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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qui | 27.08.20

Lisboa vista de cima

 

Conhecem a lenda de Lisboa? Diz-se que o nome romano da nossa capital, Olissipo, derivará de Ulisses, o herói da Odisseia, poema épico atribuído a Homero. Ulisses aportou em determinada altura a um belo lugar habitado por serpentes, cuja rainha se apaixonou por ele. Mas Ulisses acabou por partir, deixando a rainha inconsolável – e os sulcos que ela deixou no solo ao dirigir-se para o Tejo tentando alcançar o seu amado terão dado origem às supostas sete colinas de Lisboa, mais tarde baptizadas com nome católicos: São Jorge, São Vicente, Santana, Santo André, Santa Catarina, São Roque e Chagas.

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Lisboa cresceu muito desde essa altura. Hoje as suas colinas são bem mais do que apenas sete, e cada uma delas oferece-nos perspectivas diferentes da “Cidade Branca”, como lhe chamou Alain Tanner no seu filme de 1982. O cineasta suíço adjectivou-a de branca pela luz que a ilumina durante quase 2800 horas por ano, o que faz dela a terceira cidade mais soalheira da Europa. E que melhor maneira de apreciar Lisboa, e todas as suas cores iluminadas pelo sol, do que vê-la de cima? Não, não é uma viagem de avião ou helicóptero que vos proponho, nem tão pouco vos vou mostrar perspectivas captadas por um drone. Desta vez vamos apreciar as várias faces de Lisboa a partir de alguns dos seus lugares mais emblemáticos: os miradouros.

 

 

Teleférico do Parque das Nações

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Um teleférico não é propriamente um miradouro tradicional, mas é sem dúvida uma das melhores formas de ver o Mar da Palha e o Parque das Nações, a zona mais jovem e futurista da cidade. São oito minutos de viagem a trinta metros de altura, percorridos suavemente em cabinas envidraçadas que nos oferecem uma das perspectivas mais abrangentes e emocionantes do extremo leste de Lisboa.

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Portas do Sol

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Engastado entre o Castelo e Alfama, o Miradouro das Portas do Sol é um dos locais privilegiados para observar o cais onde atracam alguns dos grandes navios de cruzeiro que aportam a Lisboa, ao lado das linhas aerodinâmicas do novo edifício do terminal. Ao fundo, do lado de lá do Tejo, o Barreiro estende-se a perder de vista.

 

 

Santa Luzia

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Apenas 50 metros mais abaixo, o Miradouro de Santa Luzia tem o nome da igreja a que está encostado. Entre o azul do céu e o do rio, os nossos olhos encontram as cores pastel do casario labiríntico de Alfama, acima do qual se ergue a cúpula do Panteão Nacional e, num plano superior, a imponente envergadura da Igreja de São Vicente de Fora.

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Miradouro da Graça

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O seu nome oficial é Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, e a atestá-lo está o busto em bronze da poetisa, réplica de um outro em pedra criado pelo escultor António Duarte nos anos 50. Fica paredes-meias com a igreja e o jardim da Graça, e oferece-nos uma das melhores vistas sobre grande parte da Lisboa, desde a Mouraria ao Chiado, para a esquerda, e até às Amoreiras, para a direita.

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Miradouro da Senhora do Monte

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No mesmo eixo mas um pouco mais a norte, ao lado da deliciosa Ermida da Nossa Senhora do Monte, está um dos miradouros mais amados de Lisboa. Daqui temos uma vista desafogada para o lado norte do Castelo de São Jorge, o Martim Moniz, o Bairro Alto, e os bairros que acompanham a Avenida Almirante Reis até ao Areeiro. E descobrimos pormenores encantadores nas silhuetas dos telhados e das torres.

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Jardim do Torel

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Este jardim escondido entre a Avenida da Liberdade e o Campo dos Mártires da Pátria, empoleirado no alto da colina de Santana, é ainda praticamente um segredo de Lisboa – e é também um dos seus melhores miradouros. Está rodeado de palacetes do século XIX e distribui-se em vários níveis. Tem bancos, pequenos lagos, estátuas e muita sombra, e uma vista directa para a Baixa, a encosta da sétima colina e o famoso e bem mais frequentado Miradouro de São Pedro de Alcântara, que fica mesmo em frente.

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Santa Catarina

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É mais conhecido por Miradouro do Adamastor, à conta da escultura de Júlio Vaz Júnior ali colocada desde os anos 20 do século passado. Reaberto há menos de um ano depois de obras de recuperação, o espaço é um dos lugares preferidos pela juventude trendy lisboeta que adoptou recentemente o bairro da Bica como local-coqueluche. Virado de frente para o Tejo, é o melhor local para observar a zona ribeirinha entre o Cais do Sodré e Santos, e o padrão irregular da colmeia de edifícios que é o bairro da Madragoa.

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Capela de São Jerónimo

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Fica na zona mais nobre do Restelo outro dos melhores segredos de Lisboa. Rodeado de pinheiros e grandes casas, pouco ostentatórias e dissimulando cuidadosamente a riqueza de quem as habita, o local onde se ergue esta pequena e simples capela com origens no século XVI é um miradouro fantástico sobre Belém e o trecho final do Tejo antes de se encontrar com o oceano. Ao fundo, no enfiamento da extensa avenida que desce até ao rio, a Torre de Belém ganha ares de miragem.

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***

 

Estes são apenas alguns dos muitos locais que nos desvendam perspectivas diferentes de Lisboa, esta cidade que teima em reinventar-se para se manter, aos nossos olhos, sempre menina e moça.

 

(Este roteiro foi publicado pela primeira vez no website Fantastic)

 

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Lisboa vista de cima

 

 

Ter | 18.08.20

Diário de uma viagem à Islândia

I - A viagem e a capital

 

Na era pré-internet o mundo das viagens era diferente. Escolhíamos os destinos por aquilo que víamos nos livros e revistas, pela publicidade das agências de viagem, pelos documentários televisivos ou pelos relatos dos amigos. O mundo era grande e tudo parecia distante, não íamos para lado nenhum sem mapas e possivelmente um guia de viagem. Havia menos informação e na maioria das vezes só víamos aquilo que já era conhecido, os lugares mais turísticos, que eram sempre supostamente os mais bonitos – se algum local não estava muito divulgado, então era porque não tinha beleza ou interesse suficiente, portanto não valeria a pena visitá-lo.

 

O mundo encolheu com a internet e depois mais ainda com as redes sociais, mas paradoxalmente acabou por ficar maior. A facilidade de comunicação dotou-nos de um manancial de informações e ferramentas que hoje em dia são uma enorme ajuda para quem viaja e nos permitem decidir com maior segurança até onde podemos ir e escolher o que queremos ver e fazer.

