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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Passear a pé

 

Passear a pé é uma das minhas actividades favoritas, sobretudo em ambientes naturais. Além de ser saudável e ajudar a manter a forma, é distrativo e areja a cabeça. Por sorte, em Portugal há cada vez mais e melhores trilhos, passadiços e passeios marítimos propositadamente criados ou marcados para quem gosta de andar a pé. Em 2016 havia cerca de mil percursos pedestres registados, distribuídos por quase todos os concelhos de Portugal continental e das ilhas. Curtos ou mais extensos, muito fáceis ou extremamente exigentes, o leque de percursos disponibilizados para os amantes de caminhadas ao ar livre é cada vez mais abrangente.

 

Estes de que vos vou falar agora são apenas uma pequena mas variada amostra daquilo que o nosso país tem para nos oferecer. Coloquei-os por grau de dificuldade, dos mais fáceis para os mais difíceis – segundo a minha opinião, claro! Alguns deles são já bastante conhecidos, outros nem por isso, mas todos eles têm um encanto próprio e características especiais que os tornam absolutamente incontornáveis.

 

 Vamos passear?

 

 

Parque das Ribeiras do Rio Uíma

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Uíma (11).JPGÉ um percurso quase todo em passadiço de madeira, plano e muito fácil, e acompanha maioritariamente o Rio Uíma numa zona densamente arborizada e muito bonita. A água corre em abundância e há pequenas represas e canais. É possível observar vários aspectos da flora e fauna característicos do local, devidamente identificados com painéis informativos. Existe até uma torre de observação de pássaros, na zona sul, e um abrigo do lado norte que tem a mesma finalidade. Tem vários locais de descanso e uma zona com equipamentos para exercício físico.

Uíma - mapa percurso.png

Localização: Fiães (concelho de Santa Maria da Feira, distrito de Aveiro)

Início: Estrada Nacional 326 (parque de estacionamento)

Fim: norte - ponte da Tabuaça; sul - rua do Rio Uíma

Comprimento: 2 km (+ 2 km para o regresso)

Duração: +/- 1 hora (percurso ida e volta)

Características especiais: desenvolve-se em dois lados separados da EN 326; para norte o percurso mais curto, com cerca de 400 metros; para sul, são cerca de 1200 metros (no final existe um outro parque de estacionamento).

 

 

Passadiço do Alamal 

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Alamal (11) - o passadiço visto do castelo de Belver.JPG

Acompanhando o Tejo e sempre sob a vigilância atenta do castelo de Belver, na margem oposta, este passadiço de madeira é fácil de percorrer e proporciona um passeio agradabilíssimo, sempre junto à água e entre a vegetação típica da região: oliveiras e medronheiros, madressilva, amieiros e salgueiros, fetos e canaviais. O rio vai correndo calmo, enquanto nos pequenos rochedos de pedra os corvos-marinhos aproveitam para secar as penas ao sol.

Alamal - mapa percurso.png

Localização: Belver (concelho de Gavião, distrito de Portalegre)

Início: Praia fluvial do Alamal

Fim: Ponte de Belver

Comprimento: 2 km (+ 2 km para o regresso)

Duração: +/- 1 hora (percurso ida e volta)

Características especiais: Faz parte do PR1 Gavião “Arribas do Tejo”.

(Nota: permanece fechado desde os fogos do ano passado, que o destruíram parcialmente.)

 

 

Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo

Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo (16)

Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo (24)

Desenvolvendo-se em terreno plano junto ao rio Tejo e às ribeiras que nesta zona lhe estão ligadas, parte do percurso é feito em passadiços de madeira e outra parte em terra batida. A vegetação é predominantemente rasteira, típica do sapal do estuário do Tejo, com gramíneas e caniços, e praticamente sem árvores – ideal para podermos aproveitar a relaxante e pacífica vista do rio, numa enorme extensão. Os trilhos junto ao rio e à ribeira da Verdelha são excelentes para observar aves. Ao pé do estacionamento da Praia dos Pescadores há várias infra-estruturas de apoio e de recreio.

Parque Linear - mapa percurso.png

Localização: Póvoa de Santa Iria (concelho de Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa)

Início: Praia dos Pescadores

Fim: Estação de comboios de Alverca (trilho da Verdelha); passagem pedonal do Forte da Casa (trilho do Forte da Casa)

Comprimento: Trilho do Tejo - 720 metros; Trilho da Verdelha - 1930 metros; Trilho do Forte da Casa - 1334 metros (+ igual distância para o regresso)

Duração: 2-3 horas (dependendo das paragens para observar as aves)

Características especiais: Existem três trilhos diferentes para percorrer e ainda um outro, para oeste, que faz a ligação ao Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria.

 

 

Percurso Piódão-Foz d’Égua

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Este é um percurso circular que nos leva desde a belíssima aldeia do Piódão à não menos bela e pequenina aldeia de Foz d’Égua, conhecida pelas suas duas pontes situadas na confluência das ribeiras de Chãs d’Égua e do Piódão. No caminho encontramos algumas casas em ruínas e podemos observar a paisagem geométrica das quelhadas – terrenos cultivados em socalcos no declive da encosta, com escadas a fazerem a comunicação entre eles.

