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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Um roteiro na Roménia

 

A Roménia não é um dos destinos de viagem mais populares entre os portugueses – mas devia ser. Tem uma diversidade paisagística como poucos países na Europa e um património natural e arquitectónico invejável. Com uma área territorial quase três vezes maior que a nossa e um percurso histórico agitado, oferece a quem o visita uma variedade cultural tão grande que às vezes se torna difícil conseguir “absorver” tudo.

 

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Tal como sucedia com o nosso país até há relativamente pouco tempo – para muitos ainda éramos um país de mulheres de preto e com bigode, pescadores descalços, e burros como meio de transporte (sim, estou a exagerar, mas não muito…) – a impressão que tenho é de que existe um desconhecimento enorme em relação à Roménia de hoje, à mistura com uma série de ideias pré-concebidas sobre o país e quem lá vive. Somando a isto a reduzida divulgação turística (e não só) e a ausência de acontecimentos “bombásticos” que tragam o país para as bocas do mundo (pelas piores razões, como geralmente acontece), a Roménia acaba por ficar perdida entre tantos destinos que fazem parte do nosso imaginário de lugares a visitar.

 

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Há tempos falei aqui no blogue sobre várias razões para visitar a Roménia. Hoje vou partilhar o roteiro da viagem que fiz, e que excedeu de longe as minhas expectativas e as de quem foi comigo. Foram dezasseis dias a percorrer de carro uma boa parte do país – mais de 2 mil quilómetros – e mesmo assim ainda ficou muito por ver.

 

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Dia 1

 

O voo para Bucareste foi nocturno e chegámos por volta das 5 da manhã (hora da Roménia: TMG +2). Táxi para o hotel (localizado perto do Parlamento), duas horinhas de descanso, pequeno-almoço e pusemo-nos a caminho para visitar o centro histórico da cidade. À tarde visitámos o Parque Çismigiu e à noite ainda demos mais uma volta pelo centro histórico e pela Calea Victoriei.

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O que vimos:

Centro histórico – Banco Nacional – Antigo Palácio da Bolsa – Igreja russa –Hospital Colţea – Museu Municipal – Teatro Nacional – Universidade de Arquitectura – Igreja Italiana (católica) – Ateneu Romano – Praça da Revolução – Igreja Creţulescu – Parque Çismigiu.

 

Onde ficámos:

Volo Hotel (3*) - Bulevardul Schitu Măgureanu 6, București 050026

 

Onde comemos:

Terasa Gradina Çismigiu (no Parque Çismigiu)

Hug Café - Schitu Magureanu, București 050026 (por baixo do Volo Hotel)

 

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Dia 2

 

Passámos o dia todo em Bucareste. De manhã visitámos o impressionante Palácio do Parlamento (as visitas são guiadas e com hora marcada, pelo que convém reservar de véspera – pedimos no hotel para nos fazerem isso) e depois passeámos a pé para conhecer mais um pouco desta cidade, que é bem mais interessante do que imaginávamos.

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O que vimos:

Palácio do Parlamento – Igreja Sfântul Spiridon Velha – Mosteiro de Antim – Igreja Sfântul Spiridon Nova – Igreja Bucur Ciobanul – Igreja Stavropoleos – Calea Victoriei – Igreja Zlătari – Passagem Macca-Villacrosse

 

Onde comemos:

Caru’ cu Bere - Strada Stavropoleos 5, Centrul Vechi, Bucureşti

Aio Grand Caffe & Bistro - Bulevardul Natiunile Unite nr 1, Bucureşti

 

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Dia 3

 

Carro alugado nas mãos, foi altura de partir para outras paragens. O destino final era Sibiu, mas o ponto alto do dia seria percorrer os 150 km da Transfagaraşan (90 dos quais são de curvas e contracurvas seguidas), uma das estradas mais icónicas do mundo e sonho de muitos motards – algo cansativa para quem conduz (eu que o diga…), mas com a paisagem a compensar cada quilómetro. Antes, paragens em Targovişte e em Curtea de Argeş, cuja catedral foi uma das melhores surpresas desta viagem.

 

Total do dia: cerca de 350 km percorridos

 

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O que vimos:

Em Targovişte: Câmara Municipal – Conjunto Monumental do Paço Real (ruínas do Palácio do Príncipe Petru Cercel, Torre Chindia, Igreja Mare Domnească, Igreja Sfânta Vineri)

Em Curtea de Argeş: Catedral e Mosteiro

Na Transfagaraşan: Lacul Vidraru – Cascata Capra

 

Onde ficámos:

Apartament Piaţa Mica - Piata Mica, nr. 6, 550182 Sibiu

 

Onde comemos:

Restaurant Union - Piata Mica Nr 6, Sibiu

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Dia 4

 

Plano principal para o dia: visitar o Castelo de Corvinilor (também conhecido como Castelo de Hunedoara). De Sibiu a Hunedoara são apenas 130 km, e o Castelo de Corvinilor é um dos mais fotografados e famosos de toda a Roménia. De regresso a Sibiu, um pequeno desvio para visitar a igreja fortificada de Câlnic, que pertence ao conjunto das sete igrejas romenas deste tipo classificadas como Património Mundial pela Unesco.

