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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Qua | 27.02.19

Na Galiza, entre mosteiros e fervenzas

 

Há quem defenda que português e galego são uma e a mesma língua. Na verdade há muitas palavras galegas iguais às nossas, e diferentes das mesmas palavras em espanhol. Querem alguns exemplos? Mosteiro, castelo, ermida, setembro, comunidade, priorado… e até mesmo galego (que em castelhano se escreve gallego, os “ll” pronunciando-se como o nosso “lh”). E depois há outras que são completamente diferentes – mas que será boa ideia conhecermos, pois em viagem pela Galiza esse desconhecimento pode fazer-nos passar ao lado e ignorar lugares absolutamente fascinantes. Prestem sobretudo muita atenção quando lerem fragas, fervenza ou pozo. Porquê? Já vão perceber…

 

A Galiza, que é uma comunidade autónoma espanhola com uma identidade linguística e cultural própria, tem uma área de praticamente 30 mil km2 – quase um terço da dimensão de Portugal (mais ou menos o tamanho de todo o Alentejo). Se olharmos para um mapa físico de Espanha, facilmente percebemos que a cor dominante na região é o verde, em franco contraste com a maior parte do resto do país. Tanto verde só pode ser bom sinal, e a verdade é que a Galiza tem muito a descobrir para além dos sítios do costume que quase todos já visitámos, como Santiago de Compostela, Vigo, Corunha ou Tui. Foi por isso que decidi aproveitar um fim-de-semana para ir conhecer um desses bocadinhos verdes que já andava a despertar a minha curiosidade há algum tempo, e de que só ouvia dizer maravilhas: as Fragas do Eume.

 

Fragas do Eume (14)

 

Em galego, fraga significa floresta com árvores de diferentes espécies, e neste caso específico estamos a falar de um Parque Natural com mais de 9000 hectares, praticamente desabitado, com uma das florestas ribeirinhas melhor conservadas e mais virgens da Europa, sobretudo ocupada por carvalhos e castanheiros mas também por freixos, amieiros e teixos, bétulas, medronheiros, azevinhos, loureiros e até mesmo sobreiros, mais de 20 espécies de fetos e (imagine-se!) 200 espécies de líquenes – o que faz com que mesmo no Inverno as fragas ofereçam aos nossos olhos uma variedade infindável de matizes de verde, aliados aos castanhos das folhas que invadem o chão. Se a isto somarmos um rio – o Eume – que aqui, já perto do mar, corre rápido e caudaloso, alimentado por vários outros rios e regos que escorrem pelas encostas e se despencam em pozos e fervenzas, em cujas margens encontramos moinhos de água em ruínas e mosteiros românicos… bom, já estão a imaginar, não estão?

 

Eu também imaginava que fosse bonito, mas apesar disso não estava preparada para tanta beleza.

 

Existem quatro pontos de entrada no Parque mas o principal, por ser o mais vistoso, é aquele a que se acede passando por Pontedeume, uma vila costeira das Rías Altas situada entre Corunha e Ferrol. Antes de Pontedeume fizemos um pequeno desvio para conhecer a Ermida de San Miguel de Breamo, uma igreja românica construída em 1187 que é cenário de duas concorridas romarias anuais. É o que resta do antigo mosteiro com o mesmo nome, que referências documentais indicam já existia no séc. X. Isolada num sítio tranquilo, a 300 metros de altura, rodeada de árvores, cada uma das faces da ermida é diferente das outras, num jogo de volumes irregulares que quebram a severidade da pedra cinzenta. Tem ao pé um arejado parque de merendas, com ar de ser deliciosamente fresco no Verão.

San Miguel de Breamo (1)

 

San Miguel de Breamo (2)

San Miguel de Breamo (3)

 

San Miguel de Breamo (4)

 

San Miguel de Breamo (5)

 

De Pontedeume até ao Centro de Interpretação das Fragas do Eume são apenas 6 quilómetros, mas é o suficiente para a paisagem mudar radicalmente. No Verão e na Semana Santa este acesso ao Parque fica vedado aos carros, sendo disponibilizado um autocarro que faz o transporte entre o Centro e a ponte de Caaveiro, 7 km e meio mais à frente. Na época baixa não há qualquer restrição e os veículos circulam à vontade, mas a verdade é que a melhor maneira de desfrutar do passeio é a pé, por isso deixámos o carro junto ao abrigo de pescadores de Cal Grande e seguimos pela estrada que acompanha o rio.

Fragas do Eume (1)

 

Fragas do Eume (2)

Fragas do Eume (3)

 

Apesar da distância, o percurso faz-se bem, pois praticamente não tem inclinações e o piso é asfaltado. A cada curva do caminho vão-se sucedendo os motivos de interesse: uma ponte pênsil aqui, um rápido no rio acolá, letreiros com os nomes arrevesados dos locais de pesca, mais adiante uma casa onde um cão sinaliza a nossa passagem a ladrar. E árvores, muitas árvores, altíssimas algumas delas, outras meio caídas ou até mesmo mortas dentro do rio, árvores com os troncos cobertos de líquenes, ou de musgo, ou de hera. De vez em quando há uma ribeira que se precipita em pequenas cascatas pela encosta abaixo, passando sob a estrada para ir engrossar o Eume. A maioria das árvores são carvalhos e castanheiros e nesta altura do ano estão completamente despidas, o que nos permite nunca deixar de ver o rio durante toda a caminhada. Estamos na floresta, mas rodeados de água – e esta é mais uma das vantagens de viajar no Inverno.

Fragas do Eume (4-1)

 

Fragas do Eume (5)

 

Fragas do Eume (8)

 

Fragas do Eume (9)

 

Fragas do Eume (11)

 

Fragas do Eume (13)

 

Fragas do Eume (15)

 

Fragas do Eume (16)

 

Fragas do Eume (17)

Infelizmente, esta região fabulosa também foi há alguns anos (em 2012) pasto de um enorme incêndio – obviamente provocado por mãos criminosas – que durou vários dias e queimou 750 hectares do Parque, obrigando à evacuação de casas e à intervenção do exército. Uma verdadeira catástrofe que deixou marcas e, tal como sucede no nosso país, os proprietários e habitantes locais queixam-se até agora de que nada continua a ser feito para prevenir estes flagelos.

