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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica XVI

Dia 16

 

Seis e meia da manhã mas o sol já ia alto quando saímos de Orosí. Tínhamos planeado um dia bastante cheio e não queríamos perder tempo, pelo que parámos numa espécie de padaria, perto de Cartago, para tomarmos um café e comprarmos mantimentos para comer durante o dia. O nosso primeiro objectivo era o vulcão Irazú e queríamos estar lá assim que as portas do Parque abrissem.

 

 

Com 3432 metros de altura, o Irazú é o vulcão mais alto da Costa Rica e ainda está activo, apesar de adormecido desde a última erupção, em 1963-65 (precisamente no dia em que o país recebia a visita do Presidente Kennedy). Existem quatro crateras, a principal das quais tem 300 metros de profundidade e 1050 metros de diâmetro, e revela no fundo um lago de cor verde-esmeralda. O parque é grande mas quase não tem vegetação nem grande variedade de vida selvagem, pelo que antes das oito e meia já estávamos de regresso ao estacionamento. E foi então que tivemos um dos “encontros imediatos” mais engraçados de toda a viagem. Surgindo de trás de umas moitas e ignorando tudo o que o rodeava, um coatimundi atravessou o parque de estacionamento e dirigiu-se com determinação aos caixotes do lixo de madeira que ali se encontram à disposição dos visitantes, trepando para um deles sem dúvida à procura de comida. 

 

Apesar dos nossos esforços para atrairmos a sua atenção, só nos ligou importância quando lhe oferecemos uns bocadinhos de pão. Familiares dos guaxinins, os coatis têm uma cauda peluda e muito comprida, por vezes do tamanho do próprio corpo, e um focinho afilado. Este possuía uma pelagem espessa entre o preto e o castanho, com peito branco, e fazia lembrar um ursinho ternurento. Depois de chegar à conclusão de que os caixotes do lixo estavam vazios e nós não lhe iríamos dar mais comida, desapareceu tão rapidamente como tinha surgido. Mas eu tinha finalmente conseguido ver um dos bichinhos mais emblemáticos da Costa Rica, onde são conhecidos por pizotes.

 

 

 

O nosso objectivo seguinte era Zarcero, uma cidadezinha situada a 1736 metros de altura na Cordilheira Central, e a mais ou menos 70 km de distância da capital, para noroeste. O problema foi chegar lá. Não houve outra alternativa a não ser atravessar San José, e isso revelou-se quase um pesadelo devido ao trânsito intenso e à falta de placas indicadoras das saídas da cidade. No troço final do percurso para Zarcero, a estrada estreita sobe e continua a subir, em curvas e contracurvas apertadas, e a progressão é lenta principalmente por causa dos muitos veículos de carga que percorrem o trajecto a passo de caracol. Foram quase três cansativas horas para fazermos cento e poucos quilómetros de asfalto, e quando chegámos o depósito do nosso Jimny já acusava o desgaste – a bomba de gasolina foi paragem obrigatória antes de sairmos de Zarcero. Felizmente que a gasolina na Costa Rica é substancialmente mais barata do que cá: custa cerca de 80 cêntimos por litro, para bem do nosso orçamento de férias.

 

 

 

 

 

As atracções de Zarcero são indubitavelmente a Igreja de São Rafael e o parque que se situa mesmo em frente. A igreja foi construída no início do séc. XX e é um original edifício com duas torres simétricas, pintado de rosa-salmão com pormenores em azul. O interior tem chão de mosaico formando efeitos coloridos, tecto branco com frisos e medalhões pintados, e colunas também pintadas a imitarem o mármore. Frente à igreja, entre os dois lances de escadas semicirculares que permitem o acesso à entrada principal, foi colocada uma fonte encimada pelo arcanjo que dá o nome à igreja. Tal como a igreja, a fonte foi pintada pelo artista plástico Misael Solís Alvarado (1912-1999) em tons pastel de azul e rosa.

 

 

 

O parque Francisco Alvarado é notável pelo seu jardim de topiaria, concebido e mantido pelo jardineiro Evangelisto Blanco desde os anos 60. Neste parque, inúmeros arbustos foram esculpidos em arco ou numa enorme variedade de outras formas, desde animais até criaturas excêntricas estilizadas e outras abstracções. A igreja ao fundo, em plano mais elevado, e o parque que a enquadra formam um conjunto colorido e original, que surpreende quem chega ao centro da cidade.