 

Total do dia: 280 km

 

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O que vimos:

Castelo de Corvinilor – Igreja fortificada de Câlnic

 

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Dia 5

 

Dia inteiro dedicado a Sibiu. Primeiro percorremos a pé o centro da cidade e depois fomos visitar o Museu Astra da Civilização Tradicional, um museu etnográfico ao ar livre espalhado por um enorme parque com um lago e situado à entrada da cidade, a apenas 8 km do centro. Absolutamente recomendado.

 

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O que vimos:

Casas tradicionais (casas “com olhos”) – Piața Mică – Piața Mare – Igreja Católica Sfânta Treime – Museu Nacional Brukenthal – Câmara Municipal – Torre Olarilor e Torre Dugherilor – Museu de História Natural – Igreja Católica Sfântul Francisc – Casa com Cariátides – Catedral Ortodoxa Sfânta Treime – Catedral Luterana Sfânta Maria – Ponte Minciunilor (Ponte dos Mentirosos) – Museu Astra da Civilização Tradicional

 

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Dia 6

 

Um dia passado em viagem até quase à fronteira com a Ucrânia. Foram 335 km até Vişeu de Sus, no Condado de Maramureş, com passagem em Cluj-Napoca e uma pequena paragem em Dej para comer e meter combustível no carro. Em Vişeu de Sus comprámos bilhetes para o Mocăniţa (depois vão perceber o que é) e seguimos até Ruscova, onde andámos às voltas a tentar encontrar o caminho para o alojamento (porque estava mal sinalizado e ninguém sabia indicar-nos o local). Lá conseguimos que alguém nos desse alguma pista e 20 minutos e 5 km de caminho de cabras depois (a maldizer o local que tínhamos escolhido e a fazer planos para não passar ali mais do que uma noite) chegámos finalmente a um dos alojamentos mais originais onde já fiquei até hoje, mesmo à entrada do Parque Nacional Munţii Maramureşului. Claro que acabámos por ali ficar as 3 noites que tínhamos previsto…

 

Total do dia: 420 km

 

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Onde ficámos e comemos:

Conacul Drahneilor - Ruscova, Valea Dragmirov, Jud. Maramureş

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Dia 7

 

Mocăniţa é uma das maiores atracções da região de Maramureş: um passeio nos Cárpatos junto ao rio Vaser em comboios a vapor especiais recuperados e adaptados para o efeito. São duas horas de viagem pela floresta para cobrir os 21 km até à estação de Paltin, com paragem prolongada para comer e passear pelos trilhos antes de regressar pelo mesmo caminho. O Mocăniţa é operado a partir da estação de Vişeu de Sus entre Março e Novembro, e convém reservar ou comprar directamente os bilhetes com alguma antecedência, pois têm muita procura. Foi uma forma diferente de passar o dia, e ao fim da tarde ainda fomos dar uma volta até Borşa, localidade a 22 km de Vişeu que serve de base a uma estância de esqui – mas que não tem na verdade grande interesse no Verão.

 

Total do dia: 105 km (de carro) + 43 km (de comboio)

 

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Dia 8

 

Sapanţa é uma pequena localidade 65 km a oeste de Ruscova e dela não se falaria se não fosse por um pequeno pormenor: o seu cemitério. Conhecido por Cemitério Feliz, é absolutamente original e único, e de visita obrigatória. Mas os pontos de interesse de Maramureş não se ficam por aqui. Outra das características marcantes da região são as suas igrejas de madeira, por isso a tarde foi passada a conhecer algumas delas, terminando no complexo do Mosteiro de Bârsana.

 

Total do dia: 255 km

 

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O que vimos:

Cemitério Feliz de Sapanţa – Igreja de Hărniceşti – Igreja Cuvioasa Paraschiva em Deseşti - Igreja Sf. Arhangheli Mihail si Gavril em Surdeşti – Igreja Sf. Nicolae em Budești-Josani – Mosteiro de Bârsana

 

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Dia 9

 

Dia de ir conhecer outra região: a Bucovina, no nordeste do país. É aqui que se encontram os famosos mosteiros pintados, cada um com uma cor dominante, todos eles fascinantes. Uma primeira e breve paragem no Mosteiro de Prislop, isolado nas alturas alguns quilómetros a seguir a Borşa, no troço que tem o nome de Pasul (Passagem) Prislop. Depois, já na Bucovina, visitámos os mosteiros em Vatra MoldovițeiSucevițaArbore antes de chegarmos a Gura Humorului, onde nos alojámos.