Fragas do Eume (10)

 

Fragas do Eume (6)

 

No final da estrada, passando a ponte, uma subida de uns oito minutos leva-nos ao Mosteiro de San Xoán de Caaveiro. Diz a tradição que foi fundado por São Rosendo na primeira metade do séc. X para agregar alguns anacoretas que por ali viviam. Mas comprovado apenas está que foi primeiro um mosteiro beneditino e mais tarde, já no séc. XII, uma importante colegiada da Ordem de Santo Agostinho. Abandonado no séc. XVIII, só em 1896 D. Pio García Espinoza, proprietário dos terrenos onde se encontrava o mosteiro, iniciou a sua reconstrução parcial a partir da estrutura arruinada que ainda se mantinha de pé, reconstrução essa que foi mais tarde parada. Convertido em monumento histórico-artístico em 1975, foi finalmente reabilitado (a reabilitação até mereceu um prémio europeu) e abriu ao público em 2006. O acesso é livre e na época alta há visitas guiadas todos os dias, em vários horários. Logo à entrada do conjunto do mosteiro, a antiga Casa do Forno foi adaptada para abrigar os sanitários públicos e, por cima, uma Taverna simpática e acolhedora (mas previnam-se atempadamente com dinheiro, que por ali rede de comunicações é coisa que não há…).

 

Fragas do Eume (18-1)Mosteiro de Caaveiro (2)Mosteiro de Caaveiro (4)Mosteiro de Caaveiro (5)Mosteiro de Caaveiro (9)

Os vários edifícios de tamanho modesto que compõem o Mosteiro de Caaveiro são simples na sua traça românica, em pedra granítica cinzenta que os séculos marcaram com diversas tonalidades e já misturada com xisto e outros materiais, fruto das sucessivas reconstruções. Das duas igrejas iniciais hoje só resta uma, a de Santa Isabel, que servia para os enterramentos. O elemento mais chamativo do conjunto é a abside semicircular, bem visível quando subimos para entrar pela Portaria Alta. O despojamento do interior dos edifícios está parcialmente aproveitado com exposições minimalistas sobre o mosteiro e algumas personalidades que a ele estiveram ligadas.

Mosteiro de Caaveiro (6)

Mosteiro de Caaveiro (3)

 

Mosteiro de Caaveiro (8)

 

Mosteiro de Caaveiro (7)

 

Mosteiro de Caaveiro (10)

Apesar da simplicidade, o espaço reflecte um encanto especial. Equilibrado numa escarpa rochosa, como que suspenso sobre o rio, frágil na sua quase imaterialidade e na sua exposição aos elementos, é um ninho de águia que nos oferece vistas fabulosas sobre o vale do Eume, tão bonito visto de cima quanto lá em baixo.

Mosteiro de Caaveiro (12)

 

Mosteiro de Caaveiro (11)

 

Uma descida empedrada leva-nos depois até ao rio Sesín, um afluente do Eume, transposto por uma antiquíssima ponte em pedra e com as ruínas de um moinho de água mesmo ao lado. Ali o rio desdobra-se em vários cursos de água, cada um escorrendo entre pedras diferentes, ou saltando sobre elas, e nessas pedras nascem árvores e fetos, num cenário quase surreal.

Rio Sesín (2)

 

Rio Sesín (1)

 

No regresso ao carro decidimos aventurar-nos na Senda dos Encomendeiros, um trilho na margem do Eume oposta à da estrada, que nos oferece uma perspectiva mais “selvagem” do Parque. Nesta altura do ano, com o piso muito húmido, barrento e por vezes escorregadio, e o rio a invadir o caminho nalguns sítios, obrigando a desvios pouco lineares, somando-lhe dois troços mais difíceis com subidas e descidas íngremes sobre pedras (um dos locais só é ultrapassável com o auxílio de umas cordas ali colocadas para o efeito), e com a pouca luz do fim de tarde que mal penetrava no arvoredo, posso dizer-vos que percorrer os 2,5 km até à ponte suspensa de Fornelos foi uma aventura e pêras. Aqui decidimos cruzar a ponte e voltar à estrada, embora o trilho só termine na ponte de Cal Grande, pois a noite já se aproximava e não se conseguia ver praticamente nada. Apesar de estar considerado como de dificuldade moderada, só o aconselho a quem estiver em boa forma física e for de espírito persistente – e, mesmo assim, apenas numa altura do ano em que esteja mais seco.

Fragas do Eume (22)

 

Fragas do Eume (21)

 

Fragas do Eume (19)

 

Fragas do Eume (20)

 

As “aventuras” do segundo dia começaram mais a norte, em Naraío. Não sendo o motivo principal da visita, o castelo foi a primeira paragem. Abandonado no séc. XVII, muitas das suas pedras foram utilizadas como material de construção para casas erguidas nos arredores, e até mesmo para a represa e a central hidro-eléctrica construídas junto à sua base, no rio Castro, por isso o que chegou aos nossos dias é pouco mais do que uma ruína deste exemplar de arquitectura militar em estilo gótico do séc. XIV – mas cujas origens remontam muito provavelmente ao séc. II, pelo menos. Do antigo Castelo de Naraío hoje permanecem de pé a Porta de Armas e mais algumas portas, a Torre de Menagem, que é de planta quadrada, restos de três muralhas perimetrais, que em tempos fizeram deste castelo uma fortaleza inconquistável, e mais alguns vestígios arqueológicos.

Castelo de Naraío (1)

 

Castelo de Naraío (2)

 

Castelo de Naraío (3)

 

Castelo de Naraío (4)

 

Castelo de Naraío (5)

 

O que faz deste castelo um dos melhores exemplos da arquitectura defensiva medieval não é portanto o seu bom estado de conservação, nem qualquer originalidade na sua concepção inicial, mas antes a sua situação estratégica e singularidade de implantação, a uns respeitáveis 300 ou mais metros de altura sobre um penhasco rochoso, que nalguns sítios faz mesmo parte dos seus muros. E também a sua adaptação ao meio e à beleza do lugar em que foi erigido, a bonita paisagem natural da zona protegida dos rios Xuvia e Castro.

