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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Cevide, onde Portugal começa

 

Peguem num mapa e procurem a fronteira de Portugal com a Galiza. Percorram-na até à pontinha do lado direito, sempre acompanhando o rio Minho. Nesse local, o território português faz uma última incursão no país vizinho, na forma de uma língua de terra delimitada do lado direito pelo rio Trancoso. A confluência deste rio com o Minho marca a fronteira entre Portugal e Espanha, e é precisamente aqui, no ponto mais a norte do nosso país, que encontramos a pequeníssima aldeia que representa o último reduto português por estas bandas: Cevide.

 

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Se o mapa for daqueles tradicionais, em papel, escusam de ir buscar uma lupa porque não vão encontrar lá a indicação de Cevide. Mas se estiverem no Google Maps e ampliarem um bocadinho irão conseguir localizar a aldeia: não mais de uma dezena de casas, rodeadas por alguns terrenos cultivados e muitas, muitas árvores.

 

E se estiverem mesmo atentos, talvez vos desperte o interesse uma outra legenda que aparece no Maps: marco nº 1 de Portugal. Sabem o que quer isto dizer? Quer dizer que é ali que encontramos o marco fronteiriço português que marca o início do nosso país, o lugar onde começa Portugal.

 

Falar em marcos fronteiriços quando há mais de vinte anos foram abolidas as fronteiras com Espanha – e por consequência com a maior parte dos países europeus – pode parecer um bocado chauvinista ou saudosista, mas acreditem que da minha parte isso não poderia corresponder menos à verdade. É no entanto precisamente por isso, por causa deste esbatimento de limites e desta “harmonização” em curso no nosso continente (já para não falar na globalização…) que se torna necessário preservar a memória da nossa identidade geográfica, cultural e humana – afinal, aquilo que faz de nós portugueses, além de europeus.

 

O meu cicerone em terras de Cevide, tal como já o fez com centenas de outras pessoas, chama-se Mário Monteiro e é um apaixonado pela sua terra natal. É ele quem desde há vários anos tem vindo a fazer um estóico esforço de divulgação da aldeia e da beleza do local, dando a conhecer a quem lá vai os segredos e as preciosidades escondidas do ponto mais setentrional do nosso país.

 

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O Mário e a Lena, a mulher, são os donos da Quinta da Netinha, à qual pertence uma capela que, curiosamente, não está dentro do terreno da propriedade mas sim umas dezenas de metros mais à frente, seguindo por um caminho cimentado coberto por latadas. É dedicada a Santo António e sabe-se que data pelo menos do séc. XVIII, embora o ano que figura no exterior seja 1937, o ano em que foi reconstruída.

 

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O interior da capela prima pela simplicidade e é encantador, pese embora esteja a precisar de obras de restauro. A parede onde se encontra o altar é toda em madeira, pintada de tons claros e com alguns ornamentos dourados. Uma das suas portas dá acesso à parte de trás do altar, e a outra à sacristia. A ara maciça, em granito claro, está mesmo encostada ao altar, o que não é muito comum nos dias de hoje mas se explica porque até 1969 as missas eram celebradas pelo Missal Romano e a posição mais comum do sacerdote na liturgia do Rito Romano era “de costas para o povo”.

 

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Cevide tem actualmente apenas seis habitantes e o seu ambiente é pacato, mas tempos houve em que aqui não faltava movimento. Como em todas as terras raianas, o contrabando de bens e pessoas era uma das principais fontes de rendimento do lugar e fazia-se nos dois sentidos, obviamente que com a conivência dos agentes da autoridade responsáveis pela vigilância da fronteira. Foi, por isso, entre memórias de infância e histórias de contrabandistas, contadas pelo Mário com aquela entoação melodiosa tão peculiar do sotaque galego, que encetámos o percurso pela Caneija do Contrabando – um caminho apertado entre muros de pedra e vegetação densa que passa por cima das nossas cabeças, onde o sol não entra e o odor espesso do húmus invade o ar. 

 

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Se por aqui as fronteiras foram sempre tão fluidas, agora que já não existem fará sentido calcorrear umas centenas de metros por atalhos de terra que só conhece quem é dali, com mantas de folhas mortas e raízes de árvores a atraiçoarem-nos os passos, saltando aqui e trepando ali, só para ir ver o marco fronteiriço nº 1? Ah, podem crer que faz! Primeiro porque isto é o Alto Minho, a terra do verde, e passear por aqui já é só por si um prazer. Depois, porque a sensação é de que estamos num lugar especial que poucos conhecem e ainda é quase selvagem – embora a terra em redor do marco esteja bastante batida pelas solas dos sapatos dos visitantes.

