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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Ter | 14.07.20

Nos meandros do Zêzere

 

Se há coisa que não falta em Portugal são estradas bonitas, embora nem todas tão famosas como merecem. Fiquei recentemente a conhecer mais uma destas estradas que se destacam pela sua beleza, e que não hesito em colocar na lista das minhas preferidas: a N344, que faz a ligação da N2 à Pampilhosa da Serra. Estrada irrequieta, tortuosa, não permite grandes velocidades, o que acaba por ser uma vantagem pois assim sempre se consegue observar melhor o cenário que a rodeia. E acreditem que há muita paisagem para apreciar, porque esta estrada corre durante vários quilómetros ao lado daquele que é provavelmente o troço mais bonito do Zêzere, onde o rio desenha uma série de curvas quase idênticas, abrindo caminho com dificuldade entre os cerros, formando penínsulas umas ao lado das outras, aparecendo e desaparecendo da nossa vista numa provocação constante. É nos meandros do Zêzere que vos levo hoje a passear.

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O Rio Zêzere é o segundo maior rio que corre exclusivamente em território português. Nasce na Serra da Estrela, muito perto desse lugar mítico que dá pelo nome de Covão d’Ametade, e depois de correr para nordeste por um dos mais compridos vales glaciares da Europa, em Manteigas muda de ideia e decide inverter a sua marcha, descendo obliquamente pelo centro do país até se encontrar com o Tejo em Constância, num percurso cortado por três barragens: Cabril, Bouçã e Castelo do Bode.

 

Na N344, o meu primeiro contacto com o Zêzere foi pouco depois de passar a ponte sobre o Rio Unhais, mais ou menos por alturas da Portela do Fojo, quando as árvores que ladeiam a estrada deixaram de me bloquear a visão. Foi um encontro inesperado, aquela fita irregular azul a intrometer-se no verde-escuro dominante da paisagem, relevos doces e arredondados com uns salpicos esparsos de pequeninas aldeias brancas. Uma certa sensação de surrealidade num cenário para mim invulgar, como se de repente tivesse sido teletransportada para outro país, ou até quem sabe para outra dimensão. Fiquei deslumbrada.

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Mais à frente na estrada há uma placa que indica o caminho para a aldeia de Álvaro e para um novo encontro com o Zêzere, que cruzei ao passar por uma ponte como se estivesse a pairar sobre a água. Nestes meandros o rio é ao mesmo tempo lago, sossegado e volumoso, a sua morfologia ainda influenciada pela retenção na barragem do Cabril, apenas quinze quilómetros a sudoeste em linha recta mas bastantes mais em percurso de rio.

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Álvaro é uma das aldeias brancas da Rede das Aldeias do Xisto, e uma pequena jóia do centro de Portugal. Tem uma localização privilegiada, alongando-se na crista de uma colina debruçada sobre o Zêzere, vigiando lá do alto a quietude das águas e a sua praia fluvial. Esconde, sob a capa de terrinha minúscula e insuspeita, uma riqueza histórica e um património surpreendentes. Pertenceu, entre os séculos XII e XV, à Ordem de Malta, e o carácter religioso da aldeia subsiste até hoje. Na aldeia e em volta dela existem várias igrejas, capelas e alminhas, que se somam a algumas casas do século XIX e duas pontes (uma delas romana) e formam um conjunto de pontos de interesse a visitar, agrupados em percursos como os Caminhos do Xisto ou o Percurso das Capelas.

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A Igreja Matriz, dedicada a São Tiago Maior, e a Igreja da Misericórdia encontram-se no centro da aldeia, muito próximo uma da outra. Da primeira podemos dizer que é “recente”: a construção primitiva, de raiz medieval, desapareceu num incêndio, e as características actuais foram-lhe dadas pela reconstrução e remodelação de que foi alvo nos séculos XIX e XX. A sua riqueza está no interior, que abriga o “módico” número de cinco altares em talha dourada. Já a Igreja da Misericórdia é bem diferente. Mais pequena, com um volume irregular e um telhado curioso que se projecta parcialmente, de ambos os lados, numa espécie de beiral suportado por barrotes, mantém nitidamente algumas características originais. Construída no final do século XVI, o portal de granito e a imagem de Nossa Senhora que se encontra por cima não padecem dos excessos decorativos barrocos dos séculos posteriores, aos quais estamos tão habituados.

