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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qui | 22.04.21

Minas, da superfície às profundezas

 

À procura de um programa diferente para o fim-de-semana ou as férias? As sugestões que vos trago hoje resumem-se uma palavra: minas. Uma palavra pequenina, mas que no entanto consegue congregar entretenimento para todos: para quem gosta de ruínas, para quem viaja com crianças, para quem quer ser surpreendido, para quem simplesmente quer conhecer um pouco mais do nosso mundo. Prontos para partir nesta aventura?

 

 

Mina do Lousal

 

Fica perto de Ermidas do Sado, a meio caminho entre Santiago do Cacém e Ferreira do Alentejo – duas localidades que só por si merecem uma visita. Descoberto o jazigo em 1892, foi explorado entre 1900 e 1988 tanto a céu aberto como no subsolo. O minério retirado tinha sobretudo enxofre, mas também cobre, chumbo e zinco, e valores residuais de ouro e prata.

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Depois do encerramento, o local foi alvo de uma cuidadosa e bem-sucedida revitalização e é hoje um museu a céu aberto com três núcleos visitáveis: o Centro de Ciência Viva, espaço expositivo e de divulgação científica e tecnológica, que inclui várias áreas específicas para os mais pequenos; o Museu Mineiro, instalado no edifício onde funcionou a central eléctrica; e a galeria subterrânea da Mina do Lousal, com 300 metros de comprimento, onde ficamos a conhecer alguns pormenores do trabalho mineiro desenvolvido debaixo de terra.

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Centro de Ciência Viva do Lousal

http://www.lousal.cienciaviva.pt

Avenida Frédéric Velge Lousal, Lousal

Horário (de terça a domingo, incluindo feriados): 10h-18h; encerra nos dias 24, 25 e 31 de Dezembro e 1 de Janeiro

Informações / Marcações de visitas guiadas: telefone 269 750 520

e-mail: info@lousal.cienciaviva.pt

 

 

 

Mina de São Domingos

 

Fica no concelho de Mértola o lugar onde entre 1858 e 1965 existiu uma exploração mineira de pirites de cobre, e que hoje nos oferece uma paisagem de ficção científica ímpar no nosso país. Edifícios em ruínas, equipamentos abandonados, lençóis de água parada e vastas áreas pedregosas com cores acobreadas ou acinzentadas, um cenário pós-apocalíptico surpreendentemente atraente e fonte inesgotável para quem gosta de fotografar.

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São vários os locais a visitar: a Casa do Mineiro – Centro de Documentação, com um espaço museológico onde se recria a casa de uma família mineira e um núcleo de arquivo e estudo de documentos de vários tipos, que permitem reconstruir e preservar a história do extinto complexo mineiro; as ruínas das oficinas ferroviárias e metalúrgicas, lugar de produção e manutenção de grande parte do equipamento metalomecânico utilizado na operação da mina; a corta, uma espécie de lago com água colorida que resulta da exploração que foi feita a céu aberto; e os locais da Moitinha e da Achada do Gamo, onde encontramos as ruínas do que foram os dois centros principais da actividade de mineração aqui desenvolvida.

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Cerca de 20 km a sul da Mina de São Domingos há que visitar a aldeia fluvial do Pomarão, onde foi construído o porto que apoiava a logística de transportes da mina, estando na altura as duas localidades ligadas por uma via férrea.

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Casa do Mineiro – Centro de Documentação

http://fundacaoserraomartins.pt/

Rua de Santa Isabel nº 30/31, Mina de São Domingos, 7750-146 Corte do Pinto

Horário (todos os dias): 9h-12h30 e 14h-17h30

Informações: telefone 286647534  e-mail: fserraomartins@gmail.com

 

 

 

Mina de sal-gema de Loulé

 

Explorada actualmente pela empresa Tech Salt, é possível desde Outubro de 2019 visitar a mina Campina de Cima, em Loulé, local onde há mais de 50 anos se extrai sal-gema numa área de cerca de 1200 hectares que já tem mais de 35 km de galerias. O sal (cloreto de sódio) extraído desta mina destina-se sobretudo à alimentação animal, à segurança rodoviária (limpeza de neve) e ao controlo da vegetação infestante nos espaços públicos, entre algumas outras aplicações.