 

Total do dia: 260 km

 

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O que vimos:

Mosteiro de Prislop – Mosteiro de Moldovița – Mosteiro de Sucevița – Mosteiro de Arbore

 

Onde ficámos e comemos:

Hilde’s Residence - Strada Șipotului 2, Gura Humorului 725300

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Dia 10

 

A manhã foi passada a visitar dois outros mosteiros pintados, Humorului e Voroneț. Depois iniciámos a viagem para sul, passando pela cidade de Piatra Neamț. Parámos no desfiladeiro de Bicaz e no Lacul Roşu (Lago Vermelho, o maior lago nos Cárpatos de leste), duas paisagens de montanha diferentes mas igualmente fascinantes. A paragem final foi pouco antes de chegar a Gheorgheni, para passarmos a noite.

 

Total do dia: 210 km

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O que vimos:

Mosteiro de Humorului – Mosteiro de Voroneț – Desfiladeiro de Bicaz – Lacul Roşu

 

Onde ficámos e comemos:

Red Lake Inn - Paraul Cianod, 535500 Gheorgheni

 

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Dia 11

 

Dia dedicado ao descanso, com um pequeno passeio pelas redondezas do alojamento e uma saída de carro para ir lanchar a Lăzarea, uma vila a cerca de 13 km de Gheorgheni.

 

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O que vimos:

Castelo de Lázár

 

Onde comemos:

Pálinkázó - Lăzarea 537135

 

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Dia 12

 

Continuámos para sudoeste tendo Sighişoara como destino final do dia. Antes de entrarmos na cidade fizemos um desvio até Biertan para visitar mais uma igreja fortificada da Transilvânia.

 

Total do dia: 206 km

 

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O que vimos:

Em Biertan: igreja fortificada

Em Sighişoara: Turnul cu Ceas (Torre do Relógio) – Turnul Fieralilor – Biserica Mănăstirii – Casa onde nasceu Vlad Dracul – Casa cu Cerb – Catedral católica Sf. Iosif – Turnul Cizmarilor

 

Onde ficámos:

Vila Mara - Strada Codrului, No. 6, Sighişoara

 

Onde comemos:

Taverna Românească - Piața Cetății, Sighişoara

 

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Dia 13

 

Mais um dia em viagem para sul, e com várias igrejas fortificadas para ver no caminho. Ao fim da tarde chegámos a Braşov, para ali ficarmos as três últimas noites.

 

Total do dia: 190 km

 

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O que vimos:

Igreja fortificada de Dârjiu - Igreja fortificada de SaschizIgreja fortificada de Viscri - Piața Sfatului (Braşov)

 

Onde ficámos:

Premium Residence - Str. Avram Iancu nr. 15, 500086 Braşov

 

Onde comemos:

Hanul Cetatii - Saschiz nr.157, Mures

Luther Brasserie & Lounge - Piața Sfatului 10, Brașov 500025

 

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Dia 14

 

Este foi o dia reservado para visitar dois dos mais famosos monumentos da Roménia: o Castelo de Peleş, em Sinaia, e o Castelo de Bran.

  

Total do dia: 130 km

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O que vimos:

Castelo de Peleş - Castelo de Pelişor - Castelo de Bran

 

Onde comemos:

Galeria Bran - Strada General Traian Moșoiu 499, Bran 507025

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Dia 15

 

O penúltimo dia da viagem foi mais calmo. De manhã visitámos mais duas igrejas fortificadas perto de Brașov e à tarde ficámos a conhecer um pouco mais da cidade.

 

Total do dia: 40 km

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O que vimos:

Igreja fortificada de Prejmer - Igreja fortificada de HărmanIgreja Negra (Brașov)

 

Onde comemos:

Taverna Sărbului - Strada Republicii 55, Brașov 500030

 

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Dia 16

 

O voo de regresso a Lisboa era só ao fim do dia, por isso no caminho de volta a Bucareste ainda parámos em Snagov, que fica a cerca de 25 km da capital. Entregámos o carro no aeroporto, ainda a tempo de comer alguma coisa antes do voo.

 

Total do dia: 170 km

 

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O que vimos:

Lago de Snagov - Mosteiro de Snagov

 

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Falarei em mais pormenor de alguns destes lugares em futuros posts. Até lá, espero ter-vos despertado um bocadinho o apetite pela Roménia.

 

 

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Duas semanas a viajar de carro pela Roménia

 

 

 

Um segredo de Londres

 

As cidades grandes do nosso mundo de hoje são paradoxais. Delas sabemos tudo ou quase tudo, mesmo se nunca lá estivemos. A elas encontramos biliões de referências em todo o lado – nos livros e filmes, em fotografias, na imprensa… – de tal maneira que muitas das suas características se nos tornam familiares e as reconhecemos com facilidade em qualquer circunstância, tornam-se parte do nosso imaginário, tanto pessoal como colectivo. E no entanto, talvez pela excessiva exposição mediática de algumas dessas características, as grandes cidades conseguem guardar grandes segredos, às vezes até mesmo para aqueles que lá vivem.

