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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Nos passos de Vlad Dracul

 

Uma das personagens mais evocadas nesta época de Halloween é sem dúvida o Conde Drácula, o famoso vampiro à volta de quem gira a história do livro homónimo de Bram Stoker. Para criar o seu protagonista o escritor inspirou-se vagamente na figura de Vlad Dracul, que foi voivoide (príncipe) da Valáquia no séc. XV. Mas sabiam que Stoker escreveu o seu livro sem nunca ter postos os pés na Roménia? E quem foi realmente Vlad Dracul? Entre o mito e a realidade, os factos confirmados e aqueles cuja genuinidade permanece incerta, vou contar-vos um pouco da sua história numa visita guiada pelos locais que permanecem ligados à sua memória.

 

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SIGHIŞOARA

 

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Sighişoara é uma das cidades mais bonitas da Roménia, e presume-se que foi nesta casa situada no coração do centro histórico que Vlad Dracul III nasceu, algures entre 1428 e 1431, e viveu até aos quatro anos de idade. Deram-lhe o mesmo nome do pai, apesar de ser o segundo filho. Dracul significa “dragão”, sobrenome que o seu pai recebera ao tornar-se membro da Ordem do Dragão, uma Ordem fundada pelo Imperador Segismundo em 1408, na Transilvânia, para proteger o Cristianismo no leste europeu.

 

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A casa é actualmente um restaurante, sempre muito concorrido devido ao “folclore” que existe à volta da figura histórica de que foi berço, mas consta que a qualidade da comida não é exactamente proporcional à sua fama.

 

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TÂRGOVIȘTE

 

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Târgoviște era na época a capital do voivoidato da Valáquia, razão pela qual a família Dracul se mudou para aqui quando Vlad Dracul pai conseguiu ascender ao trono da Valáquia, em 1436. Foi por isso aqui que Vlad filho viveu grande parte da sua infância.

 

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Depois de o seu pai e irmão mais velho terem sido assassinados, Vlad reclamou para si o principado, mas apenas conseguiu mantê-lo durante dois escassos meses em 1448 até ser obrigado a refugiar-se fora da região. Em 1456 voltou a atacar a província e retomou o trono da Valáquia. Correu entre os habitantes o rumor de que era o seu pai que tinha regressado do mundo dos mortos para os proteger, e presume-se que seja esta a origem provável do mito da imortalidade de Vlad Dracul. Desta vez conseguiu manter o seu domínio durante seis anos. A Valáquia era disputada pela Hungria e pelos otomanos, pactos e alianças faziam-se e desfaziam-se à velocidade da luz, e as traições eram constantes. A violência era moeda corrente na época, mas consta que os métodos de Vlad para instigar respeito e terror excediam o habitual. Quando o exército do sultão Mehmet II entrou em Târgoviște em meados de 1462, a cidade estava deserta mas o cenário com que depararam era dantesco: milhares de cadáveres de homens, mulheres e crianças estavam empalados em grandes estacas cravadas no chão, formando uma floresta macabra de carcaças em estágios de decomposição variados. A sua brutalidade valeu-lhe o nome pelo qual passou a ser depois conhecido: Vlad Țepeș (Vlad, o Empalador).

 

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Do palácio real (Curtea Domnească) de Târgoviște restam hoje apenas ruínas. Mas o conjunto monumental que pode agora ser visitado tem outros motivos de interesse, sendo um deles o actual ex libris da cidade: a torre Chindia, que foi mandada construir pelo próprio Vlad Dracul III.

 

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FORTALEZA DE POENARI (CETATEA POENARI)

 

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O castelo de Poenari tem a suas origens no séc. XIII, mas encontrava-se em ruínas quando Vlad Țepeș decidiu aproveitar o seu potencial defensivo e transformá-lo numa fortaleza quase inexpugnável. Quase, mas não completamente, pois nem ela conseguiu resistir aos avanços dos Otomanos no final do seu segundo reinado, tendo Vlad sido obrigado a fugir por uma passagem secreta com acesso às montanhas a norte. Diz a lenda que a sua mulher se suicidou atirando-se das muralhas, apavorada pelo receio de ser selvaticamente maltratada pelos turcos – a violência desmedida não era um exclusivo do seu marido. Situada perto de Arefu (em pleno coração da fabulosa Transfăgărășan), a 860 metros de altura, a fortaleza de Poenari é basicamente uma muralha – e em termos práticos, um “ninho de águia” que obriga a subir mais de 1400 degraus para lá chegar. Só para corajosos…