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Na visita à mina, que é obviamente sempre feita com guia e dura cerca de 2 horas, descemos até 230 metros de profundidade num elevador com um sistema de guiamento flexível (sem carris e com cabos), inovador na altura da sua instalação e que oferece maior segurança. Num percurso de quase 1,5 km ficamos a conhecer as particularidades geológicas da mina e a forma como é operada, muito diferente da ideia clássica que temos do trabalho mineiro. Além disso, ao contrário da maior parte das explorações mineiras subterrâneas, trabalhar nesta mina não acarreta problemas pulmonares, antes pelo contrário: são requisitadas com frequência para tratamentos de haloterapia, sobretudo para quem sofre de asma.

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Tech Salt, S.A.

http://www.techsalt.pt/

Rua Betunes, 27 r/c, 8100-616 Loulé

Localização da mina: 37°08'05.6"N 8°00'28.7"W

Horário: dias úteis às 9h30, 11h, 14h30 e 16h

As visitas podem ser marcadas online, por e-mail ou por telefone

Informações / Marcações: telefone 925 969 369  e-mail: turismo@techsalt.pt

 

 

 

Área mineira de Argozelo

 

Situadas na freguesia com o mesmo nome, concelho de Vimioso, as Minas de Argozelo começaram a ser exploradas em inícios do século XX. Aqui se extraiu estanho e tungsténio, sobretudo a partir de 1958 e até 1993, ano em que foi declarada a sua falência. Nos anos 80, antes do colapso do poço principal devido a problemas geotécnicos, a exploração desta mina atingia já sete pisos, com uma profundidade máxima de 170 metros.

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A área inclui vários locais de interesse que podem ser visitados: o Centro Interpretativo, onde estão expostos materiais e documentos diversos que contam a história da exploração da mina; a entrada do acesso inicial à mina, visitável apenas mediante pedido e com acompanhamento; o parque mineiro, antigo local da exploração e onde encontramos, ao ar livre e em estado de degradação, partes do equipamento usado para a mineração; e a ponte do mineiro, uma ponte suspensa sobre o rio Sabor, construída com madeira e cabos de aço, que muitos mineiros cruzavam quando se dirigiam para o trabalho.

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A melhor forma de conhecer todos estes locais é percorrendo a “Rota dos Mineiros de Argozelo”, percurso pedestre que tem início no Centro Interpretativo e nos leva pelos caminhos usados pelos mineiros.

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Centro Interpretativo das Minas de Argozelo

Cortinha do Calvário, 5230-027 Argozelo

Horário: dias úteis 9h-12h e 14h-17h; sábados, domingos e feriados 10h-12h e 14h-17h

Informações / Marcações: telefone 273 588 004  e-mail: sofiadiz@cm-vimioso.pt

 

 

 

Conhal do Arneiro

 

No artigo “À volta do Tejo” que já aqui publiquei falei de um percurso pedestre que passa pelo local onde existiu uma exploração mineira de ouro de aluvião que os Romanos desenvolveram até à Idade Média. O conhal fica no Monte do Arneiro, concelho de Nisa, e ocupa uma área superior a 70 hectares.

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Ali encontramos inúmeras pilhas de calhaus rolados (conhos), amontoados por entre as árvores e arbustos que hoje ocupam os canais (a Levada da Vala dos Mouros) por onde em tempos circulava a água utilizada na lavagem dos sedimentos, transportada desde a Serra de S. Miguel e da Ribeira de Nisa até ao local da exploração.

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Para compreenderem melhor este local e como era antigamente feita a mineração, aconselho que visitem primeiro o Centro Interpretativo do Conhal, instalado na antiga Escola Primária ao pé da igreja.

