíptica, um conjunto hoje muito menos impressionante do que o desenho que dele fez Duarte d’Armas em 1509 no seu Livro das Fortalezas. Construído em 1170 numa elevação sobre o rio Minho, o Castelo de Melgaço foi a partir dessa altura, e durante muitos séculos, o principal posto de vigia da fronteira portuguesa com a Galiza. Mas é preciso sair da vila e parar no miradouro da Orada para perceber como terá realmente sido tão importante em tempos idos. Visto daqui, o castelo destaca-se com nitidez acima das casas, tendo por trás uma sucessão de serras declinadas em tons de verde-escuro. Para lá do rio, a vista espraia-se por muitos quilómetros sobre terras galegas, de onde agora já não corremos o risco de chegarem inimigos – mesmo que em tempos recentes as fronteiras tenham estado fechadas mais do que uma vez por questões de saúde pública associadas à pandemia do coronavírus. São outros tempos…

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O miradouro da Orada tem um cruzeiro, mas este não é o seu local original. Erguido em 1567, ano de peste e portanto de fervor religioso acrescido, foi colocado junto à capela que agora está mais abaixo e do outro lado da estrada, mas questões logísticas ligadas à quantidade de devotos que o contornavam nos dias de romaria acabaram por o fixar neste sítio em fins do século XIX. A imagem tosca e o desgaste do granito acusam as centenas de anos a que este cruzeiro já sobreviveu.

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Ainda assim, não foram tantos como os que já passaram pelas pedras manchadas da Capela de Nossa Senhora da Orada. Encaixada entre os muros de uma quinta vinhateira e umas quantas casas rústicas vulgares, pode facilmente passar despercebida a quem vai de carro pela estrada, com a atenção mais virada para a paisagem aberta do lado do rio. E no entanto, esta capela do século XIII é um dos edifícios mais surpreendentes da arquitectura religiosa do Alto Minho – já de si riquíssima em exemplares soberbos do período românico, como o são a Igreja de Bravães, perto de Ponte da Barca, ou a de Longos Vales, bem próxima de Melgaço, entre outras de que ainda aqui vou falar. Dizem os entendidos que mostra ser do período tardo-românico, por já ter alguns elementos protogóticos. Mais leiga do que eles, os meus olhos notam sobretudo o portal com colunas e arcos muito trabalhados, os cachorros com símbolos e figuras esculpidas, sob as cornijas, e um motivo vegetal por cima da porta norte que (mais uma vez de acordo com os peritos) representa a árvore da vida e é único em Portugal. Na sua escrita tão característica, Saramago descreveu a Capela da Orada no livro “Viagem a Portugal”, e foram as palavras dele que me trouxeram aqui pela primeira vez, tal como também me deram a descobrir outros lugares habitualmente ignorados pelas rotas mais turísticas.

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Edifícios religiosos não faltam por aqui, tanto em Melgaço como nos arredores. Há a Capela de São Julião, medieval mas que até agora não foi possível datar com certezas, e que também está acompanhada por um cruzeiro; e a de Nossa Senhora da Pastoriza, esta bem documentada e claramente barroca, construída no século XVIII. Perto, o antigo Convento das Carvalhiças ou de Nossa Senhora da Conceição, igualmente setecentista e barroco, que agora é propriedade privada agrícola mas cuja igreja ainda é possível visitar. E no centro histórico da vila encontramos a Igreja Matriz e a Igreja da Misericórdia, ambas românicas mas muito modificadas ao longo dos tempos, como se percebe pelos elementos ornamentais típicos de séculos recentes. A Igreja Matriz mantém o portal em arco quebrado e uma curiosa figura de quatro patas, gravada em pedra, sobre a porta lateral. A Igreja da Misericórdia, mais pequena, tem um aspecto simples e austero, embora no interior não faltem os retábulos em talha dourada, indispensável aos preciosismos barrocos.

