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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica VI

Dia 6

 

 

Na mesma estrada do hotel mas um pouco mais acima, na direcção do Arenal, fica o “La Choza de Laurel”, onde tomámos o pequeno-almoço. Uma casa baixa e completamente aberta – tal como muitos hotéis e estabelecimentos comerciais em toda a Costa Rica – com uma ampla zona de refeições em que o chão é de mosaico e as mesas e os bancos corridos de madeira escura. Nitidamente virado para o turismo, tem plantas por todo o lado, cachos de bananas e instrumentos agrícolas pendurados nos pilares que imitam troncos de árvores, e as empregadas vestem trajes tradicionais. Um ambiente rústico e informal mas muito simpático e que oferece grelhados e refeições variadas, obviamente com predominância de pratos típicos. Sumos, café e leite, torradas, frutas sortidas e uma espécie de crepes básicos e um pouco desenxabidos, a que eles chamam tortillas, acompanhados de ovos mexidos com tomate, servidos sobre folhas de bananeira (em cima de um prato, claro!), o nosso pequeno-almoço foi digno de reis.

 

   

  

O próximo destino no nosso plano de viagem era Monteverde, uma região afamada pelos seus parques naturais. Embora no mapa dê a sensação de que é perto de La Fortuna, o lago e a topografia acidentada entre as duas regiões fazem com que a deslocação de uma para a outra não seja fácil nem rápida. A opção mais confortável e menos demorada, embora mais dispendiosa do que os autocarros públicos, é sem dúvida o sistema jeep-boat-jeep, que consiste em ir de minibus até ao lago Arenal, atravessá-lo de barco, e depois ir noutro minibusaté Santa Elena, a principal localidade da região de Monteverde. Por ser mais rápida e também porque nos pareceu a hipótese mais agradável, foi esta a nossa escolha, e às 8.30 já estávamos à porta do hotel à espera do nosso transporte.

 

Uma viagem breve levou-nos até à margem do lago Arenal, onde fomos engrossar o magote de turistas que já aguardava a chegada das embarcações. Não existe cais e os barcos simplesmente encostam à margem pedregosa. São embarcações pequenas, para poucas dezenas de passageiros, abertas mas protegidas por um toldo, suficientemente confortáveis para um trajecto curto e em águas calmas.

 

O lago Arenal é actualmente uma albufeira resultante da construção em 1979 de uma barragem no local onde já existia um pequeno lago com o mesmo nome. O projecto hidroeléctrico a ela associado produz actualmente cerca de 9% da energia eléctrica do país.

 

Do lago tem-se uma visão excelente do vulcão, que no nosso caso se resumiu a pouco mais do que nuvens em redor do cume, pois o tempo continuava cinzento, a cor de chumbo do céu a reflectir-se na água.

 

  

A travessia durou à volta de meia hora. Ao chegarmos à outra margem, vários minibus aguardavam os muitos passageiros do barco. O sol começava finalmente a mostrar a cara e o calor já apertava. Enquanto esperávamos que o nosso grupo se formasse e todas as bagagens fossem carregadas, trocámos dois dedos de conversa com um casal de canadianos residentes na zona de Alberta, ambos muito altos e muito simpáticos. Sabiam que Portugal não pertence a Espanha e que portugueses e espanhóis falam línguas diferentes, o que os fez subir bastantes pontos na minha consideração.

A viagem até Santa Elena demorou cerca de hora e meia por caminhos empoeirados e cheios de curvas, maioritariamente a subir. A região de Monteverde situa-se na Cordilheira de Tilarán, a cerca de 1500 metros acima do mar, em contraste com os 350 metros de La Fortuna. A paisagem consiste quase exclusivamente em grandes zonas de pastagens, com algumas árvores aqui e ali, o verde a contrastar com o azul fabuloso do céu. Nas zonas mais elevadas da estrada era possível ver ao longe o Golfo de Nicoya e as suas ilhas, a maior das quais tem o estranho nome de Nancite.

   

Pelas 2 da tarde estávamos em Santa Elena, a maior localidade da região de Monteverde. Decidimos alojar-nos na Pensión Santa Elena, mesmo no centro da localidade, um albergue informal para todas as idades, onde há constantemente gente a entrar e a sair e parece que todos se conhecem. Tem uma espécie de salinha de refeições/bar ao lado da entrada e uma cozinha comunitária onde qualquer hóspede pode fazer comida, bem entendido desde que lave e limpe tudo depois. Há sempre música em fundo, às vezes tocada e cantada por alguém que está ali hospedado, e os dois terminais de computador (ligados à Internet, claro!) são bastante concorridos. A decoração é rústica, com móveis de madeira escura e peças de artesanato, e o ambiente jovem e descontraído, a fazer lembrar um pouco as comunidades “hippies”.

 

Os quartos são simples mas a maioria tem casa-de-banho privada. Na primeira noite ficámos num quarto com beliche na casa principal, mas depois mudámos para um quarto de casal num anexo exterior, mais amplo e dando directamente para o relvado das traseiras. Apesar da simplicidade e do despojamento, estava tudo muito limpo e sentimo-nos suficientemente confortáveis.

 

O pessoal da Pensión é bastante jovem – excepto o dono, Shannon Smith, que terá certamente quarenta e bastantes anos – e muito simpático e prestável. Deram-nos todas as informações necessárias sobre a região, o que poderíamos visitar, onde comer e como nos deslocarmos. Eles próprios marcam as excursões e sugerem as melhores experiências. São sem dúvida a grande mais-valia da Pensión Santa Elena.