 

Vem isto a propósito da minha mais recente viagem. Não me lembro exactamente de quando nem da razão pela qual a Islândia passou a fazer parte da minha lista principal de destinos a conhecer. Sei que foi em tempos um país pelo qual eu não nutria interesse especial, tinha a ideia de que seria cinzento, frio e monótono. O que é que me fez mudar de ideias? Provavelmente algum artigo ou fotografia que vi na net, ou talvez nalguma revista, ou ambas as coisas. O que sei de certeza é que já há mais de dez anos andava a fazer planos para visitar a Islândia, mas a ocasião certa ainda não se tinha proporcionado. Estranhamente, como muito do que acontece na minha vida, apesar dos constrangimentos foi agora que pude concretizá-los. O que me mostrou (uma vez mais) que há oportunidades que surgem nas alturas mais improváveis.

 

É claro que foram essencialmente a net e ferramentas online foram os recursos usados para planear esta viagem. Para saber o que iria visitar foram muito úteis outros blogues, sobretudo o 365 Dias no Mundo, o The Wise Travellers, e o Me Across the World, além do website oficial do Turismo da Islândia e, obviamente atendendo às circunstâncias actuais, o site oficial sobre as condicionantes das estadias no país por causa da covid-19. O roteiro foi decidido com a ajuda do Google Maps e do Furkot. Os voos e o carro foram reservados em plataformas online, as estadias também. Tal como expliquei no post anterior, optámos por ir já com tudo reservado. Apesar de termos feito as marcações com pouco mais de uma semana de antecedência, isso permitiu-nos pelo menos ter mais algumas hipóteses de escolha do que quando já andássemos em viagem.

 

Foram ao todo 13 dias, incluindo os das viagens de avião, em que explorámos alguns dos locais mais icónicos da Islândia, e também outros recantos menos turísticos. Não todos, claro, não é possível conhecer tudo em tão pouco tempo. Mas o que vi encheu-me as medidas.

1 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Dia 1

 

O primeiro dia da viagem estendeu-se na realidade por dois, porque saímos de Lisboa a seguir ao almoço e só chegámos a Keflavík já perto da meia-noite, e o facto de nessa noite termos dormido poucas horas e praticamente ter havido sempre claridade no céu fez com que tudo parecesse um continuum.

 

No entanto, a sensação de estranheza começou logo no aeroporto. Nos últimos anos sempre a abarrotar, com mares de gente nos balcões de check-in e na área de passagem pela segurança, desta vez foi tudo tranquilo, rápido, como se deslizássemos constantemente numa passadeira rolante. Apesar de mais movimentado do que esperávamos, algumas das lojas estavam fechadas, às escuras, e só a zona das refeições parecia mais composta e semelhante àquilo a que estamos habituados – talvez também porque é o único sítio onde as máscaras faciais são postas de lado e o lugar se parece menos com um hospital.

 

A vantagem do pouco movimento aéreo é que os voos agora saem a horas. Fomos pela Lufthansa, com escala em Munique, não quisemos arriscar uma escala em Londres por causa das restrições que o Reino Unido ainda impõe a quem vai de Portugal – se houvesse algum problema e o limite de horas de escala permitido fosse ultrapassado, teríamos de ficar de quarentena, e nos tempos que correm não convém arriscar muito. Ir para a Islândia sabendo que seríamos testados à entrada já era risco suficiente, mas um risco reduzido porque não tínhamos razões para achar que podíamos estar infectados.

 

O avião ia quase cheio, todos de máscara como é obrigatório. Já não servem refeições quentes a bordo, apenas bebidas, sanduíches e uns snacks. Em Munique o aeroporto estava ainda mais sossegado, em parte porque chegámos ao final da tarde, que se tornou noite durante a nossa escala de quatro horas. Poucas lojas e restaurantes, a maioria fechados e sem nada de jeito para comer; têm no entanto umas áreas adequadas para quem quer descansar, com espreguiçadeiras e poltronas mais confortáveis que os bancos normais, e bem apetrechadas de tomadas para carregar telemóveis e computadores. Há também umas pequenas cabinas, tipo casulo e pagas electronicamente, onde é possível dormir ou trabalhar em total isolamento.

3 Diário Islândia - aeroporto Munique

2 Diário Islândia - aeroporto Munique

Mais três horas e meia de voo, que pareceram intermináveis por causa do cansaço acumulado, com o céu a clarear em vez de continuar escuro, e finalmente aterrámos na Islândia. Tal como em Munique, sair do avião foi um processo demorado. Acabaram-se as confusões e atropelamentos no corredor, com toda a gente de pé ao mesmo tempo a tentar passar à frente para sair. Agora a saída faz-se por filas, da frente para a retaguarda, e de acordo com as indicações dadas através dos altifalantes. Confesso que prefiro assim.

4 Diário Islândia - no avião para Reiquiavique

5 Diário Islândia - aeroporto Keflavík

Entre a longa e lenta fila para o teste à covid-19 (zaragatoa na garganta e numa narina) e os trâmites habituais para levantar o carro alugado, passaram mais de duas horas até que conseguíssemos estar finalmente a caminho de Reiquiavique. A estrada do aeroporto de Keflavík para a capital é praticamente uma longuíssima recta com quase cinco dezenas de quilómetros de asfalto limitado por rails metálicos. Às duas da manhã o céu mostrava-se azul-claro e luminoso acima das nuvens cinzentas, achatadas e esticadas como se alguém se tivesse entretido a puxá-las pelas pontas. Nem árvores, nem casas, apenas a planície a estender-se até uma fila de montanhas que mal se adivinhava ao longe, uma fita de mar do lado esquerdo a confundir-se com as nuvens, e as luzes da cidade lá muito ao fundo à nossa frente. Uma paisagem surreal que me manteve de olhos bem abertos, a tentar absorver tudo, até chegarmos ao hotel em Reiquiavique.

6 Diário Islândia - estrada para Reiquiavique

 

Para evitar os habituais problemas de estacionamento nas cidades, tínhamos escolhido um hotel fora do centro e com estacionamento próprio. O Hotel Cabin é simples e não fica num local particularmente charmoso, mas é de fácil acesso, confortável o suficiente, e tem um bom pequeno-almoço. Não podíamos sair hotel até recebermos os resultados dos testes, mas como precisávamos mesmo de dormir isso não constituiu propriamente um problema. Levantámo-nos apenas para ir comer, já bastante tarde, e aproveitámos para descansar até à hora em que recebemos as SMS a confirmar que os testes tinham sido negativos, quando passava um pouco do meio-dia.