 

 

CURTEA VECHE

 

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Na Roménia, Vlad Țepeș é considerado um herói nacional. Em flagrante contraste com a imagem sanguinária descrita maioria dos textos da época que sobreviveram até aos nossos dias – escritos por saxões e turcos, há que notar, que eram os seus maiores inimigos – as narrativas tradicionais romenas apresentam-no como um apoiante dos camponeses contra os traiçoeiros boiardos e um intrépido defensor do seu principado contra o Império Otomano. É provavelmente por isso que o encontramos representado em bustos esculpidos um pouco por todo o lado – e Bucareste não é excepção.

 

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O Palácio Real Velho fica mesmo no centro histórico de Bucareste e foi mandado construir de raiz por Vlad Țepeș também durante o seu segundo reinado, em 1459. A partir dessa altura passou a ser a residência real oficial, estatuto que só perdeu no séc. XVIII. Hoje em dia funciona como museu, fazendo parte do núcleo do Museu Municipal de Bucareste.

 

 

CASTELO DE BRAN

 

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É irónico que o local na Roménia mais associado ao Drácula de Bram Stoker seja aquele que menos (ou talvez mesmo nada) tem a ver com Vlad Dracul III. Stoker nunca visitou a Roménia, e presume-se que tenha aproveitado uma ilustração do castelo de Bran mostrada num livro de Charles Boner para descrever o castelo do Conde Drácula, uma vez que mais nenhum castelo romeno se lhe assemelha.

 

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Situado a poucos quilómetros da turística cidade de Brașov, na Transilvânia, o castelo de Bran está construído – como seria de esperar – no topo de uma elevação junto à localidade com o mesmo nome, rodeado de vegetação. A Transilvânia só passou a fazer parte da Roménia depois da Primeira Guerra Mundial, e em 1920 os cidadãos de Brașov decidiram unanimemente oferecer o castelo de Bran à Rainha Maria, que o restaurou e passou a usar como residência real.

 

 

 

A ténue ligação que o castelo de Bran talvez possa ter com Vlad Țepeș remonta a 1462, quando o príncipe foi capturado pelo exército do rei húngaro e, segundo consta (mas não está provado sem sombra de dúvida), ali terá ficado encarcerado durante dois meses.

 

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MOSTEIRO DE SNAGOV

 

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Vlad voltou a conquistar a Valáquia novamente em 1476, mas também desta vez o seu reinado foi de curta duração. Mais uma vez atacado pelos turcos, foi morto perto de Bucareste em Dezembro do mesmo ano. A História diz que a sua cabeça foi enviada a Mehmet II, em Constantinopla. Já quanto ao local onde foi sepultado, a controvérsia mantém-se até aos nossos dias – outra coisa não seria de esperar um homem cuja vida deu azo a tanta celeuma. A versão mais difundida é que foi enterrado no mosteiro de Snagov, situado numa ilhota no lago que leva o mesmo nome.

 

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O lugar é tranquilo e muito bonito. A apenas cerca de 40 km a norte de Bucareste, é um local privilegiado de veraneio para os habitantes da capital.

 

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Recentemente, os historiadores levantaram a hipótese de Vlad Țepeș ter de facto sido sepultado no Mosteiro de Comana, por se encontrar mais próximo do local onde ocorreu a batalha em que foi morto.

 

Do que não restam dúvidas é que o príncipe da Valáquia morreu mesmo, embora a memória colectiva se tenha encarregado de o guardar para a posteridade. Por mera coincidência ou ironia do destino, o Drácula de Bram Stoker terá certamente dado uma “ajudinha”.

 

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Mais motivos para visitarem a Roménia? Vejam aqui.

 

 

A anta-capela de São Brissos

 

O nosso Alentejo é uma região riquíssima no que toca a vestígios pré-históricos, a maioria deles já felizmente bem assinalados e alguns bem recuperados. Outros chegaram aos nossos dias tendo passado por algumas transformações, e entre estes as antas-capelas são um dos muitos exemplos que mostram a forma como a religião cristã adaptou em seu benefício as tradições pagãs. A anta-capela de São Brissos é um destes casos.

