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Viajar. Porque sim.

Paixão por viagens, escrita e fotografia

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12 castelos portugueses pouco divulgados

Na passada sexta-feira foi o Dia Nacional dos Castelos. Sabem quantos castelos existem em Portugal?

 

Se a Wikipédia estiver correcta e eu não me tiver enganado na contagem, há em Portugal (continente e ilhas) 241 castelos. Sim, leram bem: 241. Só castelos, sem contar com fortalezas e outras estruturas defensivas similares. Para um país que tem pouco mais de 92 mil km2, é obra.

 

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Eu adoro castelos, e nunca perco a oportunidade de visitar um. Adoro aquelas pedras escuras e velhas empilhadas umas sobre as outras, às vezes meio estragadas, partidas, outras vezes espalhadas ao acaso por entre pedaços de muralhas e ruínas. Adoro as histórias que contam e os segredos que escondem. E as paisagens desafogadas que normalmente nos oferecem. Adoro subir e descer os seus degraus incessantemente pisados durante séculos, e percorrer aquelas muralhas que em tempos foram a fina linha que separava a vida da morte certa – as muralhas que hoje são apenas mais uma atracção, mais um divertimento para nós, os humanos modernos.

 

A maioria dos castelos portugueses data da Idade Média, sobretudo dos séculos da fundação do nosso país e subsequente expansão até à consolidação das fronteiras de Portugal. Um castelo é uma fortificação cujo principal objectivo era a defesa de uma determinada localidade ou região. Embora alguns servissem também como residência permanente ou temporária, a sua função era essencialmente prática, pelo que a concepção de um castelo não tinha normalmente em conta grandes comodidades para os seus possíveis habitantes. Como é lógico, a partir do momento em que o território português ficou basicamente definido na sua totalidade muitos destes castelos começaram progressivamente a perder a sua importância, esvaziados que estavam da sua função principal. Foram trocados pelos palácios e pelas casas senhoriais, e por vezes até mesmo esquecidos, quando as povoações se mudaram para locais menos inóspitos e mais acessíveis para o trabalho agrícola e sobretudo para o comércio. A grande excepção foram os castelos de fronteira, que continuaram a ser necessários para defenderem os nossos limites, complementados pelos fortes erigidos em pontos estratégicos das localidades fronteiriças.

 

Por isso mesmo, muitos dos castelos portugueses chegaram aos nossos dias praticamente em ruínas, e muitos mais são completamente ignorados pelos circuitos turísticos e quase desconhecidos da maioria das pessoas. Menos fotogénicos e sem o glamour dos castelos de Guimarães, Óbidos ou Marvão, só para citar alguns dos mais visitados, são no entanto lugares cheios de interesse, ricos em história e em lendas, e parte importante do nosso património cultural.

 

Estes são apenas alguns desses interessantes castelos.

 

CASTELO DE ALCANEDE

(Coordenadas: 39° 25.038' N 8° 49.291' O)

 

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Situado mais ou menos a meio caminho entre Santarém e Porto de Mós, o castelo de Alcanede revestiu-se de particular importância na conquista e defesa do território português na época da fundação do país. A sua origem é incerta, havendo indícios de que foi tomado aos mouros pelo Conde D. Henrique, mas a sua existência oficial reconhece-se desde 1162, ano em que D. Afonso Henriques doou Alcanede a Gonçalo Mendes de Sousa. Fortemente afectado pelo sismo de 1531, que o deixou em ruínas, assim se manteve até meados do séc. XX, quando foi restaurado. Ainda em ruínas, assumiu um inesperado valor estratégico durante a 3ª invasão francesa (1810-11), pois serviu de ponto privilegiado de vigia para os franceses que ocupavam a vila – apesar de ter sido montado, no início da invasão, um ardiloso mas mal-sucedido esquema para os afastar. É um castelo simples, tipicamente medieval, com uma muralha de formato ovalado e duas torres. Tal como outros castelos e localidades de Portugal, tem a ele associada a Lenda do Pote de Ouro e do Pote de Peste, uma versão popular do mito clássico da Arca de Pandora.