 

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A primeira vez que fui a Londres era adolescente e quis o acaso que ficasse alojada no hostel do Holland Park. Quis o acaso também que quando lá voltei há uns anos, já bem adulta, me encontrasse uma manhã com algumas horas para gastar, sozinha. Em Londres gosto especialmente de toda a área de Kensington, que é ao mesmo tempo central e relativamente sossegada, e tento sempre arranjar alojamento por esses lados. Naquele dia, com vontade de dar um passeio a pé mas sem me afastar demasiado do hotel, lembrei-me de refrescar a minha memória do parque e pus pés ao caminho. Foi mais uma vez o acaso a orientar os meus passos: tivesse eu escolhido outro lugar e hoje não estaria a escrever este post.

  

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Mas não, o “segredo” de que quero falar não é o Holland Park – que é completamente merecedor de uma visita só por si, mas é demasiado grande e conhecido para poder ser verdadeiramente um segredo. Tenham só mais um bocadinho de paciência, e venham comigo neste passeio.

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Apesar de haver uma estação de metro com o nome de Holland Park, que dá acesso ao parque pelo lado norte, vamos apanhar a linha verde ou amarela e sair na estação de High Street Kensington. Gosto desta avenida, que é o prolongamento da Kensington Road e tem árvores e suportes com flores nos candeeiros, passeios largos, edifícios em tijolo e lojas que não estão a abarrotar de gente.

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Cinco minutos a andar bem e estamos na entrada sul do parque, onde desde Novembro de 2016 está alojado o Design Museum (e cuja visita eu aconselho vivamente a quem, como eu, for apreciador do tema – só para vos abrir o apetite, neste dia em que escrevo o post uma das exposições é sobre os 70 anos da Ferrari).

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Seguimos por uma alameda comprida com árvores e bancos de madeira para descansar, cruzando-nos com casais com carrinhos de bebé, joggers, cães que passeiam os donos, adolescentes de mochila às costas, polícias, famílias com crianças. Ao fundo, depois do campo de jogos, os edifícios do hostel (sim, ainda existe!) e da Ópera. Viramos à esquerda para passar por baixo das arcadas em tijolo, mas se for Verão vale a pena continuar e contornar a Orangery para ver o roseiral.

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São só mais uns metros. Seguimos as setas que nos levam por um caminho entre árvores, passamos uma cancela em madeira e mais à frente encontramos uma placa, escrita em japonês e inglês, onde se destaca o nome do lugar: The Kyoto Garden. Chegámos.

 

Londres-Holland Park-Kyoto Garden (3043).JPGO Kyoto Garden é uma bolha de paz e tranquilidade na agitação de Londres, um pedacinho do Japão recriado numa das mais vibrantes e populosas cidades da Europa. Oferecido pela Câmara de Comércio e Indústria de Quioto como parte do Festival do Japão realizado na cidade em 1991, foi concebido pelo designer de jardins japonês Shoji Nakahara no estilo chisen kaiyushiki-en, que significa “jardim para passear com lago”. Nele estão presentes inúmeros elementos que remetem para a cultura japonesa e os seus valores espirituais, em que o espaço entre os vários “objectos” que constituem os pontos fulcrais do jardim, cada um deles com significado próprio, é tão ou mais importante do que esses mesmos componentes. O resultado é um lugar cheio de beleza e harmonia, e as fotografias neste caso são bem mais eloquentes do que quaisquer palavras que eu possa usar para o descrever. (Podem encontrar nesta página mais informações sobre as características do jardim.)

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O Kyoto Garden está pensado para ser percorrido no sentido dos ponteiros do relógio, para que as suas várias facetas se vão desenrolando aos nossos olhos como se fosse um pergaminho. Dominado pelo verde nos meses mais quentes, quando estive lá em Novembro achei o jardim ainda mais bonito, com as notas outonais de cor dadas pela folhagem das árvores.

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Embora vocacionado para proporcionar calma e uma atmosfera indutora da contemplação e meditação, não se pense que é um jardim estático ou monótono. A cascata abundante, com as pedras a contrastarem com o branco da água a cair (representando o contraste entre o yin e o yang), os coloridos peixes koi do lago e as galinhas d’água dão movimento ao ambiente, que os típicos esquilos londrinos e os pavões acentuam.

 

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Gulosos e completamente habituados aos visitantes, os esquilos não hesitam em aproximar-se para pedir comida – e até se atrevem a trepar pelas nossas pernas para a agarrarem mais depressa. E há ainda um pavão que segue devotadamente, como se estivesse amestrado, um dos jardineiros do parque, que lhe vai lançando pedaços de comida pelo caminho.

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Adjacente ao Kyoto Garden foi mais recentemente, em 2012 (na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos), criado um outro espaço a que deram o nome de Fukushima Memorial Garden. Este jardim é um agradecimento dos japoneses aos britânicos pelo apoio que prestaram após o tsunami e subsequente desastre nuclear de Fukushima. Idealizado por Yasuo Kitayama, que desde 2011 é responsável pelos jardins japoneses do Holland Park, tem um caminho em cascalho ladeado por rododendros e hortênsias, bancos para descansar e meditar, e um elemento simbólico composto por três pedras que “crescem” do solo – estão ali para evocar uma das divindades mais amadas pelos japoneses, Jizo, que protege as crianças, as mulheres e (nem de propósito…) os viajantes, e para lembrar que a vida nunca pára.