 

Centro Interpretativo do Conhal

http://www.cm-nisa.pt/centrointerpretativoconhal.html

Antiga Escola Primária do Duque, Santana, Arneiro (Nisa)

Horário: terça a sexta 14h-18h / sábados, domingos e feriados 9h30-12h30 e 14h-18h

(encerra às 2ª feiras e nos dias 25/12, 01/01, 2ª feira a seguir à Páscoa (Feriado Municipal) e dia 01/05)

Informações: telefone 245 098 059  email (CM Nisa): geral@cm-nisa.pt

 

 

***

 

Notem que nas galerias subterrâneas da Mina do Lousal e da Mina de sal-gema de Loulé a visita é feita respeitando todos os critérios de segurança e higiene necessários, como por exemplo o uso de capacete (colocado sobre uma touca de protecção) e – nesta altura específica – de máscara facial.

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(Este roteiro foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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Minas, da superfície às profundezas

 

 

Qui | 08.04.21

Portugal, outras paisagens

 

A geografia de Portugal é tão variada quanto o somos nós, portugueses, e a nossa cultura. Este pequeno rectângulo da Europa, com fronteiras delimitadas pelo mar e pelo seu povoamento, a que se juntam dois punhados de ilhas e ilhéus no Atlântico, tem uma diversidade paisagística tão imensa que surpreende até mesmo quem já lhe conhece mais ou menos bem os “cantos à casa”.

 

Conjunto de antigo e moderno, numerosas praias de macias areias e extensas campinas verdejantes, testemunho de uma história herdada dos seus antepassados fenícios, gregos, romanos e árabes: assim é Portugal, terra acolhedora, perfumada pelas flores.” – e é assim que o jornalista e escritor André Visson (1899-1971) começa o artigo que escreveu em 1954 sobre Portugal, com o título A Garden by the Sea (traduzido como Jardim da Europa à beira-mar plantado n’O Grande Livro das Viagens publicado pelas Seleccções do Reader’s Digest, e sobre o qual já falei no meu post O culpado). Quando Visson escreveu isto Portugal era apenas mais um país minúsculo e pobre num continente que ainda lambia as feridas da mais recente guerra, e este retrato permaneceu inalterado durante décadas. Milhares de rotações terrestres e terabytes de avanços tecnológicos depois, o nosso país passou de ilustre desconhecido a coqueluche do turismo mundial, e basta uma ligação à Internet para perceber que a oferta paisagística de Portugal vai muito além das praias de areias macias e campinas verdejantes. Milhões de fotografias, divulgadas em tudo o que é website ou rede social, testemunham a variedade e riqueza do nosso património geográfico e provam que uma viagem no nosso tão pequeno país é como olhar para dentro de um caleidoscópio – a cada curva do caminho, a paisagem muda, surpreende, e nunca nos aborrece.

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E no entanto, grande parte de toda a publicidade que é feita a Portugal parece focar-se essencialmente nos mesmos lugares, que são replicados fotografia atrás de fotografia com ligeiras variações, mais ou menos Photoshop, mais ou menos saturação de cor, luz matinal ou do entardecer, ângulo mais ou menos aberto… Não discuto aqui o merecimento destas escolhas, e de muitos deles também já falei noutros posts. Mas hoje apetece-me falar de outras paisagens portuguesas, igualmente inspiradoras, igualmente importantes, igualmente dignas de serem vistas mais uma vez, em fotografia e depois ao vivo, e que estão muito menos divulgadas. Cada uma delas tem características próprias, por vezes únicas, e contribui para enriquecer a diversidade deste país a que chamamos nosso. Estas são algumas delas, entre as muitas mais que Portugal oferece a quem faz questão de o conhecer.

 

Barragem de Santa Luzia

 

Escondida entre as serranias ondulantes da serra do Açor, a albufeira da Barragem de Santa Luzia é quase uma miragem: um deslumbrante lençol de água azul-eléctrico que surge de repente quando fazemos uma curva na estrada que vem da Pampilhosa da Serra. O contraste da paisagem cria no cérebro uma sensação de incongruência, parece impossível a coabitação entre a crista quartzítica maciça que se ergue do lado esquerdo, onde o muro de betão da barragem fecha o círculo e trava o passo ao rio Unhais, e o lago tranquilo rodeado de colinas arborizadas, que se transformam em picos acastanhados mais ao longe, com a serra da Estrela a espreitar entre eles, acinzentada pela distância.

