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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 30.10.20

Cemitérios surpreendentes

 

Associados à morte, ao luto e à tristeza, os cemitérios não são genericamente considerados como lugares “turísticos” ou sequer dignos de visita. E no entanto, a relação que temos com o culto pós-morte (ou a sua ausência) vai muito para lá das questões meramente religiosas. Sendo uma característica muito específica da cultura de cada povo ou grupo social, ajuda-nos por vezes a ter uma visão mais abrangente de como funciona a sociedade do lugar que visitamos. Além disso, muitos deles são locais com uma estética própria, artisticamente interessantes, e habitualmente carregados de história.

 

Não tenho quaisquer tendências mórbidas, mas nas minhas viagens faço por vezes questão de ir conhecer este ou aquele cemitério. Outras vezes são eles próprios que se atravessam no meu caminho, por estarem junto a igrejas que visito. Na Roménia, fui propositadamente até um dos extremos do país para visitar o cemitério de Săpânţa, e uma boa parte das horas que estive na cidade de Zagreb foram dedicadas ao cemitério de Mirogoj. São imagens de alguns destes cemitérios mais fora do comum que hoje partilho aqui com vocês, em jeito de homenagem simples àquelas pessoas que já só vivem nas nossas memórias e no nosso coração, nesta época em que tudo nos faz pensar nelas ainda mais do que é habitual.

 

ÁUSTRIA

Petersfriedhof, Salzburg

 

É um dos cemitérios mais antigos desta cidade austríaca, e também ponto de passagem obrigatória para quem visita a cidade. Ao longo dos caminhos que rodeiam a capela gótica de Santa Maria, alinham-se sobre a relva sepulturas delineadas com pedra, que mais parecem canteiros floridos. Nesta atmosfera colorida, as cruzes são em ferro, muito adornadas, ou em pedra clara. Este é o lugar onde descansam muitas personalidades famosas que viveram em Salzburg, incluindo a irmã de Mozart e o compositor Michael Haydn. Mas a razão principal pela qual este cemitério é tão popular entre os visitantes são as suas catacumbas, que datam dos primórdios do Cristianismo. Serviam ao mesmo tempo de local de sepultamento e de eremitério, como o provam duas capelas medievais, muito simples, que podemos ver no seu interior.

1 Petersfriedhof, Salzburg

2 Petersfriedhof, Salzburg

3 Petersfriedhof, Salzburg

4 Petersfriedhof, Salzburg

 

CROÁCIA

Cemitério de Mirogoj, Zagreb

 

O cemitério de Mirogoj (Groblje Mirogoj, em croata) é qualquer coisa de monumental. A sua construção teve início em 1876 e só ficou terminada em 1929. Sucessivas obras e acrescentos foram feitos, culminando na construção de um crematório em 1984. Com uma área de mais de 8000 m2, nele repousam os restos mortais de pessoas de todas as confissões religiosas e também, como é óbvio, ateus. Além dos túmulos e jazigos particulares divididos pelos vários sectores, na sua maioria elaboradíssimos, existem vários memoriais referentes a períodos trágicos onde pereceram muitos croatas. A entrada principal do cemitério é, por si só, uma maravilha. Ao centro ergue-se a Capela do Cristo Rei, com a sua cúpula verde a dominar todos os outros elementos arquitectónicos. Arcadas estendem-se para cada um dos lados, cobertas de trepadeiras na face virada ao exterior. Do lado de dentro, o piso decorado com mosaicos e as colunas em mármore contrastam com o amarelo-claro das paredes, na sua maioria cobertas de lápides trabalhadas, candeeiros de metal, e toda uma variedade de elementos decorativos que evocam e prestam homenagem aos muitos notáveis aqui sepultados desde há quase um século e meio.

5 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

6 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

7 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

8 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

9 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

10 Cemitério de Mirogoj, Zagreb

 

ESPANHA

Cemitério de Vilavella, As Pontes de Garcia Rodríguez

 

Este minúsculo e curioso cemitério anexo à Igreja de Santa Maria de Vilavella (com origens no séc. XIII mas restaurada em estilo barroco) surpreende sobretudo pela incongruência da sua localização. É em As Pontes que se ergue, mesmo antes da entrada na vila, a maior central térmica de Espanha, cuja gigantesca chaminé é a construção mais alta do país e a chaminé com mais volume do mundo. Praticamente encostado às instalações, tão escondido que podemos passar na estrada sem dar por ele, está o conjunto arquitectónico de Vilavella: três casas abandonadas e semi-recuperadas, parcialmente invadidas pela vegetação, um pequeno espigueiro, um cruzeiro, e a igreja, que nesta altura é o único edifício ainda visivelmente utilizado. O cemitério é quase essencialmente constituído por gavetões encostados aos muros, na vertical, e algumas campas assinaladas no solo.

11 Cemitério de Vilavella, As Pontes de Garcia Rodríguez

12 Cemitério de Vilavella, As Pontes de Garcia Rodríguez

13 Cemitério de Vilavella, As Pontes de Garcia Rodríguez

14 Cemitério de Vilavella, As Pontes de Garcia Rodríguez

 

ISLÂNDIA

A Islândia só começou a ser habitada de forma permanente na segunda metade do séc. IX, por povos pagãos de origem nórdica e céltica. Por volta do séc. X, o Cristianismo começou a espalhar-se entre os habitantes, tendo a Reforma Luterana chegado no séc. XVI. Existem actualmente no país cerca de 350 igrejas e, obviamente, muitas delas têm um cemitério. Estes cemitérios são na maioria bastante singelos, tal como as próprias igrejas, mas alguns têm um encanto especial.

