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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

A igreja de Válega

 

Portugal é o país europeu onde a azulejaria atingiu um estatuto de destaque como arte com nome próprio, e a interacção desta técnica com manifestações artísticas de outros géneros faz do azulejo português um caso especial e muito provavelmente único no mundo.

 

Com origens no Oriente e trazido para a Europa com a expansão islâmica, o azulejo só chegou a Portugal pelas mãos de D. Manuel I em finais do séc. XV, após uma visita a Espanha em que o nosso rei se encantou com a sua utilização em edifícios de influência mourisca. Tendo na altura o nosso país uma já enraizada tradição cerâmica, não demorou muito até começarmos a produzir os nossos próprios azulejos, com técnicas e temas vindos da Itália e da Holanda – as primeiras oficinas de azulejaria foram aqui instaladas por ceramistas flamengos. A estética geométrica do azulejo islâmico, embora não desaparecendo completamente, foi depois ultrapassada pela estética figurativa e a utilização do azulejo em painéis acabou por concorrer com a pintura mural, sobretudo na arquitectura religiosa e palaciana. Numa outra vertente, sendo um material barato, durável e com propriedades isolantes, o azulejo passou também a ser largamente utilizado para revestimento e protecção de edifícios de todo o tipo; tendo aqui uma faceta mais utilitária do que artística, estes azulejos eram geralmente monocromáticos e repetiam um mesmo padrão.

 

O mais vistoso exemplo desta aliança entre o carácter decorativo e o aspecto prático do azulejo na arquitectura religiosa portuguesa é sem dúvida a Igreja de Válega.

 

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Válega fica a meia dúzia de quilómetros de Ovar - um curto desvio para quem segue na A1 - e o adjectivo mínimo que é possível aplicar a esta igreja é “espectacular”. Também conhecida como Igreja de Nossa Senhora do Amparo, é surpreendentemente grande para uma localidade que parece ser tão pacata. Claramente de inspiração barroca, a sua construção teve início em meados do séc. XVIII e prolongou-se por mais de um século.

 

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Mas o que torna esta igreja tão especial é o facto de ter as suas paredes completamente revestidas de azulejo: as laterais e a parte de trás num padrão simples em azul e branco, em franco contraste com a fachada multicolorida – que é inquestionavelmente o local onde os nossos olhos mais se demoram quando a vemos de fora. Os elementos estruturais da igreja, em granito cinza, servem de moldura a enormes painéis de azulejo, pintados em cores vivas, onde estão representadas várias cenas da iconografia católica.

 

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O interior é igualmente impressionante, com a abóboda forrada de caixotões em madeira exótica e as paredes revestidas com faixas de mármore e também decoradas com azulejos pintados com figuras e cenas emolduradas por elaboradíssimas cercaduras. A pia baptismal é a peça mais antiga que ali se encontra, datando do séc. XVI, e foi feita em pedra da região de Ançã, uma pedra calcária muito macia e largamente usada em Portugal e no resto da Europa a partir do séc. XV, sobretudo para trabalhos escultóricos.

 

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As características principais que fazem hoje da Igreja de Válega uma das mais espantosas igrejas do nosso país resultaram de obras executadas já no séc. XX, entre os anos 20 e 60. Em particular, os azulejos interiores e exteriores (pintados à mão) que constituem a sua principal atracção foram produzidos no final da década de 50 pela Fábrica Aleluia, situada em Aveiro – e que ainda hoje existe.

 

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Um último pormenor curioso: a fachada principal da igreja não está virada para a estrada de acesso, mas sim para o cemitério da localidade, que se estende pelo terreno em frente. Como está orientada para oeste, a melhor altura para a visitar é à tardinha, quando o sol faz brilhar os azulejos da fachada e dá às cores uma tonalidade mais quente.

  

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Coordenadas: 40° 50' 01" N    08° 34' 49"O

 

O ano de todas as ameaças

 

Pode ser impressão minha, mas creio que em tantos (tantos!) anos de Verões em que o fogo assola o nosso país sem dar tréguas, nunca houve outro em que tanto património – humano e construído – tenha estado tão ameaçado como este ano. Até agora os fogos pareciam afectar sobretudo áreas florestais, com uma ou outra aldeia mais remota esporadicamente evacuada. As perdas – sempre desmesuradas, sempre lamentáveis – contabilizavam-se sobretudo ao nível da massa arbórea da área ardida, com a infelicidade ocasional de uma morte ou de bens materiais destruídos.