 

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O marco nº 1 está colocado sobre uma fraga que se ergue uns quantos metros acima do Trancoso. Descemos até ao rio, que depois das chuvas dos últimos tempos vai cheio e ruidoso, e o Mário e a Lena surpreendem-se: a foz do Trancoso modificou-se ligeiramente, está mais estreita. As chuvas copiosas aumentaram o caudal do rio, que arrastou com ele pedras e areia, acumulando-as de um dos lados, e agora que o nível das águas baixou o caminho mais desobstruído que elas encontraram para desaguarem no rio Minho foi este, menos amplo, entre árvores que praticamente formam um túnel. Mas como a natureza sabe bem o que faz, no local onde a água já não passa nasceu agora uma encantadora praia de areia clara, absolutamente impoluta, que provavelmente fomos das primeiras pessoas a pisar. Uma prainha intocada e rodeada de árvores, com água translúcida – bastante fria, mas onde me soube pela vida molhar os pés nessa tarde quente… – perfeita para os dias de Verão. 

 

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Uma ponte pênsil de madeira, rústica mas segura, leva-nos para terras de Espanha. Cevide passa a ser Acivido, mas as diferenças são poucas. Também aqui existe um marco com o nº 1, mas este tem um E em vez de um P e está acompanhado de um painel solar e uma caixa de distribuição que diz pertencer a um sistema de informação meteorológica. E também aqui existe uma praia, mas esta tem gente, três rapazes que aproveitam o final da tarde para se refrescarem. Desta praia subimos pelo que resta de uma estrada romana até às primeiras casas da aldeia galega, onde o Mário cumprimenta um português que ali vive há cerca de 40 anos. Uma prova mais de que a diáspora portuguesa nem sempre se faz para muito longe da mãe pátria.

 

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O rio Trancoso nasce em Portelinha, perto de Castro Laboreiro, e no seu percurso de 13,6 km define maioritariamente a fronteira entre Portugal e Espanha nesta região minhota. Por ser uma zona pouco povoada e portanto ainda com muita qualidade ecológica, com boa conservação das ribeiras e suas margens, e consequentemente das suas águas, existe um plano hidrológico conjunto de Portugal e Espanha para a classificar como Reserva Natural Fluvial Internacional. Mas Padrenda, o município espanhol onde estamos, já se adiantou e reconheceu o potencial paisagístico do “río Troncoso ou Barxas”, os dois nomes pelos quais se referem ao Trancoso, tendo criado na sua margem uma ecovia de meia dúzia de quilómetros com uma vedação de madeira, que acompanha o rio no seu percurso de ressaltos sucessivos sobre pedras já muito polidas pela água.

 

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Uma outra ponte traz-nos de regresso a Portugal. Maior e mais sólida do que a primeira, assinala a rigor a linha incorpórea que separa os dois países e termina, do nosso lado, junto à casa que abrigou em tempos a Guarda Fiscal – hoje propriedade privada. O marco ainda lá está de pé, indicando que aquele foi em tempos o posto nº 451. Embutido na parede da casa, um nicho abriga uma imagem rústica de Santo António, esculpida em granito e devidamente protegida por um gradeamento. O nosso santo mais internacional parece ser bastante popular por estas bandas.

 

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O caminho a que prosaicamente chamaram do Posto guia-nos de volta à aldeia e à Quinta da Netinha, onde a casa grande aguarda a oportunidade de ser transformada em alojamento de turismo rural. Há projectos para colocar Cevide definitivamente no mapa como lugar obrigatório de visita, mas no nosso jardim à beira-mar plantado o boom do turismo ainda não chegou a este canto do Minho. Tal como ainda não chegou a prometida ciclovia que está prevista para ligar Melgaço a Cevide, nem chegaram as também prometidas melhorias no acesso ao marco nº 1.

 

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A demora pode ser exasperante, mas apesar disso o Mário não baixa os braços e continua activo na divulgação da sua aldeia, promovendo-a por todas as formas que estão ao seu alcance, desde os media às redes sociais. Criou uma página web com informações sobre Cevide e o grupo Amigos de Cevide no Facebook, que já conta com vários milhares de membros.