 

Cemitério da Hofskirkja, Hof

 

A pequeníssima igreja de Hof, no extremo sul da região de Austruland, foi a última igreja de turfa a ser construída no país, perto do final do séc. XIX. Restaurada nos anos 50, está protegida como monumento histórico, pertencendo ao Museu Nacional da Islândia. Tem ao lado um pequeno cemitério totalmente aberto onde se perfilam, por entre a erva alta e à sombra das árvores, poucas dezenas de cruzes de madeira – todas idênticas e muito minimalistas, pintadas de branco, cada uma com uma placa preta onde estão escritos os detalhes da pessoa que ali está enterrada.

15 Cemitério da Hofskirkja, Hof

16 Cemitério da Hofskirkja, Hof

17 Cemitério da Hofskirkja, Hof

 

Cemitério de Keldur

 

Keldur é uma povoação histórica onde se encontra a quinta de turfa mais antiga do sul da Islândia. A igreja, feita de madeira e metal, data de 1875 e por trás dela existe um cemitério com sinais funerários de várias espécies, desde cruzes de madeira simples até placas de pedra polida, que marcam as campas relativamente mais recentes. Apesar do aspecto geral bastante espartano, como de resto é comum na maior parte da Islândia, algumas sepulturas estão marcadas com pormenores enternecedores.

18 Cemitério de Keldur

19 Cemitério de Keldur

20 Cemitério de Keldur

21 Cemitério de Keldur

22 Cemitério de Keldur

 

ITÁLIA

Cemitério de San Michele, Veneza

 

A ilha de San Michele, entre Murano e Veneza, está praticamente toda ocupada pelo monumental cemitério desta cidade, criado em 1813 por ordem de Napoleão, quando a Sereníssima se encontrava sob o domínio do Imperador. Estende-se por uma área de cerca de 450x400 metros e está dividido em vários sectores religiosos – católico, ortodoxo e evangélico – com espaços específicos para militares, padres e freiras. Refrescado por ciprestes e buxos, tem muros, recantos e caminhos que reduzem a sensação de grandeza e proporcionam um ambiente mais intimista, e nele há de tudo um pouco, desde simples campas em pedra no chão ou nas paredes, até grandiosos jazigos e monumentos. Aqui estão sepultadas muitas personalidades oriundas de todo o mundo, o que mostra bem o fascínio que Veneza sempre exerceu também fora das suas fronteiras. O ambiente é profundamente silencioso, mais ainda do que é costume nestes locais, o que se deve à ausência do ruído do trânsito automóvel que é pano de fundo habitual nas grandes cidades.

23 Cemitério de San Michele, Veneza

24 Cemitério de San Michele, Veneza

25 Cemitério de San Michele, Veneza

26 Cemitério de San Michele, Veneza

27 Cemitério de San Michele, Veneza

 

PORTUGAL

Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

 

Junto à icónica Igreja de Santa Marinha, os jazigos do Cemitério Velho de Cortegaça chamam a atenção. Datam de fins do séc. XIX ou inícios do século passado e, tal como a igreja, alguns têm paredes cobertas com azulejos. Estão ornamentados com cantarias trabalhadas e lindíssimos portões em ferro forjado. Vários destacam-se por ostentarem o nome da família a que pertencem, pelo seu formato diferente, pelo interior mais cuidado ou pela extravagância da sua decoração, mas todos são testemunhos de uma época em que, mesmo na morte, “parecer” era tão ou mais importante do que “ser”.

28 Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

29 Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

30 Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

31 Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

32 Jazigos do Cemitério Velho, Cortegaça

 

ROMÉNIA

Maramureş é uma região setentrional da Roménia, e uma das mais isoladas e culturalmente singulares e preservadas do país. Típicas desta região são as suas monumentais igrejas de madeira, algumas datando dos sécs. XVII a XIX, mas que continuam a ser construídas actualmente, pois a Roménia é um dos países mais religiosos da Europa. São igrejas ortodoxas ou, nalguns casos, greco-católicas, e há quase sempre um cemitério associado a cada uma delas.

 

Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

 

O cemitério rodeia três lados desta igreja do séc. XVII. Os sinais funerários que marcam as sepulturas são de várias épocas e têm estilos variados, desde simples cruzes de madeira até estelas funerárias, com predominância para cruzes em metal mais ou menos ornamentadas, ferrugentas na sua maioria. Este cemitério tem um ar desordenado e meio abandonado, quase “selvagem”, o que lhe confere um encanto particular.

33 Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

34 Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

35 Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

36 Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

37 Cemitério da Igreja de Sat Șugatag

 

Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

 

A igreja dedicada a Santa Paraskeva em Deseşti é uma das oito igrejas inscritas como Património Mundial da UNESCO, por isso não admira que o seu cemitério se mostre extremamente bem cuidado. Apesar de algumas campas com uma estética mais “moderna”, predominam os ferros forjados e as ornamentações com flores, à mistura com madeira trabalhada, inscrições manuais ou meio toscas, placas de cimento pintadas, mármores com baixos-relevos, e tudo o mais que a imaginação pode conceber como decoração funerária. A atmosfera é algo kitsch, muito colorida e nada sombria.