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O meu Minho é também a terra do vinho verde. O tinto, que os meus sogros e toda a vizinhança produziam a partir de uva morangueira e de outra a que chamavam “jéque” (presumo que fosse uma corruptela de jaqué, uma casta de uva híbrida americana) e que eu não conseguia beber – sempre o achei demasiado ácido, arranhava-me a língua e a garganta, e tingia tudo aquilo em que tocava, fosse louça ou tecido; só muito recentemente passei a gostar de algum vinho verde tinto. E o Alvarinho, o meu preferido desde que me tornei gente crescida e comecei a apreciar beber vinho em ocasiões especiais. Num emblemático edifício seiscentista do centro histórico de Melgaço, facilmente reconhecível pelos três robustos arcos que formam uma espécie de alpendre avantajado, está instalado o Solar do Alvarinho. No seu interior sóbrio, onde algumas salas mantêm o tecto de madeira em caixotão, provamos uma (ou mais!) das várias marcas deste vinho produzidas no concelho, acompanhando com umas fatias de presunto ou chouriço da região e com dois dedos de conversa a quem lá se encontrar. E não há forma de resistir à tentação de comprar algumas garrafas, expostas na loja ao lado de peças de artesanato, bordados, enchidos e outros produtos tradicionais.

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Apetite desperto, é fácil saciá-lo: neste Minho come-se bem, seja um bacalhau à moda da terra, uns rojões ou um pernil assado, trutas ou lampreia. Entre a enorme lista de restaurantes por onde escolher, saímos de Melgaço para ir até Paderne e à Tasquinha da Portela. Restaurante amplo, num edifício de pedra harmonioso e com um grande espaço ao ar livre na parte de trás, proprietários simpáticos e atenciosos, comida reconfortante, despretensiosa e bem confeccionada, regada com bom vinho – tudo o que é preciso para uma refeição me deixar satisfeita.

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Esta saída de Melgaço também tem outra missão. Do lado oposto da estrada está a Igreja de Paderne, românica com evidentes elementos posteriores góticos e barrocos, mais um daqueles segredos que o Alto Minho esconde em aldeias insuspeitas e sem qualquer reconhecimento turístico. Construída no século XIII, pertenceu a um convento de que hoje já só resta uma parte do claustro. E se o exterior já chama a atenção, pelo volume e por ter um transepto incomum, com um portal quase tão ostensivo quanto o da entrada principal, o interior surpreende pela originalidade. Ao longo das paredes laterais até ao altar-mor há um cadeiral de madeira polícroma, bem mais simples do que os habituais cadeirais rebuscados em madeiras escuras, mas muito bonito e de grande efeito. Lá no alto, anjos pintados com cores desmaiadas parecem querer escapar-se pela rosácea. E uma das capelas tem a entrada completamente revestida de azulejos seiscentistas, tricoloridos em azul, branco e amarelo, enquanto o interior é bem mais discreto, com um altar neoclássico e tecto de tábuas corridas, decorado com desenhos florais em tons claros e a necessitar de restauro. Gosto destes edifícios religiosos que saem do comum.

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No Minho dos meus encantos que se espraia à volta de Melgaço há mais um destes edifícios, que em tempos desempenhou papel importante mas agora está posto em sossego nos confins de uma aldeia minúscula. As suas pedras contam histórias de oito séculos, ou talvez nove, que os estudiosos não são consensuais quanto à data da sua fundação. Foi mosteiro cisterciense, e antes disso provavelmente beneditino, reformado várias vezes ao sabor dos séculos, e aos nossos dias chegou apenas em forma de igreja. Chamam-lhe de Santo André, mas é simplesmente conhecida como Igreja ou Mosteiro de Fiães. Gosto dela pelas suas formas depuradas e pela quase ausência de adornos, cuja maior excepção são os três nichos com imagens de santos na frontaria, acrescentos do século XVII, que para o gosto da época a igreja seria demasiado simples. Gosto também do seu aspecto robusto, acentuado pelos contrafortes na frontaria e dos lados, e pela torre sineira lateral recuada, quadrangular e algo atarracada em comparação com os volumes do resto do edifício. E gosto sobretudo de harmonia que existe entre ela e o lugar em que se encontra, meio escondida atrás de plátanos e carvalhos tão ou mais altos do que a sua cruz cimeira. O sol reflectido nas folhas tinge de verde o granito da fachada, já de si manchado pelos líquenes, e empresta ao cenário um ar meio etéreo.