Piódão - mapa percurso.png

Localização: Piódão (concelho de Arganil, distrito de Coimbra)

Início e fim: no largo principal do Piódão

Comprimento: 6 km

Duração: 2 horas

Características especiais: Foz d’Égua encontra-se numa cota mais baixa do que o Piódão, pelo que a segunda parte do percurso será maioritariamente a subir; a forma mais fácil de fazer este passeio é começar pelo lado mais longo, seguindo pelo lado oeste da ribeira do Piódão até chegar a Foz d’Égua, e regressar pelo trilho mais curto, cujos declives são menos acentuados.

 

 

Trilho da Mina de Ouro do Conhal

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Trilho da mina de ouro do Conhal - Ilha do Cabecin

Este trilho circular recentemente criado (PR9 NIS) desenvolve-se entre Santana, na aldeia do Arneiro, e a área junto ao rio Tejo a que se dá o nome de Pego das Portas, passando depois pela zona conhecida como Conhal. Do miradouro da Serrinha é-nos oferecida uma vista privilegiada sobre o Tejo e as Portas de Ródão. Depois desce-se até à foz da Ribeira do Vale e à ilha do Cabecinho, locais onde foram construídas duas pontes suspensas para viabilizar este percurso pedestre. Além dos corvos-marinhos, aqui o Tejo é também frequentado por cegonhas e sobrevoado por grifos. Na flora, a espécie a destacar é o zimbro.

Conhal - mapa percurso.png

Localização: Arneiro (concelho de Nisa, distrito de Portalegre)

Início e fim: Centro Interpretativo do Conhal (antiga escola primária)

Comprimento: 10 km

Duração: +/- 3 horas

Características especiais: É aconselhável fazer este percurso no sentido dos ponteiros do relógio. Tem um desnível entre a altura máxima e mínima de cerca de 140 metros e começa logo a subir, mas depois de duas ou três subidas ligeiras nesta parte inicial a maior parte do percurso é sempre a descer ou em plano, com mais uma inclinação ascendente suave no final, já no regresso à aldeia.

 

 

Caldeirão do Corvo

 

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Na ilha mais pequena dos Açores, a paisagem mais bonita e fora do vulgar é a do Caldeirão. Esta caldeira vulcânica resultante do colapso do topo do vulcão central que originou a ilha tem 320 metros de profundidade a aloja no interior uma lagoa pouco profunda recortada por várias elevações. A cor omnipresente é o verde e os únicos sons que se ouvem são os de uma ou outra ave, e os mugidos das vacas que por ali andam a pastar. O percurso é circular e começa descendo pelo trilho marcado até ao fundo durante cerca de 900 metros. Uma rocha marca a continuação do percurso no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, seguindo sempre de perto o contorno da lagoa durante mais ou menos 3 km, passando pelo Poço da Velha e até voltar ao mesmo local, para depois subir por onde descemos.

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Localização: ilha do Corvo (concelho de Vila do Corvo, Região Autónoma dos Açores)

Início e fim: Miradouro do Caldeirão

Comprimento: 4,8 km

Duração: 2,5 horas

Características especiais: O PR2 COR não é um percurso difícil, mas é traiçoeiro, pois há grandes áreas cobertas de musgão por baixo do qual o solo é predominantemente pantanoso; é preciso ter cuidado e ver muito bem onde pomos os pés, para não nos atolarmos na lama; aconselho umas botas de caminhada e um impermeável – o sol pode desaparecer de um momento para o outro e instalar-se o nevoeiro ou uma chuva miudinha e persistente que molha até aos ossos.

 

 

Levada das 25 Fontes e do Risco

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Não é segredo que a ilha da Madeira é cruzada por inúmeros canais artificiais que constituem uma enorme rede de irrigação (com cerca de 2000 km no total) concebida para transportar a água das nascentes até aos campos de cultivo. Algumas destas levadas são hoje percursos excelentes e adaptados para caminhar e observar alguns dos lugares naturais mais bonitos da Madeira. Os percursos PR6 e PR6.1 levam-nos ao longo de duas levadas diferentes até duas espectaculares quedas de água: a do Risco, uma fita de água que se precipita de muitos metros de altura, e a das 25 Fontes, com uma lagoa onde a água cai em inúmeros fios por uma parede rochosa. Passeamos entre urze e espécies vegetais típicas da floresta laurissilva da Madeira, por vezes formando túneis sobre as nossas cabeças, e sempre com o som da água a acompanhar-nos.

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Localização: Rabaçal (Paul da Serra), ilha da Madeira

Início e fim: casa de abrigo do posto florestal do Rabaçal

Comprimento: 9 km + 1 km (Levada do Risco)

Duração: 4 horas

Características especiais: Alguns trechos do percurso são junto a escarpas fundas, mas nestes locais o percurso está devidamente protegido por varandins em metal, não oferecendo qualquer risco. Por ser muito frequentado, pode haver algum “congestionamento” nos trilhos mais estreitos, e alterna subidas e descidas, pelo que apesar de não ser muito extenso, acaba por se demorar bastante tempo a percorrê-lo. O estacionamento para os carros é no miradouro do Rabaçal, acima da cota do percurso, e daí até à casa de abrigo são 2 km em estrada com inclinação – sempre a descer desde o miradouro até ao início do percurso, e logicamente sempre a subir no regresso. Para quem não quiser fazer estes quilómetros extra, existe uma carrinha que faz o transporte regular de passageiros neste trajecto.