 

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Isolada, com um ar meio perdido junto à entrada para um couto de caça, passa facilmente despercebida a quem não está com atenção suficiente, sobretudo quando se vai no sentido Escoural-São Brissos. Tem entre cinco e seis mil anos, e da anta primitiva restam alguns esteios, um dos quais está caído ao lado da capela, e parte da laje de cobertura, que foi integrada no tecto da ermida. Está pintada de branco, com uma faixa azul na base, à maneira das casas típicas alentejanas, e só é possível visitar o interior mediante marcação antecipada.

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O seu nome religioso é Capela de Nossa Senhora do Livramento, atribuído após a sua transformação e cristianização no séc. XVII, e é monumento nacional desde 1910.

 

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Até recentemente foi lugar de romaria, especialmente por alturas da Páscoa. A Senhora do Livramento está tradicionalmente associada ao parto, mas a que está nesta capela tem desempenhado também uma outra função: a de invocar as chuvas em anos de seca prolongada. E porquê? Num local cuja mística se perde nos tempos, claro que teria de haver uma lenda.

 

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São Brissos é um santo português que terá sido o segundo bispo de Évora. Supostamente martirizado pelos romanos no séc. IV d.C., existem no Alentejo várias povoações com o seu nome, e uma delas fica bem perto da anta-capela, pelo que a imagem do santo ocupa lugar de destaque na igreja da localidade.

 

Diz então a lenda que a Senhora do Livramento e São Brissos tiveram um filho, também representado na anta-capela ao colo da sua mãe. Ora sucede que o dito santo acabou por trair a mãe do seu filho com a Senhora das Neves (talvez em dia de muito calor, quem sabe, que esta Senhora devia ser mais fresquinha…) e o casal ficou de candeias às avessas para todo o sempre. Assim, quando a seca já vai longa e a chuva começa a fazer falta, os habitantes da localidade transportam a Senhora do Livramento para a igreja de São Brissos, onde a colocam de costas voltadas para o seu antigo amor. No entanto (mauzinhos!), deixam o filho na anta-capela, razão pela qual a Senhora, com saudades da criança e obrigada a estar ao pé do homem que a traiu, chora rios de lágrimas, lágrimas essas que se transformam em chuva.

 

Uma lenda ao bom gosto da nossa tão portuguesa costela trágica.

 

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E para não se perderem, aqui ficam as indicações para chegar à capela. Em Montemor-o-Novo, tomem a N2 na direcção de Alcáçovas. Em Santiago do Escoural virem à esquerda na M370 seguindo a indicação para as Grutas do Escoural, mas logo a seguir virem à direita para a CM1079 como se fossem para São Brissos. Cerca de 2,5 km depois encontram à direita uma curta estradinha de terra batida que vos leva à porta da anta-capela.

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12 castelos portugueses pouco divulgados

Na passada sexta-feira foi o Dia Nacional dos Castelos. Sabem quantos castelos existem em Portugal?

 

Se a Wikipédia estiver correcta e eu não me tiver enganado na contagem, há em Portugal (continente e ilhas) 241 castelos. Sim, leram bem: 241. Só castelos, sem contar com fortalezas e outras estruturas defensivas similares. Para um país que tem pouco mais de 92 mil km2, é obra.

 

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Eu adoro castelos, e nunca perco a oportunidade de visitar um. Adoro aquelas pedras escuras e velhas empilhadas umas sobre as outras, às vezes meio estragadas, partidas, outras vezes espalhadas ao acaso por entre pedaços de muralhas e ruínas. Adoro as histórias que contam e os segredos que escondem. E as paisagens desafogadas que normalmente nos oferecem. Adoro subir e descer os seus degraus incessantemente pisados durante séculos, e percorrer aquelas muralhas que em tempos foram a fina linha que separava a vida da morte certa – as muralhas que hoje são apenas mais uma atracção, mais um divertimento para nós, os humanos modernos.

 

A maioria dos castelos portugueses data da Idade Média, sobretudo dos séculos da fundação do nosso país e subsequente expansão até à consolidação das fronteiras de Portugal. Um castelo é uma fortificação cujo principal objectivo era a defesa de uma determinada localidade ou região. Embora alguns servissem também como residência permanente ou temporária, a sua função era essencialmente prática, pelo que a concepção de um castelo não tinha normalmente em conta grandes comodidades para os seus possíveis habitantes. Como é lógico, a partir do momento em que o território português ficou basicamente definido na sua totalidade muitos destes castelos começaram progressivamente a perder a sua importância, esvaziados que estavam da sua função principal. Foram trocados pelos palácios e pelas casas senhoriais, e por vezes até mesmo esquecidos, quando as povoações se mudaram para locais menos inóspitos e mais acessíveis para o trabalho agrícola e sobretudo para o comércio. A grande excepção foram os castelos de fronteira, que continuaram a ser necessários para defenderem os nossos limites, complementados pelos fortes erigidos em pontos estratégicos das localidades fronteiriças.