38 Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

39 Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

40 Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

41 Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

42 Cemitério da Igreja de Cuvioasa Paraschiva, Deseşti

 

Cemitério Feliz de Săpânţa

 

Este cemitério é um lugar único, que celebra as vidas das pessoas que ali estão enterradas em vez de chorar a sua morte. As lindíssimas cruzes de madeira que assinalam cada sepultura, esculpidas e pintadas em azul forte (conhecido como azul Săpânţa) e outras cores igualmente chamativas, num estilo naif, ilustram cenas que caracterizam a pessoa que morreu ou a forma como morreu, em conjunto com uma descrição divertida ou um poema. Stan Ioan Pătraş foi o artista local que deu origem a esta tradição e até à sua morte, em 1977, produziu quase 700 destas cruzes. Como não podia deixar de ser, é neste cemitério que se encontra sepultado, precisamente à frente da porta da igreja, com a sua imagem encimada por duas pombas brancas. A obra de Pătraş tem sido desde essa altura continuada pelos seus aprendizes.

43 Cemitério Feliz de Săpânţa

44 Cemitério Feliz de Săpânţa

45 Cemitério Feliz de Săpânţa

46 Cemitério Feliz de Săpânţa

47 Cemitério Feliz de Săpânţa

 

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Cemitérios surpreendentes

 

 

 

Seg | 26.10.20

Da Figueira a Aveiro, pela costa

 

No roteiro que hoje vos proponho vamos passear por uma das minhas zonas preferidas da Costa de Prata. Apenas 70 quilómetros separam Aveiro da Figueira da Foz, mas há tanto para ver que vos sugiro destinarem vários dias para conhecerem com calma esta bela região. Venham comigo!

 

 

Figueira da Foz

 

A cidade onde desagua o nosso rio Mondego é sobejamente famosa pelos seus extensos areais e animada vida social e cultural. A sua história é anterior à fundação do país, e em finais do século XIX adquiriu grande importância como porto marítimo e estaleiro naval. Data também desta época o crescimento da sua popularidade como estância balnear, tanto entre os portugueses como os espanhóis, certamente por ter a praia urbana mais larga da Europa. Meia dúzia de quilómetros a norte da cidade encontra-se o Cabo Mondego, Monumento Natural de importância científica reconhecida mundialmente pelo seu valor geológico.

1 Figueira

2 Figueira-Cabo Mondego

 

Apesar de ser uma cidade moderna e de dimensão razoável, na sua maior parte a Figueira da Foz visita-se bem a pé, e o melhor local para começar é o Bairro Novo, construído em inícios do século XX segundo uma rede geométrica que se desdobra para o interior a partir do extremo sul da Praia da Claridade. Algumas ruas são exclusivamente pedonais, e é aqui que se desenvolve grande parte da vida comercial e social da cidade. Muitas das casas mantêm a traça apalaçada original, em contraste com o célebre Casino, a que já foi dado um toque futurista com vidro e metal. Obrigatório é também percorrer a marginal desde a Torre do Relógio até Buarcos, que em tempos foi uma aldeia piscatória separada mas agora faz parte integrante da cidade, conservando ainda assim um ambiente próprio, menos sofisticado e mais tradicional.

3 Figueira-Casino

4 Figueira

5 Figueira-Buarcos

 

Estes são os principais pontos de interesse na Figueira da Foz:

  • Casa do Paço
  • Forte de Santa Catarina
  • Torre do Relógio
  • Bairro Novo e Casino
  • Parque das Abadias
  • Museu Municipal Santos Rocha
  • Palácio Sotto Mayor
  • Paço de Tavarede
  • Núcleo Museológico do Mar (Buarcos)

 

6 Figueira

Não podemos deixar a cidade sem ir ao Miradouro do Cabo Mondego, sobre a bonita praia que tem o mesmo nome, e subir à Serra da Boa Viagem para ver toda a Figueira da Foz e região circundante. No lado sul do rio, a famosa Praia do Cabedelo é outro dos spots a não perder.

 

 

Quiaios

 

Poucos quilómetros a norte do Cabo Mondego, Quiaios é local de paragem por dois motivos. Um deles é a Cascata da Pedreira (também conhecida como Cascata da Serra da Boa Viagem), cuja água tem uma alcalinidade especial que dá ao lugar um aspecto característico muito particular. Meio escondida e só acessível a pé, tem tendência a secar no Verão, por isso será mais espectacular visitá-la em época de chuvas. O outro motivo é a bela praia de Quiaios, que não fica atrás das suas vizinhas.

7 Praia de Quiaios

 

 

Praia da Tocha

 

Também é uma praia, mas é muito mais que isso. Em tempos pequena aldeia piscatória, actualmente está, como não podia deixar de ser, transformada em estância balnear. O que a torna diferente são as suas casas típicas – os palheiros – construídas em madeira sobre estacas e que serviam para guardar os apetrechos de pesca. Hoje convertidas em habitações, têm aqui a particularidade de estarem essencialmente pintadas de cores escuras, apenas com alguns toques de branco ou de outra cor.

8 Praia da Tocha

9 Praia da Tocha

 

 

Mira

 

Continuamos para norte, pela estrada florestal que atravessa um enorme pinhal onde ainda se notam os devastadores efeitos dos incêndios de Outubro de 2017. Apesar da desolação, permanece um local cheio de beleza.

10 estrada

 

Paramos depois na Lagoa de Mira, local que possui uma diversidade natural muito própria, principalmente de borboletas e libélulas. Foi por isso que aqui criaram uma Estação da Biodiversidade com cinco biospots, distribuídos ao longo do percurso pedestre e ciclável que rodeia a lagoa.

