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Viajar porque sim

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Sex | 17.01.20

10 sugestões de destinos (fora da caixa) para 2020

 

Ou muito me engano, ou por aí já andam a pensar em viagens para este ano… Acertei? Pois, eu sei que não sou única no mundo. Em cada mês de Janeiro, o meu drama é sempre o mesmo: onde é que vou conseguir ir este ano dentro das minhas limitações de tempo e dinheiro, e que lugares vou escolher entre os 1001 quero visitar? Tenho a certeza de que muitos de vocês já estão a debater-se com o mesmo dilema, por isso vou deixar aqui algumas sugestões menos mainstream para vos fazer crescer água na boca, ou ajudar a desempatar entre vários destinos sem precisarem de recorrer ao velhinho um-dó-li-tá. Há sugestões em Portugal e fora do país, onde podem fazer praia, passear na natureza ou conhecer a cultura local, para um fim-de-semana ou umas férias mais longas, enfim, para todos os gostos. Não incluí, propositadamente, nenhum dos que visitei o ano passado (a lista está no meu último post), não porque não mereçam mas sim para não andar a repetir-me demasiado. E poderiam ser 20, para condizer com este ano, mas acho que 10 são suficientes para abrir o apetite.

 

Antes de mais, um outro tipo de sugestão: por muita vontade que tenham de conhecer todos aqueles lugares que estão na moda, e que por isso mesmo já estão a rebentar pelas costuras com tanta gente, procurem destinos mais alternativos e igualmente interessantes ou bonitos; ou então, se fazem mesmo questão de ir “àquele” sítio, vão numa época média ou baixa, em que a pressão turística é menor. Pela mesma razão, tentem não subsidiar actividades, hotéis, ou até mesmo países em que há práticas pouco ou nada correctas em relação a questões éticas e humanas que são realmente importantes. É claro que cada pessoa tem o seu código de valores, e o que não é aceitável para uns poderá sê-lo para outros – essa avaliação fica ao critério de cada um. Mas pensem um pouco sobre o assunto, informem-se, separem o trigo do joio, vejam o que é realmente essencial, e então decidam conscientemente.

 

Dito isto, vamos lá então ao que mais interessa.

 

Em Portugal

Flores e Corvo

Os Açores estão cada vez mais no topo das preferências de quem viaja, mas ainda assim são um destino não demasiado sobrecarregado – sobretudo as ilhas mais pequenas e difíceis de alcançar. Essa é uma das razões pelas quais recomendo que visitem as Flores e o Corvo. A outra é porque ambas têm gentes simpáticas e paisagens maravilhosas, que nos deixam de boca aberta mesmo que já as tenhamos visto inúmeras vezes em fotografia. Chamam às Flores a ilha rosa e ao Corvo a ilha preta, mas na verdade a cor que predomina é sempre o verde – mesmo no Verão, quando as hortênsias estão em flor. O Corvo é o paraíso da tranquilidade, e entre outras virtudes tem uma jóia da natureza que dá pelo nome de Caldeirão. Já a ilha das Flores é mais heterogénea, e consegue reunir no seu reduzido território “amostras” das paisagens de todas as outras ilhas açorianas – e um sem-número de paisagens extasiantes. Ambas merecem ser conhecidas sem pressas, seguindo o exemplo das ruminantes brancas e castanhas que encontramos a pastar tranquilamente um pouco por todo o lado e nos olham com curiosidade, sem todavia se incomodarem connosco ou com as máquinas fotográficas.

 

Nota: O clima é variável todo o ano e mais ainda nos meses menos quentes, por isso contem com voos e travessias de barco por vezes cancelados ou adiados. Se optarem por ir no Verão, marquem alojamento com bastante antecedência, porque a oferta é reduzida e tende a esgotar facilmente, sobretudo no Corvo.

Poço da Ribeira do Ferreiro - Ilha das Flores - A

Caldeirão do Corvo, Açores.JPG

Posts sobre a ilha das Flores:

Na ilha das Flores – parte I

Na ilha das Flores – parte II

Na ilha das Flores – parte III

Na ilha das Flores – parte IV

Na ilha das Flores – parte V

Na ilha das Flores – parte VI

 

Post sobre a ilha do Corvo:

No Corvo

 

Mina de São Domingos

É nesta pequena e muito pacata aldeia alentejana do concelho de Mértola que existe uma das melhores praias fluviais da Europa, já distinguida pelos World Travel Awards e continuadamente merecedora de bandeira azul desde há vários anos: a praia fluvial da Tapada Grande. Situada à beira de uma albufeira tranquila e rodeada de arvoredo, onde nem sequer falta uma ilhota, é uma praia de areia com todas as comodidades que se exigem de um lugar de veraneio moderno – chapéus-de-sol, restaurante, parque de merendas, estacionamento, etc. – e ainda um pequeno anfiteatro onde na época alta são organizadas actividades várias de animação.