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Em passeio pela aldeia é impossível não notar os efeitos do incêndio que devastou Álvaro e toda a sua envolvente em 2017. Das mais de 40 casas destruídas, muitas continuam em ruínas, esqueletos de pedra sem telhas nem vidros, as entranhas invadidas por matagal e lixo. Testemunhos do terror vivido nesses dias pelos habitantes, não houve felizmente mortes a lamentar, mas lançam sobre a aldeia um certo manto de tristeza apenas quebrado pelas vozes de duas meninas que brincam no jardim ao pé da Igreja Matriz. Entre as casas recuperadas, na sua maioria imaculadamente pintadas de branco e com uma faixa de cor discreta na base, algumas deixaram-me curiosa por terem, ao lado da porta principal, uma porta muito pequena por onde é impossível um adulto passar sem ser de cócoras.

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A N344 termina na Pampilhosa da Serra, mas a partir desta vila há outra Estrada Nacional que volta, percorridos alguns quilómetros, a pôr-nos em contacto com o Zêzere: a 112. A minha paragem nesta estrada foi em Cambas, onde apenas me detive o tempo suficiente para passear um pouco junto ao rio, no caminho que leva à praia fluvial. O dia estava quente e a aldeia tão parada como a água. À sombra de uma árvore, um casal já bem idoso, cada um em seu banquinho desdobrável, as mãos dela ocupadas com um trabalho de agulha, as dele com uma cana de pesca, várias outras ao lado já posicionadas à espera que o peixe picasse. Cumprimentei-os, perguntei se estavam a pescar para a janta, ela riu-se e disse que tinham acabado de chegar. “Isto é só para distrair um bocado”, rematou. Sorri também e desejei-lhes boa pescaria, pensando na sorte que têm por continuarem juntos e a gostar da companhia um do outro, numa idade em que a maior parte das pessoas já enviuvou.

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Deixando a N112 para acompanhar de perto as curvas do Rio Zêzere, o destino seguinte foi Janeiro de Baixo. Também aqui há uma praia fluvial, junto ao parque de campismo e a uma zona de merendas muito limpa e agradável, entre pinheiros altos e frondosos. A praia é de areia mas a época balnear oficial reduz-se a dois únicos meses, Julho e Agosto, e notava-se que ainda havia obras a decorrer. Aqui o Zêzere ainda é rio, mais estreito e mais rápido, faz barulho ao galgar uma represa baixa feita com pedras, a jusante da praia.

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Janeiro de Baixo está encaixada num cotovelo do rio, que por isso também podemos ver do outro lado da aldeia, a partir do largo ao pé da igreja, que funciona como uma espécie de miradouro. Pertence igualmente à Rede das Aldeias do Xisto e tem um misto de casas de pedra e casas rebocadas, muitas delas com nítida recuperação recente. Toda a aldeia tem um ar luminoso e organizado, e no entanto nem com meia dúzia de pessoas me cruzei durante o meu passeio pelas ruas. Talvez fosse por estar calor, ou porque os habitantes se mantêm reservados nas suas casas com receio de forasteiros eventualmente infectados com o coronavírus, ou ainda talvez porque ali não existam muitas pessoas a viver em permanência. Fica a incógnita.

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O Rio Zêzere define, durante grande parte do seu percurso, a separação entre os distritos de Coimbra e Castelo Branco. Esta é a razão pela qual duas aldeias que têm quase o mesmo nome e distam uns meros dois quilómetros ficam actualmente em distritos (e concelhos) diferentes: Janeiro de Baixo pertence a Coimbra, e Janeiro de Cima a Castelo Branco. A culpa é do rio e das suas reviravoltas na geografia acidentada que lhe saiu na rifa. Nesta região, por motivo que se perde na memória do tempo, as aldeias parecem vir aos pares. Há Brejo de Baixo e Brejo de Cima, Estremanças de Baixo e Estremanças de Cima, Aldeia Cimeira e Aldeia Fundeira (entre elas, seguindo uma lógica inatacável, existe a Aldeia do Meio), e muitas outras cuja toponímia segue o mesmo raciocínio.