 

Por isso mesmo, muitos dos castelos portugueses chegaram aos nossos dias praticamente em ruínas, e muitos mais são completamente ignorados pelos circuitos turísticos e quase desconhecidos da maioria das pessoas. Menos fotogénicos e sem o glamour dos castelos de Guimarães, Óbidos ou Marvão, só para citar alguns dos mais visitados, são no entanto lugares cheios de interesse, ricos em história e em lendas, e parte importante do nosso património cultural.

 

Estes são apenas alguns desses interessantes castelos.

 

CASTELO DE ALCANEDE

(Coordenadas: 39° 25.038' N 8° 49.291' O)

 

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Situado mais ou menos a meio caminho entre Santarém e Porto de Mós, o castelo de Alcanede revestiu-se de particular importância na conquista e defesa do território português na época da fundação do país. A sua origem é incerta, havendo indícios de que foi tomado aos mouros pelo Conde D. Henrique, mas a sua existência oficial reconhece-se desde 1162, ano em que D. Afonso Henriques doou Alcanede a Gonçalo Mendes de Sousa. Fortemente afectado pelo sismo de 1531, que o deixou em ruínas, assim se manteve até meados do séc. XX, quando foi restaurado. Ainda em ruínas, assumiu um inesperado valor estratégico durante a 3ª invasão francesa (1810-11), pois serviu de ponto privilegiado de vigia para os franceses que ocupavam a vila – apesar de ter sido montado, no início da invasão, um ardiloso mas mal-sucedido esquema para os afastar. É um castelo simples, tipicamente medieval, com uma muralha de formato ovalado e duas torres. Tal como outros castelos e localidades de Portugal, tem a ele associada a Lenda do Pote de Ouro e do Pote de Peste, uma versão popular do mito clássico da Arca de Pandora.

 

CASTELO DO ALVITO

(Coordenadas: 38° 15.471' N 7° 59.512' O)

 

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Comparado com grande parte dos seus congéneres, este castelo é um jovem. Terá sido mandado construir D. Diogo Lobo da Silveira, Barão do Alvito, em finais do séc. XV, o que explica as suas influências mouriscas, góticas e manuelinas. Misto de arquitectura militar com residência apalaçada, tem uma planta rectangular com quatro torreões cilíndricos orientados para os quatro pontos cardeais. Durante quase cinco séculos, até 1917, quando passou definitivamente para as mãos do Estado português, foi habitado continuamente por dezasseis famílias de barões, um caso único na história do nosso país. Funciona desde 1993 como pousada histórica da rede das Pousadas de Portugal.

 

CASTELO DE ANSIÃES

(Selores, Carrazeda de Ansiães – Coordenadas: 41° 12.184' N 7° 18.354' O)

 

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A 6 km de Carrazeda, no topo ermo de um monte como bem convém a qualquer fortificação que se preze, encontramos as ruínas do castelo de Ansiães. Há indícios de que a ocupação do local remonta há 5000 anos, mas as origens do castelo estão fixadas no séc. III a.C. O conjunto do castelo e da povoação que o rodeava, cujas ruínas muralhadas também estão bem visíveis, ocupa mais de 9500 hectares. A muralha oval tem cinco torreões e três portas assinaladas, uma delas a sempre presente Porta da Traição. Sobrevive ainda em relativamente bom estado a Igreja de S. Salvador, anexa à Capela de Stª Maria. Diz a História que estas terras foram dadas pelo rei D. Fernando a João Rodrigues Porto Carreiro, homem infelizmente simpatizante da causa castelhana durante a crise de 1383-85, razão pela qual foi nessa altura escorraçado pela revoltada população de Ansiães, a quem D. João I doou depois todo o património daquele senhor feudal em reconhecimento pelo patriotismo mostrado.