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Um pouco a contragosto, temos de deixar o Kyoto Garden para voltar à realidade. Por sorte, vai ser preciso atravessar novamente o Holland Park, desta vez por outro caminho – para vermos mais alguns recantos – e assim a transição é menos penosa.

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Um dia hei-de ir ao Japão para conhecer os famosos jardins de Nara e Quioto. Enquanto isso não acontece, e sempre que for a Londres, sei que o Kyoto Garden vai estar à minha espera para me lembrar de que há lugares onde é possível estarmos em paz connosco e com os outros.

 

 

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Kyoto Garden, Londres, Reino Unido

 

 

O Poço da Broca da Barriosa

 

A água é o meu elemento natural preferido, em todas as suas formas, e por isso fico felicíssima quando descubro (ou me dão a descobrir, como neste caso) lugares especiais onde a água assume o papel principal. No sopé da Serra da Estrela, perto de Vide, existe um desses sítios. Para o apreciarem em toda a sua beleza visitem-no em época de chuvas, de preferência na Primavera. E com tempo e vontade para apreciarem uma bela refeição.

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Chama-se Poço da Broca e é um dos três lugares com o mesmo nome que existem naquela zona. Este é o mais conhecido, pois fica mesmo junto à estrada que liga a aldeia da Barriosa à de Fradigas.

 

A primeira imagem que tive quando parei na ponte sobre a Ribeira de Alvôco foi um curso de água verde semi-transparente com uma espécie de lagoa e uma pequena mas espumosa queda de água no meio, a toda a largura. Do lado esquerdo, uma casa de linhas modernas revestida de xisto. Do lado direito, uma pequena elevação com socalcos, onde dois cavalos pastavam tranquilamente. Ali ao lado, uma placa indicativa: Poço da Broca. 

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Obedecendo à seta, seguimos pelo caminho marcado, protegido por uma balaustrada em madeira. Ouvia-se o barulho de água a cair, mas só ao fim de uns quantos metros é que percebi a sua origem – e acreditem que foi uma das melhores e maiores surpresas que tive até agora, pois não fazia ideia que me esperava: uma volumosa cascata de água, até aí escondida pela vegetação e pelas pedras, surgia em degraus largos pelo meio das árvores e precipitava-se mais abaixo, deslizando sobre as rochas.

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Este é mais um daqueles lugares que é preciso ver ao vivo para captar toda a beleza da atmosfera envolvente. Apesar de relativamente pequena e de nem sempre ter tanta água – foi certamente a minha sorte do costume que me pôs ali num dia em que o caudal da ribeira era suficiente para proporcionar um belo espectáculo – a cascata e a paisagem em torno dela formam um conjunto tão harmonioso e fora do vulgar que me deixaram positivamente encantada.

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Voltámos para trás e passámos novamente para o outro lado da ponte. Subindo pela estrada encontra-se a entrada para um parque de merendas, de onde é possível aceder à lagoa formada pela ribeira, descendo um grupo de degraus, pois no tempo quente o Poço da Broca é uma praia fluvial.

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Mas nós continuámos um pouco mais para cima, para irmos à parte superior da cascata. Mesmo estando a ribeira com bastante caudal, consegui passar facilmente sobre as pedras até chegar ao pé de uma outra cascata mais pequena, com a água a rodear-me quase completamente. Para mim que, como disse no início, adoro água – ainda mais com tanta vegetação em volta – seria impossível não ficar apaixonada por este lugar.

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A casa de que falei antes, junto à ponte, é um restaurante. Chama-se “Guarda Rios”, o nome de um dos pássaros que – diz quem sabe, pois eu não vi – habita aquela zona. Serve comida tipicamente portuguesa, bem confeccionada e apaladada, e o serviço é muito atencioso. O espaço é amplo e têm até uma varanda com mesas no exterior, situada mesmo do lado da ribeira, que deve ser o lugar perfeito para comer nos dias mornos e sem vento.

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Se ainda não conhecem o Poço da Broca, vão até lá e surpreendam-se. Se já conhecem, digam-me:

concordam comigo?

 

 

 

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Croácia - diário de viagem XIII - Montenegro ou o país onde a moeda também é o euro

 

Destino do dia: Montenegro, e mais especificamente a baía de Kotor, Budva e Sveti Stefan. Achámos que valeria a pena “gastar” um dia da viagem para conhecer um bocadinho deste pequeno país, já que estávamos ali tão perto. E valeu!

 

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De Dubrovnik até à fronteira com Montenegro não chegam a ser 40 km, por isso seria um desperdício não aproveitar a nossa estadia naquela cidade – que ainda por cima acabou por ser um dia mais longa do que inicialmente tínhamos planeado – para ir visitar a baía de Kotor, da qual todo o viajante diz maravilhas.