 

 

Passadiços do Paiva

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Construídos em madeira, esta excepcional obra de engenharia proporciona-nos um passeio num ambiente ainda pouco deformado pela mão humana (se exceptuarmos os próprios passadiços, claro, e os incêndios recorrentes), junto a um rio conhecido pelas suas águas bravas e durante o qual é possível observar vários geossítios – como a Cascata das Aguieiras ou a Falha de Espiunca, para só mencionar dois deles. Sendo na sua maioria pouco exigente fisicamente, na extremidade do lado da praia do Areinho, junto à ponte de Alvarenga, existe uma enorme elevação que obriga a uma subida difícil, tanto num sentido como no outro. Por todos estes motivos, o percurso não é aconselhável a quem não esteja em boa forma física ou tenha dificuldades de mobilidade, ou vá com crianças muito pequenas.

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Localização: margem esquerda do Rio Paiva (concelho de Arouca, distrito de Aveiro)

Início: Praia fluvial do Areínho

Fim: Espiunca

Comprimento: 8,7 km

Duração: 2,5 horas

Características especiais: O percurso no sentido Areínho-Espiunca é o menos exigente a nível físico – “apenas” se sobem 310 degraus, contra 450 no sentido inverso. No entanto, se a intenção for percorrer os Passadiços nos dois sentidos a opção Espiunca-Areínho-Espiunca será a mais acertada, para não ser preciso enfrentar a subida mais íngreme quase no final, quando o corpo já grita por descanso. Existem parques de estacionamento e cafés com refeições rápidas nas duas extremidades dos passadiços. Percorrendo os passadiços num só sentido, é possível apanhar depois um táxi para o ponto onde se iniciou o percurso.

 

 

Rota das Aldeias do Xisto da Lousã

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O PR2 LSA leva-nos do Castelo da Lousã até às aldeias do Talasnal e Casal Novo, percorrendo uma parte da encosta da Serra da Lousã. É um trilho circular, mas devido aos seus grandes desníveis não se torna fácil percorrê-lo, tanto num sentido como noutro, e convém estar em relativamente boa forma física – existe por isso uma variante, o PR2.1, que encurta o trajecto, diminuindo assim o grau de dificuldade. Desenvolve-se tanto no meio de vegetação cerrada, cortada por belíssimos cursos de água, como em zonas abertas que proporcionam vistas para paisagens desafogadas, dando-nos ainda a possibilidade de visitar duas aldeias que estavam praticamente abandonadas até há não muitos anos, mas que estão agora a ser recuperadas para uma nova (e diferente) vida.

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Localização: Serra da Lousã (concelho da Lousã, distrito de Coimbra)

Início e fim: Castelo da Lousã

Comprimento: 6 km

Duração: 3 horas

Características especiais: As subidas totalizam 420 metros. Há certos pontos em que é necessário subir ou descer sobre pedras, que podem ficar bastante escorregadias sobretudo em épocas de muita humidade e chuva, pelo que é necessários usar calçado próprio para caminhada e com boa aderência, e ter cuidados redobrados nesses locais para evitar as quedas.

 

 

Trilho das Fisgas de Ermelo

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Com os seus 200 metros de altura, as Fisgas de Ermelo são uma das cascatas mais imponentes do nosso país. O percurso pedestre PR3 MDB foi concebido para as contornar e mostrar-nos de vários ângulos toda a sua beleza e a igualmente bela paisagem da Serra do Alvão que as rodeia. Não é no entanto um percurso fácil, sobretudo porque a primeira metade, entre a aldeia do Ermelo e até chegar perto do Rio Olo, é praticamente toda sempre a subir e em terreno aberto – o que se torna particularmente penoso em dias de sol e calor. Cerca de 1 km antes da aldeia de Varzigueto é possível encurtar o caminho em cerca de 2 km, atravessando o rio e indo directamente até às Piocas de Cima, subindo depois até apanhar novamente o trilho marcado. A partir daí o caminho é a descer e em zonas mais sombreadas, passando pelas Piocas de Baixo e por uma ponte sobre o rio, com mais uma subida no fim para chegar à aldeia. Vários miradouros assinalados no percurso constituem pontos privilegiados de observação da cascata.

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Localização: Ermelo (concelho de Mondim de Basto, distrito de Vila Real)

Início e fim: Ermelo

Comprimento: 13 km

Duração: 4,5-5 horas

Características especiais: O desnível total ultrapassa os 640 metros, com subidas e descidas exigentes. As Piocas são pequenas lagoas escavadas na rocha pelas águas da cascata, e tanto nas de cima como nas de baixo é possível tomar banho quando o tempo o permite – as águas são límpidas e frias, e apenas é preciso ter cuidado com o fundo escorregadio nalguns sítios.