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Apesar de partilharem parte do nome e estarem ambas na margem do Zêzere, Janeiro de Cima tem um ambiente bastante diferente do da sua vizinha de Baixo. Comecei a minha visita também junto ao rio. Segui a seta que indicava “Roda de Janeiro”, apenas para descobrir que a reconstituição desta roda antiga usada para as regas está, com grande pena minha, desmontada. O local é agradável e dali parte um passadiço de cimento que cruza o rio até â margem oposta, substituindo as antigas barcas que transportava pessoas e mercadorias de um lado para o outro. Por outro passadiço acede-se ao Parque Fluvial da Lavandeira, uma área com relva, bem cuidada, que funciona simultaneamente como praia e parque de merendas. Era quase hora de almoço e a animação já se notava, os grelhadores ao rubro lançando fumo para o ar, pessoas afadigadas à volta das mesas. Sentada na esplanada do bar, do outro lado do parque, percebi pouco depois a razão para tanta azáfama: um encontro de motards. Chegaram em comitiva barulhenta, num desfile de várias dezenas de motas que parecia não acabar, arrumando-se milagrosamente no estacionamento reduzido onde já estavam alguns carros.

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Saí dali em busca do sossego das ruas da aldeia. A parte mais antiga, à volta da Igreja Velha, está toda recuperada, muitas casas embelezadas com trepadeiras e vasos de flores. São na sua maioria casas em pedra, que ostentam a particularidade de mostrarem, nas paredes construídas, grandes seixos rolados extraídos do rio, intercalados com os blocos irregulares de xisto. Neste casario ainda se encontram algumas edificações cuja construção data dos séculos XVII e XVIII. As poucas casas que têm reboco estão pintadas de branco ou com cores vivas.

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Um dos projectos mais conhecidos de Janeiro de Cima é a preservação da tecelagem tradicional com linho. Foi criada a Casa das Tecedeiras, oficina e loja ao mesmo tempo, onde foram montados teares para a produção de peças várias feitas com recurso às técnicas tradicionais. Ao lado da casa, uma enorme escultura de betão e aço evoca precisamente um tear. A Casa das Tecedeiras funciona também como centro interpretativo e tem em exposição para venda peças lindíssimas, algumas também em tecido. Infelizmente, estava fechada, ao que percebi ainda em resultado das restrições impostas pela situação pandémica actual. Aliás, como já o disse no post anterior, notei nesta minha viagem que muitos estabelecimentos e organismos oficiais ainda se encontravam encerrados ao público.

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O último destino da minha jornada pelas curvas do Zêzere foi Dornelas. Mas antes de entrar na aldeia parei no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, espaço amplo, moderno e deserto que tem como vantagem ser um miradouro de excelência sobre o Zêzere, Dornelas, e a sua vizinha aldeia de Alqueidão.

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Depois desci até ao açude, junto ao local a que – pomposamente, direi eu – chamam praia fluvial. Uma espécie de ponte pedonal feita com lajes de betão dá acesso ao outro lado do rio. Junto às escadinhas que descem até à praia, estão eternizados em azulejo os versos que um jovem poeta da terra, Júlio Dias, compôs em 1938 como prova do seu amor por Dornelas do Zêzere. Por baixo deste memorial, a pequena escultura de um leão (e não me perguntem porquê, que não sei). A história desta aldeia é tão antiga que se crê ser ainda anterior à formação de Portugal. A Igreja Matriz, de devoção a Nossa Senhora das Neves, já era mencionada no “Catálogo das Igrejas” de 1320. Tem ainda um Museu Etnográfico e a capela de São Miguel, que datará provavelmente dos séculos XVII ou XVIII.

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Apaixonada que sou por tudo o que tem a ver com água, durante estes dias que passei na Pampilhosa da Serra rendi-me aos encantos do Rio Zêzere, que nesta região são exponencialmente aumentados pela paisagem fascinante que o acolhe. É a Natureza no seu melhor, frequentemente tão maltratada por nós, e ainda assim a ter a capacidade de se regenerar uma e outra vez, continuando a assegurar a nossa sobrevivência.

