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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica II

Dia 2

 

A manhã começou cedo, ao som do despertador do telemóvel. Despertador e férias não rimam lá muito bem, mas neste caso era por um bem maior. Após aturadas pesquisas na net tínhamos descoberto uma forma pouco dispendiosa e relativamente rápida de chegar a Tortuguero, mas a sequência de meios de transporte a apanhar estava cronometrada quase ao minuto, e não podíamos dar-nos ao luxo de perder nenhum deles.

Depois de um pequeno-almoço tomado a correr na cozinha do hostel e que incluiu umas gaufres deliciosas preparadas pelo recepcionista de serviço, às oito da manhã já estávamos a apanhar um táxi que nos levou ao Terminal del Caribe, de onde saímos às nove num autocarro com destino a Cariari. Um autocarro relativamente confortável mas a precisar de muita manutenção no interior e sem ar condicionado. As malas foram acomodadas no compartimento das bagagens, em baixo, e a preocupação até sairmos foi ver se elas não “saíam” do autocarro sem nós. Preocupação um bocado escusada: como fomos percebendo ao longo do resto da viagem, a Costa Rica é um país bastante seguro e as pessoas são, de um modo geral, honestas e simples.

O dia estava cinzento e os chuviscos chegaram mesmo a transformar-se em chuva copiosa enquanto atravessámos o Parque Nacional Braulio Carrillo – o nosso primeiro contacto visual com a vegetação exuberante típica da maioria dos parques naturais da Costa Rica. Verde e mais verde, e água, a água da chuva e a das muitas cascatas que se vêem pelo caminho.

O autocarro ia praticamente cheio, com muitos ticos (como os costa-riquenhos se intitulam) e alguns turistas. Durante uma boa parte do percurso de mais de hora e meia em estrada asfaltada fomos “brindados” com uma sessão de publicidade a um curso de inglês básico em versão CD+livros. Facilmente identificados como turistas pelo divulgador, fomos poupados à distribuição dos livrinhos promocionais, que afinal acabavam por ter de ser pagos por quem quisesse ficar com eles.

 Às 10.45 chegámos à Estação Nova de Cariari. Recuperámos as malas e ignorámos o quiosque que anunciava transporte directo para Tortuguero, já devidamente informados (na Internet, claro) de que aquele operador iria cobrar muito mais caro pelo serviço. Misericordiosamente, a chuva parara, pelo que pudemos fazer o percurso de pouco mais de cinco minutos a pé pela rua principal até à Estação Velha sem grandes percalços, seguindo escrupulosamente o mapa rudimentar que tínhamos no nosso caderno-guia, cheio com todo o tipo de informações que poderiam ser úteis, compiladas a partir dos inúmeros sites sobre a Costa Rica que existem na Internet.

 

 

 

 

 

Não percebi se era algum dia especial ou se era sempre assim, mas a verdade é que Cariari sendo para nós, europeus, o equivalente a uma aldeia deprovíncia, estava a abarrotar de gente, de carros e de bicicletas. No meio da confusão, lá conseguimos dar com o guiché da Coopetraca, onde comprámos os bilhetes de autocarro até La Pavona e os de barco de La Pavona para Tortuguero. Restava-nos uma hora de espera, mas não havia nem um único lugar para nos sentarmos, já para não falar na inexistência de um bocadinho de chão limpo ou seco onde colocar as malas. Entretanto a chuva decidiu dar um ar da sua graça e abrigámo-nos como pudemos debaixo do pequeno e apinhado telheiro que resguarda a zona de espera da estação.


 Felizmente que o autocarro chegou algum tempo antes da hora marcada e lá nos instalámos, as malas uma vez mais relegadas para o porão mas sempre sob vigilância apertada. Este autocarro era muito menos confortável que o anterior e a viagem para La Pavona deu-nos uma amostra de como iriam ser daí em diante quase todos os percursos nas estradas da Costa Rica: quentes, lentas e cansativas. O calor húmido colava-se à pele, os ossos eram chocalhados sem piedade por causa do mau estado da estrada sem asfalto e os meus tímpanos ameaçavam ceder ao barulho insuportável provocado pela vibração dos vidros das janelas. A chuva que caiu abundantemente durante boa parte do trajecto também não ajudou a abreviar a viagem. Uma hora de tortura até chegarmos finalmente a La Pavona, que pouco mais é do que um parque de estacionamento para os carros que ali têm de ficar a aguardar o regresso dos donos, uma vez que a Tortuguero só se chega de barco ou de avião. Nem sequer há ancoradouros para as lanchas, que partem assim que está toda a gente instalada. Também não há horários fixos: os barcos esperam pelo autocarro e saem uns atrás dos outros, à medida que vão enchendo.

 Até Tortuguero é mais uma hora de barco pelo rio lamacento, e foi aqui que a aventura verdadeiramente começou. Deslizando quase rente à agua por entre a enorme massa de vegetação, senti-me como se estivéssemos no coração da selva, subindo o rio como no filme “Apocalipse Now”, indo ao encontro do desconhecido. O que não deixava de ser verdade.

Ao aproximarmo-nos de Tortuguero o rio estreito desemboca no canal, muito mais amplo e desafogado. O barco foi largando uma pessoa aqui e outra ali, nas várias casitas espalhadas pelas margens do canal, até que chegámos finalmente à aldeia. Estávamos a viajar há seis horas e o nosso almoço tinha consistido em barras de cereais e água. Não admira que me sentisse extenuada.