 

Este ano parece-me estar a ser diferente, e bem mais pesado. O elevado número de vidas perdidas no incêndio de Pedrógão (e até disto há quem vergonhosamente tente tirar dividendos políticos), as muitas aldeias já consumidas pelos fogos, os animais que não puderam ser salvos, os bens pessoais irrecuperáveis… este ano parece não haver incêndio cuja factura não seja ainda mais elevada do que já era habitual. Infelizmente, lamentavelmente. Uma tristeza.

 

Isto vem a propósito do incêndio que está agora activo na zona das Portas de Ródão – tão activo que no momento em que escrevo isto está considerado como incontrolável. Estive lá há coisa de um ano, num fim de tarde morno e tranquilo, ideal para apreciar toda aquela beleza. O Tejo parado como um espelho, o castelo do Rei Wamba vigiando lá do alto o curso do rio, as escarpas que dão o nome ao local (disto tudo já falei aqui e aqui). A esta hora, com o lugar transformado numa fornalha – o incêndio já passou pelo castelo e agora aproxima-se das Portas – e mais uma aldeia já evacuada, a paisagem estará certamente diferente da que vi e fotografei. Tristemente diferente…

 

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As surpresas de Angra do Heroísmo

 

Açores, Junho de 2017. No regresso a Lisboa, uma escala de várias horas no aeroporto das Lajes, na ilha Terceira. Um dia lindo de sol e céu azul. Que fazer? Não houve qualquer indecisão: apanhar um táxi para visitar Angra do Heroísmo, que ainda não conhecia. O resultado: uma belíssima surpresa.

 

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São apenas 20 km entre o aeroporto e Angra, maioritariamente feitos numa via rápida que atravessa a planura verde do leste da Terceira. De um lado e do outro, campos a perder de vista, um casario aqui e ali, uma ou outra vaca a pastar – e de repente estamos a entrar na cidade, à primeira vista igual a tantas outras aqui no continente, com rotundas e prédios e estradas largas. Depois, novamente de repente, as ruas estreitam e tudo muda, o piso agora é de paralelepípedos muito escuros, as casas já são mais baixas e têm varandas de ferro forjado. Entrámos no coração da cidade.

 

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O taxista prestável deixa-nos na Praça Velha, com a promessa de vir buscar-nos mais tarde a tempo de apanharmos o voo para Lisboa. É aqui o centro nevrálgico de Angra, com uma história tão antiga quanto a da cidade, remontando ao longínquo séc. XV. Ao longo dos tempos teve diferentes funções, desde mercado a palco de corridas e local de enforcamentos, mas a mais importante foi ter desde sempre abrigado a sede municipal. Hoje, cuidadosamente estudado para dar a impressão de uma praça rectangular, este enorme trapézio em frente à Câmara tem árvores, bancos de jardim e uma esplanada. O piso é de pedra calcária e basáltica, formando quadrados e outras figuras geométricas. Aqui como em várias outras ruas, a calçada portuguesa está de boa saúde.

 

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Já me tinham falado das cores de Angra do Heroísmo, mas não estava preparada de todo para isto. Na minha mente a cidade ainda era sobretudo branca e cinzenta, monótona, como nas fotos antigas. Mas a Angra de agora não podia estar mais distante desta imagem. Mal começamos a descer a Rua Direita, que nos leva ao mar, o que primeiro salta à vista são as cores das fachadas das casas: brancas na sua maioria, é verdade, mas com faixas coloridas a contornarem as portas e janelas, cada uma com uma cor diferente; outras parecem estar em negativo, a cor cobre as paredes e os contornos são em branco; os ferros forjados estão pintados de verde-escuro ou até mesmo de cor de vinho, e todas aquelas cores, vibrantes ou em tons pastel, quentes, frias ou neutras, azuis, amarelos, rosas, verdes e quaisquer outras que possamos imaginar, combinam como que milagrosamente entre si na perfeição. Sob o sol da tarde, cada edifício adquire um brilho próprio e parece irradiar alegria. E eu, que tenho uma predilecção especial por lugares coloridos, fico imediatamente enfeitiçada por esta cidade tão diferente do que eu estava à espera.

 

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As igrejas de Angra também não escapam ao frenesim colorido que inunda a cidade. Azul-claro para a Igreja da Misericórdia, colocada de frente para o mar, turquesa para a de Nossa Senhora da Conceição. A Sé Catedral do Santíssimo Salvador, com uma dimensão imponente (é a maior de todo o arquipélago dos Açores) mas mais discreta no gosto, optou por um tom salmão-claro, que contrasta com os azulejos brancos e verdes-escuros que revestem as pirâmides das torres com um padrão em ziguezague. Com a fachada virada para o Jardim Duque da Terceira, a Igreja de Nossa Senhora da Guia tem faixas num tom forte cor de tijolo, tal como o Convento de São Francisco que lhe está adjacente e abriga o Museu de Angra. E ao lado do Palácio dos Capitães-Generais, que começou por ser um Colégio da Companhia de Jesus e agora, depois de desempenhar várias outras funções, é uma das sedes do Governo Regional, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo está pintada num amarelo forte, quase laranja.