 

CASTELO DE MARIALVA

(Coordenadas: 40° 54.815' N 7° 13.919' O)

 

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Mesmo com um céu azul sem nuvens, numa tarde quente de Verão, parece que o mundo vira cinzento quando entramos no castelo de Marialva, tal a quantidade e edificações e ruínas que surgem aos nossos olhos. Dele disse Saramago: “Neste largo onde está a cisterna, onde o pelourinho está, dividido entre a luz e a sombra, adeja um silêncio sussurrante. Há restos de casas, a alcáçova, o tribunal, a cadeia, outros que não se distinguem já, e é este conjunto de edificações em ruínas, o elo misterioso que as liga, a memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos”. Esta descrição contida no livro “Viagem a Portugal” está hoje inscrita num afloramento rochoso no interior do castelo. Remontando aos primórdios da fundação de Portugal, até meados do séc. XVIII o castelo manteve-se em estado razoável, sendo regularmente restaurado. O azar sobreveio em 1758 quando o marquês de Távora, que era à data o alcaide de Marialva, foi implicado na suposta tentativa de regicídio de D. José. Depois de a família ter sido executada, o castelo foi progressivamente despovoado e sobreveio a ruína. Há ainda quem lhe associe a lenda da Dama dos Pés de Cabra, por o seu nome ser Marialva.

 

CASTELO DE MÉRTOLA

(Coordenadas: 37° 38.278' N 7° 39.864' O)

 

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Mértola é mais uma nas nossas vilas cheias de História e de histórias para contar. Fundada pelos romanos, foi a seguir ocupada por mouros e é desta época a origem do seu castelo. No entanto, a Torre de Menagem que hoje o caracteriza só foi construída em finais do séc. XIII. Todas estas influências ainda permanecem bem patentes no património arquitectónico da vila. Mas a figura mais fascinante da história de Mértola é sem dúvida Ibn Qasi, a quem foi erigida uma estátua junto à entrada do castelo. Ibn Qasi era provavelmente um muladi, ou descendente de cristãos convertidos, de origem romana, dado que se pensa que o seu nome de família viria do romano Cassius. Não é certo que este místico sufi tenha nascido em Mértola mas parte da sua vida esteve ligada à vila, que ele conquistou aos almorávidas em 1144. Consta que era homem justo e milagroso, razão pela qual foi aclamado como chefe espiritual e protector, Taifa (rei) de Mértola e Silves, e homem forte do Gharb. É seu o belíssimo poema “O Descalçar das Sandálias”. E podem encontrar aqui um excelente artigo sobre este homem, que consta ter sido aliado de D. Afonso Henriques.

 

CASTELO DE MONTEMOR-O-NOVO

(Coordenadas: 38° 39' N 8° 13' O)

 

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A muralha triangular do Castelo de Montemor-o-Novo, quando estava completa, tinha cerca de 2 km, o que faz dela a maior do nosso país. Tinha também quatro torres, dezanove torreões e quatro portas. Muito danificada pelo terramoto de 1755 e pela utilização das suas pedras noutras construções, da muralha restam hoje apenas alguns troços, três torres e três portas. Dentro do seu recinto, para além da recuperada Igreja de S. Tiago (transformada no Centro Interpretativo do Castelo) podemos ainda ver as ruínas do Paço dos Alcaides (ou Paço Real), da Igreja de S. João Baptista e da Igreja de Stª Maria do Bispo. Foi numas cortes aqui realizadas que D. Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem à Índia.

 

CASTELO DE MONTEMOR-O-VELHO

(Coordenadas: 40° 10.546' N 8° 40.987' O)

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Este é mais um castelo cujas origens remontam ao período anterior à nossa fundação, pois existem referências de que foi conquistado em 848 por Ramiro I das Astúrias e seu tio, o Abade João do Mosteiro de Lorvão. Ramiro deixou o castelo entregue ao tio para que ele o defendesse, e vem desta época a macabra Lenda do Abade João, que demonstra muitíssimo bem que nunca devemos pôr a carreta à frente dos bois. Outra história sangrenta ligada ao castelo (esta comprovadamente verdadeira) é que foi na sua alcáçova que em 1355 D. Afonso IV e os seus conselheiros se reuniram para decidirem o destino de D. Inês de Castro – que, como bem sabemos, foi o seu assassinato. O castelo é ainda hoje um dos maiores do país. Está em bastante bom estado e no seu interior existe a Igreja de Nossa Sr.ª da Alcáçova. Uma das portas da barbacã tem o curioso nome de Porta da Peste.