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O espaço que o Minho ocupa no meu coração cresceu mais um pouco há alguns anos quando me levaram a conhecer Cevide, a aldeia mais setentrional do nosso país, perto da qual está colocado o marco número um de fronteira. Sobre ela escrevi o post Cevide, onde Portugal começa, e desde essa altura já muito mais gente a descobriu e visitou, e foram criadas melhores condições de acesso ao marco. Tanto a pequena aldeia como o local onde o marco está colocado, perto do ponto onde o rio Troncoso (que ali delimita a nossa fronteira leste) desagua no Minho, são lugares onde o sossego é quase absoluto, e apenas se escutam os sons da natureza.

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É este o meu Minho, aquele que me põe um sorriso nos lábios quando o visito e que tem, desde há muito tempo e para sempre, um lugar cativo no meu coração.

 

 

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Melgaço, o Minho do meu coração

 

Qui | 06.05.21

Diário de uma viagem à Islândia VIII

Na Austurland (Região Leste)

 

A Austurland é outra das regiões da Islândia em que os vales extensos e quase planos, cobertos de verde na época menos fria, contrastam com montanhas abruptas formadas por milhares de camadas basálticas, e que nos recordam de como esta ilha é geologicamente tão jovem. Também aqui a costa é essencialmente recortada por fiordes, em cujas margens se abriga a maior parte das povoações. Apesar de ter um clima pouco turbulento, é uma região quase desértica, onde vive apenas 3,2% da população islandesa – mas é também, em contrapartida, a única do país onde vivem renas.

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Dia 8

 

Saímos cedo do alojamento e lançámo-nos ao caminho daquele que iria ser o dia mais longo de toda a viagem: 550 km, com algumas paragens pelo meio, embora menos do que as que eu gostaria de fazer. Os dias que ainda tínhamos para viajar não nos davam grande margem para demoras, e por isso a Austurland foi uma das regiões em que mais sacrificámos lugares que bem mereciam ser visitados.

 

Voltámos à Ring Road e a passar a norte do Lago Myvátn, para depois virar para a estrada de acesso ao Krafla, um dos sistemas vulcânicos mais explosivos da Islândia: a história regista 29 erupções desde o início do povoamento da ilha, tendo as mais recentes ocorrido entre 1975 e 1984. Tal como outros vulcões da Islândia (incluindo o Fagradalsfjall, que entrou em erupção no dia 19 de Março e tem alimentado as notícias com imagens espectaculares), o Krafla encontra-se precisamente no eixo da Dorsal Mesoatlântica, a crista do oceano Atlântico onde as placas tectónicas norte-americana e eurasiática divergem.

 

A manhã não estava agradável. A neblina às vezes mais parecia chuvinha e o termómetro do carro marcava uns míseros 4°C. No caminho passámos pela central geotérmica de Krafla, visível no cinzento generalizado da atmosfera pela cor avermelhada de alguns edifícios e por uns quantos penachos de vapor. Embora seja a maior central termoeléctrica da Islândia, produzindo actualmente 500 GWh de energia por ano (tendo em conta que 1 GWh pode alimentar cerca de 300 mil casas, dá para ter uma ideia da enorme capacidade produtiva desta central), a dimensão do complexo é reduzida, por comparação com as centrais de produção de energia que estamos habituados a ver. Curiosamente, foi instalada em 1977, durante o período mais recente das erupções do Krafla. Também a título de curiosidade, saibam que uma prospecção feita em 2006 neste sistema vulcânico revelou a existência de uma grande quantidade de lava a uns meros dois quilómetros abaixo da superfície terrestre, estando em curso um projecto pioneiro de perfuração com a finalidade de aproveitar a energia gerada pelo magma.

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A maior atracção turística do Krafla é a cratera Víti, formada aquando das fortíssimas erupções deste sistema vulcânico em 1724, que duraram cinco anos e ficaram conhecidas para a posteridade como os Fogos de Mývatn. Nesta cratera com cerca de 300 metros de diâmetro existe um lago com água de um azul tão turquesa que nem o nevoeiro conseguia tirar-lhe o brilho. Um trilho percorre o perímetro da cratera, mas as chuvas dos dias anteriores tinham empapado o solo de tal maneira que bastou subir uns poucos metros para ficar com as botas completamente enlameadas. O vento gelado e húmido também não convidava ao passeio, e por isso a nossa visita ao local foi muito curta.