 

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No dia 1 de Janeiro de 1980, um sismo de 7,2 na escala de Richter destruiu 80% dos edifícios da cidade. Menos de quatro anos depois, a zona central de Angra (o centro histórico e o parque florestal do Monte Brasil) era classificada como Património Mundial pela UNESCO. Qual fénix renascida das cinzas, a reconstrução da cidade não só a renovou como também a reinventou, mantendo a malha urbana e a sua traça histórica mas dotando-a de algumas infraestruturas mais modernas. Este processo de reinvenção tem sido contínuo: o histórico Porto das Pipas é desde 2007 uma estrutura náutica para embarcações de lazer; uma estátua homenageia Vasco da Gama junto às Portas da Cidade, onde uma passadeira de granito tem gravadas estrofes várias de poemas sobre a descoberta do caminho para a Índia; o edifício adjacente ao da antiga Alfândega é actualmente “tela” para manifestações artísticas; e a street art também encontra nesta cidade o seu espaço.

 

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Angra - monumento em homenagem a João Baptista Ma

 

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Outra das surpresas agradáveis de Angra é o peculiar Jardim Duque da Terceira. Criado em finais do séc. XIX, é um jardim pouco convencional que mistura uma variedade de concepções estéticas diferentes. Um lago rodeado de flores e arbustos em composições geométricas, fontes e tanques com nenúfares habitados por rãs e peixes, árvores tropicais e orientais, bustos e estatuetas, passeios em calçada portuguesa, painéis de azulejos, um caramanchão, uma glorieta e um coreto… Nada falta neste jardim que se estende pela encosta acima até terminar no Obelisco da Memória, construído em meados do séc. XIX em homenagem a D. Pedro IV e à causa liberal.

 

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A tarde está quente. Apesar disso, a Prainha (a única de areia na cidade) não está cheia. Angra está em festa – ou pelo menos prepara-se para ela. As Sanjoaninas são só mais perto do fim do mês, mas as ruas já estão enfeitadas com arcos. Depois, lá em cima, do miradouro do Alto da Memória, notamos a aglomeração de pessoas ao longo de uma das ruas, umas andando de um lado para o outro, outras sentadas nos muros ou em degraus, nos alpendres ou à janela. Só quando a seguir lá passamos e vemos os cartazes e as marcações no chão é que começamos a perceber o que se passa: vão ser largados touros à corda. Uma tradição tauromáquica secular específica da Terceira em que touros são largados numa rua ou estrada, presos por uma corda controlada por vários homens; embora os chifres dos animais estejam sempre devidamente protegidos, esta diversão não está isenta de perigo para quem decide mostrar a sua temeridade atravessando-se no caminho do animal ou “brincando” com ele, e nestes festejos já têm ocorrido acidentes sérios e até mesmo mortes. A julgar pela quantidade de pessoas que ali está reunida (e de agentes da polícia que desviam o trânsito e controlam a rua), a largada deve estar prestes a começar.

 

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Para nós, no entanto, é hora de regressar ao aeroporto. O caminho de volta à Praça Velha, por ruas praticamente desertas, tem para mim o sabor das despedidas tranquilas – quando vou embora de coração cheio, feliz por ter tido a sorte de conhecer mais um lugar vibrante, apaixonante e cheio de História, mais um bocadinho do meu país de que eu já conheço tanto e que, mesmo assim, tem sempre algo de novo para me oferecer… e me surpreender.

 

O fascínio das aldeias portuguesas

Em contraponto a esta imensa aldeia global em que o nosso planeta parece estar a tornar-se existe aparentemente, pelo menos na Europa, um crescente movimento de vontade de individualização, de necessidade da preservação de identidade cultural, de uma espécie de regresso às origens. Este movimento está a originar um ressurgir progressivo das aldeias portuguesas, quer pelo interesse de que são alvo por quem as visita, quer pela vontade de recuperação e repovoamento por parte de quem lá vive ou aí tem as suas origens.

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Nos seus menos de 100 mil metros quadrados, o nosso país abriga inúmeras aldeias riquíssimas em história, tradição, gastronomia, cultura e património artístico, todas elas a merecerem atenção. Nalguns casos, a fama precede-as, e recebem milhares de visitantes por ano; noutros casos, há verdadeiras jóias praticamente desconhecidas da maior parte das pessoas, algumas delas abandonadas e em ruínas, outras cheias de vida e cor mas mesmo assim fora dos roteiros turísticos mais movimentados.