7 Diário Islândia - Hotel Cabin - pequeno-almoço

 

Aos domingos o estacionamento no centro de Reiquiavique é gratuito, por isso deixámos o carro num parque perto do porto e seguimos a pé à descoberta da cidade.

 

Reiquiavique fica na costa sudoeste da Islândia e é a capital mais setentrional do mundo. Pequena e tranquila – a cidade propriamente dita tem apenas cerca de 130 mil habitantes – está cheia de contrastes, com uma área periférica de edifícios incaracterísticos e um centro onde casas de arquitectura tradicional convivem com algumas obras arquitectónicas arrojadas.

8 Diário Islândia - Reiquiavique

 

O monumento mais conhecido é a Hallgrímskirkja, que significa “igreja de Hallgrímur”. Hallgrímur Pétursson foi um religioso e poeta islandês do século XVII que escreveu o Passíusálmar (“Hinos da Paixão”), um conjunto de 50 poemas sobre a Paixão de Cristo que constitui uma das obras mais importantes da literatura islandesa. O edifício foi encomendado pela Igreja Evangélica Luterana da Islândia ao arquitecto Guðjón Samúelsson, que se inspirou em elementos da paisagem do país (como as formações rochosas de Svartifoss, os vulcões e os glaciares) para a desenhar. Visível de praticamente qualquer ponto da cidade (e até 20 quilómetros de distância), com a forma da fachada a fazer lembrar um space shuttle pronto para partir rumo à estratosfera (tal como outros seus contemporâneos, Samúelsson estava muito à frente, pois concebeu o projecto em finais dos anos 30 do século passado, muito antes de terem criado o space shuttle), a igreja é um gigante de concreto que impressiona pela envergadura. Tal como o exterior, o interior é simples e de linhas escorreitas – paredes brancas, vidros transparentes e uma quase ausência de elementos decorativos fazem com que a nave da Hallgrímskirkja seja um dos locais de culto mais despojados em que já entrei. A nota agradavelmente dissonante vai para o lindíssimo órgão de tubos, que é accionado electronicamente a partir de uma consola de madeira minimalista situada atrás dos bancos.

9 Diário Islândia - Reiquiavique

10 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

11 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

12 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

13 Diário Islândia - Reiquiavique - Hallgrímskirkja

 

Os quarteirões à volta da igreja parecem desenhados a régua e esquadro. As ruas são estreitas, algumas pedonais; predominam os prédios baixos e pouco volumosos e as casas mais tradicionais, várias com jardinzinhos bem cuidados e cheios de detalhes deliciosos; há murais e pinturas no asfalto ou nos passeios; há lojas de todas as espécies, cafés com esplanada, letreiros coloridos e com ar artesanal em vez de néones. Excepto num ou noutro ponto, o movimento de pessoas é reduzido, e o de carros quase inexistente. Poderíamos estar numa qualquer vila de província em vez de na maior cidade islandesa. A rua mais icónica de Reiquiavique é Laugavegur, a artéria por onde pulsa a energia anímica da cidade, e onde se misturam lojas e galerias, restaurantes e bares, cafés e residências.

14 Diário Islândia - Reiquiavique - Laugavegur

16 Diário Islândia - Reiquiavique

15 Diário Islândia - Reiquiavique

17 Diário Islândia - Reiquiavique

22 Diário Islândia - Reiquiavique

23 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Outro edifício também moderno e também maciçamente de betão é o da Ráðhús, a Câmara Municipal. Ergue-se num dos extremos do Tjörnin, o lago que ocupa o coração de Reiquiavique, muito perto do edifício de pedra escura do Parlamento e da Catedral. A Ráðhús está parcialmente construída sobre a água e tem uma ponte pedonal a ligá-la a uma das margens, num recanto de lazer onde instalaram, bem a propósito, a escultura a que dão o nome de Monumento ao Burocrata Desconhecido: metade bloco de pedra informe, metade parte inferior de um corpo com uma mala de diplomata na mão, demonstra bem o sentido de humor dos islandeses.

25 Diário Islândia - Reiquiavique

24 Diário Islândia - Reiquiavique

26 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Percorrer o perímetro do lago foi uma das coisas que mais me agradou em Reiquiavique. Apesar de não ser uma zona verde exuberante, convida ao relaxamento e à contemplação. O percurso tem muitos bancos de jardim, várias esculturas, e no Verão fica cheio de flores. No lago há cisnes, patos, gaivotas e guinchos, que fazem as delícias dos miúdos e estão tão habituados a que lhes dêem de comer que vêm ter connosco assim que paramos junto à margem. As ruas a oeste do lago são uma zona nobre da cidade, com casas grandes e bonitas que mostram um estilo escandinavo mais rebuscado, rodeadas de arbustos, relva e árvores.

27 Diário Islândia - Reiquiavique

28 Diário Islândia - Reiquiavique

29 Diário Islândia - Reiquiavique

31 Diário Islândia - Reiquiavique

30 Diário Islândia - Reiquiavique

 

Entre as mais de duas dezenas de museus que é possível visitar em Reiquiavique e arredores, escolhemos o Museu Nacional da Islândia (Þjóðminjasafn Íslands). É um museu muito antigo – foi fundado em 1863 – cuja colecção de milhares de objectos e fotografias nos conta a história da Islândia desde a chegada dos primeiros colonos à ilha. A exposição está distribuída de forma dinâmica em dois pisos e concebida como uma viagem ao longo do tempo, desde o século IX aos nossos dias. O Museu Nacional da Islândia é também responsável pela manutenção e actividade de várias construções históricas em todo o país, algumas dos quais visitámos durante a viagem.

 

Aproveitámos para lanchar no café do museu e a seguir, com o sol já a mostrar vontade de afastar as nuvens, decidimos ir até à zona do porto. No caminho, uma casa de madeira no número 10 da Aðalstræti chamou a nossa atenção: construída em 1762, é a casa mais antiga da cidade que ainda se encontra de pé.

36 Diário Islândia - Reiquiavique - Aðalstræti 10

 

A face norte da península em que Reiquiavique está localizada forma uma baía ampla, e num dos seus extremos desenvolve-se o porto da cidade. Se nos alhearmos da paisagem marítima (o que para mim não é fácil porque adoro água), o local tem pouco de apelativo. Mas foi esta a zona que decidiram transformar em local de animação para os visitantes estrangeiros, com os antigos barracões de cores vibrantes convertidos em restaurantes e lojas de serviços turísticos, e também, sobretudo nesta altura em que o turismo está muito abaixo do nível normal, para os habitantes da cidade, que pareciam estar ali reunidos para festejar alguma data – ou talvez apenas o aparecimento do sol. A música bombava, havia diversões para as crianças, e várias carrinhas de street food estavam ao rubro com filas de clientes para atender.