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Esta é uma parte do nosso interior beirão que se mantém relativamente tranquila e é pouco explorada turisticamente, ofuscada por outras áreas em volta que são mais publicitadas. Tem no entanto uma oferta hoteleira razoável, sobretudo ao nível do alojamento local, excelentes praias fluviais – uma delas na própria albufeira da barragem, rodeada por uma bonita mata – e, como não podia deixar de ser, uma gastronomia excelente. Foi sobre esta região que escrevi o post Nas curvas da Pampilhosa.

 

 

Buracas do Casmilo

 

Perto da aldeia de Casmilo, no Maciço de Sicó, o Vale das Buracas é um conjunto de formações geológicas resultantes do abatimento da parte central de uma colina, que deixou a descoberto as grutas que existiam no seu interior, escavadas pela água nas zonas calcárias mais porosas durante o período jurássico médio. Apesar de pouco profundas, algumas destas grutas têm uma dimensão considerável e o aspecto de todo o conjunto é magnífico e original, diferente de todas as outras formações geológicas que encontramos no nosso país.

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As grutas estão rodeadas de vegetação rasteira e oliveiras, e surgem como manchas cinzentas e negras entre o verde dominante. Na sua maioria são de fácil acesso, bastando subir um pouco pelos carreiros marcados pelos passos de muitos outros visitantes. Nota-se que algumas servirão regularmente de abrigo e local de reunião de grupos, a julgar pelos vestígios que ali são deixados, por vezes algo estranhos.

 

 

Carrascal do Juízo

 

Junto à aldeia do Juízo, num planalto meio desértico (e quase deserto) da Beira Alta, há um bosque de aspecto misterioso que poderia ser palco para o enredo de uma novela gótica. É o Carrascal do Juízo, um bosque de azinheiras onde os troncos das árvores fazem lembrar esqueletos retorcidos e estão cobertos de líquenes tão antigos que já foram objecto de estudo científico. É atravessado pela ribeira do Porquinho, que tanto pode estar quase seca como ser necessário cruzá-la sobre as poldras ali colocadas para facilitar a passagem. Quando saímos do bosque e chegamos ao ponto mais alto das redondezas, os olhos perdem-se nos muitos quilómetros da paisagem serrana que vai de Marialva a Trancoso.

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Sobre a aldeia do Juízo e o projecto de alojamento local que nela se desenvolve podem ler mais pormenores no post Juízo, uma aldeia que tem histórias.

 

 

Estuário do Sado

 

É uma das nossas Reservas Naturais e estende-se por vários quilómetros e municípios, alimentando pessoas e animais desde que há memória. As margens do Sado no seu estuário são essencialmente planícies aluviais, embora também haja algumas zonas dunares e de praia. A riqueza florestal e agrícola do estuário e a sua diversidade faunística fazem dele um local privilegiado tanto para trabalhar como para passear. Há inúmeros e variados pontos de interesse ao longo dos muitos quilómetros que rodeiam a extensão onde o Sado se encontra com o mar. Um dos meus favoritos é a zona de Alcácer do Sal a que chamam Amieira, mais noticiada por ser todos os anos invadida por flamingos em migração para outras paragens, mas que é permanentemente habitada por uma enorme quantidade de aves diferentes, desde cegonhas a garças, pernilongos, alfaiates e outras pernaltas, além das omnipresentes gaivotas, que gostam de perseguir em grande algazarra os tractores que preparam o solo para a semeadura do arroz.

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O meu local mais preferido no estuário do Sado é o cais palafítico da Carrasqueira, uma obra-prima da arquitectura popular com características únicas que o tornam verdadeiramente fora de série. Embora cada vez menos pescadores façam uso dele, tem-se mantido quase inalterado ao longo das décadas e tornou-se parte importante da paisagem cultural desta região, com o seu aspecto colorido, tosco, meio decrépito e absurdamente cheio de poesia.

