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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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A plácida Idanha-a-Velha

Civitas Aegitidanorum, Egitânia, Idanha-a-Velha. Três nomes para uma mesma Aldeia Histórica de Portugal que se ergue onde em tempos existiu uma próspera cidade romana, com créditos firmados em prova documental que data do séc. I a.C.

 

A plácida Idanha-a-Velha.jpg

 

Conta a lenda que “Quintus Lallius, cidadão de Merida Augusta, deu de boa vontade um relógio de sol aos Egitanos”, segundo parece porque eles não eram propriamente trabalhadores pontuais. Este acto de generosidade foi gravado em pedra, razão pela qual o testemunho subsiste até hoje. Tenha a lenda fundamento ou não, a verdade é que em Idanha-a-Velha o tempo parece imobilizar-se como se estivéssemos numa planície alentejana e não em terras da Beira interior. Ali o ar é quente e parado, e tudo está posto em sossego, o suave ruído de fundo próprio dos ambientes bucólicos apenas interrompido de quando em vez pelo barulho de um motor ou pelas vozes de uma conversa.

 

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O que primeiro chama a atenção quando chegamos a Idanha-a-Velha é o remanescente da muralha que em tempos a rodeou. O troço maior que hoje sobrevive é precisamente este, junto à Porta Norte, uma das entradas desta plácida aldeia cheia de personagens mudas que contam a sua história – a passada e a presente.

 

Idanha-a-Velha (46) Casa de Marrocos.jpg

 

Apesar das suas origens auspiciosas, a cidade da Egitânia foi perdendo importância com o passar do tempo, sobretudo a partir do séc. XVI. As terras em volta acabaram por se transformar num latifúndio, que no séc. XX se achou nas mãos da família Marrocos, constituindo um morgadio onde as principais actividades eram a agricultura e a pecuária. O último morgado foi António de Pádua e Silva Leitão Marrocos (1879-1957), que algures na primeira metade do séc. XX mandou substituir uma antiga casa de família por aquela que está agora identificada como Casa Grande, ou solar da família Marrocos.

 

Idanha-a-Velha (27) Casa de Marrocos.jpg

 

Abandonada mais recentemente pelos donos em favor de outras habitações mais modernas e fáceis de manter, a Casa foi vendida à Câmara Municipal de Idanha-a-Nova a fim de ser requalificada e transformada em hotel de charme, cujo intuito será o de dinamizar o turismo da região. No entanto, continua até hoje intocada e já visivelmente a começar a degradar-se – o que é lamentável, pois é um edifício bonito e original que merece ser conservado. Enquanto fotografava a casa através das grades de ferro do portão com linhas art deco, zelosamente fechado a cadeado, imaginei tardes calmosas de Verão passadas a descansar à sombra daquela varanda, lendo um livro e dormitando, lareiras aconchegantes no interior para espantar os dias gelados de Inverno, uma vida calma entremeando trabalho e passeios a pé, longe da confusão da cidade. Eu seria muito provavelmente feliz aqui.

 

Idanha-a-Velha (29) Casa de Marrocos - portão.jpg

 

Em Idanha-a-Velha anda-se devagar, os olhos demoram-se nos pormenores. As casas em pedra à vista alternam com outras pintadas de branco, convivendo ombro a ombro sem conflitos. As cortinas-mosquiteiras são acinzentadas e não ofendem a vista, e às caixas externas que protegem os contadores da água e da luz foi dado um falso ar ferrugento, para passarem despercebidas. A cor fica por conta das flores, rosas sobretudo. Não há fachada de casa que não tenha roseiras a trepar pelas paredes, e o mês de Maio é especialmente lisonjeiro para elas, que estão agora em plena floração. Há rosas em todos os tons, misturando-se com flores de outras espécies e enchendo o ar de perfume. Vê-se que os (poucos, muito poucos) habitantes de Idanha-a-Velha têm gosto em embonecar esta sua aldeia, e respondem com simpatia aos nossos cumprimentos e aos elogios à beleza dos canteiros – um pretexto mais do que justificado para dois dedos de conversa.

 

Idanha-a-Velha (42) rosas.jpg

 

Idanha-a-Velha (134) rua.jpg

 

Idanha-a-Velha (135) rua.jpg

 

Idanha-a-Velha (126) casa.jpg

 

Esta é também uma terra de cegonhas, impossíveis de ignorar pelo adejar de asas e ruidoso bater de bico com que nos brindam de vez em quando. Não há campanário ou chaminé mais alta que não tenha um respeitável ninho ocupado por uma ou duas dessas aves, silhuetas brancas recortando-se no céu azul-brilhante, observando as lonjuras ou – quem sabe? – posando orgulhosamente para mais uma fotografia. Nem a torre sineira da Igreja Matriz escapa a este destino, e o galo do catavento que a encima já não é dono e senhor daquelas alturas, obrigado que está a partilhar as atenções dos passantes com um vistoso casal emplumado.

 

Idanha-a-Velha (137) Igreja Matriz.jpg

 

Idanha-a-Velha (142) cegonha na torre da Igreja Ma

 

Terra que se preze em Portugal tem de ter o seu pelourinho, e esta não é excepção. Velho de cinco séculos, é outro dos ocupantes do Largo da Igreja, onde se destaca frente à Casa dos Templários, orgulhosamente preservado apesar de acusar o desgaste provocado pelo tempo.