 

Estas são algumas das minhas preferidas:

 

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Aninhada numa cova entre três serras, invisível a partir das estradas que serpenteiam em redor, a aldeia da Drave tem o poder de enfeitiçar quem se decide a conhecê-la. A tarefa não é fácil: inacessível de carro, com um todo-o-terreno consegue-se ir até cerca de 1 km da aldeia, mas com um carro vulgar fica-se na melhor das hipóteses a quase 3 km de distância, e se a descida é relativamente pacífica, o regresso implica uma dolorosa hora de subida em declive por vezes bastante acentuado. Mas acreditem que vale a pena. Tem uma capelinha, branca no meio da pedra castanha, ribeiros que a contornam e até mesmo uma pequena cascata, árvores para piquenicar à sombra, um fantástico prado verde que parece saído dos livros, pontes de madeira, casas em ruínas, e um ambiente mágico.

Sem qualquer habitante nos dias que correm, e sem ter electricidade, água canalizada ou saneamento, a Drave (sim, diz-se “a” Drave) está actualmente “à guarda” do Drave Scout Centre (www.dravescoutcentre.com), um centro escutista que ali desenvolve regularmente as suas actividades.

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Em Idanha-a-Velha o tempo parece imobilizar-se como se estivéssemos numa planície alentejana e não em terras da Beira interior. A pedra é omnipresente: nos edifícios restaurados, nas pontes e monumentos, nas ruínas - em cada canto há vestígios do passado, perpetuados em pedra, lembrando que aqui existiu uma importante cidade romana, mais tarde a visigótica Egitânia, que acabaria por ser tomada e destruída pelos mouros.

As casas em pedra à vista alternam com outras pintadas de branco, convivendo ombro a ombro sem conflitos. As cortinas-mosquiteiras são acinzentadas e não ofendem a vista, e às caixas externas que protegem os contadores da água e da luz foi dado um falso ar ferrugento, para passarem despercebidas. A cor fica por conta das flores, que são sobretudo rosas. Não há fachada de casa que não tenha roseiras a trepar pelas paredes, e vê-se que os poucos habitantes de Idanha-a-Velha têm gosto em alindar a sua aldeia.

Há muito que ver nesta aldeia, perdida no limbo entre um passado florescente e um futuro diáfano, resguardando das vistas de quem passa a riqueza histórica e cultural que abriga no seu interior.

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Penha Garcia é uma vila pacata mas cheia de charme, com origens que remontam a D.Sancho I – e possivelmente até anteriores. Estendendo-se na encosta da serra granítica que tem o mesmo nome, desdobra-se em ruas íngremes que desembocam em pequenos largos rodeados de casas em pedra ou brancas de cal. Do alto do castelo, a vista deslumbra: de um lado, o casario da aldeia e a verde planície beirã; do outro, o vale do rio Pônsul, actualmente aprisionado numa barragem e de onde escorre apenas em versão de ribeiro. Descer até ao vale é entrar num túnel do tempo. Nas margens do Pônsul sobrevivem azenhas, em tempos importantes para a vida da aldeia e que têm vindo a ser recuperadas a pouco e pouco. Mas mais interessantes ainda são os icnofósseis que sobrevivem bem visíveis nas paredes rochosas, vestígios dos Trilobites que dominaram os mares há centenas de milhões de anos.

Aproveitando as águas da barragem, foi há alguns anos construída no vale a praia fluvial do Pego, uma espécie de “piscina” rodeada por um passadiço em madeira e alimentada por uma queda de água, formando um recanto verdadeiramente idílico.

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Antiga aldeia de pescadores, além do belíssimo e extenso areal que lhe dá o nome a praia da Tocha tem um curioso núcleo habitacional formado pelos antigos palheiros onde eram guardados em tempos idos os materiais da pesca, ou que serviam de armazém para a salga do peixe. Hoje estes palheiros recuperados conhecem uma nova vida e sevem essencialmente como casas de férias, mantendo a traça e os materiais originais e, em muitos deles, os seus padrões genuínos com riscas fininhas em duas cores, em contraste alegre com o tom quase branco da areia.

A designação de “palheiros” vem do facto de originariamente os telhados destas casas serem feitos de palha. Nos nossos dias, a palha já foi substituída pelas telhas, mas o nome tradicional permanece. A procura turística como lugar de veraneio resultou num óbvio crescimento urbanístico da aldeia, mas felizmente de forma contida e sem afectar muito as suas características tradicionais. E na praia, a arte xávega permanece viva e é um dos motivos de atracção e curiosidade para quem vem de fora.