 

Quanto a mim, saí de Cevide encantada. Começa a ser difícil encontrar no nosso país locais ainda tão originais e inalterados como esta aldeia, e a tendência é mesmo que um dia venham a desaparecer completamente. São lugares como este que me deixam dividida entre o gosto de partilhar as minhas boas “descobertas” com toda a gente, e a vontade de guardar estes pequenos segredos só para mim e para quem me está mais próximo. Por isso vos digo: vão lá; vão conhecer este nosso pedacinho do Portugal ainda profundo, antes que comece a andar nas bocas do mundo e desapareça uma parte do seu carácter único. Quando lá estiverem vão sentir-se como eu: privilegiados.

 

 

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Em busca das aldeias avieiras

  

“Nómadas do rio, como os ciganos na terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam-lhes avieiros” (Alves Redol, Prefácio à 5ª edição de Avieiros, 1968)

 

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Uma das principais razões que me levam a viajar é a satisfação do meu interesse pelo património cultural de cada lugar que visito. Nestas coisas de história e cultura – e os académicos que me desculpem… – a forma mais produtiva de aprender é mesmo in loco. É ao vivo que consigo fixar melhor os pormenores, é ouvindo e vendo que consigo compreender melhor os contextos, é ao rever as fotografias e o “filme” que vivi que consigo memorizar melhor todas as informações que vou recolhendo.

 

Há dois anos e picos, alguém teve a feliz ideia de me levar ao Escaroupim, e desde essa altura o meu interesse pela cultura avieira tem vindo a crescer. Lisboeta com fortes ligações a Santarém, as “minhas” duas cidades estão intimamente associadas ao rio Tejo (de que falei neste post) e tudo o que lhe diz respeito acaba por captar mais facilmente a minha atenção. Comecei por isso uma busca pelo que resta das aldeias avieiras e da sua cultura, busca esta ainda não terminada mas que quero partilhar agora aqui convosco – porque é um património pouco conhecido mas muito original e que merece ser preservado.

 

 

Quem são os avieiros?

 

A partir de meados do séc. XIX, famílias inteiras de pescadores da zona de Vieira de Leiria começaram a deslocar-se para as zonas ribeirinhas do Tejo e do Sado, fugindo aos rigores do Inverno que não lhes permitia procurarem o seu sustento no mar. Deslocação sazonal a princípio, faziam dos barcos a sua casa temporária e voltavam à praia da Vieira quando o tempo melhorava. Acabaram contudo por desistir dessas idas e vindas, fixando-se aos poucos nas margens destes rios que lhes proporcionavam peixe o ano inteiro, sobretudo sável, lampreia e fataça. Comunidade muito fechada, assente no núcleo familiar e segregada tanto por vontade própria como por animosidade da população rural, ainda hoje mantém algum secretismo sobre o seu modo de vida e as suas artes piscatórias – embora, como é óbvio, pela diminuição acentuada da população avieira e por força dos tempos modernos, a abertura ao exterior seja cada vez maior.

 

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As aldeias avieiras

 

Construindo pequenas casas feitas primeiro de canas e depois de madeira, erguidas sobre estacas para se protegerem das subidas do rio, as famílias avieiras foram lentamente criando pequenos núcleos habitacionais sobretudo ao longo do Tejo (algumas, embora poucas, também junto ao Sado), principalmente entre Azambuja e Abrantes e perto de povoações já existentes, onde iam depois vender o que pescavam. O exterior das “barracas”, designação atribuída pelos próprios avieiros, era pintado de cores vivas – evocando as casas da praia da Vieira e normalmente coincidindo com o colorido das suas próprias embarcações. Mas enquanto as cores do exterior eram escolhidas pelo homem da casa, era a mulher, sua companheira constante na faina pesqueira (normalmente era ela a remadora de serviço, enquanto o marido lançava as redes), que decidia as do interior, quase sempre diferentes e muito variadas.