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Podem conhecer mais um pouco sobre estes (e outros) locais nos posts Lugares para conhecer em Portugal em tempos de pandemia e 11 lugares a não perder em Portugal continental.

 

 

Estuário do Tejo

 

É uma das zonas húmidas mais importantes da Europa e ramifica-se em esteiros e mouchões de aluvião, sendo as suas margens em grande parte constituídas por campos de vasa e sapais, onde a vegetação é rasteira e predominam as gramíneas e os caniços. A importância do estuário do Tejo deve-se sobretudo ao facto de ser ambiente de permanência regular de inúmeras espécies de aves aquáticas (que chegam a atingir o impressionante número de 120 000 indivíduos), e um dos lugares onde podemos observar mais de perto muitas destas aves é o Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo, entre a Póvoa de Santa Iria e Alverca. Há inúmeros patos, as sempre presentes gaivotas, e uma enorme população de guinchos, pilritos, alfaiates e maçaricos-das-rochas, só para citar os que são mais facilmente visíveis. Nas ribeiras que desaguam no Tejo há felosas e galinhas-d’água, e no meio do verde da erva emerge de vez em quando o pescoço branco e comprido de uma garça-boieira, movendo-se com aquele balanço quase hipnótico tão típico delas.

 

Esta zona do estuário é em grande parte ocupada pelo vasto Mouchão da Póvoa, onde apenas vemos desenhadas as silhuetas de algumas árvores, e o Tejo que avistamos parece só um rio estreito e tranquilo, muito diferente das perspectivas mais reconhecíveis que dele temos em vários outros troços do seu percurso.

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Fanal

 

O Fanal é um caso à parte na Madeira, uma paisagem distinta de todas as outras que encontramos nesta ilha, sobretudo pelo seu bosque de tis centenários (o til é uma árvore endémica da Madeira e das Canárias), que aqui vivem desde antes dos Descobrimentos. Neste bosque encantado, os troncos rugosos e retorcidos das árvores velhíssimas parecem ir ganhar vida a qualquer momento, e imaginamos com facilidade que de repente vão começar a falar connosco numa voz roufenha e mal-humorada, perguntando-nos porque estamos a incomodá-las no seu sono. Uma pequena lagoa, entre a orla do bosque e uma escarpa, ajuda ao encantamento; e se estiver neblina, como tantas vezes acontece, a impressão de estarmos dentro de um filme é ainda maior. Ou então, e porque estamos a altitudes que rondam os 1100 metros, podemos ter a sorte de chegar a um miradouro e ver abaixo de nós um tapete de nuvens extenso e compacto, e sentimo-nos como que a voar. É um outro mundo.

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Guadiana

 

Apesar de ser o terceiro maior rio que corre em território português e fonte do imenso lago artificial criado pela Barragem de Alqueva, o Guadiana continua a ser um ilustre desconhecido para a maioria dos portugueses. Talvez isso se deva ao facto de a maior parte da sua extensão correr em Espanha, e muito do que sobra ser fronteira entre os dois países, ou talvez porque do lado de Portugal o seu curso se faz maioritariamente em zonas pouco povoadas. O certo é que este rio tem muito menos protagonismo do que vários outros do nosso país, e por isso mesmo ainda há muito por “descobrir” nas suas margens.

 

Pouco depois de passar a ser também nosso, uns quantos quilómetros abaixo da fronteira do Caia, o Guadiana é palco para as ruínas de uma ponte com muita história. A Ponte da Ajuda foi construída no séc. XVI para ligar Elvas à luso-espanhola Olivença, quando a questão da propriedade deste território ainda não suscitava dúvidas. Tinha 385 metros de comprimento, suportados por 19 arcos, e um torreão colocado no centro. Foi destruída e reconstruída várias vezes até 1709, quando o exército castelhano a fez explodir durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Está em ruínas desde essa altura, e é bem visível a partir da bem mais recente ponte que faz parte da estrada entre Elvas e Olivença – e que tem uma placa a indicar Espanha na extremidade em que supostamente entramos no país vizinho, mas (compreensivelmente) nenhuma placa a indicar Portugal quando fazemos o trajecto em sentido contrário.