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A primeira paragem foi no entanto ainda em terras croatas: Čavtat, uma pequena cidade cerca de 15 km a sul de Dubrovnik e muito perto do aeroporto. Com origens bem remotas, no séc. VI a.C., foi a cidade grega de Epidauros e mais tarde a romana Epidauro, acabando por ficar sob o domínio da República de Ragusa na Idade Média. O seu nome actual deriva da expressão latina civitas vetus, que significa “cidade velha”, mas hoje é sobretudo uma estância balnear com muitas casas de férias e hotéis disseminados pelas encostas suaves, meio escondidos pelo arvoredo. Tal como um pouco por toda a costa dalmática, as embarcações de recreio enxameiam as águas e os ancoradouros, e a avenida marginal é montra de lojas, restaurantes e cafés. Menos agitada do que a sua vizinha Dubrovnik, pelo menos àquela hora matinal, foi o sítio certo para tomarmos café numa das muitas esplanadas da avenida – todas bem protegidas do sol e com vista para o Adriático.

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A fronteira na saída da Croácia estava pouco movimentada e foi passada rapidamente, mas a entrada no Montenegro revelou-se mais demorada e estivemos uma boa meia hora na fila de veículos até chegar a nossa vez de mostrar os passaportes. E em Herceg Novi, poucos quilómetros mais à frente, obras de manutenção da estrada fizeram-nos perder ainda mais tempo num pára-arranca que se arrastou lentamente durante alguns quilómetros.

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Mas estes ligeiros incómodos ficaram completamente esquecidos assim que começámos a percorrer a estrada que rodeia a baía de Kotor. A região natural e histórico-cultural da Boka Kotorska (na língua montenegrina) está classificada como Património Mundial da Unesco e esta distinção é totalmente merecida. Em volta de duas grandes baías interligadas erguem-se abruptamente picos rochosos que chegam a atingir uns impressionantes 1500 metros, formando um espectacular anfiteatro montanhoso que apenas o estreito canal de Verige separa da orla costeira mais a sul, também esta quase circular. Percorrer a estrada que contorna o perfil muito irregular da baía demora o seu tempo mas é um encantamento constante, pois cada curva revela-nos um ângulo diferente da paisagem, um pormenor que estava escondido, uma nova tonalidade de água iluminada pelo sol ofuscante.

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Quando nos aproximamos da pequena localidade de Perast a nossa visão é inevitavelmente atraída para duas ilhotas “mágicas” que surgem ao largo. Muito diferentes uma da outra, existe no entanto entre elas uma harmonia especial – a que a beleza do cenário envolvente não é obviamente alheia. A ilha de São Jorge (Ostrvo Sveti Đorđe), com o seu mosteiro beneditino do séc. XII rodeado de ciprestes, é uma mancha escura e intensa, um bastião robusto de aspecto impenetrável e obscuro. Já a sua vizinha, Nossa Senhora da Pedra (Gospa od Škrpjela), é luminosa e quase etérea. Completamente artificial, começou a ser construída no séc. XV sobre navios afundados junto a um penhasco submerso, fruto da devoção cristã dos marinheiros da região que aí erigiram depois um santuário dedicado à Virgem Maria. A igreja actual, no entanto, tem o aspecto barroco de clara inspiração bizantina que lhe foi dado aquando da sua reconstrução, após o grande terramoto de 1667 ter destruído a maior parte do santuário original.

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Dali até Kotor são apenas mais 12 quilómetros, mas o aglomerado habitacional começa muito antes de chegarmos à cidade, pois também ali o turismo já há bastantes anos chegou em força. Encontrar lugar para deixar o carro foi fácil, há um parque de estacionamento grande e bem assinalado mesmo antes de chegar à muralha que delimita o centro histórico.

 

Kotor vem da palavra italiana Cattaro, mas não se pense que tem alguma coisa a ver com o catarismo, movimento gnóstico da Idade Média declarado herético e perseguido até à extinção pela igreja católica entre os sécs. XII e XIV. Não se conhecem ao certo as origens do seu povoamento, mas supõe-se que terá sido a localidade romana de Ascrivium, pertencente à província da Dalmácia. A relação com o nome actual só surge no séc. X, altura em que fazia parte do império Bizantino e era designada por Dekatera ou Dekaderon.

 

Pela sua posição privilegiada, foi alvo de disputas e ocupações sistemáticas ao longo do tempo: invadida pelos sarracenos, ocupada pelos búlgaros, formou aliança com Ragusa, foi conquistada pelos sérvios, e tomada pelos húngaros e pelos bósnios, tendo ocasionalmente conseguido manter-se mais ou menos independente. No séc. XV, devido às invasões turcas, pediu protecção à República de Veneza, e assim permaneceu até ao séc. XVIII. A partir daí voltou a passar de mão em mão por várias casas monárquicas, até ficar a fazer parte da Jugoslávia após a 1ª Guerra Mundial.