37 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

39 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

38 Diário Islândia - Reiquiavique - porto

O porto foi igualmente o local escolhido para construir o Harpa, outra das coqueluches arquitectónicas de Reiquiavique. Pensado como parte integrante de um complexo grandioso (e dispendioso) que teve de ser reduzido devido à crise financeira de 2008, foi formalmente inaugurado em 2011 para funcionar como centro de conferências e sala de concertos. Desenhado pelo artista islandês Ólafur Elíasson e pelo gabinete dinamarquês Henning Larsen Architects, a maior originalidade deste edifício futurista são os mais de 700 painéis de vidro da sua fachada: concebidos por um geometrista, cada painel tem um formato diferente dos outros, e todos estão equipados com luzes LED que oferecem espectáculos coloridos nas longas e escuras noites de Inverno, numa clara alusão às auroras boreais. Algo que infelizmente não tive oportunidade de ver.

40 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

41 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

42 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

43 Diário Islândia - Reiquiavique - Harpa

 

Do Harpa seguimos ao longo da Sæbraut (a marginal) até ao Sólfar, que se traduz como “viajante do sol”. Esta escultura em aço de Jón Gunnar Árnason foi erigida para celebrar o 200º aniversário de Reiquiavique como cidade. O escultor, que morreu poucos meses antes da inauguração da sua obra em Agosto de 1989, definiu-a como um barco onírico e uma ode ao sol e divulgou publicamente que a sua inspiração lhe advinha de uma experiência esotérica. Como qualquer obra artística modernista, presta-se a interpretações variadas e mais ou menos polémicas. A mim, por exemplo, faz-me lembrar mais um escorpião do que um barco viking…

44 Diário Islândia - Reiquiavique - Sólfar

 

Continuámos a explorar a comprida avenida marginal, agora de carro. Em Laugarnestangi 65, tão dissimulada pela vegetação que não damos por ela se não formos lá de propósito, encontramos uma das excentricidades de Reiquiavique. A casa do realizador de cinema islandês Hrafn Gunnlaugsson é tão controversa como o seu dono. Nos caminhos de acesso, somos “saudados” (ou talvez vigiados…) por figuras estranhas feitas com materiais de vários tipos: metal em diversas formas e estados de oxidação, pedaços de madeira, cordas, tecidos, objectos aleatórios usados para compor personagens com o seu quê de assustador. Mais à frente, destacando-se em contraluz no pano de fundo brilhante formado pelo mar e pelo céu, uma cruz cravejada de grandes pregos, ao lado de um banco de jardim metálico e um armário de madeira com a tinta a descascar (que eu não me importava de levar para casa), ambos com ar de descuidadamente ali largados há algum tempo. Peças compostas por elementos ferrugentos espreitam de todos os lados, por entre as plantas que crescem ao deus-dará.

45 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

46 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

Não há um nome oficial para esta casa. Por vezes é referida como “casa reciclada”, outras como “ninho do corvo”. Aqui, “corvo” é adequado tanto por ser a tradução de “Hrafn”, o nome do proprietário, como pela figura da ave, feita de varetas de metal, empoleirada no topo da casa. Numa entrevista, Hrafn fez notar que os corvos gostam de coleccionar coisas, pelo que o seu nome pode ser uma justificação para o seu hábito de ir acrescentando “tralha” à casa. Quando a comprou, prestes a ser demolida, a ideia inicial foi usá-la como local para construir as decorações para os seus filmes, mas acabou por se mudar definitivamente para lá passados uns anos, e desde essa altura tem vindo a transformá-la constantemente. Há máscaras tribais e escotilhas de barcos, símbolos em metal e halteres, escadas, torneiras e um casaco velho pendurado num cabide, quadros, corações e a palavra “amor” desenhados em cores primárias – tudo aparentemente empilhado ao acaso, mas na verdade cada elemento com a sua simbologia e propósito específicos. Consta que o cineasta se presta simpaticamente a mostrar os seus domínios a quem por ali aparece, mas não vimos nem ouvimos vivalma, e apenas um carro amarelo-vivo, de modelo recente, fazia presumir que a casa ainda é habitada.

47 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

50 Diário Islândia - Reiquiavique - Raven's house

 

Escassos cem metros mais ao lado, a arte é outra. Uma construção baixa com aspecto de pavilhão industrial aloja o museu Sigurjón Ólafsson, onde estão expostas obras e memorabilia deste escultor islandês falecido em 1984. O museu estava fechado – apesar do sol alto e brilhante, já íamos a caminho das sete da tarde – mas no exterior pudemos apreciar, espalhadas sobre a relva verde desta zona de lazer a que dão o nome de Laugarnes, várias das obras de maior envergadura do escultor.

 

O último ponto de interesse que tínhamos planeado ver ficava muito perto do nosso hotel. Entre a Sæbraut e a Borgartún está exposto um pedaço do Muro de Berlim. Oferecido à cidade de Reiquiavique pelo German Art Centre Neu West Berlin em 2015, este segmento grafitado pelo artista alemão Jakob Watner tem, em ambas as faces, representações estilizadas e muito coloridas dos moais da Ilha de Páscoa (que é, por coincidência, outro dos meus destinos de sonho).

53 Diário Islândia - Reiquiavique - pedaço do Muro de Berlim

Mas há uma história por trás da oferta deste pedaço do Muro e da sua localização. Em 1986 realizou-se precisamente em Reiquiavique um encontro entre os Chefes de Estado das duas principais nações envolvidas na Guerra Fria: o presidente americano Ronald Reagan e o líder da União Soviética (e impulsionador da perestroika) Mikhail Gorbatchev. A reunião teve lugar na Höfði, a casa onde viveu o poeta Einar Benediktsson e que passou mais tarde a ser usada pelo município para acolher eventos formais, e considera-se esta conferência dos dois líderes como o início do fim da Guerra Fria, que levou à queda do Muro de Berlim em 1989. É, por isso mesmo, simbólico que este segmento do Muro tenha sido colocado muito perto da Höfði, tal como foi simbólica a sua oferta, feita pela Alemanha a Reiquiavique no dia em que se assinalaram os 25 anos da reunificação alemã.

54 Diário Islândia - Reiquiavique - Höfði

A Höfði foi também o local onde em 1905 foi recebida na Islândia a primeira mensagem telegráfica sem fios, ligando o país ao mundo exterior por telecomunicação.