Castelo de Naraío (6)

 

Castelo de Naraío (7)

 

Castelo de Naraío (9)

 

Mas como vos disse, o castelo não foi a razão maior que nos levou até àquele lugar. Descendo a encosta do lado direito, por um trilho entre o castelo e uma das casas que estão construídas mesmo ao pé, aproximamo-nos do (bastante modesto) edifício branco da central hidro-eléctrica, onde o Castro corre e salta sobre pedras, e passa ao lado de um também já abandonado moinho de água. Antes de chegarmos à estrada que termina junto à central, um atalho leva-nos para a esquerda por entre as árvores, e foi por aí que seguimos. O barulho da água já se ouvia, mas mesmo assim a surpresa foi grande quando finalmente deparámos com a fervenza de Naraío.

 

Fervenza de Naraío (2)

Fervenza de Naraío (1)Fervenza de Naraío (3)

 

Fervenza, como já devem ter percebido, significa “cascata” em galego. E cascatas é coisa que não falta na Galiza, há-as por todos os lados e de todos os feitios e tamanhos. Deu-se a coincidência de na noite anterior ter chovido este mundo e o outro, a noite toda sem parar, e isso teve consequências – fantásticas, neste caso. A água jorrava em catadupas, milhares de litros de água precipitando-se do alto de seis metros, altura modesta mas ainda assim suficiente para causar um efeito impressionante. Uma jovem que andava a passear os cães e nos acompanhou no trilho até à fervenza disse-nos que no Verão é habitual usarem o lugar como piscina, e mostrou-nos fotos. A diferença é absolutamente inacreditável! Ela própria estava pasmada, vive ali perto e vai muitas vezes à cascata, mas nunca a tinha visto com tanta água. Uma maravilha!

Fervenza de Naraío (4-1)

 

Fervenza de Naraío (7)

 

Fervenza de Naraío (6)

 

Fervenza de Naraío (5)

 

A caminho do destino seguinte, fizemos uma breve paragem em As Pontes de García Rodríguez, habitualmente apenas indicada como As Pontes. Ainda de longe adivinham-se as silhuetas da gigantesca central térmica, operada por uma conhecida empresa espanhola, mesmo à entrada da vila. É a maior do país, e entre os vários e enormes edifícios destaca-se a chaminé, que tem 356 metros de altura e é a construção mais alta de Espanha e a chaminé com mais volume do mundo. Como se este aparato todo não fosse já suficientemente surreal, aninha-se ali mesmo ao lado, qual David junto a Golias e tão escondido que podemos passar na estrada sem dar por ele, o conjunto arquitectónico de Vilavella: três casas abandonadas e semi-recuperadas, parcialmente invadidas pela vegetação, um pequeno espigueiro, um cruzeiro e uma igreja.

Vilavella (5)

 

Vilavella (7)

 

Vilavella (11)

 

A história desta espécie de enclave discordante prende-se com a de As Pontes e do lago que lhe está adjacente. Durante várias décadas, no espaço hoje ocupado pelo lago existiu uma exploração mineira de lignito – a maior a céu aberto do território espanhol – que a partir dos anos 70 do século passado passou a ser operada, em parceria com o Estado, pela empresa que já explorava a central térmica. A exploração desta mina provocou o desaparecimento de muitas aldeias, a maioria delas pertencendo à paróquia de Vilavella, e com o encerramento da exploração em 2007 foi decidido que a mina e a escombreira seriam inundadas e transformadas num lago artificial com duas ilhas. O processo de inundação ocorreu de 2008 a 2012 e dele resultou um lago com cerca de 8 quilómetros quadrados, agora parcialmente utilizado como praia fluvial.

As Pontes - lago (1)

 

As Pontes - lago (2)

 

Para memória futura, junto à depuradora foram reabilitadas algumas construções rústicas, supostamente destinadas a um futuro núcleo museológico das peças arqueológicas da mina. No entanto, nesta altura o único edifício ainda visivelmente utilizado é a igreja, com origens no séc. XIII e actualmente dedicada a Santa Maria, que tem anexado um pequeno e curioso cemitério quase essencialmente constituído por gavetões encostados aos muros, na vertical, e umas poucas campas assinaladas no solo.

Vilavella (10)

 

Vilavella (8)

 

Vilavella (6)

 

Vilavella (4)

 

Vilavella (3)

 

Vilavella (2)

 

Vilavella (1)

 

A seguir, rumámos a sul em busca de mais uma cascata. A fervenza de As Panceiras, também conhecida como fervenza de Bermui, está bastante escondida e o acesso não está indicado, mas curiosamente não foi muito difícil dar com ela – bastou guiarmo-nos pelo Google Maps, estacionar no local que nos pareceu ser perto, e depois seguir o instinto e o som da água, que nos levou por um pequeno trilho entre áreas vedadas por arame farpado. O Rego das Foxas é um pequeno ribeiro que corre plano num lindíssimo bosque de carvalhos, até ser obrigado a vencer um desnível de 100 metros entre pedra xistosa para chegar ao vale do Eume – e é aqui que se formam várias cascatas em sequência, uma delas com quase 10 metros de altura. Logo no início do local onde descemos há um moinho abandonado, depois outro mais à frente, onde o desnível começa, e depois outros dois junto à cascata. Uma vez mais, o facto de ter chovido muito nessa noite proporcionou-nos um belíssimo espectáculo, com a água a cair em borbotões de espuma numa cascata superior, precipitando-se depois numa outra cascata da qual não se consegue ver o fim. O terreno aqui não é fácil e a grande inclinação torna impossível descer mais – mesmo para chegar à parte mais baixa tivemos de ter cuidado para não escorregar, e não houve como não molhar os ténis, já que a água escorria por todos os lados. Mas valeu tanto a pena! Ali sente-se realmente a força e a perfeição da natureza em estado selvagem, e não há como não ficar em êxtase com tanta beleza que nos rodeia.

Fervenza de Bermui (1)Fervenza de Bermui (2)Fervenza de Bermui (3)Fervenza de Bermui (4)Fervenza de Bermui (5)Fervenza de Bermui (6)Fervenza de Bermui (12)

Fervenza de Bermui (8)

Fervenza de Bermui (7)

 

Com o sol já a descer, a última paragem do dia foi para ver ao vivo mais um mosteiro, o de Santa María de Monfero. Afastado das rotas mais turísticas da Galiza, este ilustre desconhecido merece todos os desvios propositados para o visitar – mesmo que seja só exteriormente pois, por qualquer razão, estava fechado quando lá chegámos (apesar de ser suposto estar aberto ao público nos fins-de-semana, durante a época baixa). É, para lá de qualquer dúvida, um dos monumentos católicos mais originais que já vi até hoje.