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Apesar de ser a principal via rodoviária do país, a Ring Road não é mais do que uma estrada alcatroada com apenas duas faixas de rodagem, uma para cada sentido, e a velocidade máxima permitida são 90 km/hora – o que explica o facto de, pese embora o reduzido movimento automóvel no troço que percorre a zona leste da Islândia, termos demorado duas horas a chegar a Egilsstaðir, a maior localidade da Austurland.

 

Situada na margem do lago Lagarfljót, Egilsstaðir é sobretudo um ponto de passagem (e geralmente também paragem) obrigatória para quem viaja pelo leste da Islândia, pois é o centro onde confluem os eixos viários que ligam as principais localidades da região. Tem por isso uma oferta mais alargada de lojas, restaurantes e postos de abastecimento de combustível, e foi aqui que almoçámos antes de seguir viagem. O Salt Café & Bistro é mais um daqueles restaurantes clean e sem charme particular, mas confortável e arejado quanto baste, e com um menu suficientemente variado para agradar a quase toda a gente, desde os fãs dos hambúrgueres até aos que preferem comida italiana ou indiana, entre outras hipóteses. O preço de uma refeição básica é idêntico ao de uma refeição excelente em Portugal, mas isso é uma constante na Islândia, como de resto já expliquei no post dedicado à Norðurland Eystra (Região Nordeste).

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Se apenas for possível visitar um local na Austurland, tem de ser obrigatoriamente Seyðisfjörður, que é “só” uma das vilazinhas mais bonitas da Islândia. Escondida no fundo de um fiorde muito longo, para lá chegar há que primeiro vencer a montanha que separa a costa do interior. Apesar de o tempo ter ficado mais simpático a partir do final da manhã, como de resto já era habitual, assim que nos aproximámos do cume a mudança foi repentina: o nevoeiro engoliu a paisagem e o branco da neve tornou-se a cor dominante à nossa volta. Um encanto!

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Quando começámos a descer e saímos das nuvens, a paisagem voltou a vestir o seu costumeiro manto verde, e Seyðisfjörður surgiu ao longe, encaixada num vale, entre as manchas azuladas do mar e dois picos de montanha abruptos que ultrapassam os mil metros de altura. Na descida ainda parámos ao pé da Gufufoss, uma cascata algo modesta (pelos padrões do país) mas com um entorno privilegiado em termos de beleza e de qualidade do pasto, a julgar pelo trio de ovelhas que vagueava nas redondezas e não pareceu apreciar particularmente a nossa intrusão no seu almoço.

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Embora tenha sido fundada há mais de um século como vila piscatória, o crescimento da popularidade de Seyðisfjörður nas décadas mais recentes deve-se sobretudo ao seu porto de águas fundas, adaptado para navios de cruzeiro e ferries, que trazem muita gente à localidade. Mas se é verdade que os navios trazem as pessoas, o charme da vila faz o resto. A maior parte das casas são de traça tradicional e construídas em madeira, muitas delas datando do século XIX. Bem conservadas, por vezes com cores garridas nas paredes ou nos telhados, agrupam-se em volta da pequena lagoa adjacente ao porto, com as montanhas a servirem de anfiteatro.

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Em passeio pelas ruas da vila fui surpreendida por pormenores deliciosos que revelam uma das suas facetas: pese embora a localização remota, Seyðisfjörður é um dos centros artísticos mais activos da Islândia, o que é perceptível tanto pela arte de rua como pelos jardins das casas, muitos deles embelezados com criações cheias de originalidade. A somar a isso, a vila é palco do LungA, um festival cultural que se realiza anualmente em Julho.