11 Lagoa de Mira

 

A Praia de Mira é outro local onde apetece ficar. Entre o areal a perder de vista e um braço comprido da Ria de Aveiro que termina noutra lagoa, a que chamam Barrinha de Mira, alternam campos de cultivo e aglomerados de casas. Paralela à praia, uma extensa e larga avenida, bem embelezada, onde se destaca a pequena capela às ricas azuis e brancas, erguida em 1843 e dedicada a Nossa Senhora da Conceição, padroeira dos pescadores. Ao pé da capela, o monumento aos Pescadores da Arte de Xávega, criado em 1997 pelo escultor Alves André. Na orla da praia ainda existem alguns palheiros, recuperados e convertidos em restaurantes ou cafés, e na areia vêem-se barcos típicos de onde saem longas redes de pesca.

13 Praia de Mira

12 Praia de Mira

 

 

Costa Nova

 

O destino seguinte é a já muito famosa Praia da Costa Nova, fama esta que extravasou fronteiras – não têm conta as fotografias das suas casas coloridas que encontramos espalhadas pelas redes sociais. Mesmo assim, mantém o seu encanto, sobretudo porque as construções novas e remodeladas da Avenida José Estêvão (em honra do ilustre político aveirense do século XIX, cujo palheiro ainda existe) têm vindo a respeitar o espírito cromático dos antigos palheiros. É impossível não ficarmos contagiados com a alegria e o calor que as cores vibrantes destas casas nos transmitem.

15 Costa Nova

14 Costa Nova

 

 

Barra

 

À Praia da Costa Nova segue-se a da Barra, também extensa e dividida por um paredão que delimita a chamada Praia Velha. Aqui os nossos olhos são imediatamente atraídos para o farol, a “vedeta” que ofusca tudo o resto. É para mim o farol mais bonito do nosso país, em termos de construção, e só é pena não ficar num local menos povoado. O Farol da Barra foi construído em 1893 e a sua torre com riscas róseas e brancas tem 62 metros de altura, o que faz dele o mais alto de Portugal e um dos mais altos do mundo. É visitável às quartas-feiras da parte da tarde.

16 Farol da Barra

Há um percurso pedestre circular criado pela Câmara Municipal de Ílhavo que nos leva a conhecer as praias e as localidades da Barra e da Costa Nova. É um percurso fácil e plano com 11,5 km distribuídos entre o mar e a ria, em passadiços, trilhos ou percurso urbano. Podem descarregar o folheto do percurso a partir deste link.

 

 

Aveiro

 

Chegamos finalmente a Aveiro, uma cidade que tenho visitado com alguma frequência nos últimos anos e não cessa de me surpreender – sempre pela positiva! Há tanto para ver e fazer nesta cidade tão bonita e luminosa que me arriscaria a não parar de escrever, por isso vou apenas resumir aquilo que na minha opinião não podem deixar de conhecer e fazer em Aveiro:

  • Passear de barco na ria
  • Descontrair no Parque Infante Dom Pedro (também chamado de Parque da Cidade)
  • Caminhar no passadiço da ria de Aveiro
  • Quebrar a dieta com os ovos-moles e a tripa
  • Admirar os edifícios Arte Nova
  • Cirandar pelas ruelas do bairro da Beira-Mar
  • Percorrer o passeio pedonal junto à ria entre a Praça Humberto Delgado e o Cais da Fonte Nova

17 Aveiro

20 Aveiro

18 Aveiro

19 Aveiro

 

Outros pontos de interesse a ver/visitar:

  • Museu Arte Nova
  • Sé Catedral
  • Estação Ferroviária (edifício antigo)
  • Capela de São Gonçalinho
  • Salinas
  • Ponte dos Carcavelos
  • Museu de Aveiro/Santa Joana
  • Igreja da Misericórdia
  • Teatro Aveirense
  • Igreja de São João Evangelista

21 Aveiro

 

Para conhecer melhor o património arquitectónico da cidade e em particular os seus belíssimos edifícios construídos no início do século XX em estilo Arte Nova, o Turismo distribui um mapa que identifica 28 locais (casas, instituições, instalações urbanas, etc.) onde podemos observar elementos representativos deste estilo.

 

Sugiro também que leiam os posts sobre Aveiro que já publiquei no meu blogue, onde falo com mais detalhe dos motivos que me levam a gostar tanto desta cidade:

22 ria de Aveiro - passadiço

23 ria de Aveiro - passadiço

24 ria de Aveiro

Fora da cidade há também muito para ver. Toda a envolvente da ria é maravilhosa e a melhor forma de a observar é fazer um passeio de carro até à Reserva Natural das Dunas de São Jacinto – e aproveitar a praia, se o tempo estiver bom. Mais a sul, o Museu da Vista Alegre em Ílhavo é outro lugar de interesse a visitar.

 

***

 

Mesmo nesta época complicada em que vivemos, podemos sempre aproveitar um fim-de-semana para descontrair e conhecer mais um pouco do nosso país, sem no entanto esquecer que devemos ser cautelosos e respeitar as normas de segurança em vigor, para não pormos em risco a nossa saúde e a dos outros.

 

Boas viagens!

 

(Este roteiro foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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Da Figueira a Aveiro, pela costa

 

 

 

 

Ter | 13.10.20

O sabor do Gerês em Terras de Bouro

 

Agora que chegou o Outono, a paz voltou ao Gerês. Não há melhor altura do que esta para apreciar verdadeiramente tudo o que esta maravilhosa região do nosso país nos oferece: a diversidade das paisagens, as cores das árvores, as águas que brotam de todos os recantos e irrompem pelas fragas, saltando e murmurando, chamando por nós. E é também a altura certa para partir à descoberta de sabores tradicionais da nossa riquíssima gastronomia, de segredos passados de geração em geração, que nos chegam por mãos habilidosas que os preservam e às vezes fundem com outros sabores e ingredientes mais recentes, ou mais cosmopolitas, o resultado sendo invariavelmente a satisfação de quem prova estas delícias.