Mas a Mina de São Domingos tem mais para ver. Tem as ruínas do antigo complexo mineiro de extracção de pirite, que abrange alguns edifícios ainda na periferia da aldeia e todo o percurso de cerca de 3 km até à Achada do Gamo, local que bem poderia servir de cenário para um filme pós-apocalíptico. Aqui as águas do ribeiro que corre paralelo à estrada de terra batida são multicoloridas e o ocre domina nos pedaços de edifícios que ainda se mantêm de pé, alguns com vestígios de elementos já ferrugentos. Também há pilhas de escórias negras e manchas de poeira cinzenta. E há um silêncio profundo e constante, como já é difícil encontrar nos tempos que correm, sobretudo em pleno dia.

 

Nota: Sugiro que aproveitem para visitar também o Pomarão, a localidade à beira do Guadiana que esteve em tempos ligada à mina por carris e servia de porto de embarque para o material recolhido. Bem perto, a vila de Mértola e o Pulo do Lobo são outros lugares a não perder.

Tapada Grande (2).JPG

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Post sobre a Mina de São Domingos:

As ruínas da Mina de São Domingos (https://viajarporquesim.blogs.sapo.pt/as-ruinas-da-mina-de-s-domingos-37242)

 

Amarante

Chamam-lhe Princesa do Tâmega e com razão. Olhando a silhueta da Igreja de São Gonçalo ao lado da ponte e as casas reflectidas no rio tornado espelho, não há como negar que Amarante tem algo de majestático. Mas não é uma nobreza com pretensões, antes a dignidade serena de uma cidade que sabe o que vale e não precisa de ostentações possidónias. Amarante é doce e romântica, seja passeando junto ao rio, percorrendo as suas vielas ou descansando numa esplanada quando o tempo está de feição. Anualmente, em finais de Junho, a cidade festeja o calor com uma Feira à Moda Antiga, e aí anima-se com cantigas, desfiles, jogos e exibições variadas – mas sem nunca perder a compostura. Tem doçaria típica, um restaurante com uma estrela Michelin e outros menos premiados mas igualmente recomendáveis, e alojamentos em edifícios emblemáticos. Amarante tem tudo o que é preciso para nos fazer apaixonar por ela à primeira vista.

Amarante 2.JPG

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Chaves

Novamente o Tâmega, aqui ainda em terras transmontanas, mas sempre tranquilo. Podemos atravessá-lo na milenar Ponte de Trajano e também – bem mais divertido! – sobre as poldras que ligam a Alameda que tem o mesmo nome à margem sul do rio. Carregadinha de vestígios históricos que remontam a períodos ainda anteriores à ocupação romana e se estendem ao longo de vários séculos, Chaves é uma das cidades portuguesas mais curiosas e interessantes para conhecer. Desde as engraçadas varandas das casas do centro histórico até ao Museu Nadir Afonso, passando pela reconhecivelmente medieval igreja Matriz, o castelo, o bairro da Madalena ou o parque termal, tudo aqui é diferente de qualquer outra cidade portuguesa.

Chaves é também a cidade onde se inicia a Estrada Nacional 2, que tem vindo a ganhar popularidade nos últimos tempos fruto da divulgação extensiva que está a ser feita deste percurso.

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Escaroupim

(e outras aldeias avieiras)

Muita da actividade na extensa e fértil região do Ribatejo gira à volta do rio, mas é na cultura avieira que encontramos os vestígios menos adulterados da importância que o Tejo ainda tem para as populações que vivem nas suas margens. O Escaroupim é a face mais visível e “arrumadinha” das aldeias avieiras, mas isso não lhe retira qualquer valor ou interesse. Muito pelo contrário, é daqui que podemos sair em passeio de barco para conhecer algumas das belezas guardadas nas ilhotas que povoam o Tejo, visitar o Museu e uma casa típica, comer no parque de merendas ou num excelente restaurante, e ver o pequeno e recentemente recuperado cais palafítico. E daqui podemos partir para visitar, de ambos os lados do rio, outras aldeias avieiras que ainda sobrevivem mantendo a sua genuinidade quase inalterada, e as ruínas daquelas que foram deixadas entretanto ao abandono, à medida que vai desaparecendo a actividade piscatória que sustentou tantas famílias durante décadas. Remanescências de um Portugal praticamente desconhecido que se vai desvanecendo tão mais rapidamente quanto o lado negro da modernidade persiste em o ignorar.