 

Idanha-a-Velha (146) Pelourinho e Casa dos Templá

 

Em Idanha-a-Velha a pedra é omnipresente. Nos edifícios restaurados, nos monumentos, nas ruínas. Em cada canto há vestígios do passado perpetuados em pedra – é sem dúvida terra fértil para os arqueólogos – e a Igreja de Santa Maria, que foi Sé Catedral da visigótica Egitânia e mais tarde mesquita, é provavelmente a face mais visível da história desta região. Sucessivamente utilizada e modificada ao sabor das vontades dos vários povos que por aqui passaram (suevos, visigodos, muçulmanos, cristãos), teve sempre como denominador comum o facto de ser um local de culto, função que apenas perdeu no séc. XIX. Agora é um museu, uma imponente silhueta de pedra onde se notam bem as evidências do restauro de que foi alvo, pedras no meio de tantas pedras trazidas à luz do dia por escavações, outras encontradas sabe-se lá onde, muitas com letras, com inscrições, com desenhos, alinhadas como soldados a serem passados em revista. Se tivessem voz, que histórias não teriam estas pedras para contar…

 

Idanha-a-Velha (57) Sé Catedral - Igreja Sta. Mar

Idanha-a-Velha (165) Sé Catedral - Igreja Sta. Ma

Idanha-a-Velha (73) Sé Catedral - Igreja Sta. Mar

 

As pedras. Mais precisamente quarenta e três, que é a quantidade de poldras que emergem do leito do Pônsul no troço em que o rio corre a oeste da aldeia. Está caudaloso, resultado do muito que tem chovido nestes últimos meses, e atravessá-lo sobre estes silhares sobreviventes da época romana é um exercício de equilíbrio e concentração, em que qualquer descuido pode significar no mínimo um banho, ou mesmo um acidente mais sério. Obviamente, não é isso que me dissuade, e lá vou eu pisando pedra após pedra e tentando não escorregar – e a recompensa está mais ou menos a meio do caminho, de onde consigo ter uma visão desafogada do rio a partir de um ponto pouco habitual: meio metro acima do nível da água.

 

Idanha-a-Velha (86) Poldras.jpg

 

Idanha-a-Velha (87) Poldras.jpg

 

Idanha-a-Velha (90) Poldras.jpg

 

Idanha-a-Velha (94) Poldras.jpg

 

Mas porque o rio se desdobra no seu curso em curvas e contracurvas, rodeando quase completamente a aldeia, é também o Pônsul que limita o lado leste de Idanha-a-Velha. Só que aqui não há poldras; a travessia faz-se sobre uma ponte, também de pedra e também de origem romana, sob a qual a água passa tranquila e transparente, apenas agitada por apressados cardumes de peixes. E ao longe, no topo da serra, penedos longínquos por trás de outros penedos, vislumbra-se Monsanto, a aldeia onde a pedra é igualmente rainha.

 

Idanha-a-Velha (117) Ponte romana.jpgIdanha-a-Velha (121) Rio Pônsul.jpgIdanha-a-Velha (120) Ponte romana.jpg

 

Há também as árvores. As omnipresentes oliveiras, um pouco por todo o lado; uma palmeira alta e solitária projectando-se do nada entre muros; a volumosa e velha amoreira que oferece sombra a pessoas e carros, bem no centro da aldeia; e a enorme azinheira com 150 anos que tem as suas raízes envolvidas num pedaço da muralha romana.

 

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Idanha-a-Velha (40) Amoreira.jpg

 

Idanha-a-Velha (112) Azinheira.jpg

 

E há as capelas, que são várias: a de São Dâmaso, a de São Sebastião e a do Espírito Santo; há um forno comunitário e um lagar de varas; há os palheiros de São Dâmaso, que agora albergam a oficina de arqueologia; há um arquivo epigráfico, e uma Torre dos Templários. Há muito que ver nesta aldeia perdida no limbo entre um passado florescente e um futuro diáfano, que mereceria ser promissor mas está, como quase tudo actualmente, condicionado ao espírito economicista que estupidamente tem vindo a impor-se no nosso país.

 

Idanha-a-Velha (129) Capela de São Dâmaso.jpg

Idanha-a-Velha (3) Capela do Espírito Santo.jpg

Idanha-a-Velha (123) Antigos palheiros de São Dâ

 Idanha-a-Velha (157) casas.jpg

 

Deixo Idanha-a-Velha tal como a encontrei: quieta e perfumada sob o sol que brilha inclemente, resguardando das vistas de quem passa a riqueza histórica e cultural que abriga no seu interior e só revela a quem, incautamente ou de propósito, pára para a descobrir e lhe prestar a homenagem que merece – e (quem sabe?) ficar, como eu, presa no seu sortilégio.

 

Idanha-a-Velha (77) Porta Sul.jpg

 

Idanha-a-Velha (113) gato.jpg

 

Idanha-a-Velha (115) Fonte.jpg

 

Idanha-a-Velha (127) casa.jpg