 

 

 (publicado na rubrica Viagens da revista Inominável nº 12)

 

Em Veneza, sem carteira - uma crónica de viagem

 

Há viagens que têm tudo para correr mal, mas afinal correm tão bem que até parece impossível – e deixam saudades. Em Junho do ano passado, acabadinha de chegar a Veneza, descobri que não tinha levado a carteira. Não seria grave se lá dentro não tivesse o dinheiro e todos os cartões bancários. A única coisa que escapou – e por essa razão não dei pela falta dela mais cedo – foi o cartão do cidadão, que eu tinha colocado numa divisória separada da bolsa que invariavelmente levo para férias. De resto, não tinha comigo nem a mais pequenina moeda, nem um único cartão. Sim, riam-se à vontade. Eu, a maníaca da organização, a rainha da prevenção contra todos os riscos, a maluquinha das listas, esqueci-me da carteira em casa e só dei por isso já bastante depois de chegar ao meu destino. Como ironia, não está mal…

 

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A razão do meu esquecimento foi simples (mas mesmo assim imperdoável). O voo para Veneza saía muito cedo de Lisboa e eu ia ter de me levantar de madrugada. Chegada na véspera de uma viagem aos Açores, tira roupa da mala, lava roupa, apanha roupa, volta a fazer a mala… o dia foi uma canseira. Finalmente, tudo já arranjado e eu cedo na cama para ainda dormir alguma coisa, vejo uma mensagem do alojamento a ensinar o melhor caminho para lá chegar a partir do aeroporto. Aí percebi que seria preferível ir de barco do que de autocarro, porque uma das linhas pára em Fondamente Nove, a menos de cinco minutos a pé do B&B Corte dei Miracoli. Descobri também que comprando os bilhetes online a viagem ficava significativamente mais barata. Só que o raio do site estava meio encravado e acho que perdi à vontade mais de uma hora até conseguir finalmente fazer a marcação. Para pagar tive obviamente de ir buscar a carteira e depois, cansada e já em pânico com as horas que (não) ia dormir, larguei-a em cima da mesa-de-cabeceira. Já estão a calcular o resto, não estão? Três horas depois, quando me levantei, um olho aberto e outro fechado, nunca mais me lembrei da dita cuja e só dei pela falta dela em Veneza quando precisei de pagar o almoço.

 

No entanto, o que poderia ser dramático se eu tivesse ido sozinha, resolveu-se facilmente com a boa vontade das duas amigas que foram comigo e me disseram logo que não me preocupasse, que elas pagavam tudo e até me emprestavam dinheiro para as minhas compras. Afinal, o mais caro – voos e alojamento – já estava pago antecipadamente, e portanto o resultado do meu esquecimento não era assim tão grave. O que seria de nós sem amigos, não concordam? Claro que ainda hoje falamos disso, e sou motivo de gozo geral para quem me conhece. Mas caramba, no melhor pano cai a nódoa, certo?

 

Um mês antes desta viagem, Veneza nem sequer estava nos meus planos remotos. Na verdade, eu estava mesmo era a planear uma viagem às Cotswolds, em Inglaterra. Muito parecido… Mas os dias que me sobravam para estas férias eram poucos e acabei por perceber que não iria dar para fazer o que queria. Não sendo uma das minhas viagens de sonho, era a de uma amiga, e numa “hora de boa vontade” decidi propor-lhe irmos a Veneza. Outra amiga com quem costumamos viajar decidiu também de repente juntar-se a nós, e foi assim que me encontrei numa solarenga manhã de Junho na Sereníssima com as minhas duas amigas… e sem carteira.

 

Felizmente, o meu despassaramento não tinha abrangido o smartphone, que o Google Maps é para mim a melhor coisinha que inventaram depois do pão fatiado, e não passo sem ele nas minhas viagens. Mala na mão direita, smartphone na esquerda, o Maps a mostrar o percurso, foi num instante que chegámos ao alojamento – que fica realmente muito perto de Fondamente Nove. Uma ruela estreita (como todas em Veneza), um portão alto de ferro, uma campainha para tocar. Uma vez, duas vezes, três vezes… e ninguém atendia. Smartphone mais uma vez em acção, liguei para o número de telefone de contacto que tinha recebido na mensagem (às vezes tento lembrar-me de como era viajar na época pré-telemóvel; eu sei que viajei bastante antes deles aparecerem, e nunca houve azares por aí além, mas sinceramente hoje em dia não concebo viajar como viajo sem ter um bichinho destes). A voz que me atendeu do outro lado era, como eu já tinha suspeitado pelas mensagens, brasileira. Que estava no hospital porque tinha escorregado nas escadas e magoado um pé, mas não iria demorar. Aproveitei para a avisar de que então íamos almoçar ali perto, para fazer tempo – e na verdade também porque a fome era tanta que já não víamos nada à frente.

 

Um delicioso spaghetti alle vongole e uma panacota de ir às lágrimas depois (com molho de amoras e verdadeiramente pecaminosa de tão boa que era), comidos à sombra na esplanada do Ristorante La Colonna, ligou finalmente a Cláudia para dizer que estava à nossa espera no alojamento. Por esta altura eu já tinha descoberto que estava sem carteira, mas nem isso nem o terceiro andar sem escadas do B&B nos tirou a boa disposição. O Corte dei Miracoli fica num antigo palazzo e não tem elevador. Mas tem um pequeno jardim depois do portão de ferro, e a seguir uma bela escadaria de pedra com patamares envidraçados e decorados a preceito – mais ou menos o que se espera de um edifício italiano. E teve também para nós a cereja no topo do bolo: um quarto com vista sobre um canal onde passam constantemente gôndolas com turistas em passeio. Cliché, mas encantador. Para além disso tudo, tem a simpatia e eficiência da Cláudia, e tem também um belíssimo pequeno-almoço incluído, tomado todas as manhãs na grande mesa de madeira da cozinha com o sol a entrar pelas janelas.