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Posts sobre o Escaroupim e as aldeias avieiras:

Em busca das aldeias avieiras

O rio Tejo

7 lugares quase desconhecidos em Portugal continental

 

Na Roménia

Maramureş

Talvez pela sua localização mais remota, no noroeste da Roménia e já paredes-meias com a Ucrânia, a região de Maramureş ainda está relativamente pouco explorada pelo turismo para estrangeiros, o que faz dela um destino óptimo para umas férias longe da confusão. É provavelmente uma das regiões europeias onde os costumes tradicionais se mantêm melhor preservados, tanto na arquitectura como na forma de vida, e tem características culturais muito próprias. Zona de campos agrícolas e florestas, várias das suas peculiares igrejas de madeira estão classificadas como património da Unesco, há um cemitério feliz único no mundo, e um parque natural que faz parte dos fabulosos Cárpatos onde podemos passear num pequeno comboio a vapor – o Mocăniţa – seguindo o percurso de um rio, ou alojar-nos num encantador hotel rural que parece saído de um filme. Ideal para quem gosta de sossego em ambientes simples e genuínos.

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Posts sobre Maramureş:

Um roteiro na Roménia

10 razões para visitar a Roménia

 

Outros posts sobre a Roménia:

Peleș, o palácio a que chamam castelo

O melhor segredo da Roménia

Dois dias em Bucareste – dia 1

Dois dias em Bucareste – dia 2

Nos passos de Vlad Dracul

 

Em Marrocos

Fez

A mais antiga cidade imperial marroquina é um ícone da civilização islâmica, e a sua medina é a maior zona livre de veículos automóveis do mundo – um cadinho de pessoas, ofícios, vielas, monumentos, cores e cheiros, labiríntico, fervilhante de vida e absolutamente fascinante. Passear nesta medina é mergulhar na história e cultura marroquinas e entrar num túnel do tempo: algumas actividades que aqui se desenvolvem permanecem quase imutáveis desde há séculos, e a vida de muitas das pessoas que aqui moram observa as mesmas tradições dos seus antepassados. Mas a cidade não se resume à medina. Tem Mellah (o antigo bairro judeu), Fes-el-Jdid e os seus palácios, o Museu de Batha, o jardim Jnan Sbil e os túmulos Merínidas, só para citar alguns dos locais mais apelativos. Em Fez subsiste autenticidade, a par com uma arquitectura genuína e bem preservada e com o orgulho popular nas suas raízes e cultura.

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Posts sobre Marrocos:

E Marrocos aqui tão perto

Em Marraquexe, comer bem e ajudar uma causa

 

Na Grécia

Milos

A ilha onde foi descoberta aquela que é sem dúvida a estátua de mármore mais famosa do mundo – a Vénus de Milo – permanece abençoadamente fora do radar do turismo de massas, apesar de ser uma das ilhas gregas mais interessantes e originais. Os próprios gregos dizem que é “diferente”. Mais verde e mais florida que a maioria das suas congéneres do Mar Egeu, Milos oferece a quem a visita uma diversidade invejável de paisagens naturais e arquitectónicas: o calmíssimo porto natural de Adámas e o seu “bunker” da 2ª Guerra Mundial, que é agora um espaço para exposições artísticas; a alvíssima praia de Sarakíniko, sem dúvida uma das mais invulgares do mundo; a colorida aldeia piscatória de Klima, hoje em dia essencialmente virada para o turismo mas ainda assim cheia de encanto; formações rochosas fora do comum, como as cavernas submersas de Papafragas e o rochedo de Kleftiko; ou as vilas de Pollonia, Plaka ou Trípiti, cada uma com as suas características peculiares. Há um sem-fim de motivos para ir conhecer Milos – e vir de lá com vontade de voltar.