 

Com uma história tão conturbada, não admira que a cidade antiga seja definida (desde o séc. VI) pela longa e sólida linha amuralhada que marca a paisagem desde o Castelo de São João, vigilante do alto dos seus 280 metros acima do mar, até à estrada junto ao porto – uma obra-prima de fortaleza, com paredes de 20 metros de altura e uma largura que atinge 15 metros nalguns pontos, engenhosamente desenvolvida ao longo da encosta da montanha, vertiginosa de tão íngreme que é.

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Existem três aberturas nesta muralha, que são outras tantas hipóteses de entrada no centro histórico de Kotor, mas a mais frequentada é a Porta do Mar, construída em 1555. Foi por aqui que entrámos, e foi um alívio escapar do calor quase incapacitante que se sentia do lado de fora – a provar que Setembro ainda é um mês de Verão a sério. Estávamos na Praça de Armas principal, a Torre do Relógio destacando-se em frente, com o seu ângulo vagamente inclinado para o lado do mar (cortesia dos vários terramotos que assolaram a cidade), e se há coisa que os centros históricos amuralhados têm de bom é que os robustos edifícios de pedra, mesmo que não muito altos, e as ruazinhas estreitas conseguem ser uma barreira eficaz contra o calor excessivo e dão-nos a oportunidade de passear à sombra, que é sempre mais do que bem vinda nestas alturas.

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Kotor é uma cidade única, um puzzle labiríntico de contornos medievais propositadamente concebido para mais fácil protecção contra os invasores, onde com tantas esquinas e voltas nos sentiríamos perdidos com facilidade não fosse a omnipresente montanha acima das nossas cabeças a servir de ponto de referência. Mesmo assim, para quem não tiver muito sentido de orientação, o melhor mesmo é percorrer o centro histórico com algum critério, virando à direita depois de entrar e seguindo sempre de preferência no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. O terramoto que afectou esta área em 1979 danificou muitos dos edifícios e monumentos de Kotor, mas a Unesco tem contribuído largamente para a sua reconstrução.

 

Pontos obrigatórios de paragem são as igrejas mais icónicas, como a Catedral de S. Trifão e as igrejas de S. Nicolau e S. Lucas – só para referir algumas das onze que aqui existem. A Catedral, uma das duas igrejas católicas de Kotor, existe desde o séc. XII mas já teve de ser reconstruída várias vezes. A frontaria desabou completamente com o terramoto de 1667, após o que foram acrescentadas as torres sineiras barrocas, continuando a da esquerda ainda por acabar.

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A outra igreja católica é a da Colegiada de Santa Maria, cuja característica mais notável são as portas em bronze com baixos-relevos.

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A igreja ortodoxa de S. Nicolau, construída entre 1902 e 1909, é a mais recente de todas. De estilo neobizantino no exterior, com as suas cúpulas redondas, a decoração interior é bastante (e invulgarmente) simples para uma igreja ortodoxa. Tem no entanto uma impressionante colecção de ícones e outros objectos em prata.

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São Lucas é uma igreja pequenina mas cheia de história. Inicialmente católica (remonta ao séc. XII), entre 1657 e 1812 existiram no seu interior dois altares, um católico e o outro ortodoxo, lado a lado – um caso pouco vulgar na história, a mostrar que religiões diferentes podem coexistir pacificamente – sendo nela celebrados alternadamente serviços religiosos de cada uma das fés. Foi finalmente entregue em exclusividade à Igreja Ortodoxa.

 

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As ruelas do centro histórico de Kotor estão cheias de pequenos pormenores tão deliciosos quanto decadentes. Fios emaranhados e roupa estendida entre as casas, janelas resguardadas por panos coloridos, fontanários em metal, baixos-relevos nas fachadas dos palacetes. Passeámos literalmente de cabeça no ar, a olhar para o alto.

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Subindo às muralhas – apesar de estar demasiado calor para conseguirmos ir até ao topo – a vista do porto e da baía de águas verdes foi uma visão refrescante. Outras opções para fugir ao calor: comer um gelado (deliciosos, de tipo italiano) ou tomar uma bebida geladinha numa das muitas esplanadas que há por todo o lado, devidamente protegidas do sol e por vezes refrescadas por ventoinhas.

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E os gatos. Kotor é a cidade dos gatos, e tem até um museu que lhes é dedicado. Consta que os antepassados dos felinos que ali habitam vieram de todos os pontos do mundo a bordo das embarcações que aportavam à cidade. A ligação entre gatos e navios é secular, pois sempre foram a melhor forma de evitar a proliferação de ratos dentro das embarcações. Uma ligação estranha, se pensarmos que são bichos pouco propensos a nadar e não propriamente fãs de água. Quem sabe se foi por isso que alguns foram ficando por Kotor? A verdade é que são hoje uma espécie de mascotes da cidade e embora andem à solta (sortudos!), são bem tratados e alimentados por toda a gente.

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Fica aqui o vídeo da Unesco sobre a região natural e histórico-cultural de Kotor, Património Mundial.

