Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

Diário de uma viagem à Costa Rica XIII

Dia 13

 

O Parque Nacional Manuel Antonio foi criado em 1972 e embora sendo o mais pequeno do país – apenas 16 km2 – é sem dúvida um dos mais visitados (cerca de 150 mil pessoas por ano), o que se deve em grande parte à facilidade de acesso e à diversidade dos seus ecossistemas. Abre às 8 da manhã e encerra às 16, e o ideal é mesmo ir o mais cedo possível, pois o número de entradas é limitado, além de que pela manhã é consideravelmente mais fresco.

 

 

 

Para entrar no parque atravessa-se o extremo da ampla praia de Espadilla norte e depois um riacho, de seu nome Río Camaronera – que na maré baixa mais não é do que um pedaço de areia molhada, mas quando enche propicia o possível aparecimento de crocodilos, como bem avisa um letreiro colocado numa palmeira. Após pagarmos a entrada, seguimos pelo Sendero Principal, que tem 2,2 km e acompanha a praia de Espadilla sul. A primeira chamada de atenção dos visitantes é para alguns letreiros de aviso que identificam exemplares da mançanilha (manzanillo), uma árvore sempre verde, muito comum nas praias, que é extremamente tóxica. A seiva e a casca provocam reacções alérgicas na pele, enquanto que os frutos, uma espécie de pequenas maçãs amarelas, são venenosos. Mais à frente, uma belíssima iguana negra aquecia-se sobre o tronco morto de uma árvore caída na areia. Tímido, um arapapá escondia-se por detrás da folhagem densa, insistindo em não se deixar fotografar. Esta grande ave (cerca de 54 cm) da família das garças tem um bico largo e escuro muito característico, em forma de espátula. De seu nome oficial Cochlearius cochlearius, tem face, garganta e peito brancos e penugem quase negra no topo da cabeça, com asas e dorso em cinza. Está considerada como em perigo de extinção na maior parte dos países da América Central e do Sul até ao Brasil.

 

 

 

Reparámos a seguir numa espécie de folhinha verde com patas que se deslocava sobre uma lousa negra. Olhando com mais atenção, percebemos que era um katydid verde (orophus conspersus), um insecto aparentado com o gafanhoto cujo corpo imita na perfeição uma folha.

 

O caminho sobe depois para a Punta Catedral, em tempos idos uma ilha que agora está unida ao continente por um tombolo, uma formação resultante da acumulação de natural de sedimentos, originando um trilho estreito. Nesta zona do parque os macacos são reis, mas curiosamente o primeiro animal que vimos foi um agouti (a que os brasileiros chamam paca), um roedor de pelagem cinza-avermelhada bastante comum nestas regiões. Mais acima, uma família de macacos-capuchinho brincava correndo sobre troncos de árvores sem se ralar connosco, a fêmea com um bebé firmemente agarrado às suas costas. Estes macacos devem o seu nome ao facto de terem uma pelagem completamente negra em todo o corpo, com excepção do rosto e ombros, que são de uma tonalidade quase branca – e a coroa negra no topo da cabeça faz na verdade lembrar uma tonsura. O percurso de Punta Catedral tem apenas 1400 metros na sua totalidade, parte dos quais com uma alguma inclinação, mas é um trilho encantador que nos dá a conhecer uma grande variedade de espécies de fauna e flora, além de nos oferecer belíssimos vislumbres panorâmicos sobre o Pacífico e o próprio parque.

 

 

 

Descendo de Punta Catedral, entrámos na praia que tem o mesmo nome do parque e é sem dúvida uma das mais belas de toda a Costa Rica. Um crescente de areia branca e fina, água esmeralda, vegetação exuberante e pequenos rochedos estrategicamente colocados para a fotografia – todos os clichés de uma verdadeira praia tropical, e com temperatura da água a condizer. Instalámo-nos à sombra de uma árvore, onde pendurámos as nossas mochilas e roupa, e aproveitámos a praia, o calor e a água morna para relaxarmos. Pendurar as mochilas mostrou depois ser uma óptima ideia, porque passado um bocado um guaxinim decidiu fazer uma visita exploratória à praia, à procura de comida – que encontrou, na forma de uma banana, dentro do saco de duas raparigas com um bebé que estavam ali perto e não conseguiram evitar o roubo a tempo. O larápio fugiu para o meio da vegetação, seguido de vários “fotógrafos”, incluindo nós.