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No entanto, não há qualquer dúvida de que o cenário mais fotografado – e por isso mesmo mais famoso – de Seyðisfjörður é a ruazinha cujo pavimento foi pintado com as cores do arco-íris, ao fundo da qual se ergue uma das igrejas mais icónicas da Islândia, apesar da sua simplicidade de linhas. A igreja azul, como é conhecida, tem uma história bem atribulada: foi construída no século XIX nos terrenos de uma quinta, mudada de lugar várias vezes, danificada por uma tempestade e mais tarde por um incêndio. Sempre reconstruída, é mais um símbolo da resiliência islandesa e a sua fama é, também por isso, merecida.

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Seyðisfjörður só tem ligação a Egilsstaðir, e portanto tivemos de voltar pela mesma estrada – o que não é propriamente um sacrifício, pois são pouco mais de 20 quilómetros e a paisagem é verdadeiramente deslumbrante. Depois optámos por continuar para sul pela Ring Road, mais demorada do que se fôssemos pela Estrada 95, mas que nos garantia piso alcatroado e vistas para o mar e os fiordes. À medida que nos aproximámos da costa o tempo foi clareando, e o sol já brilhava, por entre as habituais nuvens com formas estranhas, quando contornámos a península de Kambanes, entre Stöðvarfjörður e Breiðdalsvík, numa estrada que só existe desde 2002 e que foi construída para substituir uma outra, bastante rudimentar, traçada apenas 40 anos antes.

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Por volta das cinco e meia da tarde parámos em Djúpivogur, situada aos pés do Búlandstindur, uma montanha com 1069 metros de altura que mais parece uma pirâmide e já tinha chamado a nossa atenção do outro lado do fiorde, os seus picos irmãos envoltos em rolos de nuvens surreais. Djúpivogur é local calmo de veraneio e observação de aves, com uma marina e algumas praias minúsculas abrigadas nas enseadas rochosas.

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Tranquilidade é mesmo a palavra de ordem nesta pequena vila piscatória, onde o turismo tem cada vez mais importância e a falta dele, num ano em que há restrições à entrada de viajantes no país, dá-lhe um ambiente sonolento. Djúpivogur é a única localidade islandesa que pertence à Cittaslow, uma rede internacional de locais que dão primazia aos produtos genuínos, às actividades tradicionais e à protecção ambiental, em prol de um modo de vida menos acelerado e mais autêntico.

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Mas o motivo principal que nos trouxe aqui foi uma escultura – ou melhor, uma instalação composta por 34 ovos gigantes, esculpidos em granito com diversas tonalidades e alinhados ao longo de um paredão, sobre os pilares de cimento que em tempos suportaram a conduta de ligação a uma fábrica de processamento de peixe, hoje convertida em centro de exposição de obras de arte. A Eggin í Gleðivík (“Ovos na Baía Alegre”), criada pelo artista visual Sigurður Guðmundsson, é um tributo às aves marinhas que nidificam na região. Cada ovo de granito é uma reprodução exacta, em formato e cor, dos ovos de uma dessas aves, devidamente identificada com uma pequena placa informativa junto à réplica correspondente. E todos, excepto um, são do mesmo tamanho. O ovo que se destaca pelas suas dimensões (ainda) mais avantajadas é o da ave oficial de Djúpivogur, a mobelha-pequena (nome em latim: gavia stellata).

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Sabe-se que a vila (com cerca de 450 habitantes, na verdade é mais aldeia do que vila) já existia como porto comercial pelo menos em finais do século XVI. Ao pé da marina, onde flutuava uma solitária bóia-flamingo de cor berrante e dois pré-adolescentes se afadigavam em volta de uma prancha de surf, há uma casa tradicional comprida que se destaca, feita em madeira e pintada de vermelho: é a Langabúð, o edifício mais antigo da localidade, construído em 1790 e que actualmente aloja o centro cultural e de informação turística.

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Nesta região a Ring Road continua o seu caminho pela orla costeira, com breves incursões mais para o interior, e nós continuámos com ela. Na península de Hvalnes, mais um deslumbramento. De um lado uma praia extensa, que é também uma reserva natural, onde a água rasa desenha curvas entre os bancos de areia cinzenta e grandes congregações de cisnes-bravos se reúnem para passar o Verão, nidificando junto às lagoas. Do outro lado, a magnífica Eystrahorn, uma montanha com formações rochosas extravagantes, pintalgadas de rosa-pálido e verde, que faz parte da cordilheira do vulcão Krossasnesfjall. Entre a montanha e a água parda da lagoa, os edifícios brancos de uma quinta compõem o cenário – a fazerem-me lembrar cogumelos minúsculos que tivessem brotado espontaneamente da planície.

