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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Croácia - diário de viagem XII - Montenegro ou o país onde a moeda também é o euro

 

Destino do dia: Montenegro, e mais especificamente a baía de Kotor, Budva e Sveti Stefan. Achámos que valeria a pena “gastar” um dia da viagem para conhecer um bocadinho deste pequeno país, já que estávamos ali tão perto. E valeu!

 

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De Dubrovnik até à fronteira com Montenegro não chegam a ser 40 km, por isso seria um desperdício não aproveitar a nossa estadia naquela cidade – que ainda por cima acabou por ser um dia mais longa do que inicialmente tínhamos planeado – para ir visitar a baía de Kotor, da qual todo o viajante diz maravilhas.

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A primeira paragem foi no entanto ainda em terras croatas: Čavtat, uma pequena cidade cerca de 15 km a sul de Dubrovnik e muito perto do aeroporto. Com origens bem remotas, no séc. VI a.C., foi a cidade grega de Epidauros e mais tarde a romana Epidauro, acabando por ficar sob o domínio da República de Ragusa na Idade Média. O seu nome actual deriva da expressão latina civitas vetus, que significa “cidade velha”, mas hoje é sobretudo uma estância balnear com muitas casas de férias e hotéis disseminados pelas encostas suaves, meio escondidos pelo arvoredo. Tal como um pouco por toda a costa dalmática, as embarcações de recreio enxameiam as águas e os ancoradouros, e a avenida marginal é montra de lojas, restaurantes e cafés. Menos agitada do que a sua vizinha Dubrovnik, pelo menos àquela hora matinal, foi o sítio certo para tomarmos café numa das muitas esplanadas da avenida – todas bem protegidas do sol e com vista para o Adriático.

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A fronteira na saída da Croácia estava pouco movimentada e foi passada rapidamente, mas a entrada no Montenegro revelou-se mais demorada e estivemos uma boa meia hora na fila de veículos até chegar a nossa vez de mostrar os passaportes. E em Herceg Novi, poucos quilómetros mais à frente, obras de manutenção da estrada fizeram-nos perder ainda mais tempo num pára-arranca que se arrastou lentamente durante alguns quilómetros.

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Mas estes ligeiros incómodos ficaram completamente esquecidos assim que começámos a percorrer a estrada que rodeia a baía de Kotor. A região natural e histórico-cultural da Boka Kotorska (na língua montenegrina) está classificada como Património Mundial da Unesco e esta distinção é totalmente merecida. Em volta de duas grandes baías interligadas erguem-se abruptamente picos rochosos que chegam a atingir uns impressionantes 1500 metros, formando um espectacular anfiteatro montanhoso que apenas o estreito canal de Verige separa da orla costeira mais a sul, também esta quase circular. Percorrer a estrada que contorna o perfil muito irregular da baía demora o seu tempo mas é um encantamento constante, pois cada curva revela-nos um ângulo diferente da paisagem, um pormenor que estava escondido, uma nova tonalidade de água iluminada pelo sol ofuscante.

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Quando nos aproximamos da pequena localidade de Perast a nossa visão é inevitavelmente atraída para duas ilhotas “mágicas” que surgem ao largo. Muito diferentes uma da outra, existe no entanto entre elas uma harmonia especial – a que a beleza do cenário envolvente não é obviamente alheia. A ilha de São Jorge (Ostrvo Sveti Đorđe), com o seu mosteiro beneditino do séc. XII rodeado de ciprestes, é uma mancha escura e intensa, um bastião robusto de aspecto impenetrável e obscuro. Já a sua vizinha, Nossa Senhora da Pedra (Gospa od Škrpjela), é luminosa e quase etérea. Completamente artificial, começou a ser construída no séc. XV sobre navios afundados junto a um penhasco submerso, fruto da devoção cristã dos marinheiros da região que aí erigiram depois um santuário dedicado à Virgem Maria. A igreja actual, no entanto, tem o aspecto barroco de clara inspiração bizantina que lhe foi dado aquando da sua reconstrução, após o grande terramoto de 1667 ter destruído a maior parte do santuário original.