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Lagoa de Paramos

 

A Lagoa de Paramos, também conhecida como Barrinha de Esmoriz, é a maior área lagunar da região norte de Portugal e um local fascinante. Fica muito perto do mar e à sua volta corre um passadiço de madeira com oito quilómetros, um lugar privilegiado para passear ao sol, relaxar e observar aves de várias espécies. Dependendo da altura do ano, além das habituais gaivotas e de patos variados, é possível avistar guinchos, galeirões e galinhas-de-água, pernilongos e pilritos, garças, águias-sapeiras, e também alguns pássaros menos comuns como o bispo-de-coroa-amarela ou o chamariz. Rodeada de dunas e canaviais, em certos troços do passadiço avistamos os aglomerados de casas das povoações vizinhas, mas a maior parte do tempo é passada tendo apenas por companhia a água, a vegetação rasteira e os sons das aves.

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Situada numa região que tem muito para ver, incluí-a num roteiro que já aqui sugeri há algum tempo, e que podem encontrar no post Roteiro de fim-de-semana: entre a natureza e a História.

 

 

Meandros do Zêzere

 

Um dos troços mais admiráveis do rio Zêzere é o que serpenteia entre a aldeia de Dornelas e a barragem do Cabril, conhecido como Meandros do Zêzere. Atravessando esta zona extremamente montanhosa, o rio desbrava o seu caminho moldando-se ao relevo irregular e intenso que domina a paisagem, seguindo com calma, imperturbável, pelas curvas e contracurvas que a serrania o obriga a percorrer. Da N344, a estrada que vai para a Pampilhosa da Serra, há vários locais de onde podemos observar esta maravilha da natureza. Outro dos lugares privilegiados para apreciar os Meandros é a aldeia de Álvaro, estrategicamente situada ao longo de uma crista sobranceira ao rio, precisamente no ponto onde ele forma um cotovelo muito pronunciado. Sobre esta região já falei no post Nos meandros do Zêzere, e continuo a considerá-la como um dos melhores segredos do nosso país.

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Norte da ilha das Flores

 

Entre Santa Cruz das Flores e o Farol de Albarnaz, o ponto mais remoto da ilha, os olhos voltam-se para o mar. Aqui não há cascatas nem lagoas, mas sim miradouros sobre ilhéus rochosos com nomes tão díspares como Garajau, Álvaro Rodrigues, Furado ou Abrões. Ao longe, mais ou menos visível consoante o tempo, o Corvo marca presença, e se o dia estiver desanuviado conseguimos distinguir a olho nu a brancura das casas da Vila do Corvo, brilhando ao sol entre o verde-acinzentado que cobre a ilha. A estrada que nos leva por esta parte da costa das Flores é tudo menos linear e demora algum tempo a percorrê-la, principalmente porque não resistimos à tentação de parar de poucos em poucos quilómetros (podem perceber melhor porquê no post Na ilha das Flores - parte VI), mas tirar uma manhã ou tarde para conhecer esta zona menos divulgada da ilha é tempo bem empregue.

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Quando chegamos à ventosa Ponta do Albarnaz, a sensação é de que estamos no fim do mundo. Não fossem o farol e as vacas que por ali pastam, poderíamos pensar que a vida se tinha extinguido da face da Terra. Mas mesmo não estando no fim do mundo, estamos praticamente no fim de um continente: o ilhéu de Monchique, que é considerado o ponto mais ocidental da Europa, fica a uns meros quatro quilómetros de distância, em linha recta sobre o mar para sudoeste.