 

LA COLONNA

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B&B CORTE DEI MIRACOLI

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Mesmo não estando nos meus planos, apaixonei-me por Veneza. Não foi amor à primeira vista, mas também não precisei de muito: bastou-me chegar à ponte do Rialto. Sempre cheia de gente, é quase preciso tirar senha para conseguir um lugarzinho junto à balaustrada para tirar a selfie da ordem. Mas estar ali em cima a olhar para a imensidão do Canal Grando (como lhe chamam os venezianos), conhecer sem filtros o verde único da sua água, assistir ao vivo ao movimento incessante de vaporettos, gôndolas, barcos a motor e até mesmo kayaks, que sobem e descem e cruzam esta artéria coronária da cidade, as cores desmaiadas dos edifícios marcados pela água, tudo aquilo banhado pela luz meio velada de um sol já em curva descendente… Perante aquilo, que interessavam os magotes de pessoas à minha volta, as poucas horas dormidas ou a carteira esquecida? Quando nos apaixonamos por uma pessoa, tudo o resto perde importância e fica em segundo plano ou passa despercebido. Com os lugares é igual.

 

RIALTO

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Em Veneza, sê veneziano? Difícil, já para não dizer impossível para quem está na cidade pela primeira vez. Os venezianos sabem para onde vão e seguem decididos para o seu destino, pedindo licença aos turistas paspalhões, que julgam que as ruelas estreitas são só para eles e andam em magote e a passo de caracol. Nós, turistas paspalhonas, andávamos com um olho no ar a tentar ver os nomes das ruas e o outro fixo no círculo azul do Maps, que fazia um enorme esforço para receber o fraco sinal de satélite que mal penetra naquele emaranhado de edifícios. Como orientar-nos num espaço entre os telhados tão estreito que nem conseguimos ver o sol? A alternativa é perdermo-nos, e na verdade essa é uma das melhores actividades a que podemos dedicar-nos em Veneza. É perdendo-nos que descobrimos ruas que terminam na água, um ângulo diferente de uma hiper-escultura em exibição, janelinhas decoradas com vasos coloridos, um sottoportego que desemboca numa praça sem turistas (excepto nós, claro! E porque será que temos esta mania de achar que somos diferentes dos outros?). É perdendo-nos que temos a possibilidade de conhecer aquele canal com uma atmosfera diferente, a pontezinha meio escondida por onde pouca gente passa, alguns edifícios mais degradados mas ainda assim plenos daquele charme meio decrépito e afanado que a cidade tão orgulhosamente ostenta. 

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Veneza - janela

 

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Difícil será ser veneziano, certamente, porque a cidade continua a lutar com o excesso de turismo: qualquer coisa como 60 a 70 mil visitantes por dia na época alta, contra os apenas 55 mil habitantes do centro histórico (e este número tem vindo a reduzir). Os preços exagerados da habitação e da comida, inflacionados pela procura turística, fazem com que ser veneziano seja cada vez menos viver em Veneza e mais nos arredores. E ver a “nossa casa” invadida por hordas de bárbaros que julgam que a cidade é só para eles passearem deve ser um bocado custoso de engolir…

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Bom, mas numa coisa pelo menos pudemos ser um bocadinho venezianas: na comida. Os nossos magros ordenados de portuguesas não chegam para grandes extravagâncias, e em Itália nada é barato, por isso houve que tentar comer razoavelmente mas sem nos arruinarmos. A solução? Socorrermo-nos das casas onde comem os locais: as osterias, que são basicamente casas de petiscos em que tanto é possível comer pratos confeccionados como sanduíches; e as rosticcerias, uma mistura de churrasqueira com restaurante take away. O local onde comemos mais vezes foi a Osteria da Baco, situada muito perto da Praça de São Marcos, e na nossa deambulação pelo Ghetto, quase no extremo norte do bairro de Cannaregio, almoçámos na esplanada da Osteria Ai 40 Ladroni – que na realidade é mais um restaurante do que uma osteria. Perto do Rialto, e recomendada pela Cláudia, a Rosticceria S. Bartolomeo (que também tem o nome de Rosticceria Gislon, vá-se lá saber o porquê desta dupla denominação…). Quanto a restaurantes, e além do La Colonna onde comemos a primeira refeição, jantámos no Tre Spiedi, também na zona do Rialto. E em todos estes sítios comemos bem, se bem que eu sou suspeita porque escolhi quase sempre pratos de pasta (sou doida por massas!), e qualquer tasquinha italiana cozinha massa tão bem ou melhor do que grande parte dos bons restaurantes por esse mundo fora. A excepção foi o péssimo (em todos os aspectos) restaurante Antichi Splendori – tivesse eu tido o cuidado de olhar antes para o Tripadvisor e nunca teria passado da porta para dentro. Só que o raio do restaurante fica muito bem localizado, na Calle Larga San Marco, e nós tínhamos passado a manhã primeiro na fila para entrar na Basílica de São Marcos – que mesmo pagando o bilhete de entrada rápida (uns meros 2€ por pessoa) há sempre uma bela fila – e depois a percorrer o Palácio Ducal durante um bom par de horas; estávamos por isso esfaimadas, os preços pareciam razoáveis, e caímos na asneira de entrar. Além do ambiente ruidoso e muito abafado (estava cheio de gente, tudo turistas pategos como nós, e dava para perceber que muitos deles também não estavam satisfeitos), e da comida que mostrou não ser mais que sofrível, o pior de tudo foi mesmo o péssimo aspecto e a antipatia do empregado que nos atendeu. Despachámo-nos o mais depressa que pudemos e a seguir fomos consolar-nos com um belo gelado no Caffè Lavena, um dos mais icónicos e antigos cafés da Praça São Marcos. Um gelado italiano vale por dez más refeições e cura qualquer irritação, e o interior do Lavena, com a luz dos lustres e candelabros a reflectir-se no omnipresente dourado, é absolutamente encantador.