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Post sobre a ilha de Milos:

Milos, a ilha diferente

 

Outros posts sobre a Grécia:

Ilhas gregas para todos os gostos

Ilhas gregas – Notas de viagem

Bilhete-postal de Santorini I

Bilhete-postal de Santorini II

Bilhete-postal de Santorini III

Bilhete-postal de Santorini IV

A outra face de Ios – Parte 1

A outra face de Ios – Parte 2

A outra face de Ios – Parte 3

Comer na Grécia

 

Costa Rica

Montezuma

Num país pejadinho de lugares maravilhosos, Montezuma prima pelo seu ambiente diferente. Descontraída e meio hippie, spot popular para mochileiros e viajantes alternativos, é ao mesmo tempo romântica e multicultural, e está suficientemente afastada do turismo mainstream para proporcionar a quem a visita uma estadia tranquila e inesquecível. As praias são de areia macia, a água do mar é obviamente morna, a fauna ornitológica é variada e exótica para os nossos olhos europeus, e a comida tem sabores de todo o mundo. Subindo o modesto rio Montezuma podemos tomar banho junto nas águas fresquinhas de uma cascata. E a apenas meia dúzia de quilómetros fica a Reserva Natural Absoluta Cabo Blanco, a área de protecção da vida selvagem mais antiga da Costa Rica, um país pequeno mas que sozinho possui 5% da biodiversidade do nosso planeta e sabe proteger essa biodiversidade como nenhum outro.

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Posts sobre Montezuma:

Diário de uma viagem à Costa Rica XII – Montezuma, Jacó, Manuel Antonio

Diário de uma viagem à Costa Rica XI – San Juanillo, Sámara, Punta Islita, Montezuma

 

Outros posts sobre a Costa Rica:

Macacos da Costa Rica

Costa Rica: fogo nos trópicos (https://viajarporquesim.blogs.sapo.pt/costa-rica-fogo-nos-tropicos-38686)

Diário de uma viagem à Costa Rica I – voo, San Jose

Diário de uma viagem à Costa Rica II – San Jose, Cariari, Tortuguero

Diário de uma viagem à Costa Rica III – Tortuguero

Diário de uma viagem à Costa Rica IV – Tortuguero, La Fortuna (Arenal) 

Diário de uma viagem à Costa Rica V – La Fortuna (Arenal) 

https://viajarporquesim.blogs.sapo.pt/diario-de-uma-viagem-a-costa-rica-vi-6291 – Arenal, Monteverde

Diário de uma viagem à Costa Rica VII – Monteverde

Diário de uma viagem à Costa Rica VIII – Monteverde 

Diário de uma viagem à Costa Rica IX – praias de Guanacaste, San Juanillo

Diário de uma viagem à Costa Rica X – San Juanillo

Diário de uma viagem à Costa Rica XIII – Manuel Antonio 

Diário de uma viagem à Costa Rica XIV – Sierpe

Diário de uma viagem à Costa Rica XV – Sierpe, Orosí (

Diário de uma viagem à Costa Rica XVI – Vulcão Irazú, Zarcero, Sarchí, Grecia, Cartago, Ujarrás, Orosí

Diário de uma viagem à Costa Rica XVII – Orosí, San José, Alajuela

 

 

Na França insular

Martinica

De França tem a língua e a moeda, tudo o resto é puramente caribenho – ou seja, só vantagens. As praias são como as dos postais, a vegetação é tropical, o mar tem água morna e peixes multicoloridos, com lugares excepcionais para o mergulho. Aqui nasceu a Imperatriz Josefina, no Domaine de la Pagerie, e viveu Gauguin – a sua antiga habitação é hoje um museu – e foi também aqui que ocorreu há quase cem anos uma enorme erupção vulcânica que deixou marcas e muita história para visitar. Há jardins e florestas, museus, ruínas e uma biblioteca num edifício magnífico de ferro forjado (desenhado por um discípulo de Eiffel, construído em Paris e mais tarde desmontado e levado em peças para Fort-de-France), igrejas únicas, aldeias piscatórias e plantações, festejos cheios de tradição e boa comida crioula. Há de tudo nesta ilha que é suficientemente pequena para se conhecer num par de semanas, e suficientemente grande e variada para nunca nos aborrecermos.