 

 

Pateira de Fermentelos

 

Classificada como Zona Húmida de Importância Internacional, fértil em riqueza biológica, e habitat de muitas espécies de aves, anfíbios e peixes, a Pateira de Fermentelos é além do mais um local com uma variedade de ambientes que mudam radicalmente consoante a hora do dia, as alterações climáticas e a perspectiva de onde a observamos. É um dos lugares mais românticos do nosso país, com os seus mirantes de madeira gémeos que evocam outras latitudes e outros tempos, os canaviais que ondulam ao vento, os barcos de fundo chato resguardados entre a vegetação das margens. Podem ler mais pormenores sobre esta belíssima lagoa, que ainda tanta gente desconhece, no post A lagoa tranquila.

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Pôr-do-sol no Alentejo

 

Os melhores pores-do-sol em Portugal são os da planície alentejana. Há neles uma magia especial que transforma o céu na paleta de um pintor, mesmo quando por vezes ele é atravessado por nuvens. A amplitude da paisagem, frequentemente desprovida de grandes árvores, mostra-nos silhuetas negras sobre campos amarelos à nossa volta, enquanto faixas cor-de-rosa e laranja se destacam num fundo azul brilhante por cima de nós. Outras vezes o céu fica vermelho berrante, incendiando a planície, as casas e as estradas, ou adquire a suavidade das cores pastel, como se filtradas por um vidro fosco – mas nunca, nunca se repete.

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Portal do Inferno

 

A estrada M567 percorre de forma irregular, como se estivesse embriagada, uma parte do Maciço da Gralheira, e num dos seus troços segue por uma crista muito estreita entre duas vertentes abruptas: é o Portal do Inferno, um dos miradouros mais fabulosos do nosso país. Estamos mil metros acima do nível do mar e de ambos os lados da estrada, lá muito no fundo, correm ribeiras, cada uma para seu lado (uma delas passa pela aldeia abandonada de Drave). Em volta desdobram-se as serras da Arada, de São Macário e da Freita, e as fundas linhas de água que as cortam verticalmente, vistas daqui, dão-lhes um aspecto característico a que chamam “garra”, por fazer evocar os dedos das patas de uma ave de rapina. É mais uma paisagem única no nosso país.

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Serra de São Macário

 

A altura certa para subir a São Macário é perto da hora do sol-pôr, em dia com poucas ou nenhumas nuvens. Quando as cores quentes do ocaso começam a derramar-se sobre as serranias percebemos porque é que lhes chamam Montanhas Mágicas. Nem a profusão de aerogeradores – esses gigantes esquálidos que desenham no horizonte o contorno das serras – estraga a atmosfera, antes parece chamar (ainda mais) a atenção para as formas caprichosas da paisagem que se avista em redor. Não estranho por isso a lenda do santo que dá o nome à serra, que diz-se terá escolhido este lugar para viver como eremita, penitenciando-se por ter acidentalmente morto o seu pai, pois para viver solitário não podia ter escolhido melhor. A gruta onde supostamente viveu é agora uma capela, mas desconfio que foi a beleza do entorno o verdadeiro motivo por trás da construção de uma outra capela, maior, mesmo no pico da montanha, rodeada de um muro que a protege das ventanias e (mal) acompanhada pelas torres de comunicações ali instaladas. Neste lugar de contemplação, é como se já estivéssemos a meio caminho do céu.

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Árvores queimadas

 

Todos os anos, nas várias viagens de carro que sempre faço em Portugal, deparo-me em algum lugar com uma paisagem de árvores queimadas. Em passeio na desolação de um pinhal ou floresta devastados pelo fogo não se ouve um som – não há pássaros a piar, nem folhas a sussurrarem ao vento, nem rumor de insectos. Apenas há silêncio.

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Os incêndios são um flagelo nacional que nos afecta brutalmente todos os Verões e parece aumentar com o passar dos anos, consumindo recursos e vidas. Os seus efeitos demoram anos a desaparecer da paisagem, e permanecem para sempre no coração e na memória de quem neles perdeu os entes queridos, ou a eles sobreviveu miraculosamente.

 

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Portugal, outras paisagens