 

Bagagens no quarto e mochila às costas, saímos para comer qualquer coisa rápida e depois passear. Mesmo em frente à Pensión, a Chunches é uma livraria com um certo ar europeu, que tem no piso superior um snack-bar despretensioso e onde se come barato, mas muito bem. Pedimos sanduíches de frango grelhado, que estavam uma verdadeira delícia...

 

Estômagos devidamente aconchegados, embarcámos num autocarro para Monteverde. Autocarro antigo, de um amarelo vivo impossível de passar despercebido. A viagem paga-se directamente ao motorista, um senhor já idoso, e os bilhetes são inexistentes. Assim que passámos a zona dos hotéis, não muito longe de Santa Elena, a estrada asfaltada terminou e começaram os buracos e as pedras. Sacudidos e abanados sem misericórdia, os 5 km até à entrada do Bosque Nebuloso foram percorridos em menos de 15 minutos, que pareceram no entanto demorar muito mais. O caminho é sinuoso e a subir, bordejado de árvores altas. A dada altura, uma certa agitação fez-nos a olhar com atenção para a berma da estrada e vermos o que nos pareceu ser uma raposa cinzenta.

 

Um pouco antes da entrada do Parque há um local a que chamam Jardim dos Colibris. É um espaço aberto onde existe uma casa baixa que abriga um café e uma loja de artesanato e “souvenirs”. Há arbustos e flores ao longo dos caminhos estreitos por entre as árvores, mas o que torna este jardim tão especial são precisamente as pequenas avezinhas que lhe dão o nome: dezenas de colibris de todas as cores voando de um lado para o outro a velocidades supersónicas. Com o característico zumbido provocado pelo bater vertiginoso das suas asas quase invisíveis, aparecem de repente vindas do nada, como relâmpagos coloridos, para logo a seguir voltarem a desaparecer ainda mais depressa. O que as atrai? Bebedouros coloridos com a forma de flores, onde é colocada uma água açucarada que adoram e vão constantemente sorver, num vaivém incessante. Há colibris de vários tamanhos e das mais diversas cores: azul-pavão, verdes com o peito cinzento, outros com tonalidades arroxeadas. Os mais pequenos de todos têm o dorso verde-escuro e o peito acastanhado, com umas riscas brancas que partem dos olhos. Todos lindíssimos e muito, muito difíceis de fotografar. São de tal modo rápidos que por vezes desaparecem no curto espaço de tempo entre o carregar no botão e o disparo da câmara.

 

E assim nos deixámos ficar por ali durante quase uma hora, apreciando a frescura e a tranquilidade oferecidas pelo jardim e os seus pequenos habitantes voadores. Sons, cores, odores, sensações – uma verdadeira festa dos sentidos e de comunhão com a natureza ainda pouco adulterada pelo Homem; precisamente aquilo que constitui a essência da (ainda) quase impoluta região de Monteverde.

 

Regressámos a Santa Elena pela mesma estrada, mas esta vez a pé. O último autocarro já tinha partido há bastante tempo e àquela hora, com o fim da tarde a aproximar-se, os automóveis eram raros, mais raros ainda do que as pessoas. O caminho é a descer e o calor já não apertava, por isso fizemos o percurso sem dificuldade. Raios de sol tépidos escoavam-se através das árvores, originando uma luminescência difusa que emprestava ao caminho um ambiente etéreo.

Mais ou menos a meio, parámos na Río Shantí, uma casa de madeira muito antiga que foi restaurada pelos actuais ocupantes e transformada em centro de práticas espirituais e loja de produtos artesanais e locais, na sua maioria. À entrada da propriedade, um banco de madeira saúda-nos com flores e corações pintados e as palavras “Welcome” e “Bienvenido”. O acesso faz-se por uma pérgola, no topo da qual uma tabuleta nos brinda com um “Namaste”. À porta da casa pintada de cores pastel fomos acolhidos por uma americana “new age” verdadeiramente fora do vulgar, sorridente, descalça e destilando amor e espiritualidade por todos os poros, uma autêntica personagem de filme, daquelas que nunca pensamos poder encontrar na vida real. Bateu palmas de contente quando lhe dissemos que estávamos hospedados na Pensión Santa Elena, que acompanhou com um sentidíssimo “Ooooh! They are the best!!!” na sua voz fininha. Comprámos algumas coisas, sugeriu-nos um restaurante bar ali perto, e finalmente fomos embora sem que a “boa onda” da senhora tivesse esmorecido nem por um instante. Influência do lugar? Talvez, quem sabe... Monteverde é sem dúvida um local ideal para voltar às origens e esquecer a “civilização”.

 

A conselho de um dos recepcionistas da Pensión, fomos jantar ao restaurante Morpho’s, provavelmente o melhor da localidade. Está situado num primeiro andar, por cima de umas lojas e mesmo em frente ao supermercado. A decoração é invulgar, com pinturas coloridas na parede e mobiliário feito de troncos de árvores, e o ambiente tranquilo. O serviço foi atencioso e não muito demorado, o menu oferecia pratos para todos os gostos e a comida estava simplesmente magnífica. Foi o remate perfeito para um dia bem preenchido. De facto, os nossos jantares na Costa Rica foram quase todos memoráveis, verdadeiros momentos de prazer e descontracção, e sempre tão variados como os dias.