 Encontrar a Casa Marbella foi fácil – fica na rua principal, quase em frente à Igreja, e está pintada de amarelo e azul. Fomos simpaticamente recebidos pela Gina, que nos falou do que poderíamos fazer e ver em Tortuguero e nos pôs à vontade. Quarto e casa de banho simples mas impecavelmente limpos e com um cheiro agradável, duas ventoinhas, espaço suficiente para as nossas coisas e colchão confortável. Após um duche quente, demos um breve passeio para “reconhecer o terreno” e tomámos uma refeição ligeira (na padaria Dorling’s, mesmo ao lado da Casa Marbella). Só então comecei a sentir-me eu novamente.

 A aldeia está aninhada entre a lagoa de Tortuguero e a praia, e é limitada a sul pela entrada para o Parque Nacional que tem o mesmo nome e a norte pelas instalações da CCC (Caribbean Conservation Corporation, uma instituição americana que se dedica à protecção das tartarugas marinhas). Consiste basicamente numa rua de terra batida, paralela ao canal, ao longo da qual se encontram os principais estabelecimentos comerciais. Há uma boa quantidade de lojas de artesanato e “souvenirs”, nitidamente destinadas aos muitos turistas que aqui são desembarcados todos os dias. Ao contrário do que nos tinham dito, há bastante oferta de alojamento na aldeia, na sua maioria “cabinas” com aspecto algo rudimentar. Os hotéis mais sofisticados são talvez uma meia dúzia e encontram-se afastados, espalhados ao longo do canal, e só são acessíveis de barco, à excepção de um deles. Não há bancos e muito menos ATMs, e poucos locais aceitam cartão de crédito, por isso há que ir bem abastecido de dólares ou colones para pagar as despesas todas.

Vários caminhos transversais ligam a rua principal da aldeia à praia, situada mais a leste e paralela ao canal. Com quase 30 Km de areia ininterrupta, não é no entanto uma praia convidativa para algo que não seja passear. A ondulação é intimidante, a corrente fortíssima, e dizem os guias que por ali se passeiam tubarões. Aqui também a praia e parte do mar estão sob a protecção do Parque Nacional de Tortuguero, por este ser um local de desova de tartarugas marinhas. Há excursões nocturnas pela praia precisamente para tentar ver as tartarugas; mas esta não era a época alta da desova (apesar de com um pouco de sorte ser possível ver alguma, como aconteceu a um casal com dois filhos que fez uma excursão nessa mesma noite) e de qualquer modo nós já tínhamos decidido deixar as pobres tartarugas porem os seus ovos em paz e sossego.

 Demos um longo passeio pelo areal, com o barulho da rebentação em fundo e alguns abutres por companhia, voando lá no alto. Ummaçarico-galego tentava encontrar alimento à beira de água, pesquisando a areia com o seu enorme bico, e troncos de árvore descascados subiam e desciam na areia ao sabor das ondas. O céu estava carregado de nuvens cinzentas e havia algum vento, que trazia consigo o cheiro forte do mar, mas a chuva não fez a sua aparição, apesar da muita humidade e de tecnicamente a costa caribenha já se encontrar no início da “estação verde” (como é turisticamente designada a época das grandes chuvas na Costa Rica).

De volta à aldeia, fizemos a nossa inevitável ronda pelas lojas de artesanato e recuerdos, em busca dos obrigatórios postais e ofertas para levar à família e amigos. Como ainda estávamos no início das férias, não quisemos comprar muita coisa com receio de mais tarde, noutros pontos da viagem, encontrarmos coisas diferentes e mais baratas, e também para andarmos menos carregados. A opção acabou por não se revelar a melhor, se não em termos de variedade pelo menos em questão de preços, porque Tortuguero é, apesar do seu isolamento e carácter turístico, uma das zonas menos caras da Costa Rica. À porta de uma destas lojas, um escaravelho-de-Hércules descansava no topo de um escaparate de postais, como se fosse um animal de estimação, e quase passaria despercebido se não fosse a dona da loja chamar a nossa atenção para a fêmea – que se distingue facilmente pela ausência das enormes mandíbulas em forma de chifre – passeando pelo chão em sério risco de ser pisada.

Como em todos os países tropicais, a noite caiu cedo e quase de repente. Cansados e com pouco para ver ou fazer, optámos por jantar cedo. Após um breve levantamento dos locais onde poderíamos comer bem, decidimos ir ao Miss Junnie’s.

É uma propriedade com um tamanho razoável, mas não tem vedações nem portão. Tem relva e muita vegetação e dois edifícios em madeira. O maior destina-se a alojamentos, e estava em obras no lado de trás, provavelmente para ampliação. O restaurante pareceu também ter sido renovado recentemente. Tem uma dimensão suficiente e um ambiente simpático, entre o rústico e o elaborado, com pormenores cuidados. Sendo o restaurante mais antigo de Tortuguero, será também provavelmente o melhor, com um menu de pratos típicos da Caraíbas feitos na hora. Comemos muito bem e bebemos uns sumos de fruta naturais absolutamente deliciosos. Talvez devido à diferença horária, ou ao cansaço acumulado das viagens (ou às duas coisas juntas), quando chegámos ao fim da refeição eu já estava a morrer de sono, e apesar da noite estar agradável, depois do jantar não houve outra alternativa a não ser ir mesmo dormir.