 

Conheçam mais um pouco desta região:

Nas curvas da Pampilhosa

 

 

***

 

A minha estadia na região da Pampilhosa da Serra e Oleiros está incluída na iniciativa #EuFicoEmPortugal, uma acção concertada que envolve 48 dos bloggers associados da ABVP-Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, e cujo objectivo é divulgar o nosso país e incentivar os portugueses a saírem à descoberta das inúmeras maravilhas de Portugal, muitas delas ainda tão pouco conhecidas. Cada blogger escolheu uma região diferente, que visitou ou está ainda a visitar, com a finalidade de produzir conteúdo original sobre o destino escolhido. A parte prática deste projecto está a ser desenvolvida desde o dia 6 de Junho, com milhares de posts, fotografias e stories já publicadas e partilhadas nas redes sociais e na blogosfera – e muito mais continuará a ser partilhado. Sigam-nos através da hashtag e surpreendam-se com tudo aquilo que Portugal (ainda) tem de inédito para nos oferecer.

 

Para me alojar nesta viagem escolhi a Isabel House, uma casa de aldeia remodelada e muito acolhedora que fica na Póvoa, a 6 km da Pampilhosa da Serra, e me foi gentilmente disponibilizada pelos proprietários.

 

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Esta viagem teve o apoio da Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal

 

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Nos meandros do Zêzere

 

 

Qui | 02.07.20

Nas curvas da Pampilhosa

 

Chamam-lhe da Serra, e por alguma razão haveria de ser. Cravada numa encosta desse mar de montanhas que se eleva no centro do nosso país e é apelidado de Cordilheira Central (mais especificamente, as Serras da Estrela, do Açor e da Lousã), seja de onde for que se queira chegar a esta vila há que vencer uns bons quilómetros de consecutivas curvas e contracurvas que nem as melhorias rodoviárias mais recentes conseguiram suavizar. Não fosse isso suficiente, contem também com um carrossel de subidas e descidas, que obriga a manipular constantemente a alavanca das mudanças e poderia bem servir de teste a um piloto de ralis. Pouco amiga de quem for propenso a enjoos ou vertigens, esta é no entanto uma região absolutamente fascinante e – felizmente! – ainda não descoberta pelo turismo de massas. Por ser uma região ainda desconhecida para mim, foi a minha escolha para participar no projecto #EuFicoEmPortugal*.

 

A caminho da Pampilhosa, depois de entrar no IC8 não consegui deixar de me lembrar dos trágicos incêndios de 2017, que causaram dezenas vítimas mortais e devastaram habitações e grandes áreas de floresta. As cicatrizes são ainda muito visíveis na paisagem que a estrada atravessa: árvores completa ou parcialmente queimadas entre outras que já recuperaram (eucaliptos, na sua maior parte), e grandes extensões já cobertas de árvores ainda pequenas (infelizmente também eucaliptos, na maioria), todas bem alinhadinhas, denunciando a sua plantação recente. Muitas mais cicatrizes haverá, invisíveis ou bem disfarçadas, no coração das pessoas que aqui vivem. Este pensamento acompanhou-me durante toda a minha estadia.

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Visíveis são também os efeitos das restrições impostas às actividades económicas e ao relacionamento interpessoal para evitar a propagação incontrolável da covid-19. Vi muitos estabelecimentos fechados, quem sabe se para sempre. Aproveitando uns dias de sol e calor que anteciparam brevemente o Verão, as pessoas privilegiavam as esplanadas, onde não é obrigatória a máscara para os clientes. Várias infra-estruturas que já deveriam estar a funcionar ainda estavam encerradas, algumas delas com obras a decorrer e que talvez já estivessem terminadas se o país não tivesse sido obrigado a parar durante dois meses. Andei em estradas onde não me cruzei com um único carro durante longos minutos, passeei por ruas desertas, e uma das praias fluviais já abertas que visitei está completamente sinalizada para evitar ao máximo o cruzamento de pessoas nos locais de passagem. São tempos estranhos, estes que vivemos…

 

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A Pampilhosa da Serra é uma vila meio tradicional, meio modernaça, como muitas outras que encontramos por todo o país. Não tem edifícios muito altos, apenas meia dúzia de prédios com três ou quatro andares. A maioria das casas de habitação são de traça simples, telhados de duas águas, cores claras, com um ou outro pormenor mais pitoresco para embelezar. As mais antigas perfilam-se numa das margens do rio, as outras trepam pelas encostas sul e oeste ao longo de ruas sinuosas e íngremes.