 

CASTELO DE MOURÃO

(Coordenadas: 38° 23.103' N 7° 20.804' O)

 

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Tapado pela sombra do seu vizinho de Monsaraz, o castelo de Mourão tem hoje como maior trunfo o facto de se encontrar mesmo à beira do Alqueva, e por conseguinte numa posição privilegiadíssima para oferecer a quem o visita uma paisagem inebriante. Não há certezas quanto à sua data de construção, mas deverá ter ocorrido entre os sécs. XIII e XIV. Hoje é essencialmente uma muralha, que tem a particularidade de combinar xisto, mármore e granito, ligando seis torres quadradas. No séc. XVIII foi fortificado com baluartes, que passam completamente despercebido quando visitamos o castelo, de tão dissimulados que estão na paisagem. A vila de Mourão foi entregue por D. Dinis a um tal D. Raimundo de Cardona, para que este guardasse a ainda frágil fronteira portuguesa naquele ponto. Sucedeu que esse senhor, achando-se num inesperado aperto financeiro, decidiu em 1317 levar a vila a leilão e, por estranho que possa parecer, houve de facto quem a comprasse, e por um valor bastante módico: 11.000 libras. O que prova que esta solução de vender bens públicos para fins duvidosos já vem de longe no nosso país. Felizmente nessa altura tínhamos um rei ajuizado, e D. Dinis decretou que a vila fosse imediatamente revendida à casa real pelo mesmo valor.

 

CASTELO DE PENEDONO

(Coordenadas: 40° 59.403' N 7° 23.639' O)

 

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Construído em granito e xisto, tem uma planta hexagonal irregular com ameias piramidais e é sem dúvida um dos mais originais castelos portugueses. Com origens no séc. X, pertenceu a D. Chamôa Rodrigues, que tem o seu nome perpetuado em Torre de D. Chama e foi sobrinha de Mumadona Dias, a fundadora do nosso bem-amado Castelo de Guimarães. Também é chamado de Castelo do Magriço, a alcunha dada a Álvaro Fernandes Coutinho, um dos “Doze de Inglaterra” enaltecidos por Camões no canto VI dos Lusíadas. Ao Castelo de Penedono está associada uma outra lenda que envolve uma moura bela e rica, a Lenda das Duas Pedras.

 

CASTELO DE PENHA GARCIA

(Coordenadas: 40° 04' 28" N 7° 01' 59" O)

 

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Das muitas paisagens impressionantes que o nosso pequeno país nos oferece, aquela que vemos do topo do Castelo de Penha Garcia é uma das minhas favoritas. A origem deste castelo é algo imprecisa, mas há indícios de que terá sido construído durante o reinado de D. Sancho I e doado mais tarde aos Templários. É um dos quinze castelos de fronteira de Portugal, aqueles cujas muralhas defenderam, durante séculos, as nossas fronteiras dos ataques de exércitos inimigos. Cenário da Lenda do Penhor da Justiça, dizem que o fantasma decepado do alcaide D. Garcia continua a passear por ali.

 

CASTELO DO REI WAMBA

(Vila Velha de Ródão – Coordenadas: 39° 38.852' N 7° 41.419' O)

 

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O nome oficial, muito mais prosaico, é Castelo de Ródão. Ali viveu Wamba, o último grande rei dos Visigodos, no séc. VII, defensor da Egitânia. Associada a este castelo existe uma lenda que fala de um triângulo amoroso entre Wamba, a sua mulher e um rei muçulmano e daria certamente argumento para uma novela. É simplesmente uma torre, mas oferece-nos uma vista quase comovente, de tão bonita que é, sobre o rio Tejo e as Portas de Ródão.

 

CASTELO DE TRANCOSO

(Coordenadas: 40° 04' 28" N 7° 01' 59" O)

 

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Trancoso é um castelo condal – um castelo que surgiu na fase do “segundo encastelamento” do território que hoje é Portugal, iniciada em meados do séc. X para defender o território dos mouros e outros invasores, e que dividiu o Reino das Astúrias em condados. Tal como o castelo de Penedono, foi propriedade de D. Chamôa Rodrigues. Aliás, o castelo de Trancoso é o único que tem vestígios claros do séc. X, pois a porta de entrada da actual torre de menagem tem um arco de ferradura tipicamente moçárabe, além de ter uma forma e uma técnica de construção diferentes das torres dos castelos românicos. Trancoso é também cidade de várias histórias e lendas, ou não fosse esta a terra do célebre Bandarra das profecias (http://www.cm-trancoso.pt/concelho/lendas/Paginas/default.aspx), mas a lenda que está mais estreitamente associada ao castelo é a de João Tição, um soldado que decidiu pregar uma partida aos mouros durante um cerco ao castelo, mas acabou por se dar mal.