 

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As aldeias avieiras foram criadas no início do séc. XX por pescadores oriundos de Vieira de Leiria, que vinham pescar ao Tejo durante o Inverno e regressavam à sua terra e à sua faina pesqueira habitual nos meses mais amenos. O Escaroupim é uma dessas aldeias e nela subsistem algumas casas tradicionais, construídas sobre estacas para evitar as inundações durante as cheias frequentes do rio e pintadas de cores vivas, as mesmas cores do barco que pertencia ao seu dono. Restauradas e agora dedicadas ao comércio ou funcionando como museu, enchem de cor esta aldeia – que é minúscula, mas senhora de um carácter bem original.

O cais palafítico, também renovado, abriga os barcos dos pescadores ainda activos, e foram construídos mais alguns cais onde atracam as embarcações protegidas com toldos que se dedicam a levar grupos de pessoas em passeio pelos mouchões (ilhotas formadas pela acumulação de aluviões) do Tejo, habitats únicos para muitas aves, peixes e até cavalos.

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Perto de Mértola, numa das mais bonitas zonas do nosso Baixo Alentejo, a Mina de S. Domingos é uma aldeia absolutamente fora do comum. Dona de uma lindíssima e bem cuidada praia fluvial, de uma imponente igreja branca com laivos de mesquita que terá sem dúvida sido inspirada na Igreja Matriz de Mértola, a sua origem entrelaça-se com a história da exploração mineira que funcionou na região entre 1858 e 1965.

Mas é na Achada do Gamo, um dos locais onde se desenvolveu essa exploração, que deparamos com uma paisagem de ficção científica ímpar no nosso país: edifícios em ruínas, equipamentos abandonados, lençóis de água parada com cores acobreadas ou amareladas e vastas áreas pedregosas; um cenário pós-apocalíptico surpreendentemente atraente – e profundamente silencioso. Apenas se ouve o som da terra pisada pelos nossos passos, e esporadicamente o piar de uma ave muito ao longe. Ali é terra-de-ninguém, contaminada, onde rara vegetação cresce e que os animais evitam. Edifícios meio desfeitos, extirpados, estruturas expostas, os tons da pedra manchados pela ferrugem, o cinzento do solo declinado desde o quase branco até ao negro-carvão.

Existe um projecto para recuperar a área, por isso é muito provável que tudo isto mude (ou desapareça) em breve.

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Verdadeiro prodígio da natureza, há mais de 800 anos que aqui se extrai sal puro, com uma produção que chega actualmente a atingir as duas mil toneladas anuais. O segredo destas salinas sem mar está no subsolo, rico em sal-gema, que permite na época mais seca a extracção de água salgada até à superfície, onde fica a evaporar em talhões para dela apenas restar o sal, que é depois retirado e armazenado para posterior escolha e embalamento – sem ser submetido a qualquer processo químico. O método de exploração destas salinas permanece quase inalterado desde há séculos, e quase completamente manual, pois poucas concessões têm sido feitas à modernidade, a bem da qualidade do produto.

Na estrada que rodeia as salinas, as pequenas casinhas de madeira onde em tempos se armazenava o sal (porque a madeira é resistente à humidade e à corrosão pelo sal) estão hoje convertidas ao comércio, mas não perderam a sua graça.

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Surpreendente é o mínimo que se pode dizer da Pia do Urso. E por várias razões.

A lenda diz que o topónimo da aldeia vem de longe, quando ainda havia ursos em Portugal e o lugar, abundante em água, era frequentado por pelo menos um exemplar da espécie. Verdade ou não, este animal é o ex libris da aldeia, e a sua imagem está por todo o lado nas mais variadas versões.

Conta também a história que esta foi zona de ocupação romana, e que por aqui passaram em 1385 os exércitos do Condestável a caminho da célebre batalha de Aljubarrota e mais tarde, no séc. XIX as tropas invasoras francesas. Bem comprovada que está a antiguidade do lugar, a aldeia de hoje certamente terá pouco a ver com a do passado. Típica aldeia serrana, com habitações em pedra e madeira, o trabalho de recuperação e requalificação de que tem vindo a ser alvo transformou-a num local florido, limpo e bem ordenado – uma espécie de postal ilustrado, que poderá desagradar a quem goste pouco de restaurações demasiado estéticas mas irá com certeza encantar a maioria dos visitantes. Rodeada pelo verde da serra, com ruas onde só aos habitantes é permitido o trânsito automóvel, sente-se no ar da aldeia o cheiro das árvores e das flores que trepam pelas paredes das casas, a maioria delas decoradas com pormenores fora do comum.