 

OSTERIA DA BACO

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OSTERIA AI 40 LADRONI

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ROSTICCERIA S. BARTOLOMEO

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TRE SPIEDI

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CAFFÈ LAVENA

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A envolvente da Piazza e da Piazzetta San Marco ocupam à vontade todo um dia de visita, com os seus monumentos e museus. E se achei a Basílica bem mais interessante por fora do que por dentro, já o Palácio Ducal teve em mim o efeito inverso. Da fachada exterior, em que as colunas e arcos ogivais típicos do gótico veneziano que hoje vemos são na sua maioria cópias executadas a partir de finais do séc. XIX (as peças originais são exibidas no Museo dell’Opera, dentro do Palácio), apenas a magnífica Porta della Carta é um presságio do que nos aguarda no interior. Entramos por um acesso que nos leva a um enorme e esplendoroso pátio, passamos pelas escadarias e por um sem número de salas com paredes cobertas de cenas grandiosas pintadas e tectos trabalhados com frisos, altos-relevos e pinturas, atravessamos o interior da Ponte dos Suspiros e depois descemos às lúgubres instalações onde mantinham os presos de condição inferior. Pelo caminho, as janelas dos sucessivos aposentos vão-nos mostrando ângulos diferentes do lado sul da laguna.

 

PRAÇA DE S. MARCOS  

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BASÍLICA DE S. MARCOS

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PALÁCIO DUCAL

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PONTE DOS SUSPIROS

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Mas é claro que as melhores vistas sobre toda a cidade são as que temos do topo do Campanile. Se nessa altura eu não estivesse já rendida a Veneza, de certeza que não teria resistido ao vê-la de cima. Daqui não conseguimos distinguir ruas nem canais, e a sensação é a de que as incontáveis construções brotaram como cogumelos furando as ilhas, cada edifício com uma forma e uma altura diferentes, entremeados com torres e cúpulas de igrejas, às vezes uma pequena mancha vegetal, cada ilha um aglomerado compacto rodeado pela massa de água da laguna, a sua superfície plana encarquilhada pela ondulação gerada pelos barcos rápidos que nela se deslocam em todas as direcções.

 

CAMPANILE

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Veneza - laguna e Dorsoduro

 

Veneza - Praça São Marcos

 

Veneza vista do Campanile

 

Veneza vista do Campanile

 

Veneza vista do Campanile

 

Veneza vista do Campanile

 

E depois há a arte. Os monumentos e as igrejas, as fachadas dos palazzi, as esculturas expostas inesperadamente em qualquer tipo de local – um jardim, as varandas de um hotel, a entrada de um edifício – os desenhos criados com pedrinhas no piso de uma praça, as exposições de todos os géneros. A cultura artística é parte integrante de Veneza, e fiquei encantada com essa facilidade de convivência, com a enorme quantidade de exposições de livre acesso para o público, e com a descoberta de obras surpreendentes até em situações aparentemente triviais, como aconteceu com a exposição organizada pela conhecida marca de café Illy, onde se conjugavam vários ambientes de grande impacto visual e sonoro, cada um deles associado de forma mais ou menos surreal às originais e icónicas chávenas de café daquela marca. Absolutamente fora de série.

 

 

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EXPOSIÇÃO ILLY - THE DISH RAN AWAY WITH THE SPOON concebida por ROBERT WILSON

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Veneza - exposição Illy

 