 

 

 

De Zarcero a Sarchí são 27 km de estrada rodeada de campos de café, que desta vez fizemos em cerca de meia hora, uma média consideravelmente mais razoável do que o habitual. Sarchí é o centro artesanal mais famoso da Costa Rica, com cerca de 200 lojas e pequenas fábricas espalhadas pela sua área. Para destacar esta característica da região, o Parque Central da cidade exibe a maior carreta do mundo, construída em 2006 com o intuito de colocar o nome da localidade no Livro dos Recordes Guinness, o que efectivamente aconteceu. As carretas pintadas com motivos florais e geométricos são uma das imagens de marca da Costa Rica. Em tempos usadas na vida comercial e agrícola do país, puxadas por bois sobretudo para transportarem o café até aos mercados, hoje têm essencialmente uma função decorativa, quer em tamanho real – vêem-se muitas em jardins ou à entrada de casas ou restaurantes, com as suas enormes rodas de madeira multicoloridas – quer em miniatura como peça de artesanato tradicional para levar de recordação.

 

 

 

A igreja de Sarchí é também um dos motivos para visitar a localidade. Edificada entre 1950 e 1958, insere-se na linha das igrejas “bolo de aniversário” da região, ostenta a cor marfim e está ornamentada com duas torres e inúmeros frisos intrincadamente elaborados e pintados de rosa claro, com uma escadaria de acesso em verde suave. Formando um todo harmonioso, em frente à igreja o piso do Parque está decorado com enormes círculos em cores claras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A paragem seguinte foi em Grécia, a apenas 8 km de Sarchí. O monumento mais importante da cidade, e principal motivo de visita, é a Igreja Metálica, de seu nome Iglesia de la Nuestra Señora de las Mercedes. Esta original igreja, inteiramente construída com chapas de aço pintadas de vermelho-ferrugem e enfeitada com motivos brancos, foi pré-fabricada na Bélgica no final do séc. XIX, enviada por barco para o porto de Limón e depois transportada peça a peça para Grecia em carretas puxadas por bois. É decorada por dentro com abóbadas e arcos em ogiva em madeira pintada de branco com frisos dourados, e tem um belíssimo altar feito em mármore sólido, ornamentado com inúmeras figurinhas de santos, quase kitsch.

 

Passava da uma da tarde quando saímos de Grecia e ainda tínhamos de voltar a atravessar San José para regressarmos a Cartago. Gastámos duas horas no trajecto. Não foi difícil encontrar lugar para estacionar mesmo ao pé da Basílica de Nuestra Señora de los Ángeles, o nosso objectivo da visita. Esta catedral tem o nome da santa padroeira do país, também chamada de La Negrita, e é o edifício religioso mais importante da Costa Rica. A lenda conta que em 1635 uma camponesa encontrou uma pequena estatueta de uma Virgem negra numa rocha. Tendo sido levada por duas vezes para casa, a estátua reapareceu miraculosamente outras tantas vezes na mesma rocha. Foi nesse lugar que edificaram a Basílica, destruída por um terramoto em 1926 e reconstruída em 1929. É um edifício majestoso em estilo bizantino, com paredes feitas de aço galvanizado e estucadas com cimento, decorado exteriormente com frisos, arcos e pilares em branco, além de um sem número de anjos e outros motivos ornamentais. A nave em forma de dupla cruz é toda de madeira pintada, com decorações florais de alabastro branco. O tecto mostra uma cúpula octogonal também forrada de madeira e apresenta janelas em toda a volta, que deixam passar a luz do sol. A restante iluminação é reduzida e difusa, produzindo um ambiente envolvente de paz e recolhimento, propício à oração. A pequena estátua de La Negrita (tem apenas 20 cm de altura) está encerrada num belíssimo relicário de ouro e pedras preciosas colocado acima do altar principal. Como não podia deixar de ser, num dos corredores laterais da nave encontrámos um pequeno altar de madeira com embutidos onde pontificava uma estatueta do nosso Santo António de Lisboa (que é internacionalmente referido como Santo António de Pádua), sempre com o seu menino ao colo.

