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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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Diário de uma viagem à Costa Rica V

Dia 5

  

  
  Um dos locais a visitar obrigatoriamente em La Fortuna são as cataratas. Ficam a cerca de 5,5 km do centro da cidade e é possível ir até lá de carro, táxi ou mesmo a cavalo. De manhã relativamente cedo, quando ainda não havia muito calor e depois de um abundante pequeno-almoço (mais uma vez no Lavas Rock Café), achámos que a melhor ideia era mesmo ir a pé, opção só aconselhável a quem esteja relativamente em boa forma e goste de andar, sobretudo porque a parte final do trajecto é bastante íngreme. É um percurso em estrada mas muito bucólico e pouco concorrido, que percorremos com calma e apenas importunados por um ou outro carro que passava de vez em quando. No caminho há alguns bancos estrategicamente colocados nos pontos onde a paisagem é mais atraente, convidando ao descanso. A pouco mais de meio, a subida torna-se realmente muito exigente, e mesmo com algumas paragens chega-se ao destino literalmente “a deitar os bofes pela boca”.
 
A entrada no parque é paga e faz-se por uma pequena ponte metálica verde com chão de rede, através da qual é possível observar o fundo do desfiladeiro. Depois subimos até ao miradouro, de onde tivemos finalmente o primeiro vislumbre das cataratas, uma fita branca ainda longínqua no meio de uma imensidão verde. 
A seguir há que descer, descer e descer ainda mais até chegar ao rio, para poder observar a queda de água em todo o seu esplendor. Situadas na base do vulcão Chato (actualmente adormecido), as cataratas do rio Fortuna caem abruptamente de cerca de 70 metros de altura. A água despenha-se com um barulho retumbante, formando uma piscina ampla antes de fluir em socalcos por entre pedras escuras, até se acalmar um pouco mais abaixo e seguir placidamente o seu curso. 
 
Embora alguns temerários se atirem à água na piscina formada pela queda de água, a maioria das pessoas opta por tomar banho mais abaixo, já no rio, local francamente mais seguro. A água é fria, mas soube maravilhosamente bem depois daquelas cansativas quase duas horas de caminhada. Limpa, transparente mesmo, deixa ver o fundo de areia e pedras, e alguns peixes que vão aparecendo. Há muitos visitantes e vários guardas que velam pela segurança das pessoas, mas não há confusão. 
 
 Estivemos por ali durante quase uma hora, aproveitando a frescura ambiente e ouvindo a água a cair. E também a arranjar coragem para encetar a subida de regresso. O acesso à catarata é extremamente inclinado: cerca de 600 metros de declive que só podem ser transpostos por um caminho estreito e húmido, parcialmente composto por 550 degraus tão íngremes que nalguns pontos parece que estamos a escalar uma parede vertical. Descer não é fácil, subir é um verdadeiro desafio à resistência física e psicológica de qualquer um. 
Ainda frescos do banho no rio e com uma ou duas paragens para descansar, afinal até nem demorámos muito tempo a chegar ao cimo. Por esta altura já não tínhamos água para beber e a sede apertava, mas à saída do parque existem algumas lojas e pudemos comprar uma garrafa com água “estupidamente gelada”, a um preço obviamente inflacionado (1000 colones, qualquer coisa como um euro e trinta e cinco). Morta a sede, apreciámos devidamente o caminho de regresso a La Fortuna, bordejado de helicónias, desta vez mais agradável porque a descer e ocasionalmente regado com alguns pingos de chuva. 
Depois de um duche, uma refeição leve e algum descanso, às três e meia estávamos prontos para regressar à aventura, desta vez uma excursão ao Parque do Vulcão Arenal.
 