 

É claro que os quase 70 mil hectares de área do Parque Nacional da Peneda-Gerês não se vêem numa única visita. Existem cinco portas de entrada no Parque, cada uma num município diferente, e cada uma a abrir-nos perspectivas para um microcosmos especial – o Parque é só um, mas as vivências que pode proporcionar-nos são diversas. Desta vez vamos vaguear por Terras de Bouro, aquelas onde encontramos muitos dos maiores ícones do Gerês mas que, apesar de toda a fama de que desfrutam, guardam segredos com que nos surpreendem em cada visita.

0 Gerês.JPG

A vila de Terras de Bouro, sede do município, é pequena, arrumadinha e essencialmente moderna. Da aldeia que em tempos terá sido sobram alguns vestígios no Largo do Município, com os seus edifícios em pedra de granito, a Capela de São Brás (já referida num documento do século XVII) e o fontanário de aspecto simples.

1 Terras de Bouro.jpg

2 Terras de Bouro.JPG

E é aqui quase ao lado, mais precisamente na localidade de Cavacadouro, onde se situa a Quinta da Portela, que podemos conhecer (e comer!) o Cozido à Terras de Bouro preparado pelo catering da Pensão Rio Homem. Localmente conhecido por “cozido de feijão com couves”, desengane-se quem julgar que é mais um qualquer cozido à portuguesa, pois há vários preceitos a serem seguidos para confeccionar este prato tradicional da gastronomia de montanha. Primeiro que tudo, as carnes têm de ser de porco e fumadas, pois é este pormenor que vai dar ao cozido o seu sabor peculiar. A couve é galega, traçada e cozinhada em conjunto com a carne e os enchidos – e se for num dos potes típicos da região, melhor ainda. Já o feijão terá de ser amarelo e cozido em separado, pois só na travessa é que irá juntar-se aos outros ingredientes. Depois, é só sentar à mesa e acompanhar o repasto com um bom vinho verde tinto, obrigatoriamente bebido em taça de louça. Nunca fui particularmente apreciadora deste tipo de vinho, mas provei o da Adega do Cavacadouro e fiquei rendida – é excelente, e liga que é uma maravilha com o Cozido à Terras de Bouro.

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Mas é claro que refeição que se preze não pode ficar por aqui. No capítulo das sobremesas, as Terras de Bouro também não deixam os créditos por mãos alheias. A aletria doce será provavelmente a mais popular, e é uma das minhas preferidas (sobretudo se for feita com água em vez de leite), mas também aconselho os formigos à moda do Minho, um doce feito com pão, mel e vinho do Porto, entre outros ingredientes.

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A meia dúzia de quilómetros de Terras de Bouro, Souto é outra daquelas aldeias com muito mais anos de história do que habitantes. Sabe-se que o Couto de Souto já existia no tempo de D. Afonso III, que foi extinto em 1836, e que dele restam apenas alguns vestígios edificados. A aldeia está bem cuidada e, como é hoje em dia normal, tem casas de pedra recuperadas à mistura com outras mais modernas. A igreja paroquial, toda em granito e com características barrocas, impressiona tanto pela sua dimensão relativa, como pela profusão de pináculos e cruzes que a ornamentam e rodeiam. Uma destas cruzes de pedra, nitidamente mais antiga do que as outras, está ornamentada com gravações, e chama sobretudo a atenção por nela estar toscamente representada uma expressiva pietà, de formas estilizadas e absolutamente naïf.

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Na visita a esta aldeia há também motivo para contentar o estômago: chama-se “O Vaticano” e é um templo da boa comida. Começou há 27 anos como café, depois foi ampliado e transformado em restaurante, mantendo-se sempre na posse da mesma família. Actualmente, além do Sr. Vítor Simões, dono e cozinheiro, e da mulher, também ali trabalham as três filhas e os genros do casal – e todos esbanjam simpatia, a somar à “mão” para a cozinha. A refeição tem obrigatoriamente de começar com algumas das muitas entradas que nos põem à disposição: enchidos de todas as espécies, saladinhas de polvo com feijão-frade ou de bacalhau, grão e ovo de codorniz, as tradicionais migas com broa e grelos e os rojões com sangue frito, inovações como os figos recheados com creme de marisco (maravilhosos!) ou as espetadinhas de frutos secos… e não fixei da missa a metade, pois são tantas que só com elas eu já ficaria satisfeita.

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Mas há ainda que experimentar o típico Cabritinho Assado da Serra do Gerês, que aqui é divinal. E olhem que para eu aplicar este adjectivo a um prato de cabrito não é fácil, porque sou daquelas pessoas que não aprecia o peculiar sabor forte desta carne. Só que a forma como o cozinham neste restaurante não tem a nada a ver com o que habitualmente encontramos por aí: fica absolutamente delicioso, e servem-no acompanhado com batatas assadas, castanhas, grelos e arroz de miúdos.