 

 

 

 

 

 

 No exterior, dando a volta à Basílica, desce-se até à cripta que contém a rocha onde a imagem da Virgem foi alegadamente encontrada. Uma cópia da estatueta encontra-se colocada sobre ela, ambas devidamente protegidas por um gradeamento de ferro, onde os devotos colocam flores e outras ofertas. Existe também uma nascente de água benta, muito procurada pelos visitantes. O dia 2 de Agosto é o dia da padroeira e milhares de pessoas juntam-se em procissão para percorrerem a pé os 24 km que separam San José de Cartago. Nesse dia, a estátua da Virgem sai do seu relicário e desfila pelas ruas da cidade.

 

Fundada em 1563 pelo conquistador espanhol Juan Vásquez de Coronado, Cartago foi a primeira cidade e capital colonial da Costa Rica. Destruída pela erupção do Irazú em 1723, voltou a sofrer violentamente com os terramotos de 1841 e 1910. As ruínas da Iglesia de la Parroquia são a memória dos fortíssimos abalos sísmicos que afectaram a cidade ao longo dos séculos: iniciada em 1575, nunca ficou totalmente concluída, destruída que foi cinco vezes por terramotos até ser por fim deixada como está hoje. Actualmente, além da capital religiosa do país, Cartago é apenas uma pouco atractiva cidade agro-industrial.

 

O dia começava a declinar rapidamente quando regressámos ao vale de Orosí, já bem depois das quatro da tarde. Parámos no caminho para comermos qualquer coisa e tomámos depois a estrada para Ujarrás. Sendo pouco mais que um lugarejo, ficámos surpreendidos com o intenso movimento de pessoas e veículos no acesso à localidade. O mistério não tardou a ser percebido: era dia de festa e já estavam montadas e em actividade inúmeras barraquinhas de comidas e produtos locais. Tivemos de deixar o carro num parque de estacionamento improvisado e firmemente controlado por alguns jovens, que não se coibiram de nos cobrarem 1000 colones (cerca de 1 Euro e meio) pelo direito a estacionar.

 

 

 

Ujarrás alberga as ruínas da mais antiga igreja da Costa Rica, cuja construção primitiva data de 1575-80. O complexo da Igreja de Ujarrás servia de apoio aos peregrinos que se dirigiam a Cartago, e tinha dormitórios, convento, escola e cemitério. A fachada da Iglesia de Nuestra Señora de la Límpia Concepción del Rescate, cujas ruínas se podem hoje observar, tem uma clara influência renascentista, e o edifício foi o primeiro a mostrar um sistema de reforço com quatro contrafortes. Foi destruída numa inundação, em 1833.

 

Seguindo pela estrada que nos levaria a Orosí, passámos pela represa de Cachí, uma barragem hidroeléctrica abastecida pelo rio Reventazón e por outros riachos que correm das montanhas que começou a funcionar em 1966. Tem configuração em arco, sendo a única do género no país.

 

 

 

 

Um pouco à frente, do lado esquerdo da estrada, encontra-se a Casa del Soñador. É uma casa estranhíssima de madeira e bambu feita pelo escultor Macedonio Quesada, falecido em 1994 mas cujos filhos ainda seguem hoje a tradição do pai, esculpindo os mais variados objectos e figuras a partir de raízes da planta do café. Na fachada principal, ao lado da porta, um baixo-relevo em madeira representa a Última Ceia, e os pilares e balaustradas ostentam figuras humanas rusticamente escavadas em troncos de madeira. Fomos simpaticamente convidados a entrar e passear pelo atelier, onde acabámos por comprar uma pequena escultura do rosto de um homem com barbas, engenhosamente elaborada para aproveitar a forma da raiz onde foi esculpida.

 

Por esta altura já eram cinco e meia e as luzes eléctricas faziam a sua aparição. Antes de regressarmos ao Lodge ainda fomos abastecer mais uma vez o depósito do carro – feitas as contas, ao todo tínhamos percorrido mais de 300 quilómetros durante o dia.

 

 

 

 

Como era a nossa última noite na Costa Rica, decidimos presentear-nos com um jantar típico num restaurante que nos recomendaram no Lodge. Na rua a norte do campo de futebol, quase ao pé da igreja, o restaurante Coto é um dos mais conhecidos e frequentados de Orosí. A noite estava suficientemente amena para optarmos por uma mesa no alpendre coberto. Também ali servem os pratos mais tradicionais em pequenos recipientes sobre um pedaço de folha de bananeira colocada num tabuleiro de madeira com pés. A carne estava apetitosa, acompanhada pelos sempiternos arroz, feijão e batatas fritas, além de muitas verduras. E, como já se tinha tornado um hábito, sumo de “guanávano” para acompanhar.