Foi ainda sob o encantamento desta exposição que passámos por uma outra experiência que afectou igualmente todos os nossos sentidos, embora de maneira um bocadinho… digamos que diferente. Quase de um momento para o outro, começou a soprar um vento forte e o céu passou a um tom de cinza carregado e ameaçador. Os empregados de um restaurante por onde passámos corriam de um lado para o outro carregando as mesas e cadeiras da esplanada para o interior – e nós, tolas e desconhecedoras do humor climático da Veneza, achámos graça a tanta pressa. Estávamos no extremo oeste do Dorsoduro, na Punta della Dogana, e quando sentimos os primeiros pingos de chuva achámos que seria suficiente abrigarmo-nos por baixo da cobertura larga suportada por várias colunas do edifício que se ergue no local. Santa ingenuidade! Os pingos de chuva não tardaram em transformar-se em dilúvio, e o vento deu a volta e começou a soprar furiosamente do lado onde nos encontrávamos, levantando ondulação na laguna e empurrando contra nós um verdadeiro muro de água a que nenhum impermeável ou chapéu-de-chuva conseguia resistir. A chuva vinha de cima, de baixo, dos lados, escorria pelas paredes onde nos encostámos, e era tanta que nós mal conseguíamos ver o Campanile, localizado a umas poucas dezenas de metros, do outro lado do canal. A tempestade diluviana terá durado uns cinco minutos, mas ao fim do primeiro já nós estávamos encharcadas até aos ossos – nós e as muitas pessoas que também ali se abrigaram, e muitas outras que fomos encontrando depois no caminho de regresso ao alojamento. Havia até quem varresse água de dentro de lojas. Diz quem conhece que estes temporais súbitos e rápidos são típicos de Veneza, mas a verdade é que pelos vistos não fomos só nós a sermos apanhadas de surpresa naquele dia. Para mim e para as minhas amigas, essa tarde ficou marcada como aquela em que apanhámos a maior molha das nossas vidas.

 

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Na verdade, seja de que maneira for, Veneza marca. Há quem diga que marca pelo cheiro menos agradável dos canais, mas eu tive sorte porque o meu nariz (às vezes tão sensível) não se sentiu minimamente ofendido durante os dias que lá passei. Sim, Veneza tem um odor particular – que é na realidade muito superior ao característico cheiro a gases de escape da maioria das cidades. E é claro que também marca visualmente, pela cor, pelo movimento, pela beleza frágil e etérea que os meus olhos foram descobrindo diariamente. Mas o que mais me marcou, aquilo que a torna ainda mais especial e única, é a sua sonoridade. Não existe aquele ruído de fundo habitual, aquele barulho de motores e travagens e buzinas característicos de praticamente qualquer cidade. A água de onde Veneza se ergue parece “abafar” todos os sons, mesmo os dos barcos a motor – que de qualquer modo nunca podem andar a grandes velocidades. Mesmo inundada pelos milhares de visitantes, ou nas horas mais movimentadas, quando se enche com as pessoas que vêm de manhã trabalhar ou a abandonam ao fim do dia, ainda assim Veneza mantém a atmosfera que justifica o seu cognome de Serenissima.

 

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Como eu disse no início, há viagens que têm tudo para correr mal. Mas depois correm ainda melhor do que esperávamos. E sabem a pouco.

 

Veneza - gôndola

 

 

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INOMINÁVEL #13

 

A esperança floresce mesmo nas condições mais adversas, e assim é a INOMINÁVEL. Acaba de ser publicado o n.º 13 da revista, com muitas novidades, como sempre. Curiosos para saberem por onde é que vamos viajar desta vez? É só espreitarem aqui...

 

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Croácia - diário de viagem XV - Zadar ou o apelo à tranquilidade

 

A cidade de Zadar, situada mais ou menos a meio caminho entre Dubrovnik e Zagreb, foi o destino escolhido para conhecermos nos dois últimos dias da nossa viagem pela Croácia.

 

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Os 350 km entre Dubrovnik e Zadar fazem-se em cerca de 4 horas, grande parte delas sempre em auto-estrada, pelo que ao início da tarde já estávamos a chegar.

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Tínhamos reservado alojamento nos Apartamentos Kolovare Beach, numa rua paralela à que acompanha a zona a que pomposamente chamam “praia” – e que pelos nossos padrões é apenas uma nesga de areão grosso no meio de árvores e junto à água, facto que não nos incomodou minimamente porque praia era algo que não tencionávamos fazer ali. Estes apartamentos ficam a poucos minutos a pé da parte mais antiga de Zadar, e nas traseiras têm uma espécie de terreiro a que só se acede por um portão devidamente fechado, onde o carro ficou em sossego até voltarmos a precisar dele para deixar a cidade.

 

Apesar de o edifício já ser antigo, os apartamentos são modernos e suficientemente espaçosos, e têm uma pequena kitchenette equipada com tudo o que é necessário. Foram, mais uma vez, uma boa escolha.

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Zadar é uma cidade diferente, uma espécie de anti-clímax do bulício e da aglomeração de Dubrovnik. Situada no extremo norte da Dalmácia, numa zona costeira que inclui mais de 300 ilhas e ilhotas, acumula nos seus anais 3000 anos de história tumultuosa e dinâmica. Habitada pelos Romanos, destruída pelos Cruzados e pelos venezianos, governada depois por austríacos, franceses e italianos, foi também uma das cidades fortemente atacadas em Outubro de 1991 pelos rebeldes sérvios e o seu património cultural sofreu avultados danos. Mas, tal como no passado mais remoto, Zadar parece conseguir encontrar sempre uma forma de renascer das cinzas e se reinventar. É actualmente uma cidade moderna e arejada mas não descaracterizada, conseguindo manter a patine que lhe foi dada pelos séculos em feliz e harmoniosa convivência com novos e arrojados motivos de atracção.