A Pia do Urso é também a “casa” do primeiro Ecoparque Sensorial do país, um agradabilíssimo percurso ao ar livre concebido a pensar nas pessoas invisuais e na possibilidade de apreensão do meio que nos rodeia através de sentidos como o olfacto, o tacto ou a audição.

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 (Artigo publicado na Revista Inominável #8 e no blogue da revista)

 

 

 

 

No Corvo

 

Estive no Corvo, aquela que é a ilha açoriana mais pequena e situada mais longe de Portugal continental. Passei lá não apenas umas horas, mas alguns dias. E valeu a pena? – perguntam vocês. Valeu sim, sem sombra de dúvida.

 

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A maioria das pessoas que visitam o Corvo fazem-no apenas por meia dúzia de horas. Apanham a lancha que sai de manhã das Flores e regressam pela tardinha. Ou vão em excursão organizada, num barco particular alugado para o efeito. Afinal, uma ilha com 17 km2 e com uma única povoação habitada por pouco mais de 400 almas parece não ter muito para ver ou fazer; e o próprio Presidente da nossa República, na sua recente visita a várias ilhas açorianas, apenas se demorou por lá umas quantas horas…

 

Mas esse não foi o meu caso. Há ocasiões em que a falta de tempo me obriga a ver certos locais “a correr”, mas a minha preferência vai para as viagens feitas de forma mais calma e relaxada, para poder apreciar o máximo possível de cada lugar e – quem sabe? – até mesmo fazer descobertas interessantes à margem do que está anunciado nos roteiros turísticos.

 

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Ao Corvo chega-se de avião ou de barco. Se tiverem tendência para enjoar, aconselho a primeira opção, pois a probabilidade maior é que a viagem de barco seja algo agitada. Em situação normal, a viagem entre Santa Cruz das Flores e a Vila do Corvo faz-se em 40-45 minutos na lancha Ariel (que apenas transporta uma dúzia de passageiros de cada vez, por isso assegurem-se de que reservam bilhete com antecedência), mas se a ondulação estiver forte o tempo aumenta exponencialmente. O recorde situa-se neste momento em 3 horas e foi estabelecido numa ida do Corvo para as Flores algures neste Inverno (a viagem neste sentido é sempre mais complicada do que no sentido Flores-Corvo). A vantagem do barco é que com um pouco de sorte, normalmente é possível avistar alguns golfinhos Quanto ao avião – que na realidade é mais parecido com uma avioneta – demora apenas cinco minutos entre uma ilha e outra, mas é por vezes cancelado devido aos ventos fortes que impossibilitam a aterragem. Também há voos directos para o Corvo a partir da ilha do Faial, com uma duração de cerca de 45 minutos, e a partir de São Miguel com paragem também no Faial.

 

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Mesmo fazendo o trabalho de casa, há sempre pormenores que nos escapam. Diz-se que nos Açores cada dia tem as quatro estações do ano, mas na verdade as ilhas açorianas são bastante diferentes umas das outras, mesmo quando geograficamente próximas. No Corvo, o mês de Junho tem a particularidade de ser o mês mais húmido e mais propenso a nevoeiros. Soubesse eu isso e talvez não tivesse escolhido precisamente esse mês para lá ir… Valeu-me a minha proverbial sorte quando viajo e também o facto de lá ter estado mais do que um dia: chuva foi caso raro durante a minha estadia e o nevoeiro deu tréguas exactamente quando foi preciso. Enfim, quase… e disso já falarei mais adiante.

 

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A oferta de alojamento é, como tudo na ilha, bastante reduzida – há que reservar com antecedência. Lugares para comer também há poucos, pão fresco só se consegue comprar se encomendado de véspera. Transportes públicos não existem; há algumas pessoas que fazem serviço de transporte particular, necessário quando se quer conhecer o resto da ilha, embora por vezes estejam bastante ocupadas com os visitantes que lá vão em excursão organizada. E a vida nocturna resume-se a algumas actividades organizadas no BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo), como uma transmissão de futebol em ecrã gigante ou uma noite de karaoke. Os corvinos não são propriamente noctívagos.

 

Mas tudo o que há a menos na ilha é largamente compensado pela simpatia e boa vontade das pessoas que lá vivem. Desde a Vera, dona do alojamento onde ficámos e que foi absolutamente inexcedível, até ao Sr. Fernando Ferreira, Director do Parque Natural do Corvo, que esteve à conversa connosco durante horas e nos guiou na visita à atafona (depois explico o que é), além de ter tido a paciência de responder a todas as perguntas que fizemos, passando pelas várias pessoas que nos cumprimentavam nas ruas, que nos atenderam, que nos explicaram tudo aquilo que quisemos saber, afabilidade é coisa que não falta na ilha do Corvo.