 

 

Ainda não tínhamos ido embora, mas a verdade é que as saudades já começavam a apertar.

Diário de uma viagem à Costa Rica XV

Dia 15

 

 

 

Tomámos o pequeno-almoço – saboroso e bem servido – na varanda da casa principal, observando e ouvindo os pássaros. Na impossibilidade de conseguirmos uma excursão ao Parque de Corcovado (não havia número de pessoas suficientes para os agentes turísticos organizarem uma visita), tinha-nos sido proposto um passeio de barco pelos manglares, por isso às 8 da manhã já estávamos no pequeno embarcadouro do hotel à espera do nosso transporte, que chegou pontualmente. Seguimos rio acima, confortavelmente instalados nos bancos estofados do barco com cobertura que José, o condutor, manobrava habilmente para evitar os ramos de árvores e outros obstáculos que iam surgindo no caminho. Stanly, o nosso simpático e conversador guia, deu-nos algumas explicações sobre o funcionamento do ecossistema do manglar e foi respondendo às nossas questões, enquanto nos apontava os vários exemplares da fauna local que iam surgindo. Garças de vários tipos, arapapás e belíssimas araras-escarlate, um colorido frango d’água, macacos-capuchinho e macacos-esquilo, uma rã arbórea, caimões, um pequeno crocodilo americano, iguanas verdes e até mesmo uma preguiçosa jibóia, enrolada sobre si mesma num ramo de árvore suspenso sobre a água. Jacintos e lírios boiavam em grandes quantidades nas águas lamacentas. Stanly levou-nos ao quintal da sua casa, onde nos mostrou uma árvore da canela (Cinnamomum zeylanicum), originária do Ceilão e pertencente à família das lauráceas, de onde nos deu um pequeno galho a cheirar. Foi um fantástico passeio de duas horas que soube a pouco, e até o tempo esteve do nosso lado: depois de toda a chuva da véspera, o dia estava miraculosamente soalheiro e nem uma gota de água caiu.

 

 

 

Fizemos as nossas despedidas do Eco Manglares e de Sierpe por volta das onze da manhã e seguimos para norte a fim de apanharmos a Panamericana de regresso a San José. Duzentos e cinquenta quilómetros de estrada asfaltada e sem história, com uma breve paragem no caminho para almoçarmos num restaurante self-service cuja clientela era exclusivamente constituída por outros viajantes como nós e alguns camionistas. O nosso destino era Cartago, onde chegámos às 3 e meia da tarde com a intenção de encontrar um lugar para ficarmos nas nossas duas últimas noites na Costa Rica. Infelizmente, a cidade revelou-se cinzenta, monótona e quase totalmente desprovida de encanto, excepção feita à Catedral, e decidimos não ficar por ali.

 

A menos de 20 km para sudeste de Cartago encontra-se o magnífico vale de Orosí, atravessado pelo rio Reventazón e cenário de plantações de café. É possível abarcar toda a beleza da paisagem a partir de um dos vários miradouros à beira da estrada que desce para o vale. Limitado a sul pelas montanhas Talamanca, dali se avistam três dos mais emblemáticos vulcões do país: o Irazú, o Poás e o Turrialba. Este último tinha voltado recentemente a mostrar actividade e sempre que as nuvens o permitiam conseguíamos observar um enorme jacto de fumo a ser projectado continuamente do seu cume.

 

 

 

O vale foi em tempos um importante centro colonial e a vila de Orosí abriga a mais antiga igreja da Costa Rica que ainda se encontra em actividade: a igreja de San José, que tem também um convento e um pequeno museu de arte sacra, foi construída em 1743-66 pelos Franciscanos e já resistiu a vários terramotos. É uma igreja pequena e completamente branca com uma torre compacta a dominar o conjunto, cobertura de telha escura e interiores em madeira e terracota. À frente, depois de transposto o portal de entrada no complexo, um pequeno mas bem cuidado jardim e uma vasta área arrelvada ladeiam o caminho empedrado que dá acesso à entrada principal. Duas palmeiras muito altas enquadram todo o conjunto. É sem dúvida o ex-libris da localidade.

