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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica XI

Dia 11
 

Acordei com o barulho do que pareciam ser balas de canhão a caírem no telhado do bungalow. Ainda não eram seis da manhã, mas dormir estava fora de questão, porque os barulhos continuavam. Aproximei-me da janela e vi uma papaia cair no chão. Então saímos do quarto de mansinho e ao olharmos para a árvore que estendia os ramos por cima do telhado percebemos a origem dos barulhos que nos tinham acordado: um macaco-uivador tomava o seu pequeno-almoço, que consistia em pegar numa papaia, comer uma parte dela e depois deitar fora o resto. E depois pegar noutra e repetir a mesma operação. Talvez não estivessem suficientemente maduras para o seu gosto, ou então maduras de mais, quem sabe?

Saímos para ir até à praia. Nem um ser humano à vista, apenas bichos. Um gaio-rabudo empoleirado numa estrutura de metal à entrada do hotel, dois cavalos brancos pastando nas bermas da estrada, observados com curiosidade por um pássaro preto. A praia sem vivalma, só nossa, as sombras alongando-se na areia apenas marcada pelos nossos pés.
Foi nessa manhã que tomei o melhor banho de mar da minha vida e desejei que o tempo parasse, para não ter de sair dali nunca mais.
 
De volta à realidade e ao hotel, um duche para tirar o sal do corpo e um pequeno-almoço substancial para nos preparar para mais um dia na estrada. Malas feitas e no carro, chaves entregues e despedidas feitas, decidimos passar pela mercearia para comprar mantimentos para o caminho. Água bem fresca e iogurtes foram juntar-se a algumas barras de cereais e bolachas no porta-luvas do carro.
 
Meia hora mais tarde, o tempo que demorámos a percorrer uns escassos dezoito quilómetros em mais uma estrada de terra batida cravejada de pedras, entrámos em Nosara. Parte desta região ainda pertence ao Refúgio de Vida Selvagem de Ostional, zona de nidificação das tartarugas de Kemp, pequenas tartarugas de carapaça rígida que ali vão desovar entre Abril e Dezembro. Talvez por isso, em Nosara as casas estão dispersas no meio da vegetação quase cerrada e as ruas são simplesmente pequenas estradas erráticas de terra por vezes lamacenta.
 
Zona de férias por excelência, a cotação de Nosara tem vindo a subir nos últimos anos, em parte devido ao seu charme sonolento, aconselhável para quem gosta de passar uns dias sossegados ou até quem sabe frequentar um curso de ioga, mas sobretudo por contar na sua vizinhança com algumas das melhores e mais bonitas praias com condições excepcionais para a prática do surf.
 
A Playa Guiones é a maior delas, uma tira de areia branca com seis quilómetros de comprimento e uma ondulação consistente. Debruando o areal, uma faixa de vegetação rasteira e nem uma única construção à vista. A percentagem de pranchas quase igualava a de seres humanos, que mesmo assim pareciam poucos para uma extensão de praia tão grande.
 
Trinta quilómetros por hora: esta foi a nossa velocidade média nas estradas de Guanacaste. Sem contar com as paragens. O calor e o pó das estradas obrigavam a que o ar condicionado estivesse constantemente ligado, e de cada vez que saíamos do carro éramos atingidos de chofre pelo bafo de ar quente do exterior.
 
Sámara não foi uma excepção. Estância balnear preferida por mochileiros, surfistas e costa-riquenhos de classe média, tem uma praia ampla de areia branca, em volta da qual se desenvolvem várias ruas com lojas de comércio tradicional, apartamentos de férias com ar modesto e as omnipresentes barraquinhas de madeira cobertas de folhas de palmeira que vendiam artesanato, chapéus, toalhas e toda a restante parafernália típica das zonas de veraneio. Na praia, espetada na areia, uma prancha de surf pintada de vermelho berrante anunciava lições, aluguer de pranchas, excursões e mais. Ignorámos o convite e optámos simplesmente por ir a uma ATM levantar dinheiro.
 
À saída de Sámara, um troço de estrada abençoadamente asfaltada levou-nos à Playa Carrillo, meia dúzia de quilómetros mais a sul. Uma vasta área de palmeiras entre a estrada e a praia parecia ser local de piquenique escolhido por muitas famílias para se abrigarem dos fortes raios solares do meio-dia e partilharem uma refeição. Na Costa Rica como em Portugal, piquenicar parece ser uma forma popular de passar um domingo em família. E como nós também já tínhamos fome, parámos o carro à sombra das palmeiras e bebemos os nossos iogurtes líquidos de olhos virados para a praia e o oceano, sem pressas nem horas marcadas – não é este um dos maiores encantos das férias?

 

 

 

 

 

Punta Islita parecia dormir quando lá chegámos, pouco depois da uma da tarde. A localidade vive sob a protecção doresort de luxo que tem o mesmo nome e estende-se por várias colinas arborizadas, subindo a partir da praia. A veia artística da comunidade local é incentivada e suportada pelo turismo, sobretudo através do próprio hotel, e por alguns habitantes locais abastados. Há esculturas espalhadas ao ar livre por vários locais, paredes de edifícios com pinturas naif e uma Casa-Museu que expõe e vende obras e peças de artesanato de artistas locais. Aí fomos recebidos por uma simpática professora que nos falou um pouco da comunidade e do projecto que ali é desenvolvido, e também de José Saramago, de quem nos disse já ter lido “Memorial do Convento” – e gostado, por sinal. Aproveitámos para comprar algumas peças de artesanato diferentes do que já tínhamos visto até então.
 