Martinica - Saint-Pierre, praia.jpg

Martinica - Le Diamant, Maison du Bagnard.jpg

 

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Seg | 06.01.20

Divagações sobre um ano de viagens (e desafios, inspirações e projectos)

 

Início de mais um ano. Época de balanços, de repensar perspectivas e definir novos projectos. De 2019 posso dizer que, no mínimo, foi um ano ao mesmo tempo desafiante e inspirador. Um ano de decisões, de novas experiências e de crescimento pessoal. As mudanças vão acontecendo lentamente, e mesmo quando trazem algumas desvantagens acabam por se revelar mais positivas do que negativas – porque são mudanças na direcção certa, porque me obrigam a reavaliar o sentido que quero dar à minha vida, e porque lhe dão um sabor de novidade.

Plantação de chá Gorreana, São Miguel.JPG

 

Constatação primeira: a minha apetência por viajar não diminuiu.

Um dos meus escritores de viagens preferidos é o polémico Paul Theroux. Embora não aprecie a forma demasiado severa e crítica como por vezes olha para o mundo e para os outros (acho-o um bocado rabugento, por vezes até embirrante), adoro a maneira como escreve sobre as suas viagens, a sua escrita fluida em que tudo se encadeia na perfeição, a facilidade com que nos transmite as suas ideias mesmo quando não o faz de forma directa – e na verdade até concordo com muitos dos seus pontos de vista. No prefácio do seu livro “The Tao of Travel: Enlightenments from Lives on the Road” (em Portugal deram-lhe o título “A Arte da Viagem”, que eu acho pouco feliz e enganador, primeiro porque se confunde com o livro de Alain de Botton que tem o mesmo título, e segundo porque é uma tradução redutora do termo “tao”) Theroux escreveu:

O desejo de viajar parece-me caracteristicamente humano: o desejo de estar em movimento, satisfazer a curiosidade ou sossegar o medo, mudar as circunstâncias da vida, ser um estranho, fazer um amigo, desfrutar de uma paisagem exótica, arriscar o desconhecido.”

E isto é para mim completamente verdade. Além das várias razões pelas quais gosto de viajar, existe aquele sentimento de que há sempre algo diferente para ver ou fazer, de liberdade para escolher como passar as próximas horas ou dias, de excitação por não saber o que vai acontecer a seguir. Em viagem todos os meus sentidos estão mais despertos e sinto-me mais viva.

Apesar de por vezes estar cansada quando regresso – são sempre muitos quilómetros palmilhados a pé, e ocasionalmente noites com poucas horas de sono – a minha vontade de viajar nunca esmorece.

Fervenza de Bermui.JPG

 

Constatação segunda: todas as viagens escondem boas surpresas.

O filósofo Martin Buber disse que “todas as viagens têm destinos secretos que o viajante desconhece”, e este é um dos maiores prazeres que tenho quando viajo: há sempre alguma surpresa à minha espera. E em 2019 houve muitas, em todos os lugares que visitei.

Comecei o ano em Bruxelas, uma viagem decidida em cima da hora. À primeira vista, a cidade é cinzenta e meio desenxabida, sem aquela monumentalidade que entra pelos olhos adentro que possuem outras cidades europeias. Mas o que lhe falta em grandiosidade é compensado pela diversidade da sua arquitectura – sobretudo residencial – que só aparentemente é monótona. Para minha surpresa e meu enorme contentamento, a cidade está pejadinha de edifícios Arte Nova e Art Déco entre outros, mais abundantes e alguns igualmente felizes, no estilo modernista bruxelense.

Impressões de Bruxelas

 

Ainda em Janeiro, estive na mina de Queiriga e nas Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, com passagem no regresso por Linhares e pela Serra da Estrela. Uma das surpresas desta viagem foi Fonte Arcada, de que nunca tinha ouvido falar até começar a planear este fim-de-semana. Não sei se foi a forma como o sol do final da tarde se reflectia na pedra das casas ou a vista que nos oferecem os seus miradouros, mas gostei especialmente desta aldeia. Continua para mim um mistério esta atracção imediata que sinto por certos lugares. É um pouco como acontece em relação a certas pessoas, mas enquanto com as pessoas isso resulta da interacção e também muito da reciprocidade, os lugares estão simplesmente ali, maioritariamente estáticos – a atracção é unidireccional, e por isso basicamente mais intuitiva.