Mosteiro de Monfero (1)

 

Mosteiro de Monfero (3)

 

No séc. X era uma ermida dedicada a São Marcos, reconstruída em 1134 e ampliada em estilo românico para se constituir em mosteiro beneditino e mais tarde cisterciense. Com uma dimensão imponente, atingiu grande importância na Galiza e possuiu uma das melhores bibliotecas da região. Uma catástrofe natural destruiu parte do conjunto no séc. XVII, incluindo uma das torres (atingida por um raio), após o que a igreja foi reconstruída com uma originalíssima fachada barroca, que inclui colunas com capitéis coríntios e um padrão em xadrez desenhado com granito e xisto. O mosteiro foi oficialmente extinto no séc. XIX e a maior parte dos seus edifícios está hoje em ruínas, apesar de uma intervenção entre 2009 e 2011 que se destinava a apoiar a reutilização das instalações como hotel e spa – projecto entretanto abandonado. Apenas a igreja continua a funcionar esporadicamente, pois o local é muito procurado durante o Verão para festas e romarias.

Mosteiro de Monfero (2)

 

Mosteiro de Monfero (4)

 

Mosteiro de Monfero (5)

 

Mosteiro de Monfero (8)

 

Mosteiro de Monfero (10)

 

Mosteiro de Monfero (9)

Mosteiro de Monfero (7)

 

Mosteiro de Monfero (11)

 

Mosteiro de Monfero (12)

 

Mosteiro de Monfero (13)

 

Esta minha breve (mas muito preenchida!) incursão em terras galegas deixou-me positivamente encantada, mas ao mesmo tempo com água na boca: encantada porque superou as minhas expectativas e gostei muito mais do que estava à espera; e a ansiar por mais, como sempre me acontece quando não tenho vontade de me vir embora de algum lugar.

 

Mapa do roteiro

Mapa Galiza Eume com fotos

 

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Na Galiza

 

 

Ter | 12.02.19

Roteiro de fim-de-semana: das Terras do Demo à Serra da Estrela

 

Viajar no Inverno tem os seus encantos, mesmo em Portugal, e mesmo – ou talvez devesse dizer sobretudo… – quando os termómetros pouco sobem dos zero graus, e por vezes até descem abaixo do ponto de congelamento. Nesta altura do ano não há grandes dificuldades em arranjar alojamento onde quer que seja, nem mesas livres nos restaurantes, nem há enchentes de pessoas a visitarem os mesmos lugares que nós. Viajar pelo nosso país no Inverno (ainda) é um sossego.

 

Aproveitando o tempo já muito frio mas ainda com sol, num destes últimos fins-de-semana rumei a norte para ir conhecer mais um pedacinho do interior de Portugal e revisitar a sempre apetecível Serra da Estrela.

 

A primeira paragem foi no local que era um dos principais motivos desta viagem: as Minas de Queiriga. Situadas uns quilómetros acima de Viseu, junto à N329 entre Sátão e Vila Nova de Paiva, não é difícil dar com elas (existem setas a indicar o caminho) e é possível ir de carro até mesmo junto da entrada.

Minas de Queiriga (1)

Com o nome de Minas dos Lagares, foram intensivamente exploradas na primeira metade do séc. XX, e delas extraía-se cassiterite e volframite. Actualmente, apesar de existir (será que ainda existe?...) um projecto para a exploração turística do local (há até uma espécie de cabina já muito destruída, que seria presumivelmente uma bilheteira), as minas estão completamente ao abandono. O local é tranquilíssimo e absolutamente nada claustrofóbico, pois há várias aberturas naquilo que podemos considerar a parede/tecto da mina, por onde entram o ar e o sol. E o ideal é mesmo visitá-la em dia de sol e entre o meio-dia e as três da tarde, quando os raios penetram pelas ditas aberturas e iluminam o lençol de água que existe no fundo, revelando a sua cor azul-turquesa, vibrante e absolutamente encantadora. Quando o sol está mais baixo não se consegue ver a água, que está num nível bem mais baixo do que a galeria por onde percorremos o interior da mina – que de resto não é muito extensa. É possível, para quem for aventureiro e tiver alguma prática de andar em zonas escorregadias, descer até àquela espécie de lago, mas não é tarefa fácil a não ser que o nível da água tenha subido bastante: a inclinação é grande, as rochas estão muito húmidas e há muita pedra e areia solta, certamente fruto de derrocadas mais ou menos recentes. A forma como estas minas foram exploradas criou uma enorme quantidade de colunas rochosas inclinadas, dispostas regularmente, que são a características mais original do lugar, fazendo lembrar uma floresta petrificada.

Minas de Queiriga (2)

Minas de Queiriga (4)Minas de Queiriga (3)

Minas de Queiriga (5)

Minas de Queiriga (6)

 

As “Terras do Demo” que Aquilino Ribeiro imortalizou no seu livro com o mesmo nome definem-se mais ou menos pelo quadrilátero formado que se estende entre as localidades de Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Sernancelhe e Aguiar da Beira. O escritor nasceu em Carregal e viveu nesta região beirã durante a sua infância e adolescência, e foi a estas terras duras que foi buscar muita da inspiração que esteve na origem das suas obras. Um dos rios que aqui passa é o Távora, e nele foi aberta a Barragem do Vilar, inaugurada em 1965, nas margens da qual se aninham algumas aldeias interessantes.

Barragem de Vilar

Uma delas é Vila da Ponte, a que chamam “Pérola do Távora”. Habitada desde o tempo dos romanos, a sua história é tão rica quanto antiga, e tem agora também um espaço de lazer muito agradável, criado junto rio. 

Vila da Ponte (1)

 

Vila da Ponte (4)

 

Vila da Ponte (2)

 

Vila da Ponte (3)

No cimo de um monte vizinho ergue-se o Santuário de Nossa Senhora das Necessidades, com um fantástico miradouro de onde se pode ver toda a paisagem até à Serra do Marão e um simpático parque de merendas, particularmente bonito nesta altura do ano em que as árvores se despem e as suas folhas castanhas vão juntar-se no chão ao verde da erva e do musgo que cresce nos granitos.