 

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A zona histórica da cidade fica numa península, que se percorre de sul para norte quando entramos pela mais impressionante das oito portas ainda existentes na muralha que rodeia parcialmente esta área: a Porta da Terra. Situada junto ao pequeno porto de Foša, foi construída em estilo renascentista no séc. XVI por um arquitecto veneziano e apresenta a particularidade de ter três arcos – o maior ao centro, para a passagem de veículos, e dois mais pequenos a ladeá-lo, por onde passam os peões.

 

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Seguimos em frente por uma rua estreita, que uns metros à frente passa a ser exclusivamente pedonal, entre fachadas de igrejas com pormenores góticos, arcos que dão acesso a pátios interiores e escadinhas, lojas de todas as espécies e esplanadas convidativas.

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De repente, a rua desemboca num espaço tão amplo que até surpreende: é o Fórum, onde vestígios de ruínas romanas coabitam com o ex libris da cidade, a imponente Igreja de São Donato – construída no séc. IX e um dos maiores exemplos da arquitectura bizantina na Dalmácia –, com a Torre do Sino que se ergue por trás da catedral de Santa Anastácia, e com a Igreja de Santa Maria e a sua Torre de Koloman.

 

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Atravessando o Fórum para o lado esquerdo entramos na Riva, um extenso passeio limitado em todo o comprimento de um dos lados por um parque e alguns edifícios apalaçados, e do outro pelo Adriático, com o recorte da ilha Ugljan ao fundo.

 

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É na ponta noroeste da Riva que está uma das duas mais modernas atracções de Zadar, e a razão principal que me tinha levado a incluir a cidade na nossa viagem pela Croácia: o Órgão do Mar (Morske Orgulje, em croata). Concebido em 2005 pelo arquitecto Nikola Bašić, devidamente assessorado por vários peritos, poderia à primeira vista passar por uns simples degraus de mármore que descem até à água, como que em prolongamento da linha costeira. Poderia… não fossem dois “pequenos” pormenores. O primeiro é obviamente o som. Começamos a ouvi-lo ainda longe, uma espécie de melodia rouca que vai subindo de tom à medida que nos aproximamos. Sob aqueles 70 metros de degraus largos de aspecto inofensivo esconde-se uma interessante obra de engenharia: os degraus inferiores deixam entrar água e ar, que é encaminhado para câmaras de ressonância – 35 tubos de diferentes comprimentos, diâmetros e inclinações, orientados verticalmente em relação à costa, terminando numa espécie de corredor, cada tubo munido de apitos que reproduzem 7 acordes de 5 tons – e depois empurrado pela água novamente para o exterior através de orifícios talhados na parte superior das escadas. Os sons produzidos são meio irreais e absolutamente hipnóticos, convidando à contemplação e à tranquilidade. Como a ondulação do mar está constantemente em mudança, a melodia produzida pelo órgão nunca é exactamente a mesma e cada conjunto de sons é único e virtualmente irrepetível.

 

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O que nos leva ao segundo pormenor: o grande grupo de pessoas que ali se junta, sobretudo ao final do dia para observar o pôr-do-sol. A experiência é única. E depois, quando o sol já se esconde, começa outra experiência. Alguns metros ao lado, mais uma instalação para despertar os nossos sentidos e o nosso encantamento. Também concebido por Bašić, a “Saudação ao Sol” é um painel circular colocado no chão, com 22 metros de diâmetro e formado por 300 placas de vidro e células solares, que “acordam” quando a noite cai e começam a emitir intermitentemente luzes de cores variadas. O conjunto está programado para interagir com o ritmo das ondas e dos sons emitidos pelo Órgão do Mar. Além disso, funciona como uma espécie de pequena fábrica de energia, produzindo cerca de 46,500 kWh por ano, usados não só para a própria instalação, como também para a iluminação de toda a zona da marginal. O anel metálico que limita o painel tem gravados os nomes dos santos das antigas e novas igrejas da península, os dias em que eles são celebrados e alguns pormenores astronómicos associados a esses dias. Também incrustados no chão, outros painéis mais pequenos mimetizam o sistema solar e compõem uma espécie de caminho de ligação entre as duas instalações.

 

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Estas duas atracções formam entre si um conjunto absolutamente original, e o seu efeito global é incrível, como podem ver neste vídeo:

 

Seguindo o conselho que nos tinha sido dado pela funcionária da agência que nos levou ao apartamento, o restaurante que escolhemos para o nosso último jantar em terras croatas foi o 2Ribara. Localizado na Blaža Jurjeva, uma ruazinha perpendicular à rua Borelli (uma das que ficam no enfiamento da Porta da Terra), tem uma decoração moderna, sóbria e depurada, mas com um ambiente simples e simpático. A comida é de boa qualidade e bem confeccionada mas sem complicações, com predominância de grelhados, e o serviço muito atencioso.

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No regresso ao apartamento, fizemos um desvio para a esquerda por umas escadinhas que sobem dentro do arco de um edifício colado à Porta da Terra. Este é um dos acessos à Praça dos Cinco Poços, onde o bar-discoteca ao ar livre Svarog já se mostrava equipado a rigor, iluminado por luzes de várias cores e pronto a acolher os noctívagos.

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Quanto a nós, o dia seguinte ia ser bastante longo e a promessa de uma boa noite de sono no conforto do apartamento falava mais alto do que a vontade de diversão, pelo que não nos demorámos por ali.

 

 

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