 

CASTELO DO ALVITO

(Coordenadas: 38° 15.471' N 7° 59.512' O)

 

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Comparado com grande parte dos seus congéneres, este castelo é um jovem. Terá sido mandado construir D. Diogo Lobo da Silveira, Barão do Alvito, em finais do séc. XV, o que explica as suas influências mouriscas, góticas e manuelinas. Misto de arquitectura militar com residência apalaçada, tem uma planta rectangular com quatro torreões cilíndricos orientados para os quatro pontos cardeais. Durante quase cinco séculos, até 1917, quando passou definitivamente para as mãos do Estado português, foi habitado continuamente por dezasseis famílias de barões, um caso único na história do nosso país. Funciona desde 1993 como pousada histórica da rede das Pousadas de Portugal.

 

CASTELO DE ANSIÃES

(Selores, Carrazeda de Ansiães – Coordenadas: 41° 12.184' N 7° 18.354' O)

 

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A 6 km de Carrazeda, no topo ermo de um monte como bem convém a qualquer fortificação que se preze, encontramos as ruínas do castelo de Ansiães. Há indícios de que a ocupação do local remonta há 5000 anos, mas as origens do castelo estão fixadas no séc. III a.C. O conjunto do castelo e da povoação que o rodeava, cujas ruínas muralhadas também estão bem visíveis, ocupa mais de 9500 hectares. A muralha oval tem cinco torreões e três portas assinaladas, uma delas a sempre presente Porta da Traição. Sobrevive ainda em relativamente bom estado a Igreja de S. Salvador, anexa à Capela de Stª Maria. Diz a História que estas terras foram dadas pelo rei D. Fernando a João Rodrigues Porto Carreiro, homem infelizmente simpatizante da causa castelhana durante a crise de 1383-85, razão pela qual foi nessa altura escorraçado pela revoltada população de Ansiães, a quem D. João I doou depois todo o património daquele senhor feudal em reconhecimento pelo patriotismo mostrado.

 

CASTELO DE MARIALVA

(Coordenadas: 40° 54.815' N 7° 13.919' O)

 

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Mesmo com um céu azul sem nuvens, numa tarde quente de Verão, parece que o mundo vira cinzento quando entramos no castelo de Marialva, tal a quantidade e edificações e ruínas que surgem aos nossos olhos. Dele disse Saramago: “Neste largo onde está a cisterna, onde o pelourinho está, dividido entre a luz e a sombra, adeja um silêncio sussurrante. Há restos de casas, a alcáçova, o tribunal, a cadeia, outros que não se distinguem já, e é este conjunto de edificações em ruínas, o elo misterioso que as liga, a memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos”. Esta descrição contida no livro “Viagem a Portugal” está hoje inscrita num afloramento rochoso no interior do castelo. Remontando aos primórdios da fundação de Portugal, até meados do séc. XVIII o castelo manteve-se em estado razoável, sendo regularmente restaurado. O azar sobreveio em 1758 quando o marquês de Távora, que era à data o alcaide de Marialva, foi implicado na suposta tentativa de regicídio de D. José. Depois de a família ter sido executada, o castelo foi progressivamente despovoado e sobreveio a ruína. Há ainda quem lhe associe a lenda da Dama dos Pés de Cabra, por o seu nome ser Marialva.

