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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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A outra face de Ios - Parte 2

 

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A louca vida nocturna de Hora é famosa entre as camadas mais jovens da população europeia e até mesmo de países longínquos, e eu acredito que esta reputação seja merecida – mas pelo menos não no mês de Junho. Quando chegámos à vila, depois de uma caminhada de dez ou quinze minutos, já eram quase onze da noite, mas o ambiente geral era mais do que calmo.

Sob a iluminação nocturna, Hora parece quase o cenário de um presépio. O aglomerado de casas e igrejas trepa pelo declive da colina. No topo, três capelas brancas brilham sob os holofotes, e um pouco mais abaixo destaca-se a cúpula azul da igreja de Panaghia Gremiotissa (“Panagia” significa “Santíssima”, a designação habitual na Grécia para “Santa Maria” ou “Virgem Maria”), de cujo miradouro se avista uma boa parte da ilha de Ios. O casario branco ocupa a encosta como um lençol aberto, e na base sobressai o enorme volume da Catedral de Evangelismos (Anunciação), também branca e azul.

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Na sombra da Catedral, e bem mais discretas, acolhem-se duas outras pequenas igrejas que são nitidamente mais antigas. A primeira, Aghia Ekaterini, situa-se mesmo no extremo da praça principal – que é um espaço amplo completamente lajeado, com uma fila de árvores em volta e uma coluna no meio, em jeito de monumento. No local onde se ergue hoje a igreja de Aghia Ekaterini existiu em tempos um templo dedicado a Apolo Pythios. Ao estilo cicládico, a igreja tem linhas simples, com uma fachada onde apenas se destaca um arco com um sino suspenso, e uma grande cúpula azul. Já Aghios Georgios, ainda mais pequena e completamente branca, parece “nascer” de um dos lados da própria Catedral, e quase não nos apercebemos de que é na realidade um edifício independente.

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Ao todo, só em Hora existem 22 igrejas e capelas. Parece muito para uma vila tão pequena, mas se pensarmos que supostamente há 365 em toda a ilha… E na verdade, não há lugar nenhum onde o nosso olhar não abranja pelo menos uma, e normalmente até mais do que uma.

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Apesar de não haver muito movimento nas ruas, a maioria das lojas estava aberta ainda àquela hora, e aproveitámos para comer um gelado. Nas ilhas gregas abundam as gelatarias, e outra coisa não seria de esperar de um destino turístico de Verão por excelência. Os gelados que vendem são do tipo italiano, com mais ou menos variedades e inovações, e sempre deliciosos. Impossível resistir…

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Gelado na mão, continuámos o nosso périplo pelo coração de Hora. As ruas são estreitinhas e cheias de curvas, recantos e escadinhas. O chão está revestido com grandes blocos de pedra cinzenta cortados em forma de polígono, de tamanhos variados, com as juntas pintadas a tinta branca. Certas partes das ruas estão cobertas por telheiros em madeira e palha, por caramanchões de buganvílias, ou ainda por toldos ou varandas, que oferecem uma protecção bem vinda quando o sol está forte. Sob as luzes nocturnas, no entanto, criam um certo ambiente de mistério.

Há muita iluminação, mas os néones são raros. As placas com os nomes dos inúmeros restaurantes e bares destacam-se nas paredes brancas, mas muitas das portas estavam fechadas. Pelas pesquisas que fiz depois na internet percebi que a maioria destes bares só funciona realmente na época alta, abrindo em inícios de Julho e encerrando ali pelos meados ou final de Setembro. Aliás, não só os bares como também muitos dos hotéis, como é o caso do próprio Hotel Katerina – disse-nos a Maria, noutra ocasião, que o Hotel só abre de meados de Maio até fim de Setembro, estando encerrado durante o resto do ano.

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No fundo de um beco inclinado, a cabeça de palhaço que anuncia o bar “Circus” deita-nos a língua de fora, pairando sobre o painel do restaurante “Arhondiko”, que serve comida típica grega e oferece mesas no terraço para quem quer comer tendo como paisagem o casario de Hora. Passamos depois pelo “Lord Byron”, provavelmente o restaurante mais conhecido da vila. Não posso confirmar a fama que parece ter como lugar onde se come bem, mas o ambiente e a decoração são sem dúvida fora do vulgar. Paredes meias com (mais) uma pequena igreja, tem uma zona ao ar livre com mesas cobertas com toalhas estampadas e cadeiras rústicas com assento de corda. Vasos de cores vivas com sardinheiras estão espalhados pelo recinto e o verde das plantas condiz com o da porta e das janelas, delineadas por faixas de tinta encarnada. Uma árvore de tronco grossíssimo serve de ex libris do conjunto, a enorme copa certamente apta a servir de chapéu-de-sol quando o sol bate forte. A decoração do interior é ecléctica e ainda mais colorida, com as paredes cheias de quadros e uma profusão de outros objectos furta-cores.

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Vamos andando meio perdidas naquele labirinto de ruelas até que desembocamos num pequeno adro nas traseiras da Catedral. Sobre as nossas cabeças um enorme dossel feito de ramos de árvores mal deixa ver o céu. No meio de outras lojas, um barzinho instalou cá fora uma esplanada com mesas de ferro forjado e cadeiras de madeira e assento de tabua – tal e qual como as nossas cadeiras alentejanas tradicionais. Apesar do ventinho fresco e de já ser quase meia-noite, há algumas pessoas sentadas a conversar descontraidamente. Mas também ali o ambiente é de calma generalizada.

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Mais algumas fotografias à Catedral e às igrejas e estamos de volta ao ponto de partida. O único sinal que vimos de maior animação foi um vislumbre, através de uma janela, de algumas pessoas que dançavam no andar superior de um dos bares. De resto, Hora estava absolutamente posta em sossego.

No caminho de volta ao hotel, depois de sair da vila e em frente a uma bonita igreja, um muro branco comprido anuncia o Scorpion Night Club. É aparentemente uma das discotecas mais famosas e animadas da ilha, mas claro que também estava fechada.

Apesar de não se ver vivalma na rua, fosse de pessoas ou veículos, não experimentámos qualquer sensação de insegurança. A estrada tem boa iluminação, as bermas são estreitas mas não particularmente perigosas, e a lua cheia acompanhou-nos durante o regresso.

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