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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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As surpresas de Angra do Heroísmo

 

Açores, Junho de 2017. No regresso a Lisboa, uma escala de várias horas no aeroporto das Lajes, na ilha Terceira. Um dia lindo de sol e céu azul. Que fazer? Não houve qualquer indecisão: apanhar um táxi para visitar Angra do Heroísmo, que ainda não conhecia. O resultado: uma belíssima surpresa.

 

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São apenas 20 km entre o aeroporto e Angra, maioritariamente feitos numa via rápida que atravessa a planura verde do leste da Terceira. De um lado e do outro, campos a perder de vista, um casario aqui e ali, uma ou outra vaca a pastar – e de repente estamos a entrar na cidade, à primeira vista igual a tantas outras aqui no continente, com rotundas e prédios e estradas largas. Depois, novamente de repente, as ruas estreitam e tudo muda, o piso agora é de paralelepípedos muito escuros, as casas já são mais baixas e têm varandas de ferro forjado. Entrámos no coração da cidade.

 

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O taxista prestável deixa-nos na Praça Velha, com a promessa de vir buscar-nos mais tarde a tempo de apanharmos o voo para Lisboa. É aqui o centro nevrálgico de Angra, com uma história tão antiga quanto a da cidade, remontando ao longínquo séc. XV. Ao longo dos tempos teve diferentes funções, desde mercado a palco de corridas e local de enforcamentos, mas a mais importante foi ter desde sempre abrigado a sede municipal. Hoje, cuidadosamente estudado para dar a impressão de uma praça rectangular, este enorme trapézio em frente à Câmara tem árvores, bancos de jardim e uma esplanada. O piso é de pedra calcária e basáltica, formando quadrados e outras figuras geométricas. Aqui como em várias outras ruas, a calçada portuguesa está de boa saúde.

 

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Já me tinham falado das cores de Angra do Heroísmo, mas não estava preparada de todo para isto. Na minha mente a cidade ainda era sobretudo branca e cinzenta, monótona, como nas fotos antigas. Mas a Angra de agora não podia estar mais distante desta imagem. Mal começamos a descer a Rua Direita, que nos leva ao mar, o que primeiro salta à vista são as cores das fachadas das casas: brancas na sua maioria, é verdade, mas com faixas coloridas a contornarem as portas e janelas, cada uma com uma cor diferente; outras parecem estar em negativo, a cor cobre as paredes e os contornos são em branco; os ferros forjados estão pintados de verde-escuro ou até mesmo de cor de vinho, e todas aquelas cores, vibrantes ou em tons pastel, quentes, frias ou neutras, azuis, amarelos, rosas, verdes e quaisquer outras que possamos imaginar, combinam como que milagrosamente entre si na perfeição. Sob o sol da tarde, cada edifício adquire um brilho próprio e parece irradiar alegria. E eu, que tenho uma predilecção especial por lugares coloridos, fico imediatamente enfeitiçada por esta cidade tão diferente do que eu estava à espera.

 

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As igrejas de Angra também não escapam ao frenesim colorido que inunda a cidade. Azul-claro para a Igreja da Misericórdia, colocada de frente para o mar, turquesa para a de Nossa Senhora da Conceição. A Sé Catedral do Santíssimo Salvador, com uma dimensão imponente (é a maior de todo o arquipélago dos Açores) mas mais discreta no gosto, optou por um tom salmão-claro, que contrasta com os azulejos brancos e verdes-escuros que revestem as pirâmides das torres com um padrão em ziguezague. Com a fachada virada para o Jardim Duque da Terceira, a Igreja de Nossa Senhora da Guia tem faixas num tom forte cor de tijolo, tal como o Convento de São Francisco que lhe está adjacente e abriga o Museu de Angra. E ao lado do Palácio dos Capitães-Generais, que começou por ser um Colégio da Companhia de Jesus e agora, depois de desempenhar várias outras funções, é uma das sedes do Governo Regional, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo está pintada num amarelo forte, quase laranja.

 

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No dia 1 de Janeiro de 1980, um sismo de 7,2 na escala de Richter destruiu 80% dos edifícios da cidade. Menos de quatro anos depois, a zona central de Angra (o centro histórico e o parque florestal do Monte Brasil) era classificada como Património Mundial pela UNESCO. Qual fénix renascida das cinzas, a reconstrução da cidade não só a renovou como também a reinventou, mantendo a malha urbana e a sua traça histórica mas dotando-a de algumas infraestruturas mais modernas. Este processo de reinvenção tem sido contínuo: o histórico Porto das Pipas é desde 2007 uma estrutura náutica para embarcações de lazer; uma estátua homenageia Vasco da Gama junto às Portas da Cidade, onde uma passadeira de granito tem gravadas estrofes várias de poemas sobre a descoberta do caminho para a Índia; o edifício adjacente ao da antiga Alfândega é actualmente “tela” para manifestações artísticas; e a street art também encontra nesta cidade o seu espaço.

 

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Angra - monumento em homenagem a João Baptista Ma

 

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Outra das surpresas agradáveis de Angra é o peculiar Jardim Duque da Terceira. Criado em finais do séc. XIX, é um jardim pouco convencional que mistura uma variedade de concepções estéticas diferentes. Um lago rodeado de flores e arbustos em composições geométricas, fontes e tanques com nenúfares habitados por rãs e peixes, árvores tropicais e orientais, bustos e estatuetas, passeios em calçada portuguesa, painéis de azulejos, um caramanchão, uma glorieta e um coreto… Nada falta neste jardim que se estende pela encosta acima até terminar no Obelisco da Memória, construído em meados do séc. XIX em homenagem a D. Pedro IV e à causa liberal.

 

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A tarde está quente. Apesar disso, a Prainha (a única de areia na cidade) não está cheia. Angra está em festa – ou pelo menos prepara-se para ela. As Sanjoaninas são só mais perto do fim do mês, mas as ruas já estão enfeitadas com arcos. Depois, lá em cima, do miradouro do Alto da Memória, notamos a aglomeração de pessoas ao longo de uma das ruas, umas andando de um lado para o outro, outras sentadas nos muros ou em degraus, nos alpendres ou à janela. Só quando a seguir lá passamos e vemos os cartazes e as marcações no chão é que começamos a perceber o que se passa: vão ser largados touros à corda. Uma tradição tauromáquica secular específica da Terceira em que touros são largados numa rua ou estrada, presos por uma corda controlada por vários homens; embora os chifres dos animais estejam sempre devidamente protegidos, esta diversão não está isenta de perigo para quem decide mostrar a sua temeridade atravessando-se no caminho do animal ou “brincando” com ele, e nestes festejos já têm ocorrido acidentes sérios e até mesmo mortes. A julgar pela quantidade de pessoas que ali está reunida (e de agentes da polícia que desviam o trânsito e controlam a rua), a largada deve estar prestes a começar.

 

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Para nós, no entanto, é hora de regressar ao aeroporto. O caminho de volta à Praça Velha, por ruas praticamente desertas, tem para mim o sabor das despedidas tranquilas – quando vou embora de coração cheio, feliz por ter tido a sorte de conhecer mais um lugar vibrante, apaixonante e cheio de História, mais um bocadinho do meu país de que eu já conheço tanto e que, mesmo assim, tem sempre algo de novo para me oferecer… e me surpreender.

 

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