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Outra sobremesa tradicional das nossas mesas são as rabanadas, que n’O Vaticano são preparadas de maneira a desfazerem-se na boca – quase como se fossem um creme – e servidas com gelado, morangos e chantilly. Uma coisa do outro mundo…

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Depois de tanta comida, faz falta apanhar ar fresco. Vamos em busca das paisagens amplas do Gerês, e para isso há que subir a um dos seus muitos miradouros. O Santuário do Bom Jesus das Mós é o sítio certo. Construído no início do século XX, é dedicado ao Sagrado Coração de Jesus e palco de romarias regulares. Na subida até ao monumento chama-nos a atenção uma via sacra moderna, as suas estações decoradas com figuras estilizadas e coloridas. Situado no Monte das Mós, com a Serra Amarela de um lado e a do Gerês do outro, do miradouro onde está assente a estátua – uma torre de pedra com vários níveis e balcões limitados por varandins de ferro forjado – é-nos oferecida uma vista de 360 graus sobre a serrania, os seus picos mais agrestes e as aldeias que por ela se espalham. Um lugar excepcional de contemplação tanto para os fiéis como para quem simplesmente gosta de admirar paisagens que enchem os olhos e o coração.

17 Bom Jesus das Mós.JPG

É em Campo do Gerês que encontramos a Porta do Parque Nacional dedicada à “História e Civilizações” da região. Além do espaço de recepção e divulgação de informações sobre o Parque, o edifício aloja o Museu da Geira (dedicado à estrada romana que ligava Bracara Augusta, a nossa Braga, a Asturica Augusta, localidade espanhola que hoje dá pelo nome de Astorga) e o Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, onde se preserva de forma exemplar a memória da aldeia que em 1971 foi submersa pela barragem que tem o seu nome. Aqui encontramos fotografias, descrições, recriações e objectos que nos contam pormenores da vida comunitária da aldeia, da sua organização e dos ofícios e ocupações dos seus habitantes – uma viagem até um tempo não muito longínquo em número de anos, mas que ao visitar o Museu dá a sensação de fazer parte de uma outra era. São estes lugares que nos permitem perceber como o nosso país e a nossa sociedade têm vindo a evoluir de forma tão acelerada e (espero eu!) irreversível, ao mesmo tempo que nos dão raízes para não perdermos a nossa identidade cultural. E viajar é também uma forma de conhecermos melhor a nossa História e as nossas especificidades e diversidade enquanto povo.

18 Campo do Gerês.JPG

19 Museu Etnográfico Vilarinho da Furna.JPG

20 Museu Etnográfico Vilarinho da Furna.JPG

21 Museu Etnográfico Vilarinho da Furna.JPG

Talvez estranhem estar a referir-me à aldeia pelo nome de Vilarinho da Furna em vez de “das Furnas”, como é habitualmente nomeada. De facto, a designação Vilarinho da Furna será a mais antiga e terá sido a mais utilizada ao longo dos tempos, inclusive pelos habitantes da aldeia e os seus actuais descendentes, o que se compreende pelo facto de “furna” significar cavidade ou caverna, e a aldeia se encontrar localizada numa “cova” formada pelas serras Amarela e do Gerês, como hoje ainda é perfeitamente visível. O topónimo Vilarinho das Furnas parece ter-se popularizado sobretudo depois de a aldeia ter ficado submersa, e em grande parte devido a um filme realizado por António Campos em 1971, que o usou como título.

 

Depois de visitar o Museu é obrigatório ir conhecer ao vivo a paisagem que ocupa agora o lugar da aldeia desaparecida, cujas pedras só se mostram quando a água desce para níveis muito baixos. Represado pelo gigantesco arco de betão da barragem, o rio Homem torna-se um lago pacífico, rodeado de montanhas e sem nada mais à vista que alguns carros de visitantes e as pessoas que eles transportam. O local é profundamente isolado, e lembro-me bem de que da primeira vez que aqui estive, no início de um mês de Dezembro de há bastantes anos, andámos horas sem ver vivalma. Hoje isso já não me parece possível, mas a sensação de isolamento permanece.

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Pela margem do rio espraia-se aquele que é um dos lugares mais bonitos do Gerês: a Mata de Albergaria. Visita-se a pé, ou então atravessa-se de carro sem parar, porque o estacionamento é proibido. Depois seguimos para a vila das Termas do Gerês, parando no caminho (onde for possível…) para espreitar a cascata da Portela do Homem ou a de Leonte. Encaixada num estreito vale rodeado de encostas maciçamente arborizadas, onde apenas algumas casas espreitam entre o verde intenso, a vila é um local excelente para servir como “base” de visita a esta zona do Gerês, embora na região não faltem propostas de alojamento de todos os tipos e para todos os gostos. E faço aqui um parêntesis para sublinhar a campanha de sensibilização que tem sido feita pelas autoridades locais em relação ao novo coronavírus e as precauções de higiene e distanciamento social, adoptadas em todos os espaços e instalações que visitei recentemente na região, para evitar a propagação da Covid-19. O medo do contágio é uma das razões que leva muitas pessoas a não quererem viajar, nem sequer dentro do nosso país, mas a verdade é que estamos provavelmente muito mais sujeitos a sermos infectados no nosso dia-a-dia (porque temos tendência a “baixar a guarda”) do que quando saímos do nosso ambiente habitual.