 

55 Diário Islândia - Reiquiavique

E foi com esta paisagem da baía de Reiquiavique e das ilhotas e montanhas que a rodeiam que decidimos terminar o nosso passeio pela cidade. No dia seguinte tínhamos uma longa viagem de carro pela frente e havia ainda muito para preparar. Antes de regressar ao hotel passámos num supermercado da cadeia Nettó, uma das mais populares no país, para nos abastecermos sumariamente de comida – e nos assustarmos com os preços. Por muito psicologicamente preparada que estivesse para o elevado custo de vida na Islândia, é difícil conceber que uma salada fria de massa com frango possa custar cinco euros, um wrap seis, ou uma caixinha de tomates cherry custe três euros. E estes nem foram os preços mais escandalosos que encontrámos durante a viagem…

 

Muito ficou por ver em Reiquiavique, mas na verdade a motivação maior para esta viagem à Islândia não era (obviamente!) visitar a capital. Não porque não mereça, mas porque há muito para conhecer no país e tínhamos decidido visitar algumas zonas mais remotas, o que nos iria consumir vários dias.

 

E, como costumo dizer, é sempre bom ficar com motivos para voltar.

 

Dia 2 da viagem: Na península de Snæfellsnes →

 

O roteiro e várias informações práticas sobre a Islândia estão aqui: Coleccionar paisagens surreais na Islândia

 

 

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Diário de uma viagem à Islândia - Reiquiavique.jpg

 

 

 

Qui | 06.08.20

Coleccionar paisagens surreais na Islândia

 

A Islândia é um país europeu à parte. A sua localização geográfica e características geológicas fazem desta ilha um lugar único no nosso continente. Apesar de algumas parecenças esporádicas com outras paisagens, viajar na Islândia é um pouco como estar noutra dimensão, onde um cenário surreal se sucede a outro e apenas o frio ou a chuva nos fazem perceber que ainda estamos no mesmo planeta.

Islândia - Rauðisandur

Este carácter único deve-se ao facto de a Islândia ser uma ilha relativamente jovem, formada há “apenas” 70 milhões de anos (por comparação com a divisão da Pangeia, que ocorreu há 200 milhões de anos), e se encontrar sobre o Rifte Médio-Atlântico, a depressão de origem tectónica que separa a Placa Norte-Americana da Placa Eurasiática. Ao Rifte está associada uma grande actividade sísmica e vulcânica, razão pela qual no território islandês existem centenas de vulcões, géiseres e outros fenómenos de origem geotérmica.

 

Além disso, a ilha encontra-se localizada no extremo do Atlântico Norte, precisamente onde passa o limite do Ártico, o que faz com que a luz solar nunca desapareça completamente durante os meses de Verão, e a noite se prolongue por horas quase intermináveis no Inverno.

Islândia - Ísafjörður

Destino de sonho para muita gente (incluindo eu), e sobretudo para quem gosta de estar em contacto com a natureza, dispendioso pelos modestos padrões portugueses, visitar a Islândia quando se tem um orçamento limitado implica algum planeamento e muita contenção, pois é fácil surgirem despesas extra. Depois de passar quase duas semanas a viajar pelo país, neste post vou abordar alguns aspectos que espero vos ajudem a esclarecer dúvidas e decidir – se este for também um dos vossos sonhos – fazerem mais uma viagem que de certeza nunca esquecerão.

 

Não esquecerão o céu pintado de azul e rosa das noites que nunca escurecem, nem o ribombar da água a cair em Detifoss, os meneios desajeitados e hilariantes dos puffins ou as cores desmaiadas das montanhas em Landmannalaugar. Tão pouco irão esquecer o espelho a que se assemelha o mar nos Westfjords, a erupção do géiser Strokkur, o passeio entre as formações rochosas da fissura de Almannagjá, onde as placas tectónicas americana e eurasiática divergem e se afastam a um ritmo de dois centímetros por ano.

 

Sobre todas estas maravilhas irei falar em detalhe no diário desta viagem, que vou publicar em próximos posts. Entretanto, em jeito de provocação, deixo-vos mais abaixo o roteiro completo desta road trip.

Islândia - Landmannalaugar

 

A melhor altura do ano para ir

É, sem sombra de dúvida, o Verão. Primeiro que tudo, porque os dias são enormes: às onze da noite ainda há luz suficiente para passear, e às quatro da manhã já é dia claro. E acreditem que vão precisar de dias grandes para verem o muito que há para conhecer na Islândia. No Inverno há estradas que estão fechadas, vários locais icónicos ficam fora de alcance, e conduzir com gelo e neve não é fácil. Só no Inverno e na Primavera é que se vêem as auroras boreais? Verdade. Mas há vários outros sítios onde é possível vê-las, e mais acessíveis que a Islândia. Adoram neve? No Verão ainda vão ver bastante. Detestam calor? Pois nesse caso o melhor sítio para estar no Verão é precisamente a Islândia, onde as temperaturas máximas raramente passam dos 16 ou 17 graus (e na maior parte dos dias nem lá chegam) e as mínimas podem descer até perto de zero. Há mais turismo no Verão? Também é verdade, e este será realmente o maior senão. Mas Junho e Setembro, por exemplo, são meses menos concorridos, e apesar da instabilidade do tempo podem ser uma boa solução de compromisso.

 

A duração da viagem

Depende obviamente do que quiserem ver. Para visitar Reiquiavique, o Círculo Dourado e pouco mais, bastarão uns 5 dias. Para percorrer a Estrada 1, que dá a volta à parte principal da ilha e é conhecida como Ring Road, não aconselho menos que 10-11 dias. E se quiserem visitar também a península de Snæfellsnes e os Westfjords, então reservem duas semanas, e ainda assim ficará bastante por ver.

A viagem que fiz estendeu-se por 13 dias, mas ficaram de fora alguns locais que teria visitado se tivesse mais tempo.

 

Como visitar

Para conhecer apenas Reiquiavique e o Círculo Dourado não será necessário alugar carro. A capital visita-se bem a pé e há imensos operadores turísticos que propõem circuitos variados com saída de Reiquiavique. Não são propriamente baratos, mas acabam por ser uma hipótese para quem não quiser conduzir nem tiver curiosidade ou disponibilidade para conhecer outras regiões da Islândia. Já para viajar à vontade pela ilha, a melhor opção será mesmo alugar carro (ou autocaravana, mas sobre isso falo mais abaixo).