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Até aos anos 50 do século passado, os avieiros conseguiam viver totalmente da pesca. A partir daí, com a degradação da qualidade das águas do Tejo a causar a redução do pescado e o próprio desejo de quererem uma vida diferente para os filhos, a população das aldeias avieiras começou a diminuir e os núcleos habitacionais foram desaparecendo, em muitos casos, ou sendo reconvertidos até à quase descaracterização. Se nos anos 80 ainda existiam 80 aldeias avieiras nas margens do Tejo, hoje são apenas cerca de uma dúzia, várias delas em ruínas ou já praticamente sem vestígios das construções originais.

 

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Uma destas aldeias arruinadas foi a que visitei mais recentemente. Com acesso a partir da vila de Alpiarça, não é fácil dar com o caminho para o Patacão, mas o esforço é recompensado no final. A melhor maneira será, para quem vem de Santarém, virar à esquerda ainda antes de entrar em Alpiarça, na estreita estrada asfaltada que tem a indicação da Quinta da Lagoalva de Cima. Cerca de 4,5 km depois, um caminho de terra batida entronca pelo lado esquerdo, com um valado ao qual se encostam, meio escondidas pela vegetação que já começa a cobri-las, umas quantas casas descoloridas e esventradas, em que a madeira se mistura com a telha, o tijolo e a chapa de zinco, assentes sobre pilares de betão. Rodeadas por terrenos cultivados, no sossego da planície ribatejana, apenas uma linha de choupos perfilados ao longe denuncia a existência do rio.

 

 

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Seguindo mais umas centenas de metros pelo asfalto, vira-se depois à esquerda novamente em terra batida. Encontramos aí mais um pequeno aglomerado de casas avieiras – também arruinadas, e também quase absorvidas pelas árvores.

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No final do caminho, a boa surpresa: a praia fluvial do Patacão. Um areal abundante e extenso, praticamente deserto, sem infra-estruturas de apoio mas com um ambiente tranquilo e meio selvagem, algo que é cada vez mais difícil de encontrar nos dias que correm.

 

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A cultura avieira

 

Quase desconhecida no nosso país e, obviamente, mais ainda a nível internacional – mesmo pelos estudiosos do assunto – a cultura avieira é a única cultura palafítica fluvial europeia, e possui características originais essencialmente em quatro aspectos: nas embarcações, nas artes pesqueiras, nas construções palafíticas e na gastronomia. E porque é importante tentar que este património exclusivo não desapareça totalmente, começou em 2006 um movimento que visa preservar, recuperar e divulgar o que resta da cultura avieira, tentando conseguir que fosse declarada património imaterial. Os idealizadores do Projecto da Cultura Avieira, sedeado no Instituto Politécnico de Santarém (e coordenado pelo Dr. João Serrano), concluíram depois que teriam de dividir essa ambição em objectivos mais pequenos, e já conseguiram que a bateira avieira das Caneiras fosse inscrita como património imaterial nacional. Foi também há alguns anos aprovado na generalidade um projecto para a criação da Rota Turística dos Avieiros do Tejo e Sado, mas o financiamento prometido nunca chegou, e nenhuma das candidaturas específicas teve apoio.

 

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Ainda assim, a cultura avieira continua viva. O peixe regressou ao rio, e a ele também têm vindo a regressar filhos e netos, uns para pescar, outros para usarem as casas como poiso de descanso ao fim-de-semana, outros ainda para desenvolverem actividades mais viradas para o turismo.

 

 

 

Escaroupim

 

Foi precisamente uma destas actividades que me levou novamente ao Escaroupim: um passeio de barco pelo rio. Nem sempre é fácil conseguir marcar estes passeios (têm frequentemente grupos grandes que esgotam a lotação dos barcos, outras vezes não têm reservas suficientes…), mas é sem dúvida algo a fazer nem que seja só uma vez na vida.

 

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Ao contrário do Patacão, descobrir o caminho para o Escaroupim é fácil – na rotunda de Salvaterra de Magos basta entrar pela rua que fica à direita da Praça de Touros, ir até ao fundo e virar novamente à direita, seguindo as placas indicativas. O melhor é ir com antecedência suficiente para visitar a aldeia, que é uma das que subsiste mais habitada e bem preservada, fruto também da contínua requalificação de que tem vindo a ser alvo desde há alguns anos. Ao Núcleo Museológico da Casa Típica Avieira, em que se recriou o interior de uma casa de avieiros, veio juntar-se em inícios de 2017 o Museu “Escaroupim e o Rio”, que no primeiro ano de vida teve quase 9 mil visitas. Mantém-se também ainda em uso o cais palafítico, embora já algo modernizado, há várias casas restauradas que funcionam como lojas, e para as refeições os visitantes podem optar entre um parque de merendas ou o restaurante que tem o nome da aldeia (sempre cheio ao fim-de-semana, pelo que convém reservar com antecedência).