 

Um dos benefícios mais importantes de viajar, mesmo que seja para perto de casa, é conhecermos o nosso património menos divulgado, a nossa História que não vem na maioria dos livros, a nossa cultura que não faz as primeiras páginas dos jornais e das revistas. Chegamos sempre mais ricos do que partimos.

 

Agora confessem lá: já conhecem estes castelos?

 

 

Os pueblos blancos da Andaluzia

 

 

O início do Outono é a época do ano ideal para visitar a Andaluzia. Com temperaturas mais amenas do que o sufocante calor do Verão espanhol, mas ainda assim suficientemente agradáveis para passear à vontade, tem além disso a vantagem de oferecer aos nossos olhos os belíssimos tons terra habituais desta estação.

 

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Nesta altura do ano, a paisagem andaluza é enganadoramente árida. As planícies e suaves colinas têm o tom amarelo do restolho, atravessado pelas faixas quase negras dos estrumes e quebrado aqui e ali pelo azul de uma represa. Por vezes, tudo muda quase de repente: as colinas perdem o arredondado e sobem em direcção ao céu, vestem os cinzas e ocres da pedra misturados com os verdes da vegetação rasteira e dos maciços de arbustos, ou até mesmo de um denso arvoredo. Encarrapitado na encosta, cada pueblo é uma mancha branca que se vai aproximando à medida que balançamos nas curvas e contracurvas da estrada, o branco definindo-se gradualmente para deixar perceber a cor de tijolo dos telhados e as formas escuras das portas e janelas, o castanho das pedras de um castelo, os tons crus de uma igreja.

 

Os pueblos blancos da Andaluzia dispersam-se pelas serras de Cádiz e Grazalema e têm em comum o seu isolamento e o branco ofuscante das fachadas das suas casas. Numa região onde a paisagem inóspita e por vezes agreste é de uma imensa beleza e merecedora de uma visita só por si, a riqueza arquitectónica e cultural destes pueblos é um motivo adicional para pegar no carro e partir à descoberta destas pequenas preciosidades tão pouco publicitadas no nosso país. Quatro dias são suficientes para conhecer algumas destas localidades, e uma óptima “desculpa” para um fim-de-semana comprido. Para vos facilitar a vida, aqui vai a minha sugestão de roteiro – já por mim testado e aprovado, como sempre.

 

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Elvas – Espera – Bornos – Arcos de la Frontera

 

Entrem em Espanha pela fronteira de Elvas ou de Vila Real de Santo António, ignorem Sevilha (que é linda mas terá de ficar para outra ocasião) e sigam para Arcos de la Frontera. Mas antes de lá chegarem façam um desvio e aproveitem para subir até ao castelo de Espera, de onde vão ter a oportunidade de apreciar uma magnífica vista de 360 graus sobre a imensidão da planura andaluza.

 

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Sigam para Bornos, que fica a apenas 12 km de distância, junto à barragem (embalse, em bom castelhano) com o mesmo nome. Aqui há muito que ver, mas não percam o Castelo-Palácio dos Ribera e o seu encantador jardim renascentista.

 

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Até Arcos de la Frontera são apenas mais 17 km. É um dos pueblos blancos mais dramaticamente localizados, empoleirado no topo de uma escarpa calcária. O labiríntico centro histórico está fantasticamente conservado, e a oferta hoteleira é enorme, razão pela qual é o local ideal para dormir nesta primeira noite.

 

Dia 2

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Arcos de la Frontera – Grazalema – Zahara de la Sierra – Olvera – Setenil de las Bodegas – Ronda

 

De Arcos a Grazalema são só 50 km, mas a segunda metade do trajecto é feita em plena serra. Grazalema está aninhada na base de um maciço rochoso, o que lhe dá um delicioso ar de aldeia de montanha – por sinal, é o único pueblo gaditano onde neva no Inverno.

 

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O destino seguinte é Zahara de la Sierra, a uns meros 16 km mas cujas curvas, subidas e descidas demoram uma boa meia hora a percorrer. Mais ainda se fizerem uma paragem no Mirador Puente de Las Palomas para verem a impressionante paisagem serrana – muito verde nas zonas mais baixas e absolutamente despida de vegetação no topo.