Senhora das Necessidades (1)

 

Senhora das Necessidades (2)

 

Senhora das Necessidades (3)

 

Senhora das Necessidades (5)

 

Senhora das Necessidades (4)

 

Também a história de Fonte Arcada se perde no tempo. O nome da povoação vem da fonte com arco ogival que ainda podemos ver, agora protegida por um vidro, no sítio da Cova da Moura (que tem, como não podia deixar de ser, uma lenda associada), e que data dos sécs. XIII ou XIV – ou até talvez XII, pois não se consegue precisar ao certo a sua origem. Há muito para ver nesta localidade, que é surpreendentemente bonita: uma igreja românica, um pelourinho, vários solares do séc. XVII, casas antigas de pedra com varandas de madeira, um santuário (nesta região parece haver tantos santuários quantas terras…) dedicado a Nossa Senhora da Saúde, e uma peculiar Torre do Relógio, que na realidade não tem um relógio mas sim um sino, e foi erguida num local a que chamam Castelo, embora do dito cujo não haja qualquer vestígio. É daqui que temos uma vista privilegiada sobre o casario da localidade, do lado nascente, e a barragem, do lado onde o sol já se punha.

Fonte Arcada (1)

Fonte Arcada (2)

 

Fonte Arcada (3)Fonte Arcada (4)Fonte Arcada (5)Fonte Arcada (8) Senhora da SaúdeFonte Arcada (6) Castelo

 

A Sernancelhe chegámos já de noite, que os dias de Inverno são curtinhos. A luz artificial mostra-nos uma outra perspectiva dos lugares, e dá-lhas até uma certa aura de mistério. A vila estava posta em sossego, apesar de ainda ser cedo, em parte provavelmente por estar bastante frio, ou talvez porque àquela hora, percebemos entretanto, decorria uma missa na Igreja Matriz, velha de nove séculos – com a porta de madeira bem fechada, não fosse alguém ter a triste ideia de entrar e levar consigo a temperatura gélida do exterior, mas com o som a ser transmitido tão alto que se ouvia cá fora. Dali subimos uma rua até à Porta do Sol, o castelo medieval que já existia antes de Portugal ser um país, e depois continuámos a subir as escadinhas até à Santinha, de onde poderíamos ver toda a vila e os arredores, não se desse o caso de a noite estar tão escura.

Sernancelhe (1)

 

Sernancelhe (2)

Sernancelhe (3)

 

Jantámos no restaurante Casa do Avô, em Sarzeda, a meia dúzia de quilómetros de Sernancelhe. Pequeno mas muito cuidado, tranquilo, com um atendimento impecável e comida saborosa, entre o tradicional e o moderno, muito à base de assados e grelhados.

Restaurante Casa do Avô - Sarzeda

 

O alojamento que reservámos foi nas Casas Aldeia da Lapa, mesmo junto ao famoso santuário com o mesmo nome. Ficámos no quarto Castanheiro, grande, confortável e muito bem decorado, com acesso directo para a rua e uma janela na porta com vista para a lateral da igreja.

Casa Aldeia da Lapa (1)

 

Casa Aldeia da Lapa (2)

 

O domingo amanheceu com um manto branco de gelo a cobrir carros, telhados e ruas, mas com um sol radioso que aos poucos foi derretendo todo aquele gelo.

Santuário da Lapa (3)

Santuário da Lapa (4)

Santuário da Lapa (1)

 

Santuário da Lapa (2)

 

Depois do pequeno-almoço fomos dar um passeio a pé até à nascente do Vouga, que fica a cerca de um quilómetro. Mais gelo nos caminhos, a condizer com um ventinho cortante que se fazia sentir, mas o prado onde surge a nascente, mesmo ao pé de um menir, já estava descongelado pelo sol. Depois de uma volta pela aldeia, e com o carro já na sua cor original, voltámos à estrada.

Aldeia da Lapa

Nascente do Vouga (2)

 

Nascente do Vouga (1)

 

O nosso primeiro destino na Serra da Estrela foi a aldeia histórica de Linhares. As duas torres do castelo vêem-se bem desde muito antes de começarmos a subir a encosta da serra, e o castelo foi precisamente o ponto de partida para a nossa visita. Não sendo particularmente interessante como monumento – o interior é completamente despido – vale a pena pela vista de 360 graus que se nos oferece quando percorremos a muralha, com o vale do Mondego de um lado e a aldeia do outro. Estamos 820 metros acima do nível do mar, e isso nota-se. Depois passeámos sem rumo definido pelas ruas estreitas que se entrelaçam umas nas outras, por vezes passando por baixo das próprias casas. Linhares tem origem medieval, mas conheceu grande prosperidade nos sécs. XV e XVI, razão pela qual alguns edifícios estão decorados com janelas manuelinas. O melhor exemplar destas janelas está naquela que é chamada de Casa do Judeu – a porta de entrada para a antiga Judiaria.

Linhares (1)

 

Linhares (2)

 

Linhares (4)

 

Linhares (5)

Vista do Castelo de Linhares (1)

Vista do Castelo de Linhares (3)

Vista do Castelo de Linhares (2)

Linhares (6)

Linhares (7)Linhares (8)

Linhares (9)

O almoço foi no famoso restaurante Cova da Loba, e como seria de esperar estava excelente, desde a sopa à sobremesa, passando pelo vinho, e pelo atendimento a condizer.

Restaurante Cova da Loba - Linhares

 

Já que estávamos em maré de santuários, a paragem seguinte foi na Senhora do Desterro, já depois de passarmos Seia e São Romão. Aqui o rio é outro, o Alva, e foi represado para formar um lago tranquilo entre o arvoredo, com as várias capelas – no “módico” número de dez – a espalharem-se por ambas as margens. A minha preferida é (será coincidência?) a da Nossa Senhora da Boa Viagem: simples, com muito branco e pouco dourado, o tecto de madeira e o fundo do nicho que abriga a imagem da Virgem pintados num lindíssimo tom de azul.