Roteiro de fim-de-semana_ das Terras do Demo à Serra da Estrela

 

Em Fevereiro passei na Galiza um fim-de-semana fora de série do princípio ao fim, desde as Fragas do Eume ao Mosteiro de Monfero, passando pelas cascatas de Naraío e Bermui, tudo ultrapassou as minhas expectativas. As Fragas do Eume são um Parque Natural enorme e praticamente desabitado com uma das florestas ribeirinhas melhor conservadas e mais virgens da Europa, que inclui uma variedade de árvores, fetos e líquenes, e onde passeamos entre inúmeros matizes de verde, aliados aos castanhos das folhas que invadem o chão, ao lado de um rio caudaloso e de ribeiros que escorrem em cascata pelas encostas, em cujas margens encontramos moinhos de água em ruínas e mosteiros românicos. Sinceramente, não estava preparada para tanta beleza e se ainda não conhecem, nem sabem o que estão a perder.

Na Galiza.png

 

No final de Março florescem as cerejeiras no vale do Jerte, perto de Plasencia, e a paisagem fica inundada de branco. O vale e as suas aldeias têm uma beleza muito própria, mas as maiores surpresas que tive vieram em forma de água, como tantas vezes me acontece: as “marmitas” escavadas pelos dois ribeiros ribeiros que se unem em Los Pilones, na Garganta de los Infiernos, e a Cascata del Caozo na Garganta Bonal. A outra boa surpresa deste fim-de-semana ficou por conta da localidade de Hervás e da sua formidável e bem preservada judiaria medieval, com ruelas estreitas e imbricadas e casas de traça e construção ainda tradicional.

O vale das cerejeiras em flor

 

Este ano vivi uma espécie de história de amor com a cidade de Aveiro, que visitei três vezes. A primeira foi em Abril, quando fui percorrer os passadiços da ria. De caminho aproveitei para matar saudades de outros lugares de que gosto especialmente, como a praia da Tocha, que tem vindo a perder alguns dos seus palheiros mais genuínos mas não o encanto, e o Farol da Barra, o maior e mais majestático de todos os faróis portugueses.

Farol da Barra

 

No final de Abril o destino foi o sudeste de França, numa viagem que me levou de Toulouse a Arles, parando em vários pontos ao longo do Canal du Midi, na Camarga e na Provença. São cinco os posts que escrevi sobre esta viagem, um por cada dia (o roteiro completo, com links para os vários posts, está aqui ), em que as maiores surpresas foram o Seuil de Naurouze (no Canal du Midi) um local tipo “no meio de nenhures” absolutamente maravilhoso pela tranquilidade e carácter bucólico, e Fontaine-de-Vaucluse (Provença), onde na nascente subterrânea do rio Sorgue as águas parecem surgir do nada, saindo aos borbotões por baixo altíssima escarpa rochosa que rodeia o vale.

Um cheirinho a sul de França - roteiro.jpg

 

Em Julho viajei até à Rússia. São Petersburgo surpreende pelos inúmeros canais, pela harmonia da arquitectura e pela riqueza que ostenta, Moscovo pela enormidade e megalomania das suas construções. Sobre estas duas cidades há muito para dizer e em breve falarei delas com mais pormenor, mas entretanto já aqui deixei algumas impressões e conselhos sobre esta viagem.

Alguns conselhos para quem vai viajar para a Rússia.jpg

 

Voltei a Aveiro no fim de Julho para assistir ao Festival dos Canais, um evento cultural e artístico anual cheio de animação e aproveitei para ir finalmente conhecer a Barrinha de Esmoriz e o seu passadiço, lugar tranquilo e excelente para observar uma grande variedade de pássaros e aves marinhas.

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Outra boa surpresa deste ano foi Allariz, a vila galega onde estive em Setembro a pretexto do seu Festival dos Jardins, mas de que gostei sobretudo pela animação e oferta cultural. No regresso parei em Ourense, onde é imprescindível visitar a Catedral e o seu fabuloso Pórtico do Paraíso, um conjunto de esculturas do século XIII que me encantou pela sua policromia.

Allariz, jardins e muito mais.jpg

 

Outubro foi o mês em que quase não estive em casa. O primeiro destino foi Ponte de Lima, que também tem durante o Verão um festival internacional de jardins e tem, aberto todo o ano, o tão ou mais bonito Jardim do Arnado, que eu ainda não conhecia e estava maravilhosamente vestido com as flamejantes cores do Outono – para mim a estação mais bonita do ano para viajar no norte do nosso país.