 

Continuando para sul, a cerca de 30 km encontramos Sveti Stefan, uma zona balnear lindíssima e muito popular entre o jet set internacional desde há várias décadas. Apesar da distância curta, demorámos quase uma hora a chegar lá, que a estrada continuou a ser cheia de curvas e contracurvas. Depois de Budva, na localidade de Bečići, entrámos por uma espécie de grande portada de pedra numa área densamente arborizada e absolutamente cativante, muito diferente da paisagem anterior, com uma estrada estreita que nos fez duvidar de estarmos no caminho certo e obrigou a andar ainda mais devagar. Mas valeu completamente a pena. Sveti Stefan (Santo Estevão, em português) começou por ser uma ilhota que uma dúzia de famílias fortificou e onde construíram habitações para si próprias e uma igreja consagrada ao santo com esse nome, na altura das invasões turcas por volta do séc. XV. O estreito istmo que a liga às praias, com um caminho em pedra, só foi feito mais tarde. Nacionalizada nos anos 50 durante o regime de Tito e transformada em hotel, passou a ser frequentada pela fina flor dos “beautiful people” de todo o mundo. Em 2007, o complexo foi cedido à cadeia de hotéis Aman e em conjunto com a Vila Miločer, situada na costa, e as duas praias entre elas, constitui um resort de luxo só acessível a bolsas que estejam razoavelmente recheadas. Visitar a ilha está assim fora de questão para quem não seja cliente, o controlo sendo feito logo no início do passadiço de acesso. Mesmo assim, ou também talvez por isso, Sveti Stefan é o local mais fotografado de todo o Montenegro.

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O resort é de acesso restrito, mas o resto não é, e é suficiente para satisfazer todas as exigências. Uma das praias é pública – é de pedrinha, mas não faz mal, que a paisagem compensa o desconforto e há espreguiçadeiras com chapéus de sol para quem quiser pagar. Há estacionamento (também pago) e todas as infra-estruturas de apoio que se podem desejar. E a zona entre o arvoredo tem muitos hotéis, casas e apartamentos para alugar – apesar de praticamente não darmos por eles – o que faz de Sveti Stefan um local de férias altamente recomendável e procurado.

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Com a tarde a aproximar-se do fim e já no caminho de regresso, a última paragem foi em Budva, a apenas 6 km de Sveti Stefan. Vítima do desenvolvimento turístico da área e da construção desenfreada, a cidade é algo incaracterística e a visita vale sobretudo pelo centro histórico, situado na extremidade sul, junto à marina. Apesar de menos interessante do que Kotor, merece ainda assim um passeio demorado.

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Também aqui a cidade antiga está confinada entre muralhas defensivas e apenas se anda a pé. As igrejas são os edifícios que mais se destacam, e é impossível ignorá-las porque estão praticamente todas juntas, encostadas à Cidadela. A mais recente é a igreja ortodoxa da Santíssima Trindade, construída com faixas alternadas de pedra em tons rosa e mel, e a maior, pelo menos aparentemente, é igreja de S. João, com alguns detalhes góticos na fachada e, entre outros, uma representação do nosso Santo António no interior – como aliás é prática comum em quase todas as igrejas católicas. Já a mais antiga é a igreja de Santa Maria in Punta, erguida no ano de 840 precisamente, como o nome indica, num dos extremos da cidade antiga, na falésia sobre o mar. E é exactamente daqui, junto a esta igreja de ar meio decrépito, com plantas a nascerem nas paredes, que temos a melhor vista sobre a baía de Budva.

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Curiosamente, um dos pontos de referência da cidade não tem qualquer relação com a sua história antiga, embora possa dar a sensação que sim. O enorme sino com 4 metros de altura que se encontra exposto junto às muralhas da entrada norte, ao pé da marina, é simplesmente um adereço que ficou do filme “The Long Ships”, que ali foi rodado em 1964 – o enredo do filme gira à volta da demanda de um sino a que chamam “Mother of Voices”.

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Com o fim do dia a aproximar-se e ainda uns bons quilómetros a percorrer até Dubrovnik, para abreviar o regresso optámos por substituir a estrada em volta da baía pelo mais rápido e muito menos cansativo trajecto no ferryboat que faz as ligações regulares pelo estreito de Verige entre Lepetane, junto a Tivat, e Kamenari, já muito perto de Herceg Novi. Gratuito para os peões e com o custo de 4,5€ para os carros (atenção que só aceitam dinheiro, e os bilhetes são comprados na hora e na bilheteira do local), o ferry demora cerca de 5 minutos a fazer a travessia, e é uma boa oportunidade para ver a baía de outra perspectiva. E foi assim que, sem qualquer plano prévio, nos despedimos de Montenegro de uma maneira completamente romântica: fizemos a travessia já com a noite a cair, a lua alta no céu ainda não completamente escuro, e as águas iluminadas pelo clarão das dezenas de janelas de um navio de cruzeiro que abandonava a baía, deixando atrás de si um rasto ondulado. Perfeito!

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