Senhora do Desterro (2)

 

Senhora do Desterro (1)Senhora do Desterro (3)

 

Senhora do Desterro (4)Senhora do Desterro (5) N.Sra. Boa ViagemSenhora do Desterro (6) N.Sra. Boa Viagem

 

Cerca de um quilómetro mais acima na encosta, seguindo a indicação da seta e indo por uma estrada de terra batida não em muito bom estado, encontramos uma das formações rochosas mais famosas da Serra da Estrela: a Cabeça da Velha. A natureza tem destas coisas…

Cabeça da Velha - Serra da Estrela

 

Com o sol já a descer a toda a velocidade, chegámos finalmente a Loriga, uma das aldeias mais bonitas da serra, sobretudo pelo privilégio de estar localizada num anfiteatro natural. Mais à frente na estrada, a belíssima e também lindamente situada praia fluvial, onde mãos engenhosas aproveitaram o relevo pedregoso natural e criaram uma sucessão de piscinas e pequenas cascatas, que seriam muito apetecíveis numa altura do ano menos… digamos que… fresquinha.

Loriga (2)

Loriga

Loriga - praia fluvial (1)

Loriga - praia fluvial (2)

Loriga - praia fluvial (3)

Loriga - praia fluvial (4)

 

Estando do lado oeste da serra, onde nalguns pontos o gelo nem tinha conseguido derreter – sendo por isso um lugar ideal para saltar de contentamento, como se de neve se tratasse – e depois de um dia de céu intensamente azul, é claro que o pôr-do-sol teria de ser algo de admirável e absolutamente fotogénico, perfeito para fechar da melhor maneira mais um fim-de-semana memorável.

 

Serra da Estrela (1) gelo

 

Serra da Estrela (2) geloSerra da Estrela (4) pôr-do-sol

 

Serra da Estrela (3) pôr-do-sol

 

Mapas do percurso completo

Mapa 1Mapa 2Mapa 3Mapa 4

 

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Roteiro de fim-de-semana_ das Terras do Demo à Serra da Estrela

 

 

Seg | 04.02.19

Impressões de Bruxelas

Haverá melhor maneira de entrar no Ano Novo do que em viagem?

 

Sim, é verdade, a pergunta é retórica. Só que… por estranho que pareça (até mesmo a mim me parece estranho…), até agora nunca tinha feito nenhuma passagem de ano fora de Portugal. Mas há uns meses deu-me para começar a matutar no assunto, e deve ter ocorrido uma qualquer conjugação astral favorável às minhas intenções que fez com que tudo se resolvesse milagrosamente a meu contento e a tempo – e quando dei por mim estava em fins de Dezembro num avião a caminho de Bruxelas, com viagem de volta marcada para um dia já em Janeiro.

Bruxelas (1)

 

Porquê Bruxelas, perguntam vocês? Pois porque ainda não conhecia a cidade, e porque tenho lá amigos, e também porque me pareceu que fosse uma cidade animada o bastante para ser interessante visitá-la nesta época, sem no entanto me arriscar às grandes confusões e atropelos habituais em tantas outras cidades nestas alturas. Gente aos magotes pode estragar completamente a minha habitual boa disposição quando ando em viagem.

 

Os dias de Inverno têm sempre duas desvantagens: o frio e as poucas horas de luz diurna. Ir para um país mais a norte na Europa nesta estação foi um bocado arrojado da minha parte – e apesar dos zero graus que estavam em Bruxelas na véspera da minha partida, nem sequer havia a compensatória perspectiva de vir a cair neve. Mas mais uma vez a minha sorte do costume não me abandonou, e nos dias que lá passei a temperatura nunca esteve assim tão baixa. Quanto à falta de luz, se é verdade que nunca vi o sol, a curta duração dos dias foi compensada pela possibilidade de apreciar as iluminações variadas e os espectáculos de luz e som que animam a cidade nesta época festiva.

Bruxelas (2)

 

Visitar uma cidade tendo como guia alguém que lá vive há muitos anos é um privilégio, maior ainda quando essa pessoa conhece bem a história do país e tem o dom de saber conversar e chamar a nossa atenção para pormenores nos quais se calhar habitualmente não repararíamos. A minha estadia em Bruxelas foi por isso um misto de descanso e passeio, entre as visitas aos lugares icónicos obrigatórios e a surpresa sempre agradável de descobrir alguns “achados” interessantes – assim uma espécie de circuito feito “à medida” dos meus gostos pessoais.

 

À primeira vista, Bruxelas é cinzenta e meio desenxabida, sem aquela monumentalidade que entra pelos olhos adentro que possuem outras cidades europeias. Mas o que lhe falta em grandiosidade é compensado pela diversidade da sua arquitectura – sobretudo residencial – que só aparentemente é monótona. Durante o reinado de Leopoldo II, que subiu ao trono em 1865, Bruxelas foi palco de uma enorme revitalização, suportada por uma economia abastada e florescente. Recusando a uniformidade, cada proprietário tentou que a sua casa se destacasse das demais, e o resultado ainda está hoje bem visível. Para minha surpresa e meu enorme contentamento, a cidade está pejadinha de edifícios Arte Nova (de que sou uma apaixonada indefectível) e Art Déco, entre outros, mais abundantes e alguns igualmente felizes, no estilo modernista bruxelense.

Bruxelas (3)

 

O arquitecto mais famoso dessa época foi Victor Horta (1861-1947), pioneiro da Art Nouveau no país, de quem algumas obras estão inclusivamente reconhecidas como Património Mundial da UNESCO. A casa Van Eetvelde é uma delas, e podemos vê-la nos números 2 e 4 da Avenue Palmerston – construída em três fases, tem duas fachadas diferentes, uma mais ousada e outra mais convencional.

Bruxelas - casa Van Eetvelde (1)

 

Bruxelas - casa Van Eetvelde (2)

 

Bruxelas - casa Van Eetvelde (3)

 

Na mesma rua mas no número 24 destaca-se a Villa Germaine, uma construção de 1897 em estilo eclético que não está atribuída a nenhum arquitecto específico, assimétrica, policromática e muito original.

Bruxelas - Villa Germaine (1)

 

Bruxelas - Villa Germaine (2)

 

Ali perto, o número 11 da Square Ambiorix tem aquela que é para mim a fachada mais fascinante das casas que vi. Concebida por Gustave Strauven, um discípulo de Horta, foi domicílio do pintor Georges Saint-Cyr e é uma obra extravagante e até mesmo algo excessiva: quatro varandas sobrepostas, todas diferentes, ostentando uma orgia de ferros imbricadamente forjados e com janelas a condizer – e tudo isto numa fachada de apenas quatro metros de largura. Uma autêntica “folie”!