 

 

O Orosí Lodge vem referido na maior parte dos guias, mas não foi fácil dar com ele, apesar de ficar quase junto ao Balneário Termal e muito perto da igreja. Além de hotel, é também uma espécie de casa de chá e simultaneamente loja de venda de produtos e obras de arte locais. Oferecem diariamente uma variedade de bolos caseiros, entre outros snacks, e têm o seu próprio café, que disponibilizam em pacotes para venda. Gerido pelos alemães Andreas e Cornelia e a sua família, é composto por dois edifícios construídos no estilo antigo colonial da Costa Rica: o da frente, mais baixo, alberga o café e tem uma varanda pintada de azul a toda a largura, com mesinhas redondas e cadeiras em ferro forjado e vime, a fazerem lembrar os cafés europeus; passando um pequeno mas muito frondoso jardim chega-se ao edifício maior, com dois pisos, onde se encontram os quartos. Uma escada de madeira escura leva à varanda do primeiro andar, onde estava situado o nosso quarto – uma divisão ampla e arejada, com kitchenette, uma grande janela semicircular com caixilharia também azul e chão de madeira.

 

 

 

  

 

Depois de nos instalarmos, fomos passear pela vila, que é bastante pequena mas tem um ambiente agradável, e aproveitámos para levantar dinheiro numa ATM. A seguir instalámo-nos no café do hotel para um lanche ajantarado e pudemos comprovar que os bolos eram realmente deliciosos. Foi um final calmo para um dia sem grandes aventuras, mas ainda assim bastante cansativo.

 

Diário de uma viagem à Costa Rica XIV

Dia 14

 

Levantámo-nos cedo para tomar o pequeno-almoço e fazer algumas compras nas tendinhas de rua. Pouco depois das 10 da manhã já estávamos de volta à estrada, novamente em direcção a sul. O nosso objectivo era ir até Sierpe e daí de barco até ao Parque Nacional de Corcovado, um dos refúgios mais selvagens e menos visitados da Costa Rica.

 

 

 

 

Menos de uma hora de viagem depois, entrámos na zona dos palmares. A Costa Rica é um dos maiores produtores mundiais de óleo de palma, tendo a exploração da palma africana sido iniciada em grande escala nos anos 40 do século passado com a finalidade de substituir algumas das enormes plantações de banana que estavam a ser dizimadas por pragas. Os palmares ocupam agora vastas áreas do território, especialmente nesta região, e percorremos por vezes vários quilómetros com palmeiras de um lado e do outro da estrada até onde a vista conseguia alcançar.

 

Apenas com uma curta paragem em Punta Dominical para darmos uma vista de olhos à praia – também conhecida pelas excelentes condições para a prática do surf – os 120 km entre Manuel Antonio e Sierpe foram cumpridos em menos de três horas. O céu mostrava-se carregado de nuvens, a ameaçar chuva, pois a região é uma das mais húmidas do país. Quando chegámos a Sierpe tivemos a desagradável notícia de que o último barco para o Parque de Corcovado tinha sido às 11 horas, e como não tínhamos feito reserva no hotel onde pensávamos alojar-nos, teríamos de ficar mesmo por ali.

 

Sierpe é uma localidade muito pequena e tem um ar sonolento, resumindo-se a uma dezena de ruas com casas baixas e de aspecto pouco atractivo, que na sua maioria abrigam lojas e escritórios de empresas de serviços, muitos deles ligados ao turismo. Situada no luxuriante vale de Diquis, serve essencialmente como porto de rio e é a principal porta de entrada para a maior reserva de mangais da América latina, o Humedal Nacional Térraba-Sierpe, localizado na confluência dos dois rios com os mesmos nomes.

 

 

 

Após um breve “reconhecimento do terreno”, decidimos tentar encontrar um lugar agradável para nos alojarmos. Um letreiro na estrada para Palmar Sur, por onde tínhamos chegado, indicava o Eco Manglares Sierpe Lodge. Para lá chegar foi necessário atravessar o rio Estero Azul, passando sobre uma pequena ponte com um ar decrépito e que não inspirava muita confiança – a curta travessia foi feita cuidadosamente, e mesmo assim sentíamos a estrutura a balançar de modo preocupante. Soubemos depois que a ponte existe há várias dezenas de anos sem nunca ter havido qualquer problema e que, a despeito do seu ar frágil, aguenta até com os maiores veículos.