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Uns quantos quilómetros mais à frente, sozinha ao lado da estrada, mais uma bizarria islandesa: em cima de uma rocha, uma cadeira de madeira com um tamanho avantajado e pintada de vermelho. Também conhecida como cadeira do Batman, é colocada no local, depois de cada Inverno, pelo dono da quinta que lhe fica próxima, para que as pessoas parem e se sentem para tirar uma fotografia com a Brunnhorn como pano de fundo – a montanha carinhosamente apelidada pelos locais de “montanha Batman”, porque o seu formato evoca o logótipo do famoso personagem de banda desenhada.

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A seguir à Brunnhorn encontra-se a Vestrahorn, que é uma das duas montanhas mais fotografadas da Islândia (a outra é a Kirkjufell, que podem ver no post publicado sobre a península de Snæfellsnes). Entre a base desta montanha e o mar foi construído em 2010, para um filme islandês, o cenário de uma hipotética aldeia viking. O filme nunca chegou a ser rodado e o cenário ali ficou: uma longa paliçada cinzenta que mal se vê ao longe, perdida na planície aos pés da magnífica montanha que é a Vestrahorn, cujos picos rochosos abruptos atingem mais de 450 metros de altura. Está situado em propriedade privada, e para lá chegar é preciso sair da Ring Road na direcção da península de Stokksnes e parar no Viking Café, que também é alojamento local, para comprar o bilhete de entrada (à data actual, menos de 6 € por pessoa, uma pechincha pelos padrões islandeses). Depois dá para continuar com o carro durante mais uns metros, mas o resto do percurso até à “aldeia” tem de ser feito a pé.

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Se de longe o local não parece prometedor, assim que passamos para o lado de lá da cerca de madeira mudamos de opinião. As casas estão verdadeiramente bem recriadas – várias são inteiramente feitas de toros de madeira, outras têm portas e ombreiras com motivos esculpidos, e os telhados foram recobertos de erva. A paliçada tem estacas irregulares e aguçadas, há escadas e caminhos de madeira rudimentares e treliças feitas com finos ramos de árvore, e nem sequer falta uma masmorra, fechada com um forte gradeamento de metal. Com uma ou outra excepção, as casas que estão abertas não têm nada no interior, ou só têm restos de madeira, e pilares e escoras para suportar as paredes e os telhados. Dá para perceber que o cenário só se destinava mesmo a ser usado para filmar exteriores.

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Por estranho que pareça, o local acaba por ser fascinante, assim como que uma espécie de parque de aventuras para adultos entre o primitivo e o arruinado. Subimos e descemos, espreitámos pelas aberturas e pelas janelas, entrámos por um lado e saímos por outro, fotografámos até à exaustão, e quando demos por nós já ali estávamos há quase uma hora. Diferente, e divertido.

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Até ao alojamento que tínhamos reservado para passar a noite foram apenas 15 minutos. A Seljavellir Guesthouse é um edifício baixo e sobre o comprido, cujos quartos modernos têm acesso pelo exterior através de enormes portas de correr envidraçadas, e uma vista soberba através da planície até ao glaciar Vatnajökull. No lusco-fusco da meia-noite, o céu e as nuvens matizaram-se com nuances de roxo, rosa e laranja, numa espécie de pôr-do-sol sem astro-rei, escondido atrás das nuvens e das montanhas.

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O alojamento tem ainda uma outra particularidade, e por sinal hilariante: um trio de ovelhas, que reclamou ruidosamente a atenção dos donos quando chegou a hora de recolher. Ter ovelhas com animais de estimação, em vez de cães ou gatos, é só mais uma das opções peculiares que os islandeses têm à sua disposição.

A Islândia é, de facto, todo um outro mundo.

 

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O roteiro e várias informações práticas sobre a Islândia estão aqui: Coleccionar paisagens surreais na Islândia

 

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Diário de uma viagem à Islândia - Na Austurland (Região Leste)