 

A povoação

 

Embora a Vila do Corvo seja teoricamente toda a ilha (administrativamente é considerada um município, o único em Portugal a não possuir qualquer freguesia), na realidade a povoação é apenas um pequeno conjunto urbano edificado numa fajã no extremo sul, junto ao mar.

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Na sua maioria as casas são simples e algumas mantêm à vista as paredes em pedra negra, embora muitas destas estejam abandonadas ou semi-degradadas, servindo essencialmente de arrecadação. Com excepção das vias principais, as ruas são estreitinhas e sinuosas, calcetadas com seixos rolados e lajes polidas (a estas ruas dão o nome de “canadas”), e o ambiente geral é tranquilo, puxando a uma indolência que nem a passagem ruidosa de um carro ou uma motocicleta conseguem quebrar.

 

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O casario da povoação está classificado como conjunto de interesse público. Mesmo no centro, na Canada do Graciosa, encontramos o Centro de Interpretação Ambiental e Cultural do Corvo (CIACC), instalado numa casa antiga recuperada, e ao lado a atafona de que já vos falei.

 

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E o que é então uma atafona? Este edifício de nome esquisito é – ou era, melhor dizendo, pois hoje já não existe nenhuma em funcionamento – um moinho operado por bois. Até ao aparecimento das máquinas, as atafonas eram no Corvo um dos meios principais de moagem para obter farinha, e chegaram a ser em número de seis. Nenhuma sobreviveu intacta até aos nossos dias, e a que actualmente se pode visitar foi reconstruída na quase totalidade a partir das paredes parcialmente remanescentes. O equipamento que abriga no interior é uma reconstituição tão fiel quanto possível obtida a partir de exemplares conhecidos de outros locais e da memória de alguns anciãos da localidade, pois do original nada se encontrou a não ser umas pedras de mó enterradas no solo, e que hoje se podem observar encostadas às paredes. Na porta da atafona foi colocada uma fechadura de madeira tradicional do Corvo, cuja concepção é muitíssimo interessante e engenhosa.

 

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A festa do Espírito Santo

 

A minha experiência em terras corvinas teve mais um bónus: coincidiu com a festa do Espírito Santo, que aqui se realiza no domingo de Pentecostes e é a festa popular religiosa mais importante da ilha, com rituais que se mantêm substancialmente inalterados desde há mais de 50 anos. O cortejo saiu de manhã da Casa do Espírito Santo, no Largo do Outeiro, e dirigiu-se para a Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Milagres, cujo campanário branco e cinza escuro se destaca acima do casario. Na igreja foi celebrada missa solene, complementada pela actuação da Filarmónica Lira Corvense, uma das mais activas e acarinhadas instituições da ilha. Uma das características especiais desta festa são as suas três rainhas – uma grande, uma média, e uma pequena, representadas por uma jovem adulta, uma adolescente e uma criança, respectivamente – que foram coroadas no final da missa e saíram depois em cortejo real ostentando os seus mantos e levando nas mãos as coroas, acompanhadas pelas suas damas e pelo padre, a irmandade, a filarmónica, bombeiros, escuteiros e todos as outras pessoas que nele quiseram participar.

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O cortejo passeou-se pelas ruas até chegar à escola Mouzinho da Silveira, onde estavam montadas no ginásio enormes mesas corridas para aí serem gratuitamente servidas a toda a gente – irmãos, restante população e visitantes, eu incluída – as tradicionais sopas do Espírito Santo: um caldo ligeiro de carne cozida, massa sovada (um pão doce feito com mistura de farinhas), carne assada com batatas e arroz doce.

 

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Os moinhos

 

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Entre o aeródromo – uma tira larga e recta que ocupa toda a ponta sul da ilha – e a costa recortada e rochosa, no topo de uma arriba de onde se vê todo o canal que separa o Corvo das Flores, destacam-se três moinhos de vento típicos, devidamente recuperados, quais sentinelas da memória de uma actividade já extinta na ilha. Datam do séc. XIX e em tempos foram sete; agora subsistem estes três belíssimos exemplares, um com pedra à vista e dois pintados de branco, erguidos numa localização privilegiada (obviamente muito ventosa…) e de visita obrigatória.

 

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O trilho junto à costa e a praia

 

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Existem no corvo dois trilhos pedestres referenciados e um deles, o Trilho da Cara do Índio (PR1COR) tem a sua parte final junto à costa sul, passando pelo porto velho, depois pelos moinhos, e finalmente acompanhando a irregular orla rochosa, onde o mar fica retido em pequenas piscinas naturais. É um passeio fácil, tranquilo e muito bonito, com as formas negras das rochas vulcânicas a contrastarem com o cinzento metálico da água e tendo o piar dos pássaros como banda sonora.