Além do incentivo às artes, o complexo hoteleiro local desenvolve também um projecto de recolha e reciclagem de lixo, promovendo o turismo responsável e a preservação do ambiente e da floresta tropical seca, o eco-sistema em que se insere Punta Islita.
 
Continuámos para sul, o depósito da gasolina do “nosso” Jimny já bastante depauperado e a necessitar de abastecimento urgente. Mas foram precisos mais quase setenta quilómetros até encontrarmos uma bomba de gasolina. Até lá, mais estradas de terra arenosa e gravilha, que tão depressa nos mostravam pastos meio secos onde pontificavam vacas Brahma – com a sua pelagem branca e castanha e enormes orelhas descaídas ladeando um focinho afilado, os olhos semicerrados olhando placidamente para nós – como nos levavam até ao cimo de elevações junto à orla costeira, de onde avistávamos enormes praias rodeadas de vegetação.
 
De Punta Islita até Montezuma o trajecto mais rápido seria sempre junto ao litoral, contornando a península e passando por Malpaís e Santa Teresa. No entanto, quando perguntámos informações no caminho disseram-nos que a estrada ficava cortada durante uma parte do dia, na maré cheia, e àquela hora não conseguiríamos passar. Assim, em Manzanillo tivemos de desviar para o interior na direcção de Cóbano – onde finalmente conseguimos abastecer o depósito do carro.

 

Depois de Cóbano, uma nova aventura. Os 12 km até Montezuma foram percorridos em cerca de duas horas por caminhos esburacados e lamacentos entre vegetação cerrada e pequenos rios que por vezes foi necessário passar a vau. Inexperientes nestas aventuras de todo-o-terreno, valeram-nos algumas informações que nos tinham dado anteriormente, as marcas de rodados na lama e, numa das vezes em que eu já esta metida na água até aos joelhos para tentar perceber se seria ali a passagem, o aparecimento miraculoso de um outro veículo, conduzido certamente por alguém que conhecia bem o terreno e atravessou sem problemas o rio, a bastantes metros do sítio onde nos encontrávamos. Escusado será dizer que foi prontamente imitado por nós. Numa outra passagem a vau mais complicada foi necessário atravessar a corrente de água por duas vezes, com uma deslocação dentro do leito do próprio rio até descobrirmos finalmente o acesso à estrada. Em vez de nos desanimarem, todos estes percalços acabaram por contribuir para a nossa boa disposição, e divertimo-nos imenso.
 

 

 

Por volta das cinco da tarde chegámos finalmente a Montezuma, uma aldeia situada no extremo sul da península de Nicoya, a apenas alguns quilómetros do Cabo Blanco. A localidade fica situada no fundo de uma encosta escarpada, que descemos por uma estrada estreita e cheia de curvas, por entre vegetação e casas de madeira. Ao fundo, uma enseada rochosa que serve de ancoradouro para os barcos, ladeada por belíssimas praias. Como já faltava pouco para escurecer, não parámos e seguimos directamente para o nosso destino de referência: o Hotel Ancla de Oro, em Cabuya, porta de entrada para o Parque Nacional de Cabo Blanco, a apenas meia dúzia de quilómetros dali. O Ancla de Oro não é propriamente um hotel convencional, mas antes uma espécie de jardim aberto onde estão espalhadas algumas casitas de madeira com telhados íngremes erguidas sobre pilares também em madeira, a que os promotores convencionaram chamar jungalows. Fomos recebidos por uma rapariga alta e simpática, que nos disse ser húngara e ter passado algum tempo em Portugal uns anos antes. Embora o ambiente geral fosse agradável, com redes espreguiçadeiras penduradas por baixo dos jungalows e caminhos de gravilha e pedras delineados por entre a vegetação, o quarto que nos foi destinado defraudou as nossas expectativas: estava demasiado empoeirado e a cama era pouco confortável. Além disso, para irmos à casa de banho tínhamos de sair do jungalow, descer as escadas de madeira e percorrer alguns metros até chegarmos a uma espécie de casinhoto de cimento com instalações algo rudimentares. Mas acabámos por decidir ficar ali, uma vez que era só por uma noite e o preço era razoável.

 

 

 

Para jantar aconselharam-nos o Café “El Coyote”, a alguns minutos a pé do nosso alojamento. Depois de alguma desorientação nas ruas escuras como breu de Cabuya, lá encontrámos o restaurante, onde nos instalámos numa sala pequena mas muito agradável, com uma decoração despretensiosa à base de peças artesanais e rodeada por um jardim. Escolhemos o atum, que estava excelente, e para o final da refeição tivemos a companhia de Lila, a dona do restaurante, com quem conversámos um bocado sobre o país, as suas virtudes e os seus problemas. Durante toda a nossa estadia na Costa Rica fomos frequentemente surpreendidos pelo nível cultural da maioria das pessoas com quem contactámos, muitas delas vivendo em lugares remotos e pouco populosos, como neste caso. Para mim, que sou uma conversadora nata e adoro trocar ideias e comparar estilos de vida com pessoas de outros países, foi verdadeiramente agradável poder ter estes pequenos interlúdios com pessoas tão simpáticas e francas.