Para percorrer a Ring Road no Verão será suficiente um carro normal (no Inverno é conveniente ter um 4x4). Se a ideia for explorar outras áreas, sobretudo no norte e no centro, então o meu conselho é que aluguem um veículo com tracção às quatro rodas. Só estes veículos estão autorizados a transitar nas estradas que têm um F antes do número (F significa, neste caso, “fjalla”, a palavra islandesa para “montanha”). Mas a razão principal é que muitas estradas que não estão categorizadas como F são estradas de gravilha e/ou terra batida, por vezes estreitas e íngremes, e também por vezes cruzadas por ribeiros ou rios que é necessário atravessar a vau. O aluguer fica mais caro, mas irão ter a possibilidade de explorar o país com mais liberdade e segurança. Notem no entanto que nenhum dos vários seguros possíveis para os carros de aluguer cobre danos sofridos ao atravessar um rio.

Islândia - atravessar rios

 

Alugar autocaravana vs. dormir em alojamentos locais

A nossa ideia inicial para esta viagem era alugar uma autocaravana para percorrer a Islândia com toda a liberdade. É uma das opções preferidas pelos visitantes, pois permite viajar ao sabor do momento e de forma relativamente económica. Mesmo as vans mais pequenas têm habitualmente um bico de fogão onde se pode cozinhar, e apesar de desde há uns anos só ser permitido acampar nos locais designados para o efeito (ou em propriedades particulares, com autorização do dono), existe um passe – o Iceland Camping Card – que permite utilizar qualquer parque de campismo oficial durante 28 dias.

O que nos levou a mudar de opinião foi sobretudo o facto de com uma autocaravana normal não ser fácil andar em algumas das estradas que teríamos de percorrer, e o aluguer de uma autocaravana 4x4 ter um valor tão elevado que não compensava a diferença.

Além disso, em muitos alojamentos podemos cozinhar, optar por casa-de-banho privativa, e para quem conduz durante um dia inteiro é bem melhor descansar com conforto (e sem frio). A desvantagem foi ter de reservar os alojamentos todos com alguma antecedência, pois marcar de véspera em época alta na Islândia reduz muito as hipóteses de escolha. Por tudo isto, convém pesar bem os prós e os contras de cada alternativa antes de decidir.

Islândia - alojamento

 

Conduzir na Islândia

É um país onde é preciso ter calma na condução. Não têm muito trânsito, mas também não há auto-estradas. A Ring Road é simplesmente uma estrada com duas faixas, uma para cada sentido. A velocidade máxima na Islândia é de 90 km/hora nas estradas pavimentadas, 80 km/hora nas estradas não asfaltadas, e 50 km/hora (ou menos) nas localidades. Não convém, de maneira nenhuma, exceder estes limites. Raramente se vê um carro da Polícia, mas os que existem têm um sistema sofisticado de detecção de velocidade que lhes permite aferir se um carro está em excesso de velocidade mesmo quando vêm de frente, e não perdoam. Sabemos isso porque fomos multados, numa estrada secundária às nove e tal da noite, por irmos a cento e poucos quilómetros à hora.

Além disso, há câmaras em vários locais, incluindo nos túneis. Quase todas as vezes em que vimos um carro da Polícia parado, estavam a multar alguém. No nosso caso, porque o excesso de velocidade não era muito, a multa foi de 37.500 ISK (cerca de 240 EUR); mas os valores podem ir até acima de 500 EUR. Mais vale não arriscar.

É absolutamente proibido conduzir fora das estradas, mesmo que seja com um todo-o-terreno, e fazê-lo dá direito a multa. Os islandeses são muito ciosos no que se refere a preservar a natureza. Obrigatório é andar sempre com as luzes do carro acesas, mesmo durante o dia, e usar o cinto de segurança. Tal como no nosso país, não é permitido falar ao telemóvel quando se conduz.

Islândia - conduzir

 

Abastecer o carro

Há imensas bombas de gasolina, mas normalmente apenas nas localidades, por isso não é boa ideia deixar que o nível de combustível no depósito vá muito abaixo. O melhor é abastecer quando está a meio ou pouco menos, e acreditem que é muito fácil consumir metade de um depósito. O carro que alugámos, um Dacia Duster com tracção às quatro rodas, tinha motor a gasolina e fez uma média de 7,6 litros aos 100. Estando a gasolina sensivelmente ao preço da nossa, ou seja, a quase 1,5 EUR por litro, dá para perceber que uma boa fatia das despesas da viagem foi para o combustível.

Quando abastecemos é sempre necessário indicar o valor que queremos (não o número de litros), e por vezes sucede que o depósito fica cheio antes de se atingir esse valor. Não se assustem. Umas horas depois o sistema repõe no cartão a diferença entre o que pagámos e o que foi efectivamente abastecido. Quando indicamos que queremos atestar o depósito cobram inicialmente um valor brutal (mais de 100€), mas claro que depois devolvem. É no entanto preferível, na minha opinião, não optar por esta hipótese (sobretudo quando se usa o cartão Revolut, porque depois demoram 2 a 3 dias, ou mais, a devolver o dinheiro).

 

Estacionamento

Como é óbvio, estacionar na Islândia não é motivo para dores de cabeça – espaço é coisa que não falta, e o trânsito automóvel também não é nenhuma loucura. O estacionamento é geralmente gratuito, mas há algumas excepções. No centro de Reiquiavique, só é gratuito ao domingo. Em dois dos parques que visitei – Thingvellir e Skaftafell (acesso à cascata Svartifoss) – foi necessário pagar 750 ISK (4,75€) para estacionar. O pagamento é feito informaticamente no site https://www.myparking.is/ ou nos monitores touchscreen colocados em cada parque, e basta introduzir a matrícula. O parque junto à cascata Seljalandsfoss também é pago, mas conseguimos estacionar gratuitamente um pouco mais à frente, nuns acessos ao lado da estrada principal.

 

Portagens

Existe um único local na Islândia em que se paga portagem: o túnel de Vadlaheidi (Vaðlaheiðargöng), perto da cidade de Akureyri. Encurta a Ring Road em cerca de 16 km e para maior segurança é aconselhável optar por ele no Inverno. A portagem tem o valor de 1500 ISK e pode ser paga entre 3 horas antes e 3 horas depois da passagem no site www.tunnel.is (também apenas inserindo a matrícula do veículo). Fora daquela estação, fazer o percurso pela estrada normal (está devidamente indicado antes de entrar no túnel) apenas aumenta em 10 minutos o tempo da viagem, e não apresenta quaisquer problemas.

 

Dinheiro

A moeda é a coroa islandesa (símbolo internacional ISK, mas na Islândia usam habitualmente a abreviatura Kr). Ao câmbio actual, cada coroa vale cerca de 0,065€, portanto os preços têm sempre muitos números. Só por si, isto já assusta, mas quando fazemos a conversão ainda nos assustamos mais. Nos primeiros três dias estranhamos os preços altos, ao quarto dia começamos a habituar-nos, e ao fim de uma semana deixamos de fazer contas.