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O trilho termina na praia da Areia, um pequeno e escuro areal que é a principal área balnear da ilha. Preocupante mesmo é a presença de milhares de caravelas portuguesas, cnidários cujos tentáculos são altamente tóxicos, na sua maioria já mortas, acumuladas nalguns recantos das rochas e espalhadas pela praia. Soube depois que estas invasões sucedem com cada vez mais frequência, trazidas por certas marés, e que o seu aumento se supõe estar ligado ao declínio da população das tartarugas, de quem são o alimento principal.

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O caldeirão

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A ilha do Corvo está classificada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, sobretudo pela sua diversidade de ecossistemas e riqueza da flora terreste endémica. Mas o destaque maior vai para o Caldeirão, uma grande caldeira vulcânica, fechada, no fundo da qual se formaram duas lagoas (que começaram há alguns anos a perder água devido à erosão natural dos flancos do vulcão). Com um perímetro de 2,3 quilómetros e uma profundidade de 320 metros, também aqui existe um trilho pedestre devidamente marcado que eu tive a sorte de conseguir fazer, o PRC2COR. E digo sorte porque enquanto estive na ilha o tempo esteve sempre muito instável e com nevoeiros quase constantes – e com nevoeiro é impossível fazer o trilho. Mas naquela manhã previa-se uma melhoria no tempo, e a Vera tinha arranjado alguém para nos levar lá acima de carro, pois embora sejam apenas 6 km da vila até ao miradouro, o caminho é sempre a subir e eu acabaria por chegar lá já muito cansada. Quando chegámos ainda havia alguns bancos de nevoeiro, que o vento se encarregou de dissipar rapidamente para nos oferecer uma das paisagens mais fabulosas que já vi até hoje. E acreditem que ao vivo o cenário é ainda melhor do que nas fotografias. O percurso tem cerca de 5 km: desce-se até ao fundo e contornam-se as lagoas, voltando a subir pelo mesmo caminho. Não sendo difícil, é no entanto traiçoeiro. Há grandes áreas cobertas de musgão, por baixo do qual o solo é predominantemente pantanoso, e temos de ver muito bem onde pomos os pés – mesmo assim, não me livrei de ficar enterrada na lama até aos joelhos. Mas valeu a pena, porque é um percurso absolutamente maravilhoso, no meio de um silêncio profundo só quebrado pelo mugir das inúmeras vacas que por ali andam a pastar e pelo barulho característico de algum cagarro.

 

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Quase no final, algumas centenas de metros antes de começarmos a subir de regresso ao miradouro, o nevoeiro voltou a instalar-se de repente, sólido como uma parede, a ponto de nalguns sítios não conseguirmos ver as estacas de marcação do percurso. Valeu-nos o sentido de orientação e o facto de já estarmos quase a terminar o percurso no fundo da cratera – o nevoeiro não voltou a dissipar-se e transformou-se numa espécie de chuva miudinha que nos acompanhou no caminho de regresso a pé até à vila.

 

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ONDE FIQUEI

 

Joe & Vera’s Place

Caminho da Várzea s/n, 9980-034 Corvo, Portugal

Telem: +351 914112097

Email: vera.camara@sapo.pt

http://www.joeverasplace.pt/

 

A Vera foi a melhor das anfitriãs. Foi buscar-nos e levar-nos ao barco, deu-nos todas as informações necessárias e fez tudo para que a nossa estadia fosse o mais agradável possível – incluindo lavar e secar a minha roupa toda enlameada do passeio no Caldeirão. Os quartos são óptimos e temos uma cozinha à nossa disposição. Vão passar a disponibilizar também, a partir deste Verão, uma outra casa mesmo ao lado da igreja, com vários quartos.

 

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ONDE COMI

 

BBC - Bar dos Bombeiros do Corvo

Avenida Nova, Corvo 9980-039, Portugal

Tel.: +351 292596147

Bifanas, hambúrgueres, francesinhas e outras comidas leves; funciona como bar.

 

Restaurante Caldeirão

Caminho dos Moinhos

Tel.: +351 292 596 322

Recomendo o peixe grelhado, espécies típicas dos Açores, que é sempre fresco.

  

Restaurante Traineira

Rua da Matriz

Tel.: +351 292 596 207

Sopas e sanduíches num ambiente simples.

 

 

 

Mais informações:

http://roteirodesazores.com/festa/imperio-do-divino-espirito-santo-da-ilha-do-corvo/

http://www.corvovirtual.pt/centro-de-interpretacao-ambiental-e-cultural-do-corvo