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No centro da localidade passa o Rio Unhais, que foi aproveitado para a criação de uma praia fluvial ao lado do edifício, a tender para o futurista, das piscinas municipais. De resto, tudo o que parece ser importante na Pampilhosa está aqui à volta, numa mistura quase íntima e no mínimo incongruente, mas que não parece incomodar ninguém: os bombeiros ao lado do cemitério, a igreja em frente ao jardim anexo à praia, a Câmara junto a um mini centro comercial, o Tribunal próximo do Pavilhão Multiusos, com a Santa Casa da Misericórdia do outro lado da rua. Mais ao longe, numa das encostas destaca-se outro edifício branco e de linhas modernas: o único hotel da vila, que está actualmente encerrado. Tal como o pequeno Posto de Turismo a que chamam JIRA e até mesmo a praia fluvial, onde não corria quase água nenhuma. Estarão talvez à espera dos meses de Julho e Agosto para abrir, quando os filhos da terra vierem de visita nas férias, muitos deles decerto emigrados pelo mundo. E será também talvez nessa altura que põem a funcionar a fonte do Monumento ao Emigrante erguido no jardim por trás da Câmara.

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Portanto, no domingo em que andei a passear pela vila parecia que estávamos em época de defeso, com uma ou outra excepção. A Igreja Matriz tinha as portas escancaradas para quem quisesse visitá-la ou quiçá para encorajar os fiéis, mostrando que está devidamente marcada para que possam participar na missa com o necessário distanciamento social. No largo ao lado, a água jorrava abundante ao longo de um muro forrado a azulejo e pedra, em jeito de fonte. E muitas pessoas tinham decidido almoçar fora de casa ou simplesmente ir tomar um café, enchendo as poucas esplanadas disponíveis. Também eu aproveitei para almoçar por ali, no restaurante Caruma, que tem um ambiente tranquilo e fresco com vista para o jardim da praia.

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O Rio Unhais tem um curso de poucas dezenas de quilómetros e corre praticamente paralelo ao Zêzere até nele desaguar junto à aldeia de Padrões. Nasce acima de Unhais-o-Velho, na zona do Açor a que chamam Serra da Cebola, e não teria grande história para contar se nele não tivesse sido construída a Barragem de Santa Luzia. Da Pampilhosa à barragem são cerca de 17 quilómetros em estradas nacionais com bom asfalto, mas que mesmo assim não deixam de ser sinuosas e lentas de percorrer. Pelo caminho passei perto de aldeias com nomes tão deliciosos como Signo Samo, Selada das Pedras ou Brejas do Gavião. A paisagem é ampla e os meus olhos fugiam continuamente para ela, apesar da atenção redobrada que precisava de ter na condução. Ali as serras estendem-se a perder de vista, numa ondulação suave que nunca encontrei em qualquer outra região do país. O trânsito era escasso, volta e meia lá aparecia alguma carrinha conduzida com velocidade de quem conhece bem aquelas curvas, e que eu deixava passar logo que a estrada o permitia, só para poder continuar a conduzir devagarinho para poder apreciar a paisagem. Nas cristas das serranias, as pás dos já habituais aerogeradores não paravam de rodar, e por vezes a sombra de uma águia atravessava obliquamente a faixa cinzenta do asfalto.

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A estrada penetrou de repente num enorme maciço rochoso e a surpresa assaltou-me depois de uma curva: a enorme mancha irregular do lago da barragem, definida por uma faixa contínua de cor clara encimada por colinas suaves cobertas de árvores, a água de um azul profundo a brilhar sob o sol aberto. Mentes absolutamente brilhantes criaram logo ali um espaço para parar o carro e um miradouro, de onde esperei que saísse uma família para depois poder eu subir e ficar com a paisagem toda só para mim. E que paisagem! Dali avistam-se quilómetros de água e serra, com as duas abóbadas de betão da barragem do lado esquerdo a fecharem uma garganta estreita por onde passa o rio, prolongadas por uma crista quartzítica impressionante e depois por uma encosta funda, que termina num vale muito verde com não mais de uma dezena de casinhas. O conjunto é verdadeiramente admirável, tirei fotografia atrás de fotografia e foi com alguma relutância que saí dali para regressar ao carro.