É possível pagar tudo – mesmo tudo! – com cartão. Aliás, há sítios onde só se paga com cartão, como é o caso de grande parte das bombas de gasolina, que nem sequer têm loja ou guichet onde fazer o pagamento. O levantamento mínimo em ATM são 5000 coroas e ainda se paga uma taxa. Eu fiz um levantamento, por precaução, mas o que paguei com esse dinheiro foi mesmo só para o gastar, poderia ter pago com cartão.

Para evitar as comissões que os bancos sempre aplicam na conversão quando pagamos com cartão de débito ou de crédito, usei quase sempre o cartão Revolut. Se fizerem o mesmo, lembrem-se de activar os pagamentos com banda magnética, caso contrário nalguns locais (sobretudo bombas de gasolina) não conseguirão pagar. Sobre o abastecimento nas bombas com o Revolut, mesmo não escolhendo a hipótese de atestar o depósito aconteceu-me por duas vezes debitarem o valor todo que tinha no cartão (o que me obrigou a recarregá-lo), e a diferença só foi devolvida passados 2 ou 3 dias. Não consegui perceber porque é que isto sucedeu umas vezes e outras não, mas fica o aviso.

 

Alojamentos

Há alguns hotéis, sobretudo nas cidades, mas a maioria dos alojamentos são do tipo guesthouse, hostel, apartamento ou cabina. Muitas guesthouses apenas têm casa-de-banho partilhada, e nem em todas existe cozinha. Os alojamentos em que ficámos (que obviamente não eram de luxo) tinham uma qualidade bastante boa, tanto em limpeza como em conforto, e corresponderam às expectativas. No norte há menos oferta, e portanto o alojamento é proporcionalmente mais caro. O mínimo que pagámos por noite foi 52€ (com pequeno-almoço, 50 km a sul de Reiquiavique) e o máximo 114€ (apartamento nos Westfjords).

Islândia - alojamento (1)

Casas-de-banho

Há casas-de-banho públicas perto de muitos dos pontos mais turísticos, gratuitas e habitualmente bem higienizadas, e por vezes blocos sanitários (daqueles tipo festival de música) junto a parques de merendas. Nos restaurantes, normalmente só aos clientes é permitido o acesso às casas-de-banho.

Facto curioso é a preferência que os islandeses têm por lavatórios minúsculos. Tão minúsculos que por vezes até lavar os dentes se torna difícil, sobretudo quando decidem pôr uma prateleira ou um armário por cima. Temos de fazer ginástica ao pescoço para não deitar água por fora.

Islândia - lavatório

Não esperem ter nas casas-de-banho dos quartos o habitual kit de produtos higiénicos. Há gel para as mãos ou um mini sabonete. Eventualmente haverá também gel de duche (daqueles fixos na parede), mas não na maioria dos sítios. Champô só encontrámos num dos alojamentos (mas não tinham gel de duche). E também não parecem ser amantes de toalhas de banho grandes.

 

Água

A água da torneira é boa para beber. A das cascatas e rios também, mas por vezes tem algum sabor. Nos restaurantes parecem ter uma preferência especial pelas águas gaseificadas, e por vezes não têm água engarrafada sem gás – mas felizmente costumam pôr à disposição jarros com água normal. Levámos garrafas de água vazias, que enchíamos todos os dias nos alojamentos.

Islândia - Dynjandi

 

Comida

Se por acaso achavam que na Islândia se come muito bem, vou já desiludir-vos. Os pratos tradicionais são poucos e pouco apelativos – basta dizer que o prato nacional, o Þorramatur, são fatias e pedaços de produtos de carne e peixe fumados, acompanhados de pão de centeio e manteiga. Nada de muito entusiasmante. Têm também cabeça de carneiro cozida e tubarão fermentado. Agrada-vos? Há outros pratos mais normais, como estufado de carneiro, almôndegas de peixe ou sopa de marisco. Para sobremesa, panquecas ou uma torta de chocolate. A cereja no topo do bolo é todos os restaurantes que servem comida tradicional ou mais elaborada serem caros.

Islândia - comida

Perante isto, resta comer em locais mais económicos, que são uma versão ligeiramente melhorada do fast food. Há pizzas, sanduíches variadas, e sobretudo hambúrgueres – que, diga-se em abono da verdade, são bastante bons (não há McDonald’s no país). Têm uma predilecção especial por fish & chips, e há alguns restaurantes de sushi. Também há cafés e pastelarias, com bolos enormes e super doces. Tudo isto mais ao menos ao dobro ou triplo do preço que costumamos pagar cá. Só como exemplo, o preço habitual de um café são 500 ISK, ou seja, mais de 3€.

Os supermercados são a outra alternativa. Os das localidades pequenas têm menos opções, mas nos das cadeias Nettó ou Bónus há bastante diversidade de produtos. Por vezes têm saladas frias já feitas, wraps e sanduíches bem recheadas. Também têm muita fruta e legumes, e embora os preços sejam obviamente mais altos que em Portugal, são um bom recurso para economizar em alimentação durante a viagem.

 

Ovelhas e outros animais à solta

Na Islândia há mais ovelhas do que pessoas, e são elas as verdadeiras donas da ilha. No Verão andam em liberdade, normalmente em trios (porque as gestações mais comuns são de gémeos), e encontramo-las mesmo nas zonas mais remotas, a quilómetros de distância da casa mais próxima. Um dos seus desportos favoritos é atravessarem as estradas, e o facto de verem um carro avançar na sua direcção normalmente não as dissuade. Há por isso que ter imenso cuidado para não atropelar nenhuma. Dito isto, as ovelhas islandesas são umas fofuras. Podem ser brancas, pretas, castanhas ou às manchas, e a sua raça é uma das raças de ovelhas mais puras do mundo, o que se deve precisamente ao isolamento da ilha.

Islândia - ovelhas na estrada

Há ainda a possibilidade de encontros imediatos na estrada com aves, cabras, cavalos, ou mesmo renas. As zonas onde estes acidentes são mais prováveis estão geralmente assinaladas por placas adequadas, mas isso não significa que não possam ocorrer noutros locais.

 

Os puffins e as baleias

Há pelo menos 85 espécies diferentes de aves que nidificam na Islândia, mas os mais fofos são sem dúvida os puffins. Ir à Islândia na época da nidificação (de Abril a finais de Julho) e não ver estes adoráveis bichinhos é como ir a Roma e não ver o Papa. São tão engraçados que por mim passava horas a olhar para eles.