Parque do Arnado, Ponte de Lina

 

Depois revisitei São Miguel, numa estadia de quase uma semana. Um dos dias mais preenchidos e gratificantes que ali passei deu o mote para um post, e foi também o dia em que tive a felicidade de conhecer essa maravilha da natureza que dá pelo nome de Lagoa do Congro, um enorme espelho de água parada rodeado de floresta exuberante, um lugar incrível cuja beleza e ambiente têm de ser sentidos, pois não é possível descrevê-los com justiça.

Um dia errante em São Miguel.jpg

 

Pouco mais de 24 horas depois do regresso já estava a caminho de Budapeste. Foram cinco dias para descobrir esta cidade de aparência clássica mas com uma alma muito moderna, apesar das cicatrizes deixadas por guerras e regimes ditatoriais. Surpreenderam-me sobretudo os bons museus e os parques, lindíssimos nesta altura do ano (cortesia do Outono), e muito especialmente o Parque da Cidade (Városliget) e o seu castelo de Vajdahunyad, uma construção híbrida inspirada em várias outras edificações mas cujo resultado final é atraente e está bem integrado no parque.

Városliget, Budapeste

 

Novembro trouxe-me a oportunidade de conhecer a bela aldeia portuguesa que dá pelo nome de Juízo, num fim-de-semana memorável passado em companhia de outros bloggers associados da ABVP.

Juízo, uma aldeia que tem histórias.jpg

 

A última viagem de 2019 foi novamente a Aveiro, desta vez para assistir às inspiradoras palestras dos convidados do NG Exodus Aveiro Fest. O primeiro domingo de Dezembro oscilou entre a chuva e o sol, mas ainda assim tive a sorte de poder passar algum tempo no delicioso Parque do Infante Dom Pedro, o meu local preferido na cidade – e foi precisamente este o tema do meu último post de 2019.

O meu local favorito em Aveiro.jpg

 

É certo que nem sempre as surpresas são assim tão boas; por vezes alguns lugares ficam aquém do que esperava, não me cativam, não sinto aquele “clique” de satisfação quando os visito. Mas são felizmente casos raros, as surpresas agradáveis ultrapassam de longe as menos positivas.

 

Constatação terceira: viajar sozinha tem um lado confortável.

Por incrível que pareça, até este ano nunca tinha viajado realmente sozinha. Já tinha acontecido planear uma ou outra viagem só para mim, mas depois acabou sempre por aparecer alguém a querer fazer-me companhia, ou alterei os meus planos para acompanhar outra pessoa a um qualquer outro destino. Este ano foi diferente, algumas destas viagens foram a solo e se por um lado senti muitas vezes a falta de alguém com quem partilhar uma refeição, trocar ideias ou que me ajudasse com o trajecto enquanto conduzo, por outro senti uma liberdade enorme por poder decidir horários e percursos de acordo com o meu próprio ritmo. Sozinha viajo mais devagar e descanso mais, sobretudo quando tenho de fazer muitos quilómetros de carro, porque sei que vou ter de estar mais concentrada no percurso e precisar de mais energia para chegar ao meu destino sem percalços.

Viagens são uma óptima maneira de testar amizades e amores. Viajar com companhia tanto pode duplicar a satisfação que se tira de uma viagem como transformar essa experiência numa maçada ou, pior ainda, num quase pesadelo. Tenho tido a sorte de viajar com pessoas com quem me entendo muito bem, e as viagens são ocasiões excelentes para aprofundar os laços que nos unem, mas também podem por vezes revelar o nosso lado mais negro, sobretudo quando o cansaço nos faz perder a paciência ou surgem percalços difíceis de resolver.

 

Constatação quarta: a melhor maneira de realizar um sonho é transformá-lo num plano.

A minha wishlist de lugares que quero conhecer não tem fim. Há aqueles que fazem parte dela desde que me lembro, e há os que vou acrescentando à medida que descubro que existem ou me despertam o interesse. Ao longo dos anos tenho vindo a ampliar o meu leque de “apetites” de viagem. Quando comecei a viajar não tinha qualquer interesse por aldeias ou ruínas, por exemplo, achava que Espanha era maioritariamente árida e monótona e as minhas maiores prioridades eram destinos de praia. Hoje em dia procuro sobretudo locais pouco conhecidos e o contacto com a natureza, embora continue a gostar das cidades e da sua oferta cultural.