Os efeitos benéficos das águas termais do Gerês são reconhecidos desde os tempos da ocupação romana da Península Ibérica. Hoje temos antibióticos e toda uma parafernália de medicamentos, exames e tratamentos à disposição da nossa saúde, mas nos tempos em que estes recursos não existiam as pessoas tinham de socorrer-se do que a natureza lhes oferecia para aliviarem os seus males, e foi como centro termal que a vila das Termas do Gerês se desenvolveu ao longo dos séculos. Apesar de cada vez mais famosa e concorrida, a vila continua a manter o seu encanto e aquele ambiente de dolce far niente tão característico das localidades termais do século passado. Aqui a vida gira em torno da avenida principal, que desemboca no largo em frente ao edifício mais emblemático da vila, a que hoje se dá o nome de Colunata Honório de Lima e que abriga o Buvete, ou Bica, a fonte de onde se bebe a água termal. Do outro lado da estrada está o Parque das Termas, lugar de passeio na natureza para quem não quer (ou não pode) afastar-se da localidade.

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A vila das Termas do Gerês não tem igreja matriz, mas tem a Capela de Santa Eufémia, dedicada à mártir de Ourense-Braga, filha de um régulo romano que governou a região e que consta ter andado fugida por estas serranias até ter sido finalmente encontrada e morta, por professar a fé cristã.

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Ao lado da Capela, o edifício do Hotel Central-Jardim tem as suas paredes decoradas com grandes flores coloridas e joaninhas, de um lado, e girassóis e hortênsias do outro. Mas é no interior deste hotel centenário que se fabricam e são vendidos, em exclusividade, os bolos mais genuínos do Gerês: os pastéis de Santa Eufémia, uma delícia a que os habitués da vila não se furtam e costumam levar para oferecer aos familiares e amigos. O hotel data dos finais do século XIX e em 1966 foi comprado pela família Silva, na posse de quem se mantém até hoje. O dono, que tinha trabalhado durante muitos anos em Lisboa como pasteleiro, resolveu criar um “miminho” para oferecer aos seus clientes, ao qual deu o nome da santa padroeira da localidade. Os pastéis continuam a ser fabricados artesanalmente, estando a sua receita secreta nas mãos do cozinheiro José Maria, que trabalha no hotel há 30 anos, e agora também do seu ajudante Filipe.

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Igualmente centenário é o Hotel Universal, um edifício sem arrebiques exteriores construído no último quarto do século XIX. No seu lobby, iluminado pela luz natural que atravessa a clarabóia abaulada de vidro suspensa vários andares acima, permanece bem preservada a estrutura de ferro forjado que suporta a varanda do piso imediatamente superior. Alguns móveis Arte Nova e sofás em veludo contribuem para a atmosfera ecléctica do interior. O toque moderno é dado pelos globos brancos de iluminação que pendem a alturas diversas, e o clima tropical pela grande palmeira e profusão de plantas que despontam das varandas e se espalham pelas paredes.

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No capítulo das coisas doces, é bem afamado o mel da região, que pode ser de várias qualidades diferentes. Na encosta norte da vila das Termas do Gerês há um edifício que se destaca pelas suas linhas rectas e cor escura: é a Central Meleira do Gerês, propriedade de Miguel Martins, apicultor com umas quantas centenas de colmeias espalhadas por vários locais da serra. O mel ali produzido leva a marca “Doce Gerês” e é habitualmente de urze, de eucalipto, ou multifloral, embora possa por vezes ter outras composições. Sem interferência de produtos químicos, a extracção do mel contido nos favos recolhidos das colmeias passa primeiro pela abertura dos opérculos, que pode ser feita manualmente ou numa máquina, e depois por um processo de centrifugação e decantação, para separar a cera. O mel obtido na Central Meleira é muito puro e saborosíssimo. E já agora fiquem a saber que se o mel que têm em casa cristaliza quando o tempo fica mais frio, é decerto um bom sinal, pois isso demonstra a sua pureza.

E já que falamos de mel, vale a pena provar o Licor de Mel do Gerês criado pelo Sr. António Príncipe (actual Presidente da Junta de Freguesia de Vilar da Veiga) e certificado desde 2018. Para acompanhar este licor, a melhor escolha são mesmos os biscoitos de castanha e mel típicos da região, de seu nome Beneditinos de S. Bento, por inspiração do imponente Santuário sobranceiro à albufeira da Caniçada.

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É também no Santuário de São Bento da Porta Aberta, numa casa da Irmandade, que as monjas cistercienses de Rio Caldo cultivam, sem adubos nem pesticidas, grande parte dos produtos usados para fazerem as suas premiadas, muito procuradas e surpreendentes compotas, como por exemplo a de fisális ou a de cereja e malagueta. Também confeccionam biscoitos sem ovos nem glúten, chás, e até mesmo sabonetes e batons à base de mel. Tudo biológico e feito de forma artesanal.

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Igualmente cultivados biologicamente são os frutos e as plantas aromáticas, medicinais e condimentares da Sabores do Bosque, sedeada na aldeia de Ervedeiros e com venda online para todo o país (encontram todas as informações no final deste post). É com eles que produzem uma enorme variedade de doces, chás, licores, e outras delícias.

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Voltamos à estrada para rumar à albufeira da Caniçada, onde o rio Cávado se espraia em vários braços irregulares, unidos pelas muito fotografadas duas pontes. Mas primeiro vamos vê-la de cima no Miradouro das Voltas de São Bento, onde grandes penedos arredondados se sobrepõem uns aos outros e a vista sobre o rio e as serras é simplesmente arrebatadora.