 

CASTELO DE MÉRTOLA

(Coordenadas: 37° 38.278' N 7° 39.864' O)

 

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Mértola é mais uma nas nossas vilas cheias de História e de histórias para contar. Fundada pelos romanos, foi a seguir ocupada por mouros e é desta época a origem do seu castelo. No entanto, a Torre de Menagem que hoje o caracteriza só foi construída em finais do séc. XIII. Todas estas influências ainda permanecem bem patentes no património arquitectónico da vila. Mas a figura mais fascinante da história de Mértola é sem dúvida Ibn Qasi, a quem foi erigida uma estátua junto à entrada do castelo. Ibn Qasi era provavelmente um muladi, ou descendente de cristãos convertidos, de origem romana, dado que se pensa que o seu nome de família viria do romano Cassius. Não é certo que este místico sufi tenha nascido em Mértola mas parte da sua vida esteve ligada à vila, que ele conquistou aos almorávidas em 1144. Consta que era homem justo e milagroso, razão pela qual foi aclamado como chefe espiritual e protector, Taifa (rei) de Mértola e Silves, e homem forte do Gharb. É seu o belíssimo poema “O Descalçar das Sandálias”. E podem encontrar aqui um excelente artigo sobre este homem, que consta ter sido aliado de D. Afonso Henriques.

 

CASTELO DE MONTEMOR-O-NOVO

(Coordenadas: 38° 39' N 8° 13' O)

 

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A muralha triangular do Castelo de Montemor-o-Novo, quando estava completa, tinha cerca de 2 km, o que faz dela a maior do nosso país. Tinha também quatro torres, dezanove torreões e quatro portas. Muito danificada pelo terramoto de 1755 e pela utilização das suas pedras noutras construções, da muralha restam hoje apenas alguns troços, três torres e três portas. Dentro do seu recinto, para além da recuperada Igreja de S. Tiago (transformada no Centro Interpretativo do Castelo) podemos ainda ver as ruínas do Paço dos Alcaides (ou Paço Real), da Igreja de S. João Baptista e da Igreja de Stª Maria do Bispo. Foi numas cortes aqui realizadas que D. Manuel I tomou a decisão de enviar Vasco da Gama na sua viagem à Índia.

 

CASTELO DE MONTEMOR-O-VELHO

(Coordenadas: 40° 10.546' N 8° 40.987' O)

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Este é mais um castelo cujas origens remontam ao período anterior à nossa fundação, pois existem referências de que foi conquistado em 848 por Ramiro I das Astúrias e seu tio, o Abade João do Mosteiro de Lorvão. Ramiro deixou o castelo entregue ao tio para que ele o defendesse, e vem desta época a macabra Lenda do Abade João, que demonstra muitíssimo bem que nunca devemos pôr a carreta à frente dos bois. Outra história sangrenta ligada ao castelo (esta comprovadamente verdadeira) é que foi na sua alcáçova que em 1355 D. Afonso IV e os seus conselheiros se reuniram para decidirem o destino de D. Inês de Castro – que, como bem sabemos, foi o seu assassinato. O castelo é ainda hoje um dos maiores do país. Está em bastante bom estado e no seu interior existe a Igreja de Nossa Sr.ª da Alcáçova. Uma das portas da barbacã tem o curioso nome de Porta da Peste.

 

CASTELO DE MOURÃO

(Coordenadas: 38° 23.103' N 7° 20.804' O)

 

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Tapado pela sombra do seu vizinho de Monsaraz, o castelo de Mourão tem hoje como maior trunfo o facto de se encontrar mesmo à beira do Alqueva, e por conseguinte numa posição privilegiadíssima para oferecer a quem o visita uma paisagem inebriante. Não há certezas quanto à sua data de construção, mas deverá ter ocorrido entre os sécs. XIII e XIV. Hoje é essencialmente uma muralha, que tem a particularidade de combinar xisto, mármore e granito, ligando seis torres quadradas. No séc. XVIII foi fortificado com baluartes, que passam completamente despercebido quando visitamos o castelo, de tão dissimulados que estão na paisagem. A vila de Mourão foi entregue por D. Dinis a um tal D. Raimundo de Cardona, para que este guardasse a ainda frágil fronteira portuguesa naquele ponto. Sucedeu que esse senhor, achando-se num inesperado aperto financeiro, decidiu em 1317 levar a vila a leilão e, por estranho que possa parecer, houve de facto quem a comprasse, e por um valor bastante módico: 11.000 libras. O que prova que esta solução de vender bens públicos para fins duvidosos já vem de longe no nosso país. Felizmente nessa altura tínhamos um rei ajuizado, e D. Dinis decretou que a vila fosse imediatamente revendida à casa real pelo mesmo valor.