Islândia - Puffins

Outros animais que é possível ver na Islândia são as baleias. Há muitos operadores turísticos que propõem passeios de barco para observar baleias, sobretudo no norte. Para quem nunca viu, é uma experiência que vale a pena, apesar do frio que se apanha. Só não é aconselhável a quem enjoar com facilidade.

 

Actividades

Para quem não se contentar com ver paisagens maravilhosas, aves, baleias, museus, jardins e parques, praias desertas, barcos e aviões abandonados, igrejas e pequenas aldeias piscatórias, há várias outras opções: passeios a cavalo ou de helicóptero, snorkeling e mergulho, visitas a grutas de gelo, passeios nos glaciares, rafting e canoagem, pesca, moto quatro, e por aí adiante.

E há – claro! – as piscinas quentes, em que a água é aquecida naturalmente pelo calor do interior da terra. A mais famosa é a Lagoa Azul, seguida pela de Myvátn, mas existem inúmeras em todo o país. São mais uma experiência a não perder, sobretudo se for no final de um dia de viagem cansativo, mas pessoalmente precisei de me encher de coragem para suportar o frio antes de entrar na piscina, e sobretudo quando saí da água.

 

Roupa

Com temperaturas máximas no Verão entre os 10 e os 17 graus Celsius, é fácil de perceber que é necessário levar bons agasalhos. Eu, que não sou grande amante de gorros e raramente os uso, mesmo no Inverno, quase não larguei o meu durante toda a viagem. É muito útil sobretudo para proteger do vento que, quando sopra, vem forte e directamente do Pólo Norte. Levem um bom anoraque, de preferência impermeável porque por vezes chuvisca, meias quentes e grossas, luvas e cachecol, pois vão precisar.

Islândia - Viking village set

Se tencionarem fazer um passeio de barco para ver baleias, levem também umas leggings para usar por baixo das calças. Os operadores fornecem fato-macaco acolchoado e um casaco de oleado (ficamos a parecer o boneco da Michelin), mas creiam-me que nada vai ser demais para vos proteger do vento glaciar e da água gelada.

Não é fácil enxugar roupa na Islândia. Fora de casa está demasiado frio e húmido, e dentro de casa só se houver aquecimento, caso contrário demoramos dias para secar uma simples t-shirt. Sei do que falo, e a minha sorte foi ter levado sacos plásticos, onde pude guardar a roupa molhada que ia tentando secar de alojamento para alojamento.

Tanto pelo clima como pelos percursos – trilhos de terra, areia, lama, pedras, ribeiros – vão precisar de bons ténis e botas todo-o-terreno, melhor ainda se forem à prova de água.

No reverso da medalha temos as muitas piscinas de água quente que há por todo o lado, umas pagas, outras gratuitas. Precisamos por isso de pelo menos um fato de banho e uma toalha.

 

Covid-19

Com menos de 1900 casos de infecção e 10 mortes por covid-19, desde 20 de Abril que não há mortes provocadas pelo coronavírus e as novas infecções são residuais. Na data em que escrevo este post, somos obrigados a fazer o teste à covid-19 à chegada (a não ser que se queira ficar de quarentena) – não serve de nada levar o resultado de um teste feito cá, é mesmo obrigatório fazê-lo assim que aterramos. Antes da viagem é necessário fazer um pré-registo online, no website https://www.covid.is/english. Aqui é também possível pagar antecipadamente o teste, e fica mais barato do que se for pago no aeroporto (menos de 60€, em vez de cerca de 80€). Somos ainda convidados a instalar no smartphone uma app, a Rackning C-19, que monitoriza as deslocações e permite às entidades da saúde pública agirem rapidamente na detecção de potenciais contagiados.

O uso de máscara não é obrigatório em lugar nenhum do país, mas os estabelecimentos disponibilizam desinfectante à entrada e há marcações e avisos para a necessidade de respeitar a distância de segurança de 2 metros.

Actualização: De acordo com a informação publicada recentemente no website https://www.covid.is/english, a partir de 31 de Julho todos os passageiros que chegam à Islândia (excepto crianças nascidas em 2005 ou mais tarde) vindos de áreas de alto risco e que tencionem ficar no país durante 10 dias ou mais terão de se submeter a dois testes à Covid-19. O primeiro é feito na fronteira à chegada e o segundo um centro de saúde 4 a 6 dias depois. Entre os dois testes terão de tomar precauções acrescidas. O segundo teste é gratuito e é disponibilizado nos centros de saúde em todo o país.

 

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Islândia - Myvátn

 

Roteiro de 13 dias na Islândia

 

Dia 1 – Voos Lisboa-Munique-Keflavík

Dia 2 – Reiquiavique

Dia 3 – Búðakirkja; Rauðfeldsgjá; Arnarstapi; Londrangar; Ólafsvík; Kirkjufellsfoss; Hlíð í Hörðudal

Dia 4 – Garðar BA 64; Látrabjarg; Museu Hnjótur; Rauðisandur; Patreksfjörđur; Tálknafjörđur

Dia 5 – Listasafn Samúels Jónssonar; Dynjandi; Flateyri; Ísafjörður; Tálknafjörđur

Dia 6 – Búðardalur; Eiriksstadir; Glaumbær; Skagafjörður; Hófsós

Dia 7 – Siglufjörður; Akureyri; Goðafoss; Höfði; Grjótagjá; Hverir; Dettifoss; Selfoss; Brekka

Dia 8 – Húsavík; passeio barco (baleias); Brekka

Dia 9 – Krafla; Egilsstaðir; Gufufoss; Seyðisfjörður; Djúpivogur; Viking Village; Hornafjörður

Dia 10 – Jökulsárlón e Diamond Beach; Fjallsárlón; Hof; Svartifoss; Skeiðarársandur; Fjaðrárgljúfur; Vík í Mýrdal; Reynisfjara; Skógafoss; Selljavallalaug

Dia 11 – Seljalandsfoss e Gljúfrabúi; Keldur; Hella; Kerið; Faxi; Oxarárfoss e Parque Þingvellir; Geysir; Gullfoss; Flúðir

Dia 12 – Landmannalaugar; Þorlákshöfn

Dia 13 – Reykjanes; voos Keflavík-Frankfurt-Lisboa

 

Percurso total de carro: 3800 km

Mapa roteiro Islândia.jpg

 

Curiosos quanto ao que vi? Sigam o blogue e saibam tudo nos posts que vou publicar com o diário da viagem.

Diário de uma viagem à Islândia - I - A viagem e a capital →

Diário de uma viagem à Islândia - II - Na península de Snæfellsnes →

Diário de uma viagem à Islândia - III - Primeiro dia nos Westfjords →

 

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Coleccionar paisagens surreais na Islândia.jpg