 Primeira paragem à beira da estrada para observarmos um grupo de macacos-uivadores passeando-se nas árvores e servindo de modelo aos muitos aspirantes a fotógrafos da National Geographic, incluindo nós. De volta à carrinha, dez minutos depois chegávamos ao nosso primeiro destino dentro do Parque, o percurso “El Silencio”. Com cerca de 3 km, não oferece dificuldades de maior e permite observar sobretudo muita da flora endémica daquela região, além de alguns animais. Crescendo rente ao chão, grandes aglomerações de mimosas, uma planta parecida com um feto minúsculo que se retrai velozmente quando é tocada, para nosso espanto e diversão, que não nos cansámos de incomodar a plantinha. Mais à frente, lá bem no cimo de uma árvore, um tucano de bico arco-íris, peito amarelo e corpo preto, com algumas penas vermelhas na cauda, mas que talvez nos tivesse passado despercebido se Pedro, o nosso jovem e bem disposto guia, não nos tivesse chamado a atenção. A Costa Rica tem de facto uma riquíssima variedade de aves, e grande parte da visita a qualquer parque tem de ser passada a olhar para cima, tentando descortinar algum pássaro no meio da vegetação cerrada. O que por vezes se torna complicado quando os trilhos têm degraus ou raízes de árvores – além do torcicolo, também podemos sair de lá com uma entorse... 
O percurso cumpriu-se em cerca de uma hora e a fase seguinte consistiu em procurar um bom local de onde se pudesse observar a lava a jorrar do vulcão. O Arenal tem 1657 metros de altura e esteve adormecido a partir de 1922, até que em Julho de 1968 entrou repentinamente em erupção. Destruiu a cidade de Arenal e matou 87 pessoas, continuando em actividade até hoje. É uma das maiores atracções turísticas da Costa Rica – apesar de haver outros seis vulcões ainda activos no país: Irazú, Miravalles, Orosí, Poás, Rincón de la Vieja e Turrialba – e o único que tem actualmente erupções constantes e regulares. Por isso, é um must para quem visita a região.
 
  O problema continuava a ser a abundância de nuvens cerradas que, apesar do vento, teimavam em não deixar ver o cume do vulcão – o que, segundo consta, é habitual. Parámos junto a uma zona plana de pastagens, com algumas árvores a que o Pedro roubou uns frutos de que não fixei o nome, demasiado ácidos para o meu gosto. Entretivemo-nos como pudemos durante algum tempo enquanto a escuridão começava a instalar-se, fazendo figas para que as nuvens decidissem dissipar-se um pouco. Até que, finalmente, conseguimos ter alguns vislumbres rápidos de clarões alaranjados surgindo na encosta da montanha, não particularmente espectaculares mas suficientes para darmos o nosso objectivo por atingido e partirmos para a etapa final e mais aguardada do programa: as termas de Baldí.
 
As altas temperaturas provocadas pela actividade do vulcão aquecem correntes de água subterrâneas que brotam do subsolo em vários locais e que, a bem do turismo, foram aproveitadas para a instalação de algumas estâncias termais. As termas de Baldí são um complexo situado a cerca de 4 km de La Fortuna, uma espécie de parque temático que consiste em 25 piscinas diferentes com água a temperaturas que vão decrescendo dos 67°C aos 32°C, três delas com “wet bar”. As piscinas estão enquadradas num jardim tropical de vários hectares e cada uma tem uma decoração diferente. Há de tudo e para todos os gostos: pirâmides maias por onde escorre água a escaldar, jacuzzis, espreguiçadeiras forradas a azulejo dentro de piscinas, fontes, estatuetas de pedra, música relaxante ou tipo discoteca, luzes baixas ou holofotes coloridos, escorregas, áreas amplas para dar umas braçadas ou recantos que convidam à intimidade… cada piscina tem o seu próprio ambiente.
 
O programa incluía jantar, servido sob a forma de bufete num salão amplo mas confortável e bem decorado. Comida bem apaladada e em grande variedade, pratos típicos mas também muitas saladas e massas, o suficiente para agradar aos mais esquisitos. Não quisemos empanturrar-nos muito para depois podermos tomar banho à vontade, mas a verdade é que com águas tão quentes não há grande perigo de indigestão.   
Numa das piscinas travámos conhecimento com um português radicado nos Estados Unidos e a namorada americana. Simpáticos, estivemos um bocado à conversa sobre as férias, trocando opiniões. Não sendo a Costa Rica um destino turístico muito procurado por portugueses, é daqueles países onde raramente ouvimos falar a nossa língua. E a maior parte das pessoas com quem contactamos, ticos ou estrangeiros, pensa que o português é apenas uma variação do espanhol – isto quando sabem que são duas línguas diferentes…
 
Ao todo foram quase três horas bem passadas, uma experiência diferente e altamente recomendável para quem goste de água e de programas para relaxar.