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Dali até Kotor são apenas mais 12 quilómetros, mas o aglomerado habitacional começa muito antes de chegarmos à cidade, pois também ali o turismo já há bastantes anos chegou em força. Encontrar lugar para deixar o carro foi fácil, há um parque de estacionamento grande e bem assinalado mesmo antes de chegar à muralha que delimita o centro histórico.

 

Kotor vem da palavra italiana Cattaro, mas não se pense que tem alguma coisa a ver com o catarismo, movimento gnóstico da Idade Média declarado herético e perseguido até à extinção pela igreja católica entre os sécs. XII e XIV. Não se conhecem ao certo as origens do seu povoamento, mas supõe-se que terá sido a localidade romana de Ascrivium, pertencente à província da Dalmácia. A relação com o nome actual só surge no séc. X, altura em que fazia parte do império Bizantino e era designada por Dekatera ou Dekaderon.

 

Pela sua posição privilegiada, foi alvo de disputas e ocupações sistemáticas ao longo do tempo: invadida pelos sarracenos, ocupada pelos búlgaros, formou aliança com Ragusa, foi conquistada pelos sérvios, e tomada pelos húngaros e pelos bósnios, tendo ocasionalmente conseguido manter-se mais ou menos independente. No séc. XV, devido às invasões turcas, pediu protecção à República de Veneza, e assim permaneceu até ao séc. XVIII. A partir daí voltou a passar de mão em mão por várias casas monárquicas, até ficar a fazer parte da Jugoslávia após a 1ª Guerra Mundial.

 

Com uma história tão conturbada, não admira que a cidade antiga seja definida (desde o séc. VI) pela longa e sólida linha amuralhada que marca a paisagem desde o Castelo de São João, vigilante do alto dos seus 280 metros acima do mar, até à estrada junto ao porto – uma obra-prima de fortaleza, com paredes de 20 metros de altura e uma largura que atinge 15 metros nalguns pontos, engenhosamente desenvolvida ao longo da encosta da montanha, vertiginosa de tão íngreme que é.

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Existem três aberturas nesta muralha, que são outras tantas hipóteses de entrada no centro histórico de Kotor, mas a mais frequentada é a Porta do Mar, construída em 1555. Foi por aqui que entrámos, e foi um alívio escapar do calor quase incapacitante que se sentia do lado de fora – a provar que Setembro ainda é um mês de Verão a sério. Estávamos na Praça de Armas principal, a Torre do Relógio destacando-se em frente, com o seu ângulo vagamente inclinado para o lado do mar (cortesia dos vários terramotos que assolaram a cidade), e se há coisa que os centros históricos amuralhados têm de bom é que os robustos edifícios de pedra, mesmo que não muito altos, e as ruazinhas estreitas conseguem ser uma barreira eficaz contra o calor excessivo e dão-nos a oportunidade de passear à sombra, que é sempre mais do que bem vinda nestas alturas.

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Kotor é uma cidade única, um puzzle labiríntico de contornos medievais propositadamente concebido para mais fácil protecção contra os invasores, onde com tantas esquinas e voltas nos sentiríamos perdidos com facilidade não fosse a omnipresente montanha acima das nossas cabeças a servir de ponto de referência. Mesmo assim, para quem não tiver muito sentido de orientação, o melhor mesmo é percorrer o centro histórico com algum critério, virando à direita depois de entrar e seguindo sempre de preferência no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. O terramoto que afectou esta área em 1979 danificou muitos dos edifícios e monumentos de Kotor, mas a Unesco tem contribuído largamente para a sua reconstrução.