 

 

 

 

Mais tarde, já devidamente descansados, continuámos pelo sendero Puerto Escondido, cruzando-nos com morcegos, as omnipresentes iguanas, macacos e aves variadas. Num pedaço de areal, uma iguana negra captava as atenções dos visitantes, fazendo uns ruídos que lembravam gargalhadas. Descemos até uma praia minúscula de acesso só possível aos mais ágeis, saltando sobre raízes de árvores e pedras, e depois voltámos a subir para entrarmos no sendero Mirador, um percurso bonito conquanto algo cansativo pela inclinação de alguns trechos, sobretudo se feito à hora do calor, como foi o nosso caso. Demorámos cerca de meia hora para cumprir os 800 metros até chegarmos ao miradouro, onde nos foi oferecida uma fantástica vista sobre a baía de Puerto Escondido e Punta Serrucho, uma língua rochosa coberta de abundante vegetação que entra vários quilómetros mar adentro. Em torno da área do parque existem 12 ilhotas, algumas das quais se avistam daqui, e ainda uma barreira de coral, oferecendo muitas oportunidades a quem gosta de praticar mergulho.

 

Descemos pelo mesmo caminho e entrámos no sendero Oso Peresozo, um trilho largo e muito comprido que dá acesso à saída do parque. Aqui o bambu impera, atingindo alturas impressionantes nalguns locais. Como o próprio nome do trilho indica, com um bocadinho de sorte é possível avistar alguma preguiça, embora estes animais não sejam muito fáceis de detectar. À nossa frente iam alguns turistas com um guia, equipado com um potente telescópio – só assim é possível ver em detalhe todos os animais que habitam as copas das árvores. Quanto a nós, fazíamos bom uso do potente zoom da máquina fotográfica. Fomos seguindo de pescoço esticado, perscrutando atentamente as árvores, mas só quase no fim do percurso é que a sorte nos sorriu. Pelo canto do olho, lá muito em cima, tive um vislumbre de movimento numa árvore, e ali estava ela: uma preguiça de três dedos, com a sua abundante pelagem cinzenta, deslocava-se lentamente ao longo dos ramos das árvores, propulsionada pelas suas enormes patas. O focinho, minúsculo por comparação com o resto do corpo, parecia ostentar um sorriso rasgado, e por cima dos olhos sombreados de negro distinguia-se uma faixa de pelo branco. O pequeno grupo de turistas que seguia perto de nós também tinha parado entretanto a observar o bichinho, alertados pela minha chamada de atenção, e pelos comentários do guia percebi que não é frequente conseguir avistar uma preguiça em movimento, pelo que tínhamos realmente sido bafejados pela sorte.

 

 

 

Por esta altura eram quase duas da tarde. Já tínhamos deixado o hotel há seis horas e estávamos esfomeados e cansados, por isso decidimos dar o passeio por terminado. A saída do parque fica junto a um bairro sossegado, mas bastou andar um pouco para nos encontrarmos outra vez no meio da animação da rua principal, com as suas lojinhas de artesanato e os vendedores de rua que oferecem desde pareos a quadros, passando por peças de cerâmica e artigos de bijutaria dos mais diversos tipos. A caminho do hotel passámos numa espécie de padaria, onde nos abastecemos de iogurtes, bolos e empadas, que comemos no quarto depois de um duche refrescante e antes de “desmaiarmos” na cama.

 

 

 

Depois da sesta, mais um passeio, desta vez pela praia de Espadilla norte. As nuvens no céu não deixavam apreciar o pôr-do-sol, e a luz já escasseava. Na areia passeavam algumas pessoas, a pé na sua maioria, mas também a cavalo. No mar calmo, algumas ilhotas cobertas de vegetação. Atrás da praia, por entre o arvoredo quase cerrado, descortinavam-se aqui e ali alguns telhados. Alguns barzinhos em madeira dão apoio à praia, com mesas e cadeiras ao ar livre, quase invisíveis no meio das árvores.

 

 

 

Para jantar, entre a vasta e variada oferta que Manuel Antonio oferece, para todos os paladares e bolsas, escolhemos o Bambu Jam. Muita madeira, colmo e uma iluminação profusa, a música ao vivo e as mesas repletas de turistas contribuíam para a enorme animação do restaurante, que além da cozinha local propõe também especialidades alemãs. Quando saímos, a festa ainda estava no auge.