 

O Sr. Eduardo, um dos donos do eco-resort, recebeu-nos amavelmente no seu escritório e prestou-nos várias informações sobre a zona e a história da sua família antes de nos levar ao nosso quarto – na realidade um grande bungalow de madeira erguido sobre estacas e pintado de amarelo e verde, perfeitamente integrado na vegetação abundante e variada do enorme jardim onde se encontram a grande casa principal e as várias cabinas. A decoração do quarto condizia com o ambiente circundante, com chão e paredes de madeira escura envernizada e três camas parcialmente feitas com troncos de árvores. Grandes cortinas de algodão alinhado branco com aplicações bordadas pendiam das janelas. Como habitualmente, a parte superior das paredes em toda a volta do quarto mostrava-se aberta, facilitando a circulação do ar, tendo um gradeamento de madeira pintada forrado de rede fininha, para evitar a passagem dos insectos.

 

 

 

Quando acabámos de nos instalar já passava das três da tarde e estávamos esfaimados. A conselho do Sr. Eduardo, fomos almoçar ao Las Vegas, que além de café e restaurante funciona também como loja de recuerdos e agência organizadora de excursões. Sentados numa espécie de grande varanda semi-fechada sobre o rio Sierpe, almoçámos olhando os enormes maciços de jacintos-de-água que desciam com a corrente, o caudal do rio subitamente engrossado pela enorme chuvada que começou a cair entretanto. Num barquito azul, uma mulher abriu o chapéu para se proteger da chuva, enquanto o homem colocava o motor a trabalhar, e lá foram eles rio acima.

 

 

 

O tempo não melhorou durante o resto da tarde, e acabámos por decidir descansar no quarto. À noite fomos até Palmar Sur, cerca de 15 km a norte de Sierpe, para levantar dinheiro no multibanco e comer qualquer coisa. Palmar Sur está separada de Palmar Norte pelo rio Térraba, o maior rio da Costa Rica, e as duas localidades são unidas por uma ponte metálica, do género das que são tão comuns na América Central e do Sul. Nenhuma das localidades é particularmente atraente, mas Palmar Sur tem um pequeno aeroporto doméstico que assegura ligações rápidas a San José – cerca de 40 minutos – aos muitos turistas que visitam diariamente a península de Osa e o Parque Nacional de Corcovado.

 

 

O bar La Pista, que também nos tinha sido recomendado pelo Sr. Eduardo, é uma casa de madeira com aspecto decrépito e um interior mantido à media luz, mas por volta das sete e tal da noite, quando entrámos, encontrava-se cheio de fregueses locais que bebiam, comiam e discutiam animadamente um jogo qualquer que passava na televisão. As mesas eram poucas e estavam ocupadas, pelo que tivemos de comer ao balcão, encarrapitados em cima de uns bancos altos de madeira. O menu não mostrava muitas opções e consistia exclusivamente em pratos verdadeiramente típicos, cujos nomes bem podiam estar escritos em chinês porque não fazíamos a mínima ideia do que eram. Depois de alguns esclarecimentos, lá escolhemos dois pratos, um deles uma espécie de sopa com carne e vegetais a que chamam “olla de carne”.

 

 

 

Cá fora, mesmo ao lado do bar, uma enorme e velha locomotiva de comboio, daquelas ainda a vapor, estava colocada sobre o que restava de uns carris. Não percebi se tinha sido ali posta de propósito, ou simplesmente deixada ficar depois de desmantelada a via férrea que em tempos servia para escoar as bananas produzidas nas inúmeras plantações da região. Do outro lado da estrada, um pequeno jardim arrelvado com árvores, alguns bancos e várias pedras esféricas de dimensões consideráveis espalhadas pela relva. Um letreiro explicava que aquelas pedras representam as centenas de esferas misteriosas encontradas na região, que datam de há vários milhares de anos e vão desde as que têm o tamanho de uma bola de bowling até outras que chegam a pesar mais de uma dezena de toneladas. Todas elas são monolíticas, ou seja, feitas de um único bloco de pedra, e até hoje os arqueólogos não conseguiram explicar completamente a sua origem ou o motivo da sua existência. Actualmente, estas esferas estão espalhadas por museus e locais públicos da Costa Rica, e algumas foram cedidas para exposições permanentes no estrangeiro.