 

CASTELO DE PENEDONO

(Coordenadas: 40° 59.403' N 7° 23.639' O)

 

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Construído em granito e xisto, tem uma planta hexagonal irregular com ameias piramidais e é sem dúvida um dos mais originais castelos portugueses. Com origens no séc. X, pertenceu a D. Chamôa Rodrigues, que tem o seu nome perpetuado em Torre de D. Chama e foi sobrinha de Mumadona Dias, a fundadora do nosso bem-amado Castelo de Guimarães. Também é chamado de Castelo do Magriço, a alcunha dada a Álvaro Fernandes Coutinho, um dos “Doze de Inglaterra” enaltecidos por Camões no canto VI dos Lusíadas. Ao Castelo de Penedono está associada uma outra lenda que envolve uma moura bela e rica, a Lenda das Duas Pedras.

 

CASTELO DE PENHA GARCIA

(Coordenadas: 40° 04' 28" N 7° 01' 59" O)

 

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Das muitas paisagens impressionantes que o nosso pequeno país nos oferece, aquela que vemos do topo do Castelo de Penha Garcia é uma das minhas favoritas. A origem deste castelo é algo imprecisa, mas há indícios de que terá sido construído durante o reinado de D. Sancho I e doado mais tarde aos Templários. É um dos quinze castelos de fronteira de Portugal, aqueles cujas muralhas defenderam, durante séculos, as nossas fronteiras dos ataques de exércitos inimigos. Cenário da Lenda do Penhor da Justiça, dizem que o fantasma decepado do alcaide D. Garcia continua a passear por ali.

 

CASTELO DO REI WAMBA

(Vila Velha de Ródão – Coordenadas: 39° 38.852' N 7° 41.419' O)

 

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O nome oficial, muito mais prosaico, é Castelo de Ródão. Ali viveu Wamba, o último grande rei dos Visigodos, no séc. VII, defensor da Egitânia. Associada a este castelo existe uma lenda que fala de um triângulo amoroso entre Wamba, a sua mulher e um rei muçulmano e daria certamente argumento para uma novela. É simplesmente uma torre, mas oferece-nos uma vista quase comovente, de tão bonita que é, sobre o rio Tejo e as Portas de Ródão.

 

CASTELO DE TRANCOSO

(Coordenadas: 40° 04' 28" N 7° 01' 59" O)

 

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Trancoso é um castelo condal – um castelo que surgiu na fase do “segundo encastelamento” do território que hoje é Portugal, iniciada em meados do séc. X para defender o território dos mouros e outros invasores, e que dividiu o Reino das Astúrias em condados. Tal como o castelo de Penedono, foi propriedade de D. Chamôa Rodrigues. Aliás, o castelo de Trancoso é o único que tem vestígios claros do séc. X, pois a porta de entrada da actual torre de menagem tem um arco de ferradura tipicamente moçárabe, além de ter uma forma e uma técnica de construção diferentes das torres dos castelos românicos. Trancoso é também cidade de várias histórias e lendas, ou não fosse esta a terra do célebre Bandarra das profecias (http://www.cm-trancoso.pt/concelho/lendas/Paginas/default.aspx), mas a lenda que está mais estreitamente associada ao castelo é a de João Tição, um soldado que decidiu pregar uma partida aos mouros durante um cerco ao castelo, mas acabou por se dar mal.

 

Um dos benefícios mais importantes de viajar, mesmo que seja para perto de casa, é conhecermos o nosso património menos divulgado, a nossa História que não vem na maioria dos livros, a nossa cultura que não faz as primeiras páginas dos jornais e das revistas. Chegamos sempre mais ricos do que partimos.

 

Agora confessem lá: já conhecem estes castelos?

 

 

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