Bruxelas - casa Saint-Cyr (1)Bruxelas - casa Saint-Cyr (2)Bruxelas - casa Saint-Cyr (3)

 

Outro edifício famoso é a Maison Cauchie, construída em 1905 pelo arquitecto e pintor Paul Cauchie para aí viver e trabalhar com a sua mulher Lina. Exemplo máximo da técnica decorativa mural a que se deu o nome de sgraffito, esta casa situada no número 5 da Rue des Francs ilustra bem a aplicação do princípio da “arte total”, em que a distinção entre as artes ditas “mais nobres”, como a pintura, a escultura ou a arquitectura, e as chamadas “artes decorativas” se esbate, todas elas contribuindo com igual peso para o resultado final da obra.

Bruxelas - casa Cauchie (1)

 

Bruxelas - casa Cauchie (2)

 

Bruxelas - casa Cauchie (3)

 

Bruxelas - casa Cauchie (4)

 

A Maison Cauchie fica mesmo ao pé de outro dos lugares que é obrigatório visitar em Bruxelas: o Parque do Cinquentenário. Criado em 1880 a mando de Leopoldo II para celebrar, como o nome indica, os 50 anos da independência do país (apesar da história das regiões que hoje constituem a Bélgica se perder no tempo, o país tal como existe hoje é muito jovem), abrigou a Exposição Nacional organizada no mesmo ano. É uma área enorme facilmente identificável pelo Arco do Triunfo que faz parte do Palácio e que nos remete imediatamente para as Portas de Brandeburgo – mas com uma dimensão muito mais imponente. Os seus edifícios são hoje em dia usados como museus e para a organização de exposições e congressos. No canto mais a norte, a Mesquita Grande de Bruxelas ergue-se ao lado do Pavilhão Horta-Lambeaux, onde pelo buraco da fechadura (o edifício apenas abre ao público durante curtos períodos diurnos no Verão) podemos espreitar o enorme, impressionante e muito polémico baixo-relevo em mármore de Carrera executado por Jef Lambeaux para ilustrar as “Paixões Humanas” – um belíssimo mural de 12 metros de comprimento com 8 metros de altura, uma obra de fôlego que criou grande agitação na altura em que foi revelado ao público (devido à nudez das suas figuras, e não só).

Bruxelas - Parque do Centenário (1)

 

Bruxelas - Parque do Centenário (2)

Bruxelas - Parque do Centenário (3)

 

Bruxelas - Parque do Centenário (4)

 

Bruxelas - Parque do Centenário (5)

 

Bruxelas - Parque do Centenário (6)

Bruxelas - Parque do Centenário (7)Bruxelas - Parque do Centenário (8)Bruxelas - Parque do Centenário (9)

 

Saindo do Cinquentenário pelo lado oeste estamos em Schuman, que é mais ou menos a porta de entrada do Bairro Europeu. Aqui o ambiente é outro, respira-se modernidade em cada esquina de cada edifício, entre os gradeamentos de metal que cobrem o Berlaymont (sede da Comissão Europeia), o aspecto austero do edifício Justus Lipsius, onde têm lugar as reuniões do Conselho Europeu, ou os muitos metros quadrados de vidro do Charlemagne (actualmente desactivado), do Lex e do Europa – um cubo gigantesco que integra nas fachadas caixilhos de janelas que pertenceram a construções desmanteladas de todos os países da EU, e mantém num dos seus flancos o Palace Résidence, um edifício Art Déco criado por Michel Pollak nos anos 20 do século passado. E estes são apenas alguns exemplos dos inúmeros edifícios onde funcionam as instituições que gerem a União Europeia. É uma outra Bruxelas, esta não muito diferente de qualquer outra grande capital europeia.

Bruxelas - Barleymont

 

Bruxelas - Justus Lipsius

 

Bruxelas - Charlemagne (1)

 

Bruxelas - Charlemagne (2)Bruxelas - Lex

Bruxelas - Europa e La Résidence (1)

Bruxelas - Europa e La Résidence (1)

 

Mas voltemos ao que dá a Bruxelas o seu carácter próprio. Uma dessas coisas define-se em duas palavras: batatas fritas. Sim, é isso mesmo. Em Roma, sê romano; em Bruxelas, come “frites”. De preferência as da Maison Antoine, as mais genuínas (é o que consta…), onde todos os bruxelenses vão. Fica na Place Jourdan, praticamente paredes-meias com o Bairro Europeu, e começou por ser, em 1948, uma simples roulotte chamada “La Friterie Antoine”. A popularidade foi crescendo e hoje é um pavilhão respeitável e modernaço, com uma cozinha a funcionar de acordo com as normas europeias e os preceitos de higiene devidos, de onde saem caixinhas de papel cheias de batatas fritas umas atrás das outras. A Maison Antoine saltou para as páginas dos media internacionais quando há coisa de três anos Angela Merkel decidiu passar por lá para se abastecer de “frites” (e abastecer o seu staff, que sozinha seria difícil comer 45 porções das ditas cujas…), e a sua fama cresceu ainda mais. As filas são sempre grandes e o tempo de espera é suficiente para escolher entre os mil e um tipos de molhos diferentes que podem acompanhar as batatas, desde os clássicos mayonnaise, cocktail ou moutarde até aos mais estranhos méga ou bicky hot. Além das “frites” é possível comer prosaicos hambúrgueres, croquetes, brochettes (mini espetadas) ou as populares mitraillettes (sanduíches de vários tipos de carne com – claro! – batatas fritas lá dentro), e mais um sem número de petiscos diferentes, cada um mais calórico que o outro. Comida na mão, embrulhada em papel para não arrefecer, entra-se depois num dos vários bares/cafés que há em frente, com um bocado de sorte encontra-se uma mesa livre e pedem-se as bebidas. Os toldos cá fora são bem explícitos: “frites acceptées”. Se não optassem por esta estratégia, provavelmente estariam vazios a maior parte do tempo. O espírito cooperativo funciona lindamente neste caso e podemos comer as nossas batatas fritas abrigados e quentinhos. E sim, as batatas fritas da Maison Antoine são muito boas.