 

Pontos obrigatórios de paragem são as igrejas mais icónicas, como a Catedral de S. Trifão e as igrejas de S. Nicolau e S. Lucas – só para referir algumas das onze que aqui existem. A Catedral, uma das duas igrejas católicas de Kotor, existe desde o séc. XII mas já teve de ser reconstruída várias vezes. A frontaria desabou completamente com o terramoto de 1667, após o que foram acrescentadas as torres sineiras barrocas, continuando a da esquerda ainda por acabar.

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A outra igreja católica é a da Colegiada de Santa Maria, cuja característica mais notável são as portas em bronze com baixos-relevos.

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A igreja ortodoxa de S. Nicolau, construída entre 1902 e 1909, é a mais recente de todas. De estilo neobizantino no exterior, com as suas cúpulas redondas, a decoração interior é bastante (e invulgarmente) simples para uma igreja ortodoxa. Tem no entanto uma impressionante colecção de ícones e outros objectos em prata.

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São Lucas é uma igreja pequenina mas cheia de história. Inicialmente católica (remonta ao séc. XII), entre 1657 e 1812 existiram no seu interior dois altares, um católico e o outro ortodoxo, lado a lado – um caso pouco vulgar na história, a mostrar que religiões diferentes podem coexistir pacificamente – sendo nela celebrados alternadamente serviços religiosos de cada uma das fés. Foi finalmente entregue em exclusividade à Igreja Ortodoxa.

 

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As ruelas do centro histórico de Kotor estão cheias de pequenos pormenores tão deliciosos quanto decadentes. Fios emaranhados e roupa estendida entre as casas, janelas resguardadas por panos coloridos, fontanários em metal, baixos-relevos nas fachadas dos palacetes. Passeámos literalmente de cabeça no ar, a olhar para o alto.

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Subindo às muralhas – apesar de estar demasiado calor para conseguirmos ir até ao topo – a vista do porto e da baía de águas verdes foi uma visão refrescante. Outras opções para fugir ao calor: comer um gelado (deliciosos, de tipo italiano) ou tomar uma bebida geladinha numa das muitas esplanadas que há por todo o lado, devidamente protegidas do sol e por vezes refrescadas por ventoinhas.

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E os gatos. Kotor é a cidade dos gatos, e tem até um museu que lhes é dedicado. Consta que os antepassados dos felinos que ali habitam vieram de todos os pontos do mundo a bordo das embarcações que aportavam à cidade. A ligação entre gatos e navios é secular, pois sempre foram a melhor forma de evitar a proliferação de ratos dentro das embarcações. Uma ligação estranha, se pensarmos que são bichos pouco propensos a nadar e não propriamente fãs de água. Quem sabe se foi por isso que alguns foram ficando por Kotor? A verdade é que são hoje uma espécie de mascotes da cidade e embora andem à solta (sortudos!), são bem tratados e alimentados por toda a gente.

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Fica aqui o vídeo da Unesco sobre a região natural e histórico-cultural de Kotor, Património Mundial.

 

Continuando para sul, a cerca de 30 km encontramos Sveti Stefan, uma zona balnear lindíssima e muito popular entre o jet set internacional desde há várias décadas. Apesar da distância curta, demorámos quase uma hora a chegar lá, que a estrada continuou a ser cheia de curvas e contracurvas. Depois de Budva, na localidade de Bečići, entrámos por uma espécie de grande portada de pedra numa área densamente arborizada e absolutamente cativante, muito diferente da paisagem anterior, com uma estrada estreita que nos fez duvidar de estarmos no caminho certo e obrigou a andar ainda mais devagar. Mas valeu completamente a pena. Sveti Stefan (Santo Estevão, em português) começou por ser uma ilhota que uma dúzia de famílias fortificou e onde construíram habitações para si próprias e uma igreja consagrada ao santo com esse nome, na altura das invasões turcas por volta do séc. XV. O estreito istmo que a liga às praias, com um caminho em pedra, só foi feito mais tarde. Nacionalizada nos anos 50 durante o regime de Tito e transformada em hotel, passou a ser frequentada pela fina flor dos “beautiful people” de todo o mundo. Em 2007, o complexo foi cedido à cadeia de hotéis Aman e em conjunto com a Vila Miločer, situada na costa, e as duas praias entre elas, constitui um resort de luxo só acessível a bolsas que estejam razoavelmente recheadas. Visitar a ilha está assim fora de questão para quem não seja cliente, o controlo sendo feito logo no início do passadiço de acesso. Mesmo assim, ou também talvez por isso, Sveti Stefan é o local mais fotografado de todo o Montenegro.