 

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Zahara de la Sierra está encaixada entre uma barragem de tamanho bem respeitável e um penhasco rochoso onde domina o castelo. A subida até lá é dura, mas o esforço vale a pena.

 

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Algodonales é o pueblo blanco seguinte nesta rota, mas não tem nada de verdadeiramente especial, por isso o meu conselho é continuarem caminho até Olvera, uma povoação de tamanho considerável, bonita, bem cuidada e cheia de pontos de interesse, com destaque para a Igreja da Encarnação e o Castelo Árabe.

 

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O último pueblo deste dia é provavelmente o mais conhecido: Setenil de las Bodegas. Descendo pela encosta desde a Fortaleza Nazari do séc. XIII, o casario branco adapta-se ao sinuoso percurso do rio e muitas das casas foram construídas de modo a ficarem “encaixadas” na rocha, o que dá à aldeia um carácter excêntrico.

 

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O destino final é Ronda, para comer e dormir. Ronda é uma cidade linda (e merece um dia extra para ser visitada com calma), famosa pela sua praça de touros e pela Ponte Nova, que é o ex-libris da cidade. Recomendo o Hotel Sevilla, que fica fora da confusão do centro histórico mas suficientemente perto para lá chegar a pé em cinco minutos. Quanto à comida, entre as tapas, os montaditos, os pinchos e os pratos principais, a dificuldade está mesmo na escolha. Nas ruas em frente à praça de touros há muita oferta, mas sugiro o restaurante Hermanos Macias (na Calle Pedro Romero) ou a Bodeguita El Coto (na Calle Nueva).

 

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Dia 3

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Ronda – Júzcar – Gaucín – Casares – Castellar de la Frontera – Jerez

 

O pueblo que se segue já foi branco, mas agora é azul. À entrada de Júzcar somos saudados por um letreiro: “Bienvenidos al Pueblo Pitufo”. E o que é “Pitufo”, perguntam vocês? Pois é a palavra espanhola para “Schtroumpf”, ou “Smurf”, como preferirem. Nesta aldeia as casas estão todas pintadas de azul no tom dos famosos bonecos, e há figuras, pinturas e vários spots alusivos aos ditos cujos. Só pela originalidade já vale a pena ir lá.

 

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Continuamos para sul até Gaucín, mais uma visão branca em cenário de montanha. Muito popular entre os expatriados britânicos, que aí têm uma comunidade em franco crescimento, oferece aos visitantes uma panorâmica desafogada que se estende até ao rochedo de Gibraltar.

 

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Relativamente perto, mas muitas curvas depois, encontramos Casares, uma construção Lego de casinhas brancas que parecem estar encavalitadas umas nas outras. Também dominada pelas ruínas de um castelo árabe, ao lado das quais se ergue uma igreja, Casares tem no entanto um não-sei-quê, uma atmosfera especial que a torna diferente de todas as outras e nos atrai a visitá-la para saborear as suas ruas e escadinhas estreitas e sinuosas.

 

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A despedida dos pueblos é em Castellar de la Frontera, que é assim uma espécie de cereja no topo do bolo. Mas esqueçam a aldeia cá em baixo. O que interessa mesmo é o recinto muralhado do castelo, que fica curiosamente quase 10 km mais a norte, lá bem no alto, vigiando uma barragem, e dá pelo nome de Castellar Viejo. Insuspeito por fora – parece apenas mais uma muralha, bem conservada, é certo, mas igual a tantas outras – no seu interior esconde-se um ninho de vielas onde quase não se vê vivalma, com casas recuperadas e ornamentadas com vasos de flores, roseiras e buganvílias espalhadas pelas ruas, e um ou outro atelier de artista. Um mimo.

 

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Para a viagem de regresso a casa não se tornar demasiado cansativa e fastidiosa, sugiro que esta noite durmam em Jerez de la Frontera, uma cidade com um número impressionante de igrejas e vários outros locais de interesse.

 

 

Dia 4

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Jerez – Mérida – Elvas

 

De Jerez a Elvas são 330 km, e com excepção de Sevilha (demasiado grande para se ver em apenas umas horas) e eventualmente Zafra, não há muito para ver neste trajecto. Então porque não fazer um pequeno desvio até Mérida? São apenas mais 30 km, e a cidade tem vários locais interessantes para visitar. O destaque vai obviamente para o Teatro e Anfiteatro romanos, mas também não devem perder o Aqueduto dos Milagros, a Alcáçova e o Templo de Diana.

 

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Boa viagem!