Bruxelas - Maison Antoine (1)

 

Bruxelas - Maison Antoine (2)

 

Bruxelas - Frites

 

E a propósito dos ex libris de Bruxelas, que são vários, o maior (em todas as acepções da palavra) e incontornável símbolo da cidade é sem dúvida o Atomium. Misto de escultura e edifício – Bruxelas parece dominar com maestria a arte da integração – o mínimo que se pode dizer desta obra é que é surpreendente, e pela positiva: é muito mais bonito ao vivo do que em qualquer imagem que eu já tenha visto até hoje. Destaca-se orgulhosamente num dos extremos a norte da cidade (apesar de ser cinzento contra um céu que é quase permanentemente dessa cor), rodeado pelo verde de enormes parques e sem outras grandes construções por perto que lhe façam concorrência, e o único defeito que posso apontar-lhe são as filas monstruosas de gente que estava lá para o visitar e que imediatamente me desencorajaram de querer fazer o mesmo. Idealizado por André Waterkeyn e parcialmente projectado pelos arquitectos André e Jean Polak para a Expo 58, quando se acreditava ingenuamente que o futuro da humanidade estava ancorado na energia nuclear, tem nove esferas (representando um cristal de ferro aumentado 165 mil milhões de vezes), cinco das quais estão abertas ao público com exposições permanentes e temporárias. A esfera superior, à qual se acede directamente de elevador, tem o nome de Panorama, e além de um restaurante oferece uma vista de 360 graus sobre a cidade, a 102 metros de altura.

Bruxelas - Atomium (4)

 

Bruxelas - Atomium (1)Bruxelas - Atomium (3)

 

Bruxelas - Atomium (2)

 

Bruxelas - Atomium (5)

 

Ali perto, a pouco mais de 1 km, na orla nordeste do Parque de Laeken, tive mais uma agradável surpresa. Se, como eu, tiverem um fraquinho por edifícios orientais, então não deixem de ver a Torre Japonesa e o Pavilhão Chinês. Mandados construir também por Leopoldo II no início do séc. XX, ficam mesmo junto à avenida Van Praet, duas visões bem coloridas que surgem no meio das árvores do parque. O Pavilhão é uma fantasia orgíaca de arrebiques e dourados sobre azul profundo, um edifício elaboradíssimo com varandas e painéis de madeira trabalhada que foram propositadamente esculpidos em Xangai. A Torre ergue-se bem acima das copas das árvores, um paralelepípedo gigante de cor vermelho-lacre com cada piso marcado por um telhado, como é típico nos pagodes. Até há alguns anos, todo este conjunto (que inclui jardins, um outro edifício e ainda uma folly) abrigava o Museu do Extremo Oriente, mas por questões de segurança o complexo encontra-se agora fechado, à espera de renovação, e só se pode ver o exterior dos edifícios. A colecção permanente do museu está actualmente guardada no Museu do Cinquentenário.

Bruxelas - Pavilhão Chinês (1)

 

Bruxelas - Pavilhão Chinês (2)

 

Bruxelas - Pavilhão Chinês (3)Bruxelas - Pavilhão Chinês (4)P1870032

Bruxelas - Torre Japonesa (1)Bruxelas - Torre Japonesa (2)

 

Mas voltemos aos ex libris. De certeza que já ouviram falar no Manneken Pis, a fonte com o rapazinho a fazer xixi. Fica no recanto de uma rua perto da Grand-Place e é uma escultura pequenina (pouco mais de meio metro de altura) e escura num fontanário protegido por um gradeamento, com um magote de gente à frente a tirar fotografias. A notoriedade deve-se certamente à natureza caricata da ideia, que é de autoria desconhecida mas já velha de séculos: o “boneco” data do séc. XIV, mas a imagem que está actualmente em exposição é uma cópia criada em 1818, depois do original ter sido roubado e feito em pedaços.

Bruxelas - Manneken Pis

 

Muito mais recente (foi instalada em 1987), encontramos o contraponto feminino do Manneken Pis também no centro da cidade, no Impasse de la Fidélité, ao pé de uma rua cheia de bares entre a Bolsa e as Galerias: chama-se Jeanneke Pis e é – obviamente – uma fonte com a escultura de uma menina agachada… a fazer xixi. Menos popular que o rapazinho, já começa mesmo assim a ser ponto obrigatório de “romaria” turística. Foi doada por um benemérito que queria dar qualquer coisa ao seu bairro, e a boa intenção inicial tem sido perpetuada, pois todas as moedas que os visitantes atiram para dentro desta fonte são doadas para a pesquisa contra o cancro. E existe ainda uma versão canina do tema (que eu no entanto não tive oportunidade de ver “ao vivo”), o Het Zinneke – às vezes também chamado de Zinneke Pis – com a diferença de ser apenas a escultura de um cão de pata alçada junto a um pilarete de metal, e não um fontanário.

Bruxelas - Jeanneke Pis

 

Já falei das desvantagens de viajar no Inverno, mas agora vou falar de uma vantagem: as iluminações. Na época natalícia, as grandes cidades parece que concorrem entre elas para ver qual tem as decorações iluminadas mais bonitas e os espectáculos de luz e som mais originais. Bruxelas não podia ser excepção, e sendo as noites tão longas confesso que me soube muito bem passear nas ruas inundadas de luz e assistir ao espectáculo na Grand-Place e a outro, mais curtinho e menos grandioso mas igualmente encantador, nas Galeries Saint-Hubert.

Bruxelas - Natal (1)

Bruxelas - Natal (2)

 

Bruxelas - Natal (3)

 

Bruxelas - Natal (4)

 

Bruxelas - Natal (5)

 

Bruxelas - Natal (6)

Bruxelas - Natal (7)

 

Bruxelas - Natal (8)

 

E depois há a street art, as livrarias, os chocolates, os mercadinhos de rua e mais mil e uma coisas interessantes para ver e fazer.

Bruxelas (3)

 

Bruxelas - street art

Bruxelas (4)

 

Bruxelas (5)

 

Bruxelas (6)

 

Se gostei de Bruxelas? Gostei sim, e bastante mais do que estava à espera. Tanto que hei-de repetir um dia destes.

 

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