Pouco a pouco tenho vindo a concretizar alguns desses sonhos mais antigos. São Petersburgo e a Camarga são os dois que visitei este ano, no ano passado foi Menorca, em anos anteriores a Martinica, o Egipto, a Costa Rica e a Croácia – isto só para falar de alguns. Em tempos achei que talvez nunca passassem de sonhos, pelos motivos de sempre: falta de dinheiro, falta de tempo, cansaço… Depois consegui realizar um, a seguir outro; um belo dia percebi que podia começar a planear eu própria as minhas viagens e foi como se tivesse aberto a caverna de Ali Babá. Continuo a ter os mesmos constrangimentos de tempo, dinheiro ou saúde, mas agora já não fico simplesmente à espera de que estejam milagrosamente reunidas as condições ideais para ir a qualquer lugar. Agora tenho objectivos, não só sonhos, e planeio como os atingir. Foi quando mudei o ângulo da minha perspectiva que comecei a perceber que mesmo que demore algum tempo, tudo é possível – a condição sine qua non é realmente querer.

Rússia - São Petersburgo - Matriosca.JPG

 

Constatação quinta: quero continuar a escrever.

Viver nunca foi fácil (por vezes nem sequer sobreviver) e se hoje temos mais comodidades, continuamos a ter de lutar bastante por isso. Falo de uma maneira geral, obviamente. Olho à minha volta e para o outro lado do mundo, percebo que há tanta coisa que está tão mal e eu pouco posso fazer para o alterar… e além disso, como todos nós, ainda convivo no meu dia-a-dia com casos de injustiça, de infelicidade extrema, de prepotência, de egoísmo exacerbado, de instabilidade emocional, enfim, situações que tornam os dias mais cinzentos e roubam a alegria. Vivemos num mundo tão bonito e parece que estamos apostados em estragar tudo.

Ibn Battuta, um viajante muçulmano do século XIV que nasceu em Tânger, disse que “viajar deixa-te sem palavras, e depois torna-te num contador de histórias”. Viajar, conhecer outras pessoas e culturas, ver como o nosso planeta é tão formidável apesar de tanto o maltratarmos ajuda-me a ter alguma esperança no futuro e a manter a minha sanidade mental. Sei que não sou a única com este sentimento. Escrever sobre as minhas viagens é não só uma forma de as reviver, mas sobretudo parte da vontade que tenho em inspirar e ajudar quem sente o mesmo que eu. Nem sempre consigo que as minhas palavras façam justiça à realidade, o léxico disponível torna-se frequentemente incapaz de transmitir todas as gradações da emoção que certos lugares despertam em mim. Mas tento, e vou continuar a tentar.

Para 2020 tenho um outro projecto de escrita, que também envolve viagens mas se afasta um pouco do espírito de um blogue. Vou conseguir levá-lo para a frente? Estou confiante que sim; contar-vos-ei novidades se e quando as houver.

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Constatação sexta: não tenho a pretensão de conhecer o mundo inteiro.

Não sou uma viajante profissional nem tampouco uma aventureira. Não viajo habitualmente de mochila às costas, mas também não fico em hotéis de luxo. Sou uma pessoa normal, com um emprego normal e o número de dias de férias normal, que faz viagens normais ao alcance de qualquer um. Talvez daqui por uns anos possa passar mais tempo a viajar, para já tento rentabilizar ao máximo o tempo livre de que disponho. Não quero conhecer o planeta de uma ponta à outra. Há destinos que não me aguçam a curiosidade, pelo menos nesta altura da minha vida, e aqueles para onde quero viajar chegam e sobram para me manter bem ocupada. Não viajo para contabilizar países ou cidades visitadas, muito menos para bater algum record. Na verdade, até nem viajo muito. Viajo para descobrir novos lugares para me apaixonar – por eles, pelas pessoas, pela vida, e por mim.

 

Não aceito quaisquer fórmulas absolutas para viver. Nenhum código pré-concebido pode prever tudo o que pode acontecer na vida de uma pessoa. À medida que vivemos, crescemos e as nossas crenças mudam. Têm de mudar. Por isso creio que devemos viver com esta constante descoberta. Devemos estar abertos a esta aventura com uma consciência alargada da vida. Devemos ancorar toda a nossa existência na nossa vontade de explorar e experimentar.”

― Martin Buber                    

 

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