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O resort é de acesso restrito, mas o resto não é, e é suficiente para satisfazer todas as exigências. Uma das praias é pública – é de pedrinha, mas não faz mal, que a paisagem compensa o desconforto e há espreguiçadeiras com chapéus de sol para quem quiser pagar. Há estacionamento (também pago) e todas as infra-estruturas de apoio que se podem desejar. E a zona entre o arvoredo tem muitos hotéis, casas e apartamentos para alugar – apesar de praticamente não darmos por eles – o que faz de Sveti Stefan um local de férias altamente recomendável e procurado.

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Com a tarde a aproximar-se do fim e já no caminho de regresso, a última paragem foi em Budva, a apenas 6 km de Sveti Stefan. Vítima do desenvolvimento turístico da área e da construção desenfreada, a cidade é algo incaracterística e a visita vale sobretudo pelo centro histórico, situado na extremidade sul, junto à marina. Apesar de menos interessante do que Kotor, merece ainda assim um passeio demorado.

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Também aqui a cidade antiga está confinada entre muralhas defensivas e apenas se anda a pé. As igrejas são os edifícios que mais se destacam, e é impossível ignorá-las porque estão praticamente todas juntas, encostadas à Cidadela. A mais recente é a igreja ortodoxa da Santíssima Trindade, construída com faixas alternadas de pedra em tons rosa e mel, e a maior, pelo menos aparentemente, é igreja de S. João, com alguns detalhes góticos na fachada e, entre outros, uma representação do nosso Santo António no interior – como aliás é prática comum em quase todas as igrejas católicas. Já a mais antiga é a igreja de Santa Maria in Punta, erguida no ano de 840 precisamente, como o nome indica, num dos extremos da cidade antiga, na falésia sobre o mar. E é exactamente daqui, junto a esta igreja de ar meio decrépito, com plantas a nascerem nas paredes, que temos a melhor vista sobre a baía de Budva.

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Curiosamente, um dos pontos de referência da cidade não tem qualquer relação com a sua história antiga, embora possa dar a sensação que sim. O enorme sino com 4 metros de altura que se encontra exposto junto às muralhas da entrada norte, ao pé da marina, é simplesmente um adereço que ficou do filme “The Long Ships”, que ali foi rodado em 1964 – o enredo do filme gira à volta da demanda de um sino a que chamam “Mother of Voices”.

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Com o fim do dia a aproximar-se e ainda uns bons quilómetros a percorrer até Dubrovnik, para abreviar o regresso optámos por substituir a estrada em volta da baía pelo mais rápido e muito menos cansativo trajecto no ferryboat que faz as ligações regulares pelo estreito de Verige entre Lepetane, junto a Tivat, e Kamenari, já muito perto de Herceg Novi. Gratuito para os peões e com o custo de 4,5€ para os carros (atenção que só aceitam dinheiro, e os bilhetes são comprados na hora e na bilheteira do local), o ferry demora cerca de 5 minutos a fazer a travessia, e é uma boa oportunidade para ver a baía de outra perspectiva. E foi assim que, sem qualquer plano prévio, nos despedimos de Montenegro de uma maneira completamente romântica: fizemos a travessia já com a noite a cair, a lua alta no céu ainda não completamente escuro, e as águas iluminadas pelo clarão das dezenas de janelas de um navio de cruzeiro que abandonava a baía, deixando atrás de si um rasto ondulado. Perfeito!

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