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Na pequena península onde confluem as duas pontes que atravessam uma parte da albufeira está instalada a Marina de Rio Caldo. Este é um dos locais mais movimentados do Gerês, tanto em terra como na água, sobretudo aos fins-de-semana. O número de embarcações ancoradas extravasa em muito os lugares disponíveis na Marina, e o ruído das motas de água faz lembrar aqueles mosquitos incomodativos que não param de zumbir. Para termos uma perspectiva diferente deste Gerês, subimos a bordo do barco de recreio Rio Caldo, que faz passeios pela albufeira. Ao longo de uma hora, desfilam perante os nossos olhos cenários que parecem de outros países – podíamos sem dúvida julgar estar num lago alpino ou na costa amalfitana. Há pequenas praias nos recortes das margens e casas empoleiradas nas encostas, algumas praticamente escondidas pelas árvores. A embarcação vai deslizando sobre as águas tranquilas, a estrutura metálica da cobertura enquadra a paisagem, e é quase como se estivéssemos a ver um filme no cinema.

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Quando o tempo está bom, uma das formas de melhor usufruir da natureza é fazer um piquenique, e no Gerês temos à disposição um grande número de parques de merendas. Nesta minha mais recente visita às Terras de Bouro tive a felicidade de conhecer um dos mais bonitos e genuínos, situado junto à Fonte de Chelo. Rodeado de árvores e fetos, com o chão atapetado de folhas já secas, mesas e bancos de pedra de aspecto vetusto e meio cobertas por musgo, este lugar é um paraíso de frescura e tranquilidade. As mesas com toalhas de quadrados estavam pejadinhas de coisas boas preparadas pelo restaurante Petiscos da Bó Gusta, e até tivemos direito a um tradicional Caldo no Pote.

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Fechamos este passeio com um último olhar sobre a paisagem de Terras de Bouro a partir do seu miradouro mais famoso, o da Pedra Bela. Com a vila das Termas do Gerês mesmo por baixo e um braço do Cávado estendendo-se para a esquerda até desaparecer numa curva entre as serras cobertas por um manto verde, esta é a forma perfeita de nos despedirmos daquela que continua a ser uma das regiões mais belas e culturalmente ricas do nosso país.

 

Mas não quero terminar este post sem uma chamada de atenção e um apelo. Todos ouvimos e lemos nas notícias o caos que se gerou este ano no Gerês durante os meses de Verão: enchentes de carros e de pessoas, acidentes graves e até mortes resultantes de falta de cuidado, lixo por todos os lados – a prova de que até os lugares mais idílicos se podem tornar um pesadelo quando há falta de responsabilidade (pessoal e ambiental) e de respeito por quem e aquilo que nos rodeia. Por mais bem vindo que o turismo seja em todas as regiões do país, sobretudo nesta altura em que estamos a tentar evitar uma nova crise económica, ele só é verdadeiramente vantajoso se não acarretar mais preocupações do que benefícios. Por isso, lembrem-se de que viajar implica também respeitar a natureza e as pessoas dos lugares que visitamos, assim como acautelar a nossa saúde e segurança, e a dos outros. Viajem, sim! Viajem muito! Mas sejam responsáveis.

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Leiam também: O sabor do Gerês em Montalegre

 

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Esta recente visita ao Gerês foi feita no âmbito das Jornadas Gastronómicas Gerês-Xurês a convite do Turismo do Porto e Norte de Portugal, ao qual agradeço, e por intermédio da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses.

 

Outras informações:

 

Quinta da Portela (Pensão Rio Homem) e Adega do Cavacadouro

Avenida Dr. Paulo Marcelino, 62, 4840-100 Terras de Bouro, Portugal

+351 253 351 136

geral@riohomem.pt

https://riohomem.pt

 

O Vaticano

Lugar da Igreja, 117, 4840-130 Terras de Bouro, Portugal

+351 253 351 492 ou +351 917 884 677

https://www.facebook.com/RestauranteVaticano

 

Porta de Campo do Gerês

Núcleo Museológico, Campo do Gerês

+351 253 351 888

museu@cm-terrasdebouro.pt

https://turismo.cm-terrasdebouro.pt/listings/porta-de-campo-do-geres/

 

Hotel Central Jardim

Avenida Manuel Francisco da Costa 141, 4845-067 Gerês, Portugal

+351 253 391 132

geral@centraljardim.com

http://www.centraljardim.com/

 

Hotel Universal

Avenida Manuel Francisco Da Costa 115, 4845-067 Gerês, Portugal

+351 253 390 220

infohoteis@ehgeres.pt

https://geres.pt/hoteluniversal/

 

Central Meleira do Gerês

Sr. Miguel Martins

+351 916 064 902

doce.geres@gmail.com

https://www.facebook.com/pages/category/Brand/Doce-Ger%C3%AAs-1304786582919920/

 

Licor de Mel do Gerês

Sr. António Príncipe

+351 966 219 234

principe-antonio@hotmail.com

licor.do.geres@gmail.com

 

Produtos Biológicos Monjas Cistercienses

Irmã Conceição

+351 917 850 936

 

Sabores do Bosque

Ervedeiros (Terras de Bouro)

+351 966 219 234 ou +351 966 368 117

info@saboresdobosque.pt

https://www.saboresdobosque.pt/

 

Embarcação Rio Caldo

Marina de Rio Caldo, Rio Caldo, Portugal

+351 253 391 792

marina@cm-terrasdebouro.pt

https://turismo.cm-terrasdebouro.pt/listings/embarcacao-rio-caldo/

 

Petiscos da Bó Gusta

Rua Augusto Sérgio Almeida Maia, 2, 4845-067 Gerês, Portugal

+351 917 054 732

https://www.facebook.com/pg/Petiscos-Da-Bó-Gusta147438922631729/about/?ref=page_internal

 

 

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O sabor do Gerês em Terras de Bouro