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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica XV

Dia 15

 

 

 

Tomámos o pequeno-almoço – saboroso e bem servido – na varanda da casa principal, observando e ouvindo os pássaros. Na impossibilidade de conseguirmos uma excursão ao Parque de Corcovado (não havia número de pessoas suficientes para os agentes turísticos organizarem uma visita), tinha-nos sido proposto um passeio de barco pelos manglares, por isso às 8 da manhã já estávamos no pequeno embarcadouro do hotel à espera do nosso transporte, que chegou pontualmente. Seguimos rio acima, confortavelmente instalados nos bancos estofados do barco com cobertura que José, o condutor, manobrava habilmente para evitar os ramos de árvores e outros obstáculos que iam surgindo no caminho. Stanly, o nosso simpático e conversador guia, deu-nos algumas explicações sobre o funcionamento do ecossistema do manglar e foi respondendo às nossas questões, enquanto nos apontava os vários exemplares da fauna local que iam surgindo. Garças de vários tipos, arapapás e belíssimas araras-escarlate, um colorido frango d’água, macacos-capuchinho e macacos-esquilo, uma rã arbórea, caimões, um pequeno crocodilo americano, iguanas verdes e até mesmo uma preguiçosa jibóia, enrolada sobre si mesma num ramo de árvore suspenso sobre a água. Jacintos e lírios boiavam em grandes quantidades nas águas lamacentas. Stanly levou-nos ao quintal da sua casa, onde nos mostrou uma árvore da canela (Cinnamomum zeylanicum), originária do Ceilão e pertencente à família das lauráceas, de onde nos deu um pequeno galho a cheirar. Foi um fantástico passeio de duas horas que soube a pouco, e até o tempo esteve do nosso lado: depois de toda a chuva da véspera, o dia estava miraculosamente soalheiro e nem uma gota de água caiu.

 

 

 

Fizemos as nossas despedidas do Eco Manglares e de Sierpe por volta das onze da manhã e seguimos para norte a fim de apanharmos a Panamericana de regresso a San José. Duzentos e cinquenta quilómetros de estrada asfaltada e sem história, com uma breve paragem no caminho para almoçarmos num restaurante self-service cuja clientela era exclusivamente constituída por outros viajantes como nós e alguns camionistas. O nosso destino era Cartago, onde chegámos às 3 e meia da tarde com a intenção de encontrar um lugar para ficarmos nas nossas duas últimas noites na Costa Rica. Infelizmente, a cidade revelou-se cinzenta, monótona e quase totalmente desprovida de encanto, excepção feita à Catedral, e decidimos não ficar por ali.

 

A menos de 20 km para sudeste de Cartago encontra-se o magnífico vale de Orosí, atravessado pelo rio Reventazón e cenário de plantações de café. É possível abarcar toda a beleza da paisagem a partir de um dos vários miradouros à beira da estrada que desce para o vale. Limitado a sul pelas montanhas Talamanca, dali se avistam três dos mais emblemáticos vulcões do país: o Irazú, o Poás e o Turrialba. Este último tinha voltado recentemente a mostrar actividade e sempre que as nuvens o permitiam conseguíamos observar um enorme jacto de fumo a ser projectado continuamente do seu cume.

 

 

 

O vale foi em tempos um importante centro colonial e a vila de Orosí abriga a mais antiga igreja da Costa Rica que ainda se encontra em actividade: a igreja de San José, que tem também um convento e um pequeno museu de arte sacra, foi construída em 1743-66 pelos Franciscanos e já resistiu a vários terramotos. É uma igreja pequena e completamente branca com uma torre compacta a dominar o conjunto, cobertura de telha escura e interiores em madeira e terracota. À frente, depois de transposto o portal de entrada no complexo, um pequeno mas bem cuidado jardim e uma vasta área arrelvada ladeiam o caminho empedrado que dá acesso à entrada principal. Duas palmeiras muito altas enquadram todo o conjunto. É sem dúvida o ex-libris da localidade.

 

 

O Orosí Lodge vem referido na maior parte dos guias, mas não foi fácil dar com ele, apesar de ficar quase junto ao Balneário Termal e muito perto da igreja. Além de hotel, é também uma espécie de casa de chá e simultaneamente loja de venda de produtos e obras de arte locais. Oferecem diariamente uma variedade de bolos caseiros, entre outros snacks, e têm o seu próprio café, que disponibilizam em pacotes para venda. Gerido pelos alemães Andreas e Cornelia e a sua família, é composto por dois edifícios construídos no estilo antigo colonial da Costa Rica: o da frente, mais baixo, alberga o café e tem uma varanda pintada de azul a toda a largura, com mesinhas redondas e cadeiras em ferro forjado e vime, a fazerem lembrar os cafés europeus; passando um pequeno mas muito frondoso jardim chega-se ao edifício maior, com dois pisos, onde se encontram os quartos. Uma escada de madeira escura leva à varanda do primeiro andar, onde estava situado o nosso quarto – uma divisão ampla e arejada, com kitchenette, uma grande janela semicircular com caixilharia também azul e chão de madeira.

 

 

 

  

 

Depois de nos instalarmos, fomos passear pela vila, que é bastante pequena mas tem um ambiente agradável, e aproveitámos para levantar dinheiro numa ATM. A seguir instalámo-nos no café do hotel para um lanche ajantarado e pudemos comprovar que os bolos eram realmente deliciosos. Foi um final calmo para um dia sem grandes aventuras, mas ainda assim bastante cansativo.