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O destino seguinte era a praia fluvial, à qual se acede por um belíssimo e muito fresco parque florestal. Será de certeza uma boa praia, mas na verdade não consegui chegar perto dela. Num sábado de grande calor, toda a gente das redondezas teve a mesma ideia que eu e não havia nem um buraquinho decente para estacionar o carro. Acabei por desistir, voltei para trás e tomei a estrada que dá acesso à barragem, depois parei algures num local menos frequentado e desci até à beira de água. Num rio tão pequeno como o Unhais, a grande área da bacia hidrográfica de Santa Luzia só se explica porque recebe também água da Barragem do Alto Ceira, através de um túnel de derivação com vários quilómetros – um transvase entre as bacias hidrográficas do Mondego e do Tejo. Outra particularidade desta barragem é o facto de a central hidroeléctrica de Santa Luzia descarregar a água turbinada directamente no Rio Zêzere, através de uma conduta que termina na central hidroeléctrica do Esteiro, perto das aldeias de Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo.

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No caminho de regresso à Pampilhosa decidi tomar a estrada que desce do miradouro até à aldeia de Vale Grande e passa, numa curva muito apertada, mesmo por trás da estrutura da barragem e dos altos penedos que a apoiam. Se visto de cima o lugar me impressionou, quando o olhei de baixo ao passar de carro a sensação que me provocou foi absolutamente esmagadora.

 

Nesta minha estadia de quatro dias para visitar a região fiquei alojada na Póvoa, uma aldeia sossegada a meia dúzia de quilómetros da Pampilhosa da Serra. A Isabel House, o único alojamento rural que ali existe, é uma casinha de aldeia cuidadosamente recuperada e modernizada, ideal para passar uns dias a descansar e passear. Divide-se em dois níveis, com a cozinha e a casa-de-banho no piso inferior e a sala e um quarto no superior. Está muito bem equipada e decorada com extremo bom gosto, e obedece a todas as normas de segurança. Apesar de só a rede móvel Vodafone chegar à aldeia, há fibra óptica instalada, pelo que a internet e a televisão por cabo têm excelente qualidade.

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A Póvoa é uma aldeia pequena e muito tranquila, e os seus (poucos) habitantes são de uma simpatia a toda a prova. Também ali os esqueletos de árvores calcinadas que se espalham pelas encostas próximas não deixam esquecer os incêndios, e o zumbido, abafado mas constante, dos incansáveis aerogeradores plantados no cimo das encostas dão a falsa sensação de que há vento mesmo quando nem uma folha mexe nas árvores. Grande parte das casas da aldeia estão restauradas, muitas delas com os blocos de xisto à mostra, outras rebocadas e pintadas. Muitas estão também desabitadas – os donos vivem longe ou até mesmo no estrangeiro, outras são herança e esperam por comprador. No largo principal, onde desemboca a estrada que vem da Pampilhosa e a que em tempos chamavam “Pereiro”, há bancos de pedra junto ao muro, lugar de descanso à sombra e de conversa nas tardes mais quentes. Uma construção do lado esquerdo, que parece uma espécie de grande coreto, é a Casa de Convívio, o local das festas da aldeia. Perto da Isabel House, na Eira Júlio Antão, há uma capelinha branca dedicada a Santa Eufémia. À direita, um dos vários fontanários da aldeia, que tal como a capela tem ar de renovado há pouco tempo, e à esquerda o lavadouro público, que uma placa diz ter sido recuperado em 1997. À parte a necessidade de pintura nalguns sítios, permanece em bom estado, e a água correu quando abri uma das torneiras. Localizada entre encostas e não sendo ponto de passagem para qualquer outro lugar, a Póvoa é mais uma dessas aldeias serranas praticamente invisíveis, disfarçadas na paisagem, que só quem lá vai de propósito fica a conhecer.

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Conheçam mais um pouco desta região:

Nos meandros do zêzere

 

 

* A iniciativa #EuFicoEmPortugal é uma acção concertada entre 48 dos bloggers que pertencem à ABVP-Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, e que tem como objectivo divulgar o nosso país e incentivar os portugueses a saírem à descoberta das inúmeras maravilhas de Portugal, muitas delas ainda tão pouco conhecidas. Cada blogger escolheu uma região diferente, que visitou ou está ainda a visitar, com a finalidade de produzir conteúdo original sobre o destino escolhido. A parte prática deste projecto está a ser desenvolvida desde o dia 6 de Junho, com milhares de posts, fotografias e stories já publicadas e partilhadas nas redes sociais e na blogosfera – e muito mais continuará a ser partilhado. Sigam-nos através da hashtag e surpreendam-se com tudo aquilo que Portugal (ainda) tem de inédito para nos oferecer.

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Esta viagem teve o apoio da Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal

 

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