 

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Passear no rio Tejo

 

Os passeios no rio que partem do Escaroupim fazem-se a bordo de barcos eléctricos, pouco ruidosos e que se deslocam calmamente. São cerca de 2 horas e meia de puro prazer, deslizando sobre águas quase paradas por entre ilhas e mouchões (ilhotas formadas pela acumulação de aluviões). Cada passeio é diferente, pois o itinerário depende da maré – há canais que só podem ser percorridos quando a maré está mais alta – e da época do ano. Quando está calor é habitual a paragem numa praia, para refrescar.

 

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Mas o melhor destes passeios é sem dúvida a observação da vida selvagem, sobretudo das aves que fazem destas ilhas o seu local de nidificação ou habitat permanente. Por ali encontramos os omnipresentes guinchos e corvos-marinhos, milhafres e águias-pesqueiras, cegonhas e íbis, andorinhas-das-barreiras; e garças, muitas garças, de várias espécies, das boieiras às reais, chegando a ser milhares na época da nidificação – por alguma razão a ilha que fica mesmo em frente ao Escaroupim tomou o nome de Ilha das Garças. Há também a dos Amores, e a dos Cavalos, que é maior de todas e por isso foi escolhida pela Coudelaria Nacional para aí serem soltos e viverem os seus cerca de cem potros entre os seis meses e os três anos de idade. Ali ficam, em completa liberdade e apenas vigiados por um tratador que os visita quase todos os dias, até chegarem à idade de serem seleccionados para reprodução, para as artes equestres, ou simplesmente para venda.

 

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O passeio leva-nos ainda a percorrer o rio junto à margem norte, passando ao pé de Valada do Ribatejo e da aldeia avieira da Palhota, mas também por traineiras e barcaças em decomposição e pelo que resta de um estaleiro de extracção de areias, ofensivo de tão monumental e decrépito… O negócio faliu, mas os vestígios ali ficaram, a apontar-nos os atentados ambientais de que o Tejo (e não só) continua a ser alvo.

 

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Palhota e Porto da Palha

 

A partir do Escaroupim é fácil chegar até duas das aldeias avieiras que ainda permanecem de pé na margem oposta do Tejo. Andando para norte, cruza-se o rio na Ponte Rainha D. Amélia, que em tempos foi ferroviária mas depois da construção de uma nova ponte para a passagem dos comboios, mesmo ao lado, foi transformada em eixo rodoviário.

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Seguimos para a esquerda sempre junto ao rio e atravessamos Valada, protegida das cheias pelo dique que nos acompanha ao longo da estrada e que cumpre a sua função desde 1881. No Reguengo vira-se à esquerda, e pouco depois chegamos à Palhota.

 

A aldeia da Palhota não mudou demasiado desde a sua criação. Apesar de muitos dos seus antigos habitantes terem partido e sido entretanto substituídos por alguns residentes de fim-de-semana, permanece fiel às suas características originais, pese embora a “remodelação” que se nota nalgumas casas. Segundo consta, foi aqui que Alves Redol viveu durante algum tempo recolhendo material para o seu livro sobre estas gentes, de seu título “Avieiros”. A barraca onde residiu foi neste ínterim convertida em casa-museu.

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O cais palafítico da Palhota é um simples passadiço recto, com tábuas assentes sobre estacas feitas de troncos grossos, e nota-se também que terá sido renovado há não muitos anos. Quando a maré está mesmo vazia, a maior parte dos barcos fica assente no lodo, e as garças aventuram-se até bem perto da povoação.

 

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Da Palhota ao Porto da Palha são pouco mais de três quilómetros pelo estradão paralelo ao Tejo, mas a dada altura a estrada passa a privada e é necessário dar uma volta bem maior, indo primeiro para o interior e depois virando em direcção ao Tejo na placa que indica “Lezirão (aldeia avieira)”. Lezirão é o nome da Quinta onde se insere a aldeia do Porto da Palha, que tomou este nome por ser o local onde era descarregada a palha para abastecer as quintas da região.

 

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Pequenina e com poucas casas, a aldeia acolhe os visitantes com simpatia e cores alegres, e nota-se alguma preocupação em alindar o ambiente. Os diminutos cais onde as embarcações atracam têm já características modernas, mas a tradição continua presente nalguns pormenores que roçam o kitsch, como os símbolos que evocam os – eternos rivais – clubes de futebol lisboetas, aqui com territórios bem delimitados.

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Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo

 

As comunidades piscatórias são tradicionalmente muito religiosas e especialmente devotas à figura de Maria, vista como Mãe da Igreja Católica e de todos quantos professam esta fé. Os avieiros não fogem a esta regra e os estudos que têm vindo a ser realizados sobre eles no âmbito do Projecto da Cultura Avieira concluíram que os seus apelos se dirigiam sobretudo à Senhora do Tejo. Foi neste contexto que em 2013 o Bispo de Santarém baptizou a imagem da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, posteriormente coroada em Vila Velha de Ródão em Maio de 2015.

 

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Esta imagem passou a ser, logo a partir de 2013, a figura central dos Cruzeiros Religiosos do Tejo, organizados anualmente entre Maio e Junho com a intenção de estabelecerem laços entre as comunidades ribeirinhas do Tejo e levarem-nas a olhar mais e melhor para o “seu” rio, numa vertente não só religiosa mas também cultural. A imagem da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo é transportada rio abaixo sempre que possível em barcos tradicionais (picotos ou bateiras), parando em vários pontos do percurso para pernoitar e ser venerada em eventos religiosos e culturais preparados para a ocasião. Os locais onde se iniciam e terminam estes cruzeiros têm variado ao longo dos anos. O cruzeiro de 2018 está actualmente a decorrer e vai cumprir o maior percurso organizado até agora: começou no dia 31 de Maio em Malpica do Tejo, na fronteira com Espanha, e terminará na Marina de Oeiras no dia 24 de Junho. (Podem segui-lo aqui e aqui.)

 

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Durante o resto do ano a imagem permanece na igreja de madeira da Praia da Vieira (uma das raras igrejas de madeira do nosso país, construída em 1973), em homenagem simbólica ao lugar de origem dos avieiros.

 

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Estamos no século XXI; as barreiras entre países – as formais e sobretudo as informais – vão caindo a uma velocidade quase supersónica e caminhamos para uma uniformidade mundial que hoje já é real em muitos aspectos. Mas a diversidade cultural humana é tanta e tão variada, tão rica, que seria criminoso deixar perder toda esta riqueza. Por isso, chauvinismos à parte, é realmente importante preservar as particularidades culturais de cada país, de cada região, independentemente do seu tamanho ou do seu peso económico.

 

A cultura avieira é um destes casos. Tem sobrevivido pelas mãos de gente que trabalha, luta e resiste, que muda quando e como é preciso, e se adapta, sem no entanto perder a sua identidade. Praticamente desconhecida mesmo pelos portugueses, tem um valor intrínseco e merece ser conservada e divulgada. Este é apenas o meu (pequeno) contributo. A minha busca vai continuar.

 

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E para quem quiser saber algo mais sobre a cultura e a história dos avieiros (e há muito mais para conhecer), deixo aqui algumas sugestões de leitura/consulta:

 

Livros:

“Avieiros”, de Alves Redol; publicado pela primeira vez em 1942, com edições recentes da Caminho e da Europa-América

“O Rio Tejo”, de António Carmona Rodrigues; editado pelo Clube do Coleccionador dos Correios (CTT) em 2018

 

Links:

http://www.e-atlasavieiro.org/

https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/os-avieiros-estao-de-volta-ao-tejo

https://www.facebook.com/culturaavieira/?hc_ref=ARQnVwBd5C3c0WM-CFQUCITzqLwczsbxREecLmGrXf3QQZktexLqAYWN_uhzb57Dp8g

https://www.msn.com/pt-pt/video/rtp/cruzeiro-religioso-pelo-tejo/vp-AAy935v

https://www.facebook.com/groups/1695878950662637/

http://www.mediotejo.net/tejo-peregrinar-centenas-de-quilometros-tejo-abaixo-com-a-senhora-dos-avieiros/

https://noticiasdoribatejo.blogs.sapo.pt/cultura-avieira